13 de abril de 2014
Novamente a discussão sobre dublagem x legendagem
Desta vez, uma longa discussão num grupo grande de tradutores profissionais surgiu por conta desta notícia sobre uma adaptação feita nas imagens do filme Capitão América para os diversos países de destino, inclusive o Brasil.
Embora eu já tenha comentado e escrito sobre o assunto em outros lugares, como nesta matéria sobre tradução audiovisual para a revista Língua Portuguesa, vejo que, mesmo entre tradutores, que supostamente deveriam ter um conhecimento um pouquinho acima da média sobre o tema, continuam sendo repetidos e reforçados argumentos infundados e baseados em preconceitos errôneos a respeito das diversas opções usadas para adaptar um filme a uma cultura diferente.
Então volto a expor minha opinião sobre essa questão -- que, para falar a verdade, não entendo bem por que rende tanto debate.
Um desses preconceitos é a noção de que um tradutor "rebelde" qualquer, por conta própria, seria capaz de modificar um filme. Ouvimos isso sobre títulos de filmes, edições de imagem, de som, adaptações na tradução, etc.
O processo de tradução e pós-produção de um filme envolve várias empresas, muita gente e muito dinheiro. O tradutor é apenas um dos elos (um elozinho praticamente dos mais insignificantes) do processo, que não tem poder para tomar nenhuma decisão que minimamente fuja do padrão. Nenhum tradutor jamais decidiu o título de um filme, imprimiu cartazes e outdoors e os espalhou por todo o país, assim como não trocou uma imagem do filme original por uma imagem com textos adaptados. Tudo isso envolve muito dinheiro, muitas decisões, e o tradutor apenas cumpre ordens, talvez dê sugestões, mas definitivamente não toma nenhuma decisão nem tem controle sobre o resultado final do processo.
Isso sem dizer que, no caso de Capitão América, se trata da Disney, a distribuidora mais controladora do mundo com relação às traduções e adaptações, cujo processo começa muitas vezes seis meses antes do lançamento de um filme.
Outro preconceito é o de associar legendagem a superioridade cultural, inteligência ou "evolução" (acreditem, vi esse termo usado em um argumento), e dublagem a inferioridade, burrice e preguiça. Basta olhar para o resto do mundo e ver que isso não se sustenta. Eu já li bastante sobre o assunto e há especulações muito variadas sobre as origens das preferências de cada cultura por dublagem ou legendagem, mas não há explicações definitivas. Faço aqui um resuminho:
Por um lado, a dublagem se tornou obrigatória em muitos países durante regimes autoritários, por facilitar a censura e alteração do conteúdo estrangeiro (caso do Brasil e de muitos países da Europa quando da disseminação do cinema falado ou da televisão). Esses mesmos regimes costumavam usar como pretexto a acessibilidade para a parcela menos letrada da população, e muita gente até hoje faz essa associação, embora não se sustente em muitos casos.
Por outro lado, a pós-produção para dublagem é um processo muitíssimo mais caro do que a legendagem. No caso do Brasil, como a lei que previa a obrigatoriedade da dublagem se aplicava à TV, quando do advento do VHS -- aqui é meio que teoria minha -- as produtoras tenderam a optar pela legendagem por ser muito mais barata, considerando o volume de novas traduções a serem feitas. O DVD também tradicionalmente tem mais opções de legendagem do que de dublagem.
Pelo que li em textos da área audiovisual, o aumento proporcional da preferência pela dublagem no Brasil tem muito a ver com o maior poder aquisitivo de classes mais baixas, aliado a um investimento maior das distribuidoras na pós-produção de filmes, visando atingir um público claramente maior. O interesse é comercial, e mútuo. As distribuidoras não gastariam muitíssimo mais em adaptar o som e as imagens de um filme se isso não lhes desse um retorno bem maior do que inserir legendas, que é muito mais barato.
Cheguei a ver o argumento de que o aumento dos filmes dublados no brasil faria parte de um projeto político de emburrecimento da população. Pessoalmente, acho essa ideia teoria da conspiração demais, até porque esse argumento se baseia em um preconceito infundado (ou será que a população alemã é mais burra agora do que era há 50 anos?) e porque, particularmente, acredito que os interesses econômicos são muito mais fortes que os puramente políticos.
