15 de abril de 2015
Legendagem e literatura
6 de setembro de 2014
Curso de legendagem no Rio de Janeiro - dezembro de 2014
O formato intensivo do curso de Tradução para Legendagem de Filmes: Teoria, Técnica e Prática tem sido muito procurado. Em 2013 abrimos três turmas. Agora, novamente há inscrições abertas para este curso, que ocorrerá em dezembro de 2014.
É o curso mais completo que eu dou e com certeza um dos mais extensos e completos disponíveis no Brasil. Será oferecida uma só turma, para tradutores de inglês para português. As vagas têm sido preenchidas depressa, se esgotando geralmente dois meses antes do início das aulas. Portanto, se você tiver interesse, não perca tempo em se inscrever!
O curso será realizado na PUC do Rio de Janeiro, na unidade do Centro da cidade, do dia 9 de dezembro (terça) a 17 de dezembro (quarta) de 2014, em formato intensivíssimo: são seis horas de aulas por dia durante 7 dias, três horas à manhã e três à tarde. Serão quatro dias consecutivos na primeira semana, um fim de semana para recuperar o fôlego e mais três dias seguidos na semana seguinte. No total serão 42 horas. O certificado de conclusão do curso é emitido pela PUC-Rio.
O formato intensivo foi muito solicitado, principalmente para que aqueles que não moram na cidade onde o curso é realizado possam se deslocar para lá durante poucos dias. Por isso foi escolhida uma época de férias escolares. Agora há a oportunidade de passar 10 dias no Rio, aproveitando a cidade maravilhosa, e sair de lá especializado em legendagem.
Todas as aulas são em laboratório de informática, com toda a infraestrutura necessária. O curso inclui reflexões e a leitura de textos sobre tradução audiovisual e legendagem, mas seu conteúdo é fortemente prático, repleto de exercícios reais que visam trabalhar diversos gêneros de filmes, simular serviços para diferentes clientes e ensinar técnicas e métodos de trabalho para cinema, DVD, TV a cabo e o mercado corporativo. Em aproximadamente metade das horas de aula é utilizado o software Subtitle Workshop.
Este curso tem sido muito bem-sucedido em seus objetivos: são vários os alunos que passaram a atuar no mercado de legendagem de filmes, e cada vez mais produtoras de vídeo entram em contato pedindo recomendações dos melhores alunos para serem seus prestadores de serviços. O mercado é exigente e o curso também: é intenso e os exercícios apresentam um grau de dificuldade crescente, visando preparar os alunos para a realidade do mercado em seus melhores nichos. Não é um curso fácil, exige muita dedicação. A experiência prévia com tradução de textos é desejável mas não imprescindível; já o excelente domínio das duas línguas envolvidas, com ênfase na compreensão do inglês e na ótima redação em português, é fundamental e faz toda diferença no desempenho. Também é muito importante que os alunos se sintam à vontade usando computadores, tenham bom domínio de Windows, Office, programas de vídeo, ferramentas de internet e saibam realizar tarefas essenciais como download, instalação de programas, etc.
O valor do curso é de R$ 1.994,00, e pode ser parcelado em duas vezes.
Algumas considerações sobre este curso presencial e os valores. A PUC tem fama de cobrar preços altos, mas leve em conta a quantidade de horas em laboratório de informática, com uma ótima infraestrutura, técnico à disposição e tudo mais. 42 horas é muito tempo (pelo que sei, é o mais longo no Brasil). Basta fazer uma comparação analisando o conteúdo oferecido, a infraestrutura e a quantidade de horas para perceber que este curso oferece um ótimo custo-benefício.
E fique à vontade para comentar e perguntar o que precisar.
19 de abril de 2014
Quatro traduções de um mesmo vídeo
Estes dias, passou a circular um vídeo que se tornou viral, sobre uma falsa vaga de emprego que parece impossível (propaganda de uma empresa de cartões).
Vários conhecidos começaram a pedir que fosse traduzido, e me ofereci para fazer a legendagem. De vez em quando eu traduzo algo de que gosto, para mim mesma ou para alguém querido. Foi o que fiz, traduzindo e editando o vídeo com legendas fixas.
Dois dias após ter divulgado o vídeo no YouTube, descobri outras duas traduções em português, publicadas quase ao mesmo tempo que a minha. Mais um par de dias depois, encontrei outra versão legendada que já se tornou muito popular.
Achei muito interessante comparar a redação, o estilo e as características técnicas (sincronia, subdivisão de legendas, ritmo de leitura) de duas traduções amadoras com a minha, que fiz usando os critérios da legendagem profissional com que trabalho normalmente.
São estes:
1 (amador, clique em 'cc' e selecione legendas em português)
2 (amador)
3 (amador)
4 (profissional)
Algumas ressalvas importantes:
Meu objetivo aqui não é criticar nem ridicularizar as traduções amadoras. Foram feitas por gente que, como eu, quis tornar um vídeo bonito acessível para pessoas queridas, e cumprem com esse objetivo. Também não me sinto de forma alguma "moralmente superior" a ninguém.
