Está rodando nas redes sociais esta matéria sobre o subtítulo que foi dado para a série "Breaking Bad" pelo canal Record.
Vale esclarecer que o subtítulo de um filme ou série, ou mesmo o título, *não* se trata de tradução. É um novo título dado pelos produtores ou distribuidores no país de destino, e não envolve tradutores nem estratégias de tradução.
Também é importante não confundir as críticas feitas ao título com as preferências em torno de legendagem ou dublagem -- o título seria o mesmo, independentemente da forma de tradução adotada.
Quanto ao gosto (ou desgosto) por dublagem ou legendagem, é algo puramente subjetivo, que nada tem a ver com o grau de escolaridade das pessoas, superioridade ou inferioridade cultural, nem mesmo com noções de arte, como já foi extensamente discutido na literatura acadêmica sobre esses temas.
Uma breve introdução ao mundo da tradução audiovisual, com algumas dessas distinções, está disponível na edição especial sobre tradução da revista Língua Portuguesa, para a qual eu escrevi esta matéria sobre tradução audiovisual (em PDF).
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15 de janeiro de 2014
19 de novembro de 2011
Tradução audiovisual e "censura"
Antes de mais nada, uma pergunta: onde quer que você more, seja no
Brasil ou em algum outro país, qual é a sua impressão sobre o linguajar
usado em legendagem e dublagem de filmes comerciais, em cinemas e canais
de TV? Ele tende a ser conservador ou explícito em termos de termos ofensivos,
expletivos, escatologia, etc.? Você já criticou negativamente uma
tradução por ser "careta" demais? E já se indignou com uma tradução que,
na sua opinião, tinha excesso de palavrões?
Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.
Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.
Às vezes, o cliente -- seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo -- é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando "careta" demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da "censura" à tradução.
No caso de filmes "independentes" ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.
Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.
No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa "Forbrydelsen" (traduzida em inglês como "The Killing" e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original -- dinamarquês -- com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor "pecar pelo excesso de cautela" em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.
Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais "família". Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.
São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).
Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos "normal" já passa por um filtro.
Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de "South Park" decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de "fuck you" que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por "foda-se" e sim por "dane-se" (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)
Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: "Assim, (...) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil." No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.
Quer dizer: muita gente se queixa da "censura" ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.
Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão "entranhada" em nós. É por isso que "fuck you" parece mais suave do que "vá se foder".
Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.
Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de "Tropa de Elite" em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.
Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.
Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da "censura" e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.
Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.
Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.
Às vezes, o cliente -- seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo -- é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando "careta" demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da "censura" à tradução.
No caso de filmes "independentes" ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.
Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.
No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa "Forbrydelsen" (traduzida em inglês como "The Killing" e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original -- dinamarquês -- com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor "pecar pelo excesso de cautela" em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.
Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais "família". Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.
São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).
Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos "normal" já passa por um filtro.
Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de "South Park" decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de "fuck you" que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por "foda-se" e sim por "dane-se" (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)
Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: "Assim, (...) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil." No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.
Quer dizer: muita gente se queixa da "censura" ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.
Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão "entranhada" em nós. É por isso que "fuck you" parece mais suave do que "vá se foder".
Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.
Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de "Tropa de Elite" em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.
Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.
Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da "censura" e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.
8 de abril de 2010
Davi contra Golias
Estou traduzindo um livro e, como tantas vezes acontece, aparece uma citação bíblica. Coisa simples, história conhecida e, para facilitar, com livro, capítulo e versículo devidamente citados no original:
Em tradução literal: "Davi derrotou Golias com uma funda e uma pedra. Ele o matou sem nem sequer usar uma espada."
O trecho do livro era justamente sobre a invenção da funda e sua importância histórica, e a citação cai como uma luva para reforçar o argumento do autor.