Já quanto às preferências pessoais (menos ou mais acaloradas) por legendagem ou dublagem, pelo que observo em diversos grupos e diversos países, é apenas questão de hábito e de gosto. Para alguns, não ouvir os diálogos na língua original é insuportável; para outros, ter que ler texto aplicado na parte de baixo da tela é um crime contra a experiência cinematográfica. Vai ter gente que odeia de morte uma ou outra forma, assim como tem gente capaz de morrer pelo Bragantino, mas aí se tratam de paixões pessoais, pouco fundamentadas na razão.
No Brasil, a parcela da população capaz de entender um filme estrangeiro sem tradução é tão ínfima que deve ser irrelevante para fins comerciais. A legenda obviamente não se destina a essa parcela. Aliás, eu arriscaria dizer que mesmo entre tradutores profissionais só uma parte bem pequena conseguiria entender realmente bem um filme falado na nossa segunda língua. Com apoio de legendas, quem já é bastante fluente na língua estrangeira consegue ir comparando original e tradução e preenchendo as lacunas, e assim formar a ilusão de que está entendendo a língua estrangeira (eu sou assim com francês: quando vejo filme legendado, sou francófona nata! Já sem legendas, só entendo "bonjour" e olhe lá.)
Pelo que vejo, essas pessoas costumam preferir a legendagem dos filmes na língua estrangeira que entendem razoavelmente. Já em outras línguas, tenho minhas dúvidas. Eu, por exemplo, gosto de animações japonesas, mas acho muito cansativo ver filmes longos legendados. Moro no Canadá e vejo filmes do Miyazaki no cinema dublados em inglês, feliz da vida. Talvez mais de um pense que a dublagem em inglês é muito melhor que a dublagem em português, mas nesse caso eu diria que é mais um preconceito bem arraigado.
Apenas para deixar claro: eu não sou "defensora" da dublagem. Nem sei fazer tradução de roteiros para dublagem. Sou tradutora especializada e professora de legendagem, e pessoalmente prefiro assistir a filmes legendados, na maioria dos casos. Só acho meio frustrante ver esses preconceitos contra a dublagem serem reproduzidos sem uma reflexão um pouco mais aprofundada, principalmente por quem é da área de tradução.
15 de janeiro de 2014
Títulos de séries, legendagem e dublagem
Vale esclarecer que o subtítulo de um filme ou série, ou mesmo o título, *não* se trata de tradução. É um novo título dado pelos produtores ou distribuidores no país de destino, e não envolve tradutores nem estratégias de tradução.
Também é importante não confundir as críticas feitas ao título com as preferências em torno de legendagem ou dublagem -- o título seria o mesmo, independentemente da forma de tradução adotada.
Quanto ao gosto (ou desgosto) por dublagem ou legendagem, é algo puramente subjetivo, que nada tem a ver com o grau de escolaridade das pessoas, superioridade ou inferioridade cultural, nem mesmo com noções de arte, como já foi extensamente discutido na literatura acadêmica sobre esses temas.
Uma breve introdução ao mundo da tradução audiovisual, com algumas dessas distinções, está disponível na edição especial sobre tradução da revista Língua Portuguesa, para a qual eu escrevi esta matéria sobre tradução audiovisual (em PDF).
12 de outubro de 2012
Entrevistas
Então aqui vai, não (só) como autopromoção, mas esperando que seja útil para alguém.
A revista Tradução & Comunicação, editada pela universidade Anhanguera, publicou uma entrevista comigo feita pelos doutorandos Thaís Collet e Rafael Matielo. Eu participei da banca do Rafael quando ele escreveu uma dissertação sobre legendagem, e a Thaís foi minha aluna de legendagem na PUC-Rio.
A entrevista está aqui.
Aproveito para mencionar outra entrevista, que eu não cheguei a divulgar aqui. Foi feita pelo Petê Risatti, que conversou com diversos tradutores -- vale a pena ler todas as conversas!
A conversa comigo está aqui.