Por outro lado, o tempo todo ouvimos comentários sobre a excelente qualidade das traduções amadoras ("fansubs"). Inclusive já tive alunos que eram fansubbers e achavam absurdas as imposições técnicas nas quais eu insistia para conseguirem se inserir no mercado profissional, pois argumentavam que "todo mundo" elogiava seu trabalho.
Esta comparação é apenas uma boa oportunidade de destacar essas diferenças.
Essas legendagens amadoras cumprem a função de transmitir rapidamente um conteúdo em língua estrangeira? Sem dúvida.
Seriam aceitas por uma produtora de vídeo ou canal de TV como um serviço profissional? Em hipótese alguma.
Os textos contêm inúmeros problemas de tradução, gramática e estilo. Há legendas com tanto texto que não dá tempo de ler (ou, se conseguimos ler, não temos tempo de observar as imagens, o que é uma perda grave). A sincronia não está precisa, assim como a quebra de legendas e de linhas, e tudo isso exige um esforço redobrado do espectador para acompanhar as legendas, em detrimento da experiência prazerosa de assistir ao vídeo.
Todas essas observações se baseiam em conhecimentos bastante técnicos e nem sempre intuitivos.
Tudo isto não é para pedir elogios nem nada disso, absolutamente -- eu continuo me aprimorando e não me considero dona da verdade.
É apenas para ilustrar o que qualquer tradutor qualificado já sabe: o bom resultado final de uma tradução é a ponta do iceberg, fruto de um esforço significativo de estudo, capacitação e treinamento, aliado a um trabalho intenso e extremamente detalhista durante o processo de tradução -- tudo isso apenas para que o receptor desse conteúdo não note demais a tradução em si, como alguém que aprecia a paisagem sem reparar no vidro da janela.
E também para lembrar que ainda falta muito, muito mesmo, para sermos substituídos por máquinas ou por voluntários bem-intencionados, caso alguém tivesse alguma dúvida.
13 de abril de 2014
Novamente a discussão sobre dublagem x legendagem
Desta vez, uma longa discussão num grupo grande de tradutores profissionais surgiu por conta desta notícia sobre uma adaptação feita nas imagens do filme Capitão América para os diversos países de destino, inclusive o Brasil.
Embora eu já tenha comentado e escrito sobre o assunto em outros lugares, como nesta matéria sobre tradução audiovisual para a revista Língua Portuguesa, vejo que, mesmo entre tradutores, que supostamente deveriam ter um conhecimento um pouquinho acima da média sobre o tema, continuam sendo repetidos e reforçados argumentos infundados e baseados em preconceitos errôneos a respeito das diversas opções usadas para adaptar um filme a uma cultura diferente.
Então volto a expor minha opinião sobre essa questão -- que, para falar a verdade, não entendo bem por que rende tanto debate.
Um desses preconceitos é a noção de que um tradutor "rebelde" qualquer, por conta própria, seria capaz de modificar um filme. Ouvimos isso sobre títulos de filmes, edições de imagem, de som, adaptações na tradução, etc.
O processo de tradução e pós-produção de um filme envolve várias empresas, muita gente e muito dinheiro. O tradutor é apenas um dos elos (um elozinho praticamente dos mais insignificantes) do processo, que não tem poder para tomar nenhuma decisão que minimamente fuja do padrão. Nenhum tradutor jamais decidiu o título de um filme, imprimiu cartazes e outdoors e os espalhou por todo o país, assim como não trocou uma imagem do filme original por uma imagem com textos adaptados. Tudo isso envolve muito dinheiro, muitas decisões, e o tradutor apenas cumpre ordens, talvez dê sugestões, mas definitivamente não toma nenhuma decisão nem tem controle sobre o resultado final do processo.
Isso sem dizer que, no caso de Capitão América, se trata da Disney, a distribuidora mais controladora do mundo com relação às traduções e adaptações, cujo processo começa muitas vezes seis meses antes do lançamento de um filme.
Outro preconceito é o de associar legendagem a superioridade cultural, inteligência ou "evolução" (acreditem, vi esse termo usado em um argumento), e dublagem a inferioridade, burrice e preguiça. Basta olhar para o resto do mundo e ver que isso não se sustenta. Eu já li bastante sobre o assunto e há especulações muito variadas sobre as origens das preferências de cada cultura por dublagem ou legendagem, mas não há explicações definitivas. Faço aqui um resuminho:
Por um lado, a dublagem se tornou obrigatória em muitos países durante regimes autoritários, por facilitar a censura e alteração do conteúdo estrangeiro (caso do Brasil e de muitos países da Europa quando da disseminação do cinema falado ou da televisão). Esses mesmos regimes costumavam usar como pretexto a acessibilidade para a parcela menos letrada da população, e muita gente até hoje faz essa associação, embora não se sustente em muitos casos.