Sem pensar duas vezes, entro no Bible Gateway e procuro essa mesma passagem em versão portuguesa (lusitana). Leio o texto, que aparece com os versículos 50 e 51 juntos:
Opa! Qual foi a causa da morte de Golias, afinal? Uma simples pedra ou a própria espada? No versículo anterior dessa versão portuguesa, relata-se que a pedra se cravou na testa de Golias, que caiu com o rosto na terra -- mas isso, seguido do verbo "vencer", é muito diferente de "matar sem nem sequer usar uma espada".
Comentei a discrepância com meu marido, que é muito mais versado em Bíblia do que eu. Ele me afirmou categoricamente que Davi matou Golias com a espada, após derrubá-lo com a pedra. Elocubrando, pensamos que o Rei Jaime I, que encomendou a tradução mais famosa da Bíblia em língua inglesa, provavelmente não gostaria nem um pouco de homenzinhos derrubando e decepando gigantes, o que poderia dar certas ideias anarquistas à plebe.
Peguei então a Bíblia do meu marido, traduzida por João Ferreira de Almeida, revista e atualizada pela Sociedade Bíblica do Brasil. Lá diz assim:
Bingo! Funda sim, espada não, e meu marido confundiu a história toda, pensei eu, até ler o versículo seguinte:
Como assim? Golias morreu duas vezes?
Preocupada com a qualidade dessa tradução, voltei ao Bible Gateway para ler o trecho da King James Bible:
Que é basicamente o mesmo: Davi mata Golias ("and slew him") com a pedra e depois o mata novamente ("and slew him", repetido igualzinho!) cortando-lhe a cabeça. Pelo visto, Golias era forte mesmo!
Fiz minha tradução citando apenas o versículo 50, terminando com a informação de que Golias estava morto e não havia espada na mão de Davi, o que dá conta de ilustrar a importância da funda. O que acontece depois ficou escondido embaixo do tapete, como fez o autor do livro que estou traduzindo.
Mas mesmo assim fiquei grilada: como será mesmo que Golias morreu? De pedra, de espada ou dos dois? Será que alguma tradução cometeu esse erro, que foi sendo replicado sem que ninguém percebesse?
ADENDO: Depois de publicar este texto, recebo do Hugo Langone o mesmo trecho, segundo a Bíblia de Jerusalém:
Esta é a situação relatada na citação original do meu livro: Golias morre da pedrada. Depois, Davi o decepa, mas tudo indica que ele já estava morto.
David defeated Goliath with a sling and a rock. He killed him without even using a sword. (1 Samuel 17:50)
Em tradução literal: "Davi derrotou Golias com uma funda e uma pedra. Ele o matou sem nem sequer usar uma espada."
O trecho do livro era justamente sobre a invenção da funda e sua importância histórica, e a citação cai como uma luva para reforçar o argumento do autor.
Sem pensar duas vezes, entro no Bible Gateway e procuro essa mesma passagem em versão portuguesa (lusitana). Leio o texto, que aparece com os versículos 50 e 51 juntos:
David conseguiu assim vencer o gigante filisteu com uma simples funda e uma pedra. Como não tinha espada, correu para Golias, tirou a dele da bainha, matou-o e cortou-lhe a cabeça.
Opa! Qual foi a causa da morte de Golias, afinal? Uma simples pedra ou a própria espada? No versículo anterior dessa versão portuguesa, relata-se que a pedra se cravou na testa de Golias, que caiu com o rosto na terra -- mas isso, seguido do verbo "vencer", é muito diferente de "matar sem nem sequer usar uma espada".
Comentei a discrepância com meu marido, que é muito mais versado em Bíblia do que eu. Ele me afirmou categoricamente que Davi matou Golias com a espada, após derrubá-lo com a pedra. Elocubrando, pensamos que o Rei Jaime I, que encomendou a tradução mais famosa da Bíblia em língua inglesa, provavelmente não gostaria nem um pouco de homenzinhos derrubando e decepando gigantes, o que poderia dar certas ideias anarquistas à plebe.