25 de agosto de 2012
Tradução na Globo Universidade
A matéria principal é em vídeo, mas o site da Globo Universidade traz alguns artigos complementares:
Matéria em vídeo sobre diversas especializações oferecidas na PUC-Rio
Artigo sobre o mercado de tradução
Artigo sobre interpretação
Artigo sobre o mercado de tradução audiovisual e literária
Artigo sobre tradução juramentada
Achei as matérias excelentes. Raramente uma reportagem na imprensa sobre tradução passa do mais básico. Mas o mercado de tradução está crescendo muito no Brasil e o profissional vem ganhando muita visibilidade.
Do ponto de vista pessoal, o mais incrível é que eu conheço praticamente todo mundo em todas as matérias! Uns foram meus professores, outros meus colegas e outros meus alunos. O mundo da tradução é uma enorme família, mesmo.
29 de abril de 2012
Estamos na revista 'Língua Portuguesa'
A Bianca Bold, minha sócia, e eu participamos em duas matérias da revista:
O artigo "Profissionais conectados" aborda o uso de redes sociais e outros recursos de internet por tradutores independentes. Bianca Bold é uma das entrevistadas, e conta um pouco de sua história e dá dicas para outros profissionais. O artigo é excelente para quem estuda ou trabalha com tradução. Clique aqui para ler a matéria no site da Bianca.
"As lógicas do audiovisual" aborda a tradução de materiais audiovisuais no Brasil, com ênfase em legendagem e dublagem, e é de minha autoria (Carolina Alfaro de Carvalho). Clique aqui para ler a matéria em PDF.
Aproveito aqui para corrigir dois erros que saíram nessa matéria, mas que não foram cometidos por mim:
- O último quadro foi intitulado "As peculiaridades do mercado de TAV" e saiu com um erro de ortografia.
- Lá no finalzinho, onde está o meu nome, consta a informação "ministra cursos de legendagem on-line na PUC-Rio", o que obviamente não faz sentido. Eu dou cursos online (à distância, portanto as aulas ocorrem no mundo cibernético e não em nenhuma cidade particular) e também dou cursos presenciais na PUC-Rio.
19 de novembro de 2011
Tradução audiovisual e "censura"
Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.
Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.
Às vezes, o cliente -- seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo -- é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando "careta" demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da "censura" à tradução.
No caso de filmes "independentes" ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.
Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.
No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa "Forbrydelsen" (traduzida em inglês como "The Killing" e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original -- dinamarquês -- com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor "pecar pelo excesso de cautela" em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.
Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais "família". Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.
São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).
Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos "normal" já passa por um filtro.
Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de "South Park" decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de "fuck you" que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por "foda-se" e sim por "dane-se" (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)
Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: "Assim, (...) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil." No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.
Quer dizer: muita gente se queixa da "censura" ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.
Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão "entranhada" em nós. É por isso que "fuck you" parece mais suave do que "vá se foder".
Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.
Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de "Tropa de Elite" em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.
Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.
Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da "censura" e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.
10 de janeiro de 2011
"Expansão na legendagem abre novas possibilidades"
Apenas um detalhe sobre o trechinho em que a matéria me cita. A jornalista me perguntou se eu achava que era um mercado mal remunerado, e eu respondi "Eu não acho." Depois, na redação final da matéria, ela omitiu a pergunta e fica difícil saber o que é que eu não acho. Pois bem, não acho que seja um mercado ruim, muito pelo contrário.
18 de outubro de 2010
Matéria sobre legendagem de séries
Os prazos e os procedimentos para a tradução e a exibição dos programas estão cada vez mais ágeis, e a matéria relata alguns dos métodos usados pelas produtoras.
Leitura atual, informativa e importante para estudantes e tradutores interessados na área de legendagem:
Folha.com - Ilustrada - 17/10/2010
Chegada mais rápida de séries americanas acelera mercado de tradução
Lúcia Valentim Rodrigues
Agradeço à Leonor Cione pelo envio da matéria.
28 de setembro de 2008
"O caminho das legendas"
Fiquei feliz em ver a matéria sobre os bastidores da legendagem publicada na Revista da TV do jornal O Globo, em agosto. A autora é a Elizabete Antunes.
Coisa rara de se ver, a reportagem enfoca as produtoras cariocas responsáveis por boa parte dos programas legendados que o Brasil assiste nos canais de TV a cabo. Os tradutores participam também, é claro, mas o fato do foco serem as produtoras dá uma perspectiva muito mais real. Afinal, são as produtoras que contratam os tradutores -- os materiais fornecidos, as normas e os padrões impostos, a revisão, a remuneração ficam a cargo delas.