Por outro lado, a pós-produção para dublagem é um processo muitíssimo mais caro do que a legendagem. No caso do Brasil, como a lei que previa a obrigatoriedade da dublagem se aplicava à TV, quando do advento do VHS -- aqui é meio que teoria minha -- as produtoras tenderam a optar pela legendagem por ser muito mais barata, considerando o volume de novas traduções a serem feitas. O DVD também tradicionalmente tem mais opções de legendagem do que de dublagem.
Pelo que li em textos da área audiovisual, o aumento proporcional da preferência pela dublagem no Brasil tem muito a ver com o maior poder aquisitivo de classes mais baixas, aliado a um investimento maior das distribuidoras na pós-produção de filmes, visando atingir um público claramente maior. O interesse é comercial, e mútuo. As distribuidoras não gastariam muitíssimo mais em adaptar o som e as imagens de um filme se isso não lhes desse um retorno bem maior do que inserir legendas, que é muito mais barato.
Cheguei a ver o argumento de que o aumento dos filmes dublados no brasil faria parte de um projeto político de emburrecimento da população. Pessoalmente, acho essa ideia teoria da conspiração demais, até porque esse argumento se baseia em um preconceito infundado (ou será que a população alemã é mais burra agora do que era há 50 anos?) e porque, particularmente, acredito que os interesses econômicos são muito mais fortes que os puramente políticos.
Já quanto às preferências pessoais (menos ou mais acaloradas) por legendagem ou dublagem, pelo que observo em diversos grupos e diversos países, é apenas questão de hábito e de gosto. Para alguns, não ouvir os diálogos na língua original é insuportável; para outros, ter que ler texto aplicado na parte de baixo da tela é um crime contra a experiência cinematográfica. Vai ter gente que odeia de morte uma ou outra forma, assim como tem gente capaz de morrer pelo Bragantino, mas aí se tratam de paixões pessoais, pouco fundamentadas na razão.
No Brasil, a parcela da população capaz de entender um filme estrangeiro sem tradução é tão ínfima que deve ser irrelevante para fins comerciais. A legenda obviamente não se destina a essa parcela. Aliás, eu arriscaria dizer que mesmo entre tradutores profissionais só uma parte bem pequena conseguiria entender realmente bem um filme falado na nossa segunda língua. Com apoio de legendas, quem já é bastante fluente na língua estrangeira consegue ir comparando original e tradução e preenchendo as lacunas, e assim formar a ilusão de que está entendendo a língua estrangeira (eu sou assim com francês: quando vejo filme legendado, sou francófona nata! Já sem legendas, só entendo "bonjour" e olhe lá.)
Pelo que vejo, essas pessoas costumam preferir a legendagem dos filmes na língua estrangeira que entendem razoavelmente. Já em outras línguas, tenho minhas dúvidas. Eu, por exemplo, gosto de animações japonesas, mas acho muito cansativo ver filmes longos legendados. Moro no Canadá e vejo filmes do Miyazaki no cinema dublados em inglês, feliz da vida. Talvez mais de um pense que a dublagem em inglês é muito melhor que a dublagem em português, mas nesse caso eu diria que é mais um preconceito bem arraigado.
Apenas para deixar claro: eu não sou "defensora" da dublagem. Nem sei fazer tradução de roteiros para dublagem. Sou tradutora especializada e professora de legendagem, e pessoalmente prefiro assistir a filmes legendados, na maioria dos casos. Só acho meio frustrante ver esses preconceitos contra a dublagem serem reproduzidos sem uma reflexão um pouco mais aprofundada, principalmente por quem é da área de tradução.
5 de dezembro de 2012
Balé e ópera multimídia
Através de recursos multimídia!
Algumas companhias de balé e ópera têm exibido suas apresentações ao vivo, para cinemas de todo o mundo. É o caso do Bolshoi Ballet, a Metropolitan Opera, a Royal Ballet e a Royal Opera House. A Emerging Pictures lista a maioria dessas apresentações.
No ano passado, eu fui procurada pela Royal Opera House/Royal Ballet (ROH) para traduzir algumas dessas apresentações para o português, pois eles estavam começando a exibi-las para uma rede de cinemas em todo o Brasil. Foi uma experiência ótima, e recentemente começou a temporada de 2012-2013 e eu fui escalada para fazer todas as traduções em português. É por isso que falo mais do ROH aqui, já que conheço de primeira mão como essas transmissões funcionam.
Essa tecnologia já existe há vários anos. Em 2003, eu assisti a um show de David Bowie que foi exibido ao vivo, desde Londres, para cinemas em todo o mundo. Eu estava no Brasil e, além de vermos o show, pudemos fazer perguntas para Bowie depois, desde o cinema, e ele ouvia e respondia desde Londres. Considerando como essa experiência foi incrível, chega a ser surpreendente (quase assombroso) que não tenha se tornado uma opção de entretenimento muito mais comum.