Peguei então a Bíblia do meu marido, traduzida por João Ferreira de Almeida, revista e atualizada pela Sociedade Bíblica do Brasil. Lá diz assim:
Assim, prevaleceu Davi contra o filisteu, com uma funda e uma pedra, e o feriu, e o matou; porém não havia espada na mão de Davi.
Bingo! Funda sim, espada não, e meu marido confundiu a história toda, pensei eu, até ler o versículo seguinte:
Pelo que correu Davi, e, lançando-se sobre o filisteu, tomou-lhe a espada, e desembainhou-a, e o matou, cortando-lhe com ela a cabeça.
Como assim? Golias morreu duas vezes?
Preocupada com a qualidade dessa tradução, voltei ao Bible Gateway para ler o trecho da King James Bible:
So David prevailed over the Philistine with a sling and with a stone, and smote the Philistine, and slew him; but there was no sword in the hand of David. Therefore David ran, and stood upon the Philistine, and took his sword, and drew it out of the sheath thereof, and slew him, and cut off his head therewith.
Que é basicamente o mesmo: Davi mata Golias ("and slew him") com a pedra e depois o mata novamente ("and slew him", repetido igualzinho!) cortando-lhe a cabeça. Pelo visto, Golias era forte mesmo!
Fiz minha tradução citando apenas o versículo 50, terminando com a informação de que Golias estava morto e não havia espada na mão de Davi, o que dá conta de ilustrar a importância da funda. O que acontece depois ficou escondido embaixo do tapete, como fez o autor do livro que estou traduzindo.
Mas mesmo assim fiquei grilada: como será mesmo que Golias morreu? De pedra, de espada ou dos dois? Será que alguma tradução cometeu esse erro, que foi sendo replicado sem que ninguém percebesse?
ADENDO: Depois de publicar este texto, recebo do Hugo Langone o mesmo trecho, segundo a Bíblia de Jerusalém:
Desse modo Davi venceu o filisteu com a funda e a pedra; feriu o filisteu e o matou; não havia espada na mão de Davi. Davi correu, pôs o pé sobre o filisteu, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça.
Esta é a situação relatada na citação original do meu livro: Golias morre da pedrada. Depois, Davi o decepa, mas tudo indica que ele já estava morto.
27 de março de 2006
Três histórias verdadeiras
Contadas por e-mail pelo Danilo Nogueira, que gentilmente me permitiu reproduzir esta mensagem aqui. Elas falam por si próprias.
Aconteceu em 1970, quando comecei. Estava na Editora Atlas, na sala do diretor editorial, entrou um senhor com um pacote de folhas de papel almaço e entregou ao Avelino, assistente do diretor. Era uma tradução, um livro inteiro, manuscrito. Perguntei, curioso, "manuscrito"? O tradutor, não me lembro mais seu nome, me olhou com superioridade e não pouco escárnio e respondeu: "Sou tradutor, não datilógrafo. Na minha escola, ensinava-se caligrafia, e com pautas de quatro linhas, não essa bobagem de três linhas de hoje. Sei escrever a mão, não preciso dessas coisas." Lembrou-me, em seguida, que o Barão do Rio Branco se recusava a ler documentos datilografados e obrigava um amanuense a "passar a limpo" tudo o que lhe era encaminhado "à máquina".
Muito mais tarde, lá para 1995, estava numa "mesa-redonda" na então Faculdade Ibero-americana e o tradutor ao meu lado disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de computador: tenho uma IBM de esfera e sou excelente datilógrafo. Sobretudo, tenho o hábito de pensar antes de escrever e, quando escrevo, escrevo direito". Sua observação recebeu, em modo de comentário, as palmas de boa parte do auditório.
No fim do século passado um colega disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de memória de tradução. Eu tenho uma memória muito boa." A maioria achou muito divertido. Eu também, claro, mas por motivos diferentes.
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