A matéria mostra bem essa integração entre tradutores e produtores. Aliás, dizer só "produtores" também é reducionista, pois em uma produtora trabalham engenheiros de som e vídeo, programadores e outros profissionais (dos quais relativamente poucos lidam com línguas e textos). Além disso, a relação de trabalho mais direta é entre o tradutor e o produtor, mas este por sua vez está prestando um serviço para o canal ou a distribuidora -- que passa a ser o cliente indireto do tradutor também -- e vale lembrar que o público-alvo dessa turma toda é outro, bem diferente: é o pessoal que está no sofá, comendo pipoca e querendo rir e chorar vendo filmes e programas (rir e chorar por causa do conteúdo, não da qualidade da tradução, é claro). É justamente uma integração bem-sucedida entre todos os profissionais que interagem nos bastidores que vai garantir uma boa qualidade no final do processo.
Vale lembrar que a matéria enfoca apenas um recorte do que é o mercado de legendagem. O público repara muito nas legendas da TV, é claro, mas o universo da legendagem é muito maior do que isso.
Clicando na imagem abaixo dá para ler a matéria toda.
6 de março de 2007
Erros de tradução nas legendas de canais pagos
O contexto desta discussão:
- No dia 19 de janeiro foi publicada uma matéria no site Séries Etc. intitulada "Erros de tradução, digitação, português, falta de legendas: é difícil entender as séries na TV paga". A matéria critica, não sem uma boa dose de razão, problemas sérios em alguns canais de TV a cabo, entre eles a falta de legendas ou a presença de legendas ou palavras em espanhol, além dos sempre destacados erros de tradução. Contudo, muitos dos erros não são exatamente erros e muitas das soluções apresentadas como "tradução adequada" são traduções muito ruins.
- Eu tomei conhecimento dessa matéria no fórum Tradutores/Intérpretes BR do Orkut, onde o tema foi debatido e vários exemplos de "erros" foram dissecados. A tônica aqui foi mais no sentido de desqualificar os argumentos do autor da matéria (afinal, é um fórum de tradutores), mas as críticas são bem fundamentadas.
- Ao mesmo tempo, a matéria foi divulgada no Legendar.com.br, desta vez um site/blog de profissionais da área de legendagem, que elogia a matéria pois ela demonstraria indiretamente a necessidade de canais e produtoras melhorarem as condições de trabalho e o controle de qualidade das traduções e valorizarem mais o espectador.
- Depois, no dia 24 de janeiro, foi publicada outra nota no Séries Etc. em que André Braga, sócio da Bravo Filmes, responsável por uma das séries cujas tradução foi criticada, pede desculpas, justifica algumas das dificuldades e explica um pouco sobre as questões técnicas da legendagem.
Eu concordo com parte todas essas posições e me manifestei no fórum do Orkut e no Legendar. Aqui discorro um pouco mais sobre essa questão.
Em princípio, é ótimo que críticos e espectadores se manifestem para reclamar da má qualidade dos serviços oferecidos. Em canais dedicados à exibição de programas estrangeiros, a tradução deveria ser um dos serviços mais valorizados. Não é. Todos estão sempre apertando os cintos e cortando custos, e o custo da tradução é relativamente fácil de cortar, sobretudo num mercado com alta demanda de serviços e uma oferta muitíssimo maior de tradutores.
Não que exista um número tão grande de tradutores especializados em legendagem, com grande domínio das técnicas - lingüísticas e tecnológicas - envolvidas na elaboração de legendas, com alto nível de proficiência na tradução dos mais variados assuntos e com a capacidade de traduzir algumas horas de programas por semana. Nenhum desses aspectos é fácil ou intuitivo e são necessários anos de prática até se atingir o nível de técnica, qualidade e velocidade exigido pelos clientes mais relevantes - aqueles que pagam muito bem, são muito exigentes e, se satisfeitos, fornecem muito trabalho a seus tradutores. Aliás, se são poucos os tradutores desse nível, também são poucos os clientes desse tipo. O mais comum são canais e produtoras com grandes volumes de serviço, muita pressa, a necessidade de cortar despesas e com dezenas de tradutores iniciantes batendo na porta, ansiosos para trabalharem com filmes e séries. Se estes não são muito bem preparados e aqueles não se preocupam muito com a qualidade, já sabemos que resultado esperar.