Mas parece que as transmissões ao vivo para cinemas finalmente estão vindo para ficar. A ROH começou a exibir as apresentações em cinemas do Reino Unido em 2009; o Brasil foi incluído no ano passado e o Japão nesta nova temporada. Agora transmitem para 240 cinemas de 32 países, em 6 ou 7 línguas, se não me engano.
Este vídeo (em inglês) destaca as vantagens de assistir balés e operas no cinema.
Os sons e imagens são capturados em alta definição, e as legendas em todas as línguas são todas transmitidas desde Londres. As traduções são realizadas com poucos dias (ou, às vezes, poucas horas) de antecedência. No caso de óperas, traduzimos o libretto, naturalmente, mas também há trailers e curtas sobre cada produção, que mostram ensaios, entrevistas e outras informações importantes sobre a produção, e que são exibidos antes do espetáculo e durante os intervalos. Também há mensagens exibidas na tela para os espectadores (por exemplo, incentivando-os a enviarem tweets com comentários sobre o espetáculo) e um resumo de cada ato que verão. Alguns dos tweets enviados também são exibidos na tela do cinema durante os intervalos.
Como as imagens são geradas ao vivo, as legendas não podem ser editadas permanentemente sobre o filme. São exibidas manualmente, ao vivo, pelo departamento de surtitling da ROH ("surtitling" é o nome das legendas exibidas em teatros, geralmente acima do palco).
A ROH interage com os espectadores nas principais redes sociais. Tem seu canal no YouTube, página no Facebook e conta no Twitter. E divulgou recentemente alguns números impressionantes sobre a temporada de 2011-2012, que sem dúvida irão crescer a cada ano. Alguns destaques:
- Cerca de 300.000 pessoas assistiram à Royal Opera e à Royal Ballet em cinemas.
- Quando a Royal Ballet fez um dia inteiro de streaming grátis (um dia na vida da Royal Ballet exibido no YouTube, sem editar), a audiência atingiu um milhão de espectadores.
- O público está cada vez mais jovem, com um grande número de pessoas que assistem a ópera e balé pela primeira vez na vida, pois vê-las no cinema é bem mais barato e acessível, e menos intimidador, do que ir até um teatro.
Novos públicos e novas mídias também implicam o uso de uma nova linguagem. As legendas devem ser breves e simples, para que possam ser lidas depressa e permitam aos espectadores entender o que é dito e ainda assim apreciar plenamente as belíssimas imagens à sua frente. No caso de óperas, isso significa que as traduções empregam uma linguagem mais moderna, sem termos obscuros ou obsoletos. O texto original continua intacto na performance, mas seria impossível acompanhar o libretto completo junto com o espetáculo. Assim, as legendas estão lá para falar a língua dos espectadores nos cinemas e ajudá-los a aproveitar totalmente a experiência, sem se sentirem deslocados.
A ROH é um modelo de cliente para os tradutores. O trabalho antes de cada apresentação é intenso e muitas vezes nos fins de semana, mas a remuneração faz jus ao que eles pedem. Procuraram tradutores recomendados, com experiência em legendagem e que se sentissem à vontade com os temas e a terminologia envolvida. Levando em conta a magnitude dessa operação, o custo da tradução provavelmente é quase insignificante, e a prioridade é oferecer a maior qualidade aos espectadores. A ROH reconhece o valor de uma tradução audiovisual especializada.
Este último vídeo mostra o departamento de audiovisual, e eu acho particularmente fascinante.
Acredito que há muito a aprender com essa experiência bem-sucedida da Royal Opera House e de outras companhias de balé e ópera. O público agora é global, novas tecnologias e mídias podem dar vida nova a antigas formas de arte -- incluindo lucro, sim, a internet não está matando a indústria do entretenimento, muito pelo contrário -- e serviços de tradução profissionais e especializados podem fazer a ponte entre as línguas.
29 de abril de 2012
Estamos na revista 'Língua Portuguesa'
A Bianca Bold, minha sócia, e eu participamos em duas matérias da revista:
O artigo "Profissionais conectados" aborda o uso de redes sociais e outros recursos de internet por tradutores independentes. Bianca Bold é uma das entrevistadas, e conta um pouco de sua história e dá dicas para outros profissionais. O artigo é excelente para quem estuda ou trabalha com tradução. Clique aqui para ler a matéria no site da Bianca.
"As lógicas do audiovisual" aborda a tradução de materiais audiovisuais no Brasil, com ênfase em legendagem e dublagem, e é de minha autoria (Carolina Alfaro de Carvalho). Clique aqui para ler a matéria em PDF.
Aproveito aqui para corrigir dois erros que saíram nessa matéria, mas que não foram cometidos por mim:
- O último quadro foi intitulado "As peculiaridades do mercado de TAV" e saiu com um erro de ortografia.