O espectador reclama com toda razão quando detecta problemas como alguns dos citados na matéria do Séries Etc., por exemplo:
Sincronia:
"Criminal Minds", no AXN, apresentou legendas fora de sincronia, ultrapassando o programa e exibidas durante o comercial.
Dependendo do canal, às vezes ocorre da imagem ser transmitida de um país e a legenda de outro, via satélite, e serem exibidas em sincronia num terceiro lugar. É uma estratégia altamente propensa a erros, a mesma que às vezes resulta em programas inteiros legendados em espanhol aqui no Brasil.
"Portunhol":
Programa "Inside the Movies", no Warner Channel, sobre o filme "Menores Desacompanhados"
Legendas em "portunhol": "Un pouco da personalidade do outro". // "E de estarnos juntos, fez com que ficássemos mais unidos". // "Daí o bonito de ver com fazem parte de una família, mesmo sem terem uma."
Como explica o sócio da Bravo Filmes na segunda matéria do Séries Etc., para economizar tempo refazendo a sincronia das legendas, é comum aproveitar uma tradução já feita, no caso em espanhol, e substituir o texto em espanhol pela tradução em português. Se bem revisada, a prática é comum e eficiente. O problema é quando falta revisão, inclusive ortográfica. E falta de correção ortográfica é um erro gravíssimo em qualquer contexto.
(Inexplicável:)
"Grounded For Life", na Fox
Fala Original: Get that done!
Tradução Adequada: Termine isso!
Tradução do Canal: Pegue a boneca!
(Detalhe: os personagens estão no meio da rua carregando canos e não há nenhuma boneca na cena.)
A tradução provavelmente foi feita de ouvido, sem script para acompanhar, e o tradutor entendeu "doll" em vez de "done". O lapso de audição não seria tão sério se o tradutor não tivesse cometido o erro, muitíssimo mais grave, de não desconfiar de que aquilo não faz sentido no contexto. De fato, nada justifica isso.
Há ainda erros mais bobos aos quais todos estão sujeitos, que idealmente deveriam ser identificados e consertados na revisão, desde que a tradução em geral seja boa e a revisão também.
Porém, o texto das legendas sofre muitas alterações com relação ao original para que não ultrapasse um número máximo de caracteres por segundo, isto é, para garantir que o espectador médio consiga ler todo o texto da legenda antes que ela desapareça. Uma tradução perfeita e completíssima pode resultar em um filme incompreensível, pelo simples fato de que ninguém consegue ler as legendas a tempo. Sempre é necessário sintetizar e simplificar o texto nas legendas - às vezes, drasticamente. Esse pode ser o motivo das adaptações feitas em um dos exemplos criticados como erro:
"The New Adventures of Old Christine", no Warner
Fala Original: Did mom and dad took you to church?
Tradução Adequada: A mamãe e o papai te levavam à igreja?
Tradução do Canal: Papai e mamãe iam à igreja?
Fala Original: No, they dropped me off on the way to bingo.
Tradução Adequada: Não, eles me deixavam lá no caminho do bingo.
Tradução do Canal: Não, eles iam jogar bingo.
Finalmente, há casos em que não há nada de errado na tradução, mas o crítico discordou dela porque ela não corresponde à tradução literal e macarrônica que ele considera "adequada":
Episódio de estréia de "Prison Break", na Fox
Fala Original: Specially since we don’t have a pot to piss in, thanks to Abruzzi’s magically desapearing plane.
Tradução Adequada: Principalmente, desde que não temos nem onde urinar, graças ao avião do Abruzzi que magicamente desapareceu.
Tradução do Canal: E não temos nem um centavo, graças ao avião do Abruzzi que sumiu.
Como eu disse, o espectador tem o direito de reclamar e de exigir um bom serviço. Porém, para que a reclamação surta algum efeito, ela deve (i) estar bem embasada e formulada e (ii) ser encaminhada ao responsável por aquele serviço. E, se bem o tradutor que cometeu os erros tem uma parcela de culpa, no contexto do serviço o responsável é o cliente (o canal, a distribuidora, a produtora), pois foi ele que selecionou o tradutor, avaliou o serviço, comprou os direitos autorais e assumiu a responsabilidade por aquela exibição. Críticas pouco fundamentadas e mal direcionadas podem, no máximo, causar graça, mas dificilmente ajudarão a melhorar a qualidade das traduções.
Para fundamentar bem a reclamação, é preciso tomar nota de onde e quando aquele programa foi exibido (um mesmo material recebe várias traduções diferentes, dependendo da produtora contratada e do detentor dos direitos autorais, de modo que a tradução para o cinema será diferente da tradução para o DVD, o VHS e a TV, na maioria das vezes realizada por pessoas diferentes), reparar bem no contexto (as imagens, a cena, o que está acontecendo além daquela frase em particular) e levar em consideração que a legendagem não corresponde à tradução integral dos diálogos do filme. É uma adaptação desses diálogos para um formato muito específico, que permite ao espectador acompanhar o programa com som original, ler a tradução e ainda assim entender o que está acontecendo e curtir o programa -- o que não é nada trivial.
* * *
Aproveitando o tema: tenho coletado ou recebido perguntas sobre a prática e o mercado de legendagem e estou organizando um texto de perguntas e respostas, que espero publicar em breve. Portanto, se tiver alguma pergunta, aproveite para me mandar e eu a incorporo a esse post futuro.
19 de agosto de 2006
Serviços e desserviços
Um exemplo de um enorme desserviço a quem adotou a tradução como profissão e luta pela sua qualidade e valorização é a matéria publicada no Jornal do Brasil no dia 8 de agosto, a partir da divulgação dos 10 finalistas do Prêmio Jabuti, na categoria Tradução. A manchete, "Tradução traz prestígio mas é mal remunerada", traz uma falsa esperança de defesa do profissionalismo responsável, mas o conteúdo revela exatamente o contrário.
Dois dos tradutores indicados ao prêmio que foram entrevistados para essa matéria, Bernardina da Silveira Pinheiro e Mamede Mustafa Jarouche, são exemplos "de um grupo de tradutores cada vez mais procurado pelas editoras: o dos especialistas vindos das universidades, que traduzem diretamente do idioma de origem da obra e valorizam mais uma boa publicação do que a remuneração." (grifo meu) Ora, por que serão tão procurados? Jarouche responde: "Como não preciso da tradução para viver [por ser professor universitário], meu interesse é por uma boa edição do trabalho". É claro que, se eu fosse editora, não pensaria duas vezes em quem contratar. Até porque afirmações como essa transmitem nas entrelinhas que quem vive de tradução não teria a menor preocupação com a qualidade.
Rubens Figueiredo sai em defesa dos profissionais desqualificando elegantemente os tradutores vindos da academia: "Não é por serem doutores que as traduções superam as de outros profissionais." Mas a questão não é ser ou não ser doutor, e sim servir ou não ao vil metal. Ao menos no texto desta reportagem, a breve opinião de Figueiredo quase desaparece ao lado do relato das peripécias intelectuais dos outros dois tradutores e das justificativas dos editores para cortar custos a qualquer custo, inclusive a clássica "Já aconteceu muito de mandar traduzir um livro duas vezes", como se a responsabilidade por um tiro n'água não fosse, em grande parte, de quem contrata o serviço.
Realmente dá tristeza constatar a propagação de preconceitos reforçada pela troca pública de alfinetadas entre acadêmicos e profissionais, ambos com egos igualmente inchados. Estudo não é necessariamente sinônimo de arrogância, assim como ganhar dinheiro não depõe contra a erudição e o cuidado com o texto. O único alívio é ver que pelo menos as nobres traduções de nobres autores está em mãos de quem, de uma forma ou de outra, dedica a vida ao estudo das línguas, e não mais de aristocratas, diplomatas ou eruditos aleatórios.
Muito mais alegria me trouxe a entrevista com Millôr Fernandes publicada na revista Língua Portuguesa de agosto de 2005 (aliás, todo número dessa revista traz alguma reportagem sobre tradução. Infelizmente, nenhuma delas fica disponível online).