- Lá no finalzinho, onde está o meu nome, consta a informação "ministra cursos de legendagem on-line na PUC-Rio", o que obviamente não faz sentido. Eu dou cursos online (à distância, portanto as aulas ocorrem no mundo cibernético e não em nenhuma cidade particular) e também dou cursos presenciais na PUC-Rio.
19 de novembro de 2011
Tradução audiovisual e "censura"
Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.
Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.
Às vezes, o cliente -- seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo -- é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando "careta" demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da "censura" à tradução.
No caso de filmes "independentes" ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.
Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.
No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa "Forbrydelsen" (traduzida em inglês como "The Killing" e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original -- dinamarquês -- com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor "pecar pelo excesso de cautela" em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.
Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais "família". Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.
São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).
Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos "normal" já passa por um filtro.
Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de "South Park" decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de "fuck you" que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por "foda-se" e sim por "dane-se" (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)
Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: "Assim, (...) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil." No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.
Quer dizer: muita gente se queixa da "censura" ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.
Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão "entranhada" em nós. É por isso que "fuck you" parece mais suave do que "vá se foder".
Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.
Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de "Tropa de Elite" em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.
Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.
Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da "censura" e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.
10 de janeiro de 2011
"Expansão na legendagem abre novas possibilidades"
Apenas um detalhe sobre o trechinho em que a matéria me cita. A jornalista me perguntou se eu achava que era um mercado mal remunerado, e eu respondi "Eu não acho." Depois, na redação final da matéria, ela omitiu a pergunta e fica difícil saber o que é que eu não acho. Pois bem, não acho que seja um mercado ruim, muito pelo contrário.
18 de outubro de 2010
Matéria sobre legendagem de séries
Os prazos e os procedimentos para a tradução e a exibição dos programas estão cada vez mais ágeis, e a matéria relata alguns dos métodos usados pelas produtoras.
Leitura atual, informativa e importante para estudantes e tradutores interessados na área de legendagem:
Folha.com - Ilustrada - 17/10/2010
Chegada mais rápida de séries americanas acelera mercado de tradução
Lúcia Valentim Rodrigues
Agradeço à Leonor Cione pelo envio da matéria.
30 de setembro de 2010
Drei Marc contrata assistente de controle de qualidade
A Drei Marc está procurando uma pessoa para o cargo de "Assistente de Controle de Qualidade", com bons conhecimentos em inglês e português e que saiba usar o software Subtitle Workshop. O trabalho será realizado dentro da própria produtora, 6 horas por dia, 6 dias por semana. Qualquer indicação, favor enviar currículo para mleite@dreimarc.com.br e fernandalanhas@dreimarc.com.br.
28 de setembro de 2008
"O caminho das legendas"
Fiquei feliz em ver a matéria sobre os bastidores da legendagem publicada na Revista da TV do jornal O Globo, em agosto. A autora é a Elizabete Antunes.
Coisa rara de se ver, a reportagem enfoca as produtoras cariocas responsáveis por boa parte dos programas legendados que o Brasil assiste nos canais de TV a cabo. Os tradutores participam também, é claro, mas o fato do foco serem as produtoras dá uma perspectiva muito mais real. Afinal, são as produtoras que contratam os tradutores -- os materiais fornecidos, as normas e os padrões impostos, a revisão, a remuneração ficam a cargo delas.
A matéria mostra bem essa integração entre tradutores e produtores. Aliás, dizer só "produtores" também é reducionista, pois em uma produtora trabalham engenheiros de som e vídeo, programadores e outros profissionais (dos quais relativamente poucos lidam com línguas e textos). Além disso, a relação de trabalho mais direta é entre o tradutor e o produtor, mas este por sua vez está prestando um serviço para o canal ou a distribuidora -- que passa a ser o cliente indireto do tradutor também -- e vale lembrar que o público-alvo dessa turma toda é outro, bem diferente: é o pessoal que está no sofá, comendo pipoca e querendo rir e chorar vendo filmes e programas (rir e chorar por causa do conteúdo, não da qualidade da tradução, é claro). É justamente uma integração bem-sucedida entre todos os profissionais que interagem nos bastidores que vai garantir uma boa qualidade no final do processo.
Vale lembrar que a matéria enfoca apenas um recorte do que é o mercado de legendagem. O público repara muito nas legendas da TV, é claro, mas o universo da legendagem é muito maior do que isso.
Clicando na imagem abaixo dá para ler a matéria toda.
8 de julho de 2008
Panorama do mercado de legendagem
Portanto, não existe uma resposta simples para as perguntas que mais ouço de colegas e alunos: “Como funciona o mercado de legendagem?” ou “Quais são as perspectivas de trabalho com legendagem?”
Da mesma forma que acontece com a tradução, os diversos nichos de trabalho com legendagem foram se desenvolvendo a partir da necessidade. A existência de empresas especializadas na tradução de materiais audiovisuais é recente – até não muito tempo atrás, eram as próprias produtoras e distribuidoras de filmes que se encarregavam da tradução, conforme surgia essa demanda, e a tarefa nem sempre era desempenhada por profissionais devidamente preparados.
O cinema é o meio mais antigo para a exibição de filmes. À medida que a necessidade de tradução de filmes em todo o mundo foi aumentando, foi se desenvolvendo uma padronização, com métodos relativamente uniformizados mundialmente. Vale lembrar que o cinema levou décadas para se disseminar, estabelecendo sua linguagem própria, conquistando espaço, e a tradução de filmes também teve tempo para estabelecer padrões de trabalho e de qualidade.
A explosão global da tradução audiovisual veio com o advento do VHS, quando surgiu a necessidade de se relançar – e retraduzir – toda a produção já lançada em 35 mm. Além disso, os custos de produção e sobretudo de distribuição de filmes ficaram muitos mais baixos, o que aumentou a produção de novos materiais. Foi então, há 20 ou 30 anos, que começaram a surgir empresas mais voltadas para as tarefas de tradução. O VHS envolve outros materiais físicos, outros aparelhos para sua edição e outro meio para sua exibição – a telinha da televisão, em vez da telona do cinema. Isso obrigou os tradutores a adaptarem métodos e técnicas, não sendo possível utilizar as traduções feitas para o cinema e nem sequer sua metodologia. Diferentes produtoras, em diferentes locais, foram adaptando os métodos de trabalho. Surgiu um número bem maior de produtoras de VHS do que de cinema, aumentou a demanda por tradução e começaram a surgir tradutores voltados para essa indústria.
Pronto: já havia dois grandes mercados, cada qual com suas produtoras, seus métodos e seus tradutores. O cinema continuou crescendo, mas o VHS aumentou exponencialmente a comercialização de filmes e a demanda por tradução.
Depois veio a revolução do DVD, como parte do movimento dos novos meios digitais de produção. Novamente, os catálogos antigos precisavam ser relançados. Muitos programas novos passaram a ser produzidos diretamente utilizando meios digitais. O público alcançado tornou-se ainda maior do que todos os anteriores. E, desta vez, cada filme veiculado em DVD podia incluir várias traduções, em diferentes modalidades (legendagem e dublagem, por exemplo) e mais de uma língua. Novamente, houve uma mudança radical de mídia, técnica, tecnologia e, portanto, metodologia de tradução. O universo das produtoras ficou ainda mais pulverizado, pois o mundo digital demanda uma infra-estrutura fisicamente menor do que o de VHS e muito menor do que o de cinema – hoje em dia, uma produtora pode perfeitamente consistir de um homem com um computador potente.
A enorme demanda por tradução associada à fragmentação da indústria produtora e distribuidora de filmes fez com que todo o processo ligado à tradução – desde a seleção dos tradutores até o controle de qualidade, passando pela metodologia de trabalho – ficasse mais inconsistente: uma produtora séria pode investir mais na qualidade de suas traduções, mas não são poucos os editores de vídeos que só procuram um serviço barato, sem se importar com a qualidade.
Além disso, às vezes é a distribuidora original do filme que se encarrega da tradução; às vezes é uma produtora contratada para realizar outras tarefas de edição ou distribuição na cultura-alvo; às vezes é uma empresa especializada em tradução.
E vale lembrar que os recursos digitais aumentaram a produção de filmes não comerciais, portanto invisíveis ao público de cinema e TV: aqueles feitos por empresas e organizações, para fins educativos, institucionais e técnicos. Trata-se de um mercado “independente” e mais pulverizado ainda, que está em franco crescimento e costuma oferecer uma remuneração muito boa.
Há ainda a TV a cabo, que novamente levou ao desenvolvimento de produtoras especializadas, as quais muitas vezes contam com tradutores contratados, além dos terceirizados. Aqui entram também materiais diferentes, outros públicos e objetivos para a tradução. É um mercado que continua crescendo.
Portanto, já podemos mencionar 4 ou 5 mercados de legendagem. Se um mesmo filme passar por todos eles, ele provavelmente será traduzido 4 ou 5 vezes, por empresas e tradutores diferentes. Cada um deles não constitui uma especialização propriamente dita, nem são totalmente independentes ou desvinculados um do outro, mas é comum que os tradutores se envolvam mais com um deles, às vezes tendo pouco contato com os outros. Tudo depende de qual desses nichos abre a primeira porta e de como tudo se desenrola a partir daí. Se um tradutor começa prestando serviços para uma empresa do ramo de DVD e der certo, o mais provável é que ele continue nesse nicho, passando a conhecer e interagir com outras empresas do ramo. De forma semelhante, um tradutor técnico que já tenha contato com empresas de um determinado ramo e domine técnicas de legendagem tem mais chances de ser bem-sucedido traduzindo filmes técnicos para empresas desse ramo.
Nos últimos anos, os mercados de DVD e de TV a cabo, que são os mais inconstantes em termos de qualidade da tradução, vêm investindo mais na seleção e no treinamento de tradutores e no controle de qualidade das traduções, sobretudo em resposta a reclamações de consumidores e assinantes. O padrão das traduções feitas no Brasil aumentou significativamente. O que os espectadores nem sempre têm como saber é o que é feito aqui e o que não é – por exemplo, alguns canais são inteiramente traduzidos na Venezuela ou em Miami para toda a América Latina, e muitos DVDs vendidos no Brasil também não são traduzidos aqui.
Valores
Assim como não existe um mercado unificado, também não existem valores padronizados para remunerar a tradução para legendagem. Da mesma forma que acontece com todo o mercado de tradução, os preços dependem da relação oferta-demanda, do grau de especialização e experiência do tradutor e de quantos intermediários existem entre o tradutor e o cliente final.
Não é o Bill Gates que contrata os tradutores para traduzir o próximo Windows, nem o Dan Brown que procura tradutores em todo o mundo para seu próximo best-seller. Também não é o Spielberg que vem ao Brasil escolher um tradutor para seus filmes. São muitas as empresas e pessoas entre eles e nós – e os tradutores costumamos estar quase no fim da linha das etapas de produção e distribuição de qualquer material, inclusive os audiovisuais.
Naturalmente, quanto menos distância houver entre nós e quem encomenda o serviço de tradução – por exemplo, a distribuidora de determinado filme no Brasil ou a empresa que preparou determinado vídeo técnico – mais próximo conseguiremos cobrar dos valores sugeridos no site do Sindicato dos Tradutores.
Já quando o serviço é prestado para alguma produtora grande, contratada pelo cliente final para realizar uma série de serviços ligados à edição e distribuição e exibição do filme, entre eles a tradução, a produtora absorverá a maior parte do orçamento do cliente e oferecerá ao tradutor algo entre metade e um quarto dos valores sugeridos pelo Sintra. Mas há muita variação, pois cada produtora tem sua própria tabela, que pode levar em conta ou a duração dos filmes ou a quantidade de caracteres da legendagem, o grau de dificuldade do material, as línguas envolvidas e inclusive o nível de experiência do tradutor.
São muitas as variáveis e é impossível dar uma idéia precisa de quanto um tradutor dessa área ganha. Por um mesmo longa-metragem, pode-se ganhar de R$ 400 a R$ 1500, dependendo das condições. O prazo pode variar de 3 a 10 dias. Naturalmente, quanto maior a produtividade do tradutor, mais ele ganhará, então um tradutor mais especializado e experiente costuma ganhar mais – tanto sua cartela de clientes é maior quanto seu trabalho é mais eficiente.
O panorama atual
A indústria do cinema continua ativa, mas o número de títulos lançados não aumenta (ao menos significativamente) a cada ano. Portanto, trata-se de um mercado mais estabilizado, que não procura ativamente novos tradutores com muita freqüência.
O oposto ocorre com os mercados mais novos, de DVD, TV a cabo e filmes institucionais e técnicos. Eles continuam crescendo e buscando tradutores mais capacitados. A preocupação com a qualidade levou à proliferação de cursos instrumentais para tradutores, e hoje há uma grande oferta de cursos de legendagem, com propostas e objetivos diferentes. A indústria, por sua vez, tem dado preferência aos tradutores com alguma experiência ou, pelo menos, que tenham feito algum curso na área.
A tecnologia se desenvolve a um ritmo cada vez mais alucinado. Dez anos atrás, quase todos os tradutores especializados na área usavam *um* software de legendagem, disponível na versão “grátis porém horrenda” ou “profissional e caríssima”. Agora, surgem programas novos a cada ano, também com propostas diferentes. Um produtor de vídeo pode empregar um software caro para edição, enquanto seus tradutores trabalham com programas baratos ou até mesmo gratuitos (mas modernos e excelentes), que geram arquivos de formato compatível com o requerido pelos clientes. Portanto, uma das tarefas essenciais dos prestadores de serviços é se manterem a par das novas tecnologias e dos recursos disponíveis.
Vale ressaltar que não é imprescindível utilizar software específico para legendagem. São muitas as produtoras que preparam arquivos de texto para que seus tradutores trabalhem utilizando somente um editor de texto, como o Word. O ramo de cinema também não trabalha com software específico, e as traduções também são feitas em Word. Contudo, o tradutor que domina algum software tem acesso a uma gama maior de clientes, sobretudo os que lidam com tecnologias mais novas. Hoje em dia, um tradutor que quer entrar no mercado de legendagem terá muito menos oportunidades se não dominar um software de legendagem.
As tecnologias digitais também libertaram clientes e tradutores da restrição do espaço. Não é mais necessário estar próximo, para pegar e levar pilhas de fitas VHS e scripts em papel. Atualmente, o método de trabalho mais comum é à distância: o produtor gera uma cópia digital em baixa resolução do filme e a transfere para o tradutor via internet. Este também manda a tradução pronta (em formato de texto) pela internet para o cliente. Portanto, a localização física do tradutor e do cliente deixou de ser relevante, e mesmo o processo de seleção pode ser realizado à distância.
Início de carreira
As grandes produtoras de DVD e TV a cabo – várias delas totalmente dedicadas à tradução audiovisual – têm há vários anos uma demanda crescente de serviço e estão sempre à procura de bons tradutores. A remuneração cai, mas há grande quantidade de serviço, portanto elas são um bom ponto de entrada para os profissionais que não tenham outros contatos em algum nicho mais bem remunerado. São um bom local para se aprender e se ganhar autonomia.
Pessoalmente, a julgar pelas experiências por que já passei, eu ganho mais ou menos o mesmo dedicando-me exclusivamente a prestar serviços para produtoras de vídeo do que para editoras ou para agências de tradução (três tipos de clientes notórios pela grande oferta de serviço e pela remuneração “fraca”). Sempre que surge a oportunidade de prestar serviços diretos aos clientes finais – ou a intermediários menores e mais especializados –, essa é minha escolha, e aí os valores recebidos se multiplicam.
Não é possível dizer se “o mercado de legendagem remunera bem ou mal”, pois como vimos não existe esse tipo de padronização. No meu entender, o mercado de legendagem é uma amostra fiel do que é o universo da tradução como um todo: há clientes melhores e piores, tradutores melhores e piores, projetos menos e mais interessantes. Cabe a nós irmos abrindo caminho no mercado, fazendo contatos, nos fazendo conhecer, procurando melhorar, e assim buscarmos os melhores projetos e clientes. Muito vem com tempo e dedicação.
Estamos sempre batendo em portas, e nem sempre as que se abrem são as que imaginávamos. É preciso ter uma boa dose de jogo de cintura. Quanto mais ferramentas tenhamos à mão e quanto mais técnicas dominarmos, melhor estaremos preparados para agarrar uma oportunidade quando esta surgir.
Em síntese (ou FAQ):
É possível viver de legendagem?
Sim.
Se bem que o que se considera “viver bem” é uma questão pessoal e intransferível. Além disso, a maioria dos tradutores é “multitarefa” e não fica restrita a um só mercado de tradução – é o meu caso.
Não.
Trabalha-se pela internet. Os tradutores interagem entre si e com os clientes através de diversos recursos virtuais. Não conhecer nem fazer bom uso desses recursos significa perder a maioria das oportunidades de trabalho.
É preciso algum tipo de certificado ou estudo formal para atuar no mercado?
Não.
Os clientes querem desempenho e qualidade. Ao examinarem seu currículo, querem saber se você tem alguma experiência, e é claro que ter estudado e se preparado ajuda muito. Ter feito um curso de legendagem significa que você já tem alguma experiência prática, e isso costuma ser o suficiente para o potencial cliente oferecer um teste. O que conta mesmo, na prática, é o teste e sua primeira experiência de trabalho com aquele cliente. Se for satisfatória, não importa se você tem quatro PhDs ou Supletivo. Portanto, prepare-se para atender com qualidade às demandas do mercado – as quais, no caso da legendagem, são majoritariamente práticas.
6 de março de 2007
Erros de tradução nas legendas de canais pagos
O contexto desta discussão:
- No dia 19 de janeiro foi publicada uma matéria no site Séries Etc. intitulada "Erros de tradução, digitação, português, falta de legendas: é difícil entender as séries na TV paga". A matéria critica, não sem uma boa dose de razão, problemas sérios em alguns canais de TV a cabo, entre eles a falta de legendas ou a presença de legendas ou palavras em espanhol, além dos sempre destacados erros de tradução. Contudo, muitos dos erros não são exatamente erros e muitas das soluções apresentadas como "tradução adequada" são traduções muito ruins.
- Eu tomei conhecimento dessa matéria no fórum Tradutores/Intérpretes BR do Orkut, onde o tema foi debatido e vários exemplos de "erros" foram dissecados. A tônica aqui foi mais no sentido de desqualificar os argumentos do autor da matéria (afinal, é um fórum de tradutores), mas as críticas são bem fundamentadas.
- Ao mesmo tempo, a matéria foi divulgada no Legendar.com.br, desta vez um site/blog de profissionais da área de legendagem, que elogia a matéria pois ela demonstraria indiretamente a necessidade de canais e produtoras melhorarem as condições de trabalho e o controle de qualidade das traduções e valorizarem mais o espectador.
- Depois, no dia 24 de janeiro, foi publicada outra nota no Séries Etc. em que André Braga, sócio da Bravo Filmes, responsável por uma das séries cujas tradução foi criticada, pede desculpas, justifica algumas das dificuldades e explica um pouco sobre as questões técnicas da legendagem.
Eu concordo com parte todas essas posições e me manifestei no fórum do Orkut e no Legendar. Aqui discorro um