Não que Millôr não seja controverso, e também desdenha a academia. Mas é modesto e espontâneo, e com isso diz umas poucas e boas que pelo menos dão margem a discussões frutíferas. Perguntado sobre como começou a fazer tradução, diz: "Aprendi a fazer tradução porque me encomendaram e foi assim desde então. (...) Sempre fui movido por forças exógenas, exteriores. O primeiro livro que traduzi foi Dragon Seed, de Pearl S. Buck, em 1942. Nunca me senti tão roubado na vida, você traduz 300 páginas por uma mixaria."
Pena que a entrevista não é sobre tradução e a conversa toma outros rumos, mas depreendemos daí que, se ele aceitou traduzir vários outros livros, é porque foi bem remunerado. E, mesmo sendo bem remunerado, fez um ótimo trabalho e se preocupou com a qualidade da edição. Ergo, a culpa pelos textos descuidados não é apenas do vil metal. cqd.
Termino citando Anthony Pym, exemplo de acadêmico-profissional bem-sucedido nos dois universos, cujos textos eu sempre incluo em minhas aulas de tradução: "The most important part of a translation job is getting paid."
Notas finais: Quando a matéria do JB foi publicada, havia 10 finalistas concorrendo ao Prêmio Jabuti. No momento da publicação desta nota há 3, entre eles Mamede Jarouche e Bernardina Pinheiro. A tradução de Rubens Figueiredo foi desclassificada.
Pelo que pude apurar, nenhuma tradução de Millôr Fernandes esteve entre as 10 finalistas de nenhuma edição do Prêmio Jabuti.
Não estou tirando nenhuma conclusão ;o)
Atualização:
Mamede Jarouche pediu a publicação de uma resposta a esta discussão numa comunidade de tradutores do Orkut (o debate também ocorreu em listas de discussão de tradutores). Como a resposta dele é pública e muito valiosa para as questões discutidas aqui, acredito que eu também possa reproduzi-la aqui.
Não me lembro dessa entrevista. Faz um bom tempo que não falo com ninguém do Jornal do Brasil, logo não sei de que contexto exatamente foram tiradas as minhas palavras. Jamais, em tempo algum, eu me atreveria a me pronunciar de maneira depreciativamente genérica, ou genericamente depreciativa, contra os tradutores profissionais, de cujo labor, aliás, dependo muitíssimas vezes. Não acho, de modo algum, que por não ser profissional, e logo poder me dar ao luxo quase depravado de traduzir por prazer e produzir uma obra melhor. Isso é rematada tolice. Ocorre-me, talvez, que eu tenha dito o seguinte: como, ao contrário dos tradutores profissionais, não trabalhei premido por prazos, e como estava, além da tradução, pesquisando o assunto, pude colocar umas notas a mais que talvez um tradutor profissional não tivesse tempo de fazer. Veja bem, estou tentando adivinhar qual o contexto que levou à alteração das minhas palavras. Não posso garantir que tenha sido exatamente isso; o que posso garantir é que jamais, em tempo algum, eu atacaria os tradutores profssionais. Isso é loucura. Certamente não sou nenhum exemplo de sanidade, mas não chegaria a ponto de fazer uma sandice dessas, desqualificar o trabalho de toda uma categoria profissional. Por favor, deixem-me fora dessa encrenca. Se for o caso, escreverei ao próprio Jornal do Brasil. Vejam aí o que é melhor. Só não quero que esse mal-entendido permaneça.
grande abraço,
Mamede
Portanto, vale a pena reforçar: o desserviço é da matéria publicada no jornal, mas não necessariamente dos tradutores nela retratados. É sempre bom ler reportagens com uma pitada de sal.
10 de março de 2006
Títulos de filmes
Pois finalmente saiu um artiguinho na imprensa - pequeno, simples e simpático - que explica como são criados os títulos de filmes estrangeiros no Brasil.
Criados, não traduzidos. Porque o tradutor não tem nada a ver com essa questão. Não por acaso, nem se faz menção ao tradutor no artigo.
Sorry... Qual é o nome mesmo?
por Meriane Morselli
Isso mesmo: os títulos não fazem parte da nossa jurisdição. Muitas vezes, nem sabemos qual é ou será o título de um filme que estamos traduzindo. Portanto, livre os pobres tradutores de filmes da culpa pelos títulos esquisitos, está bem? :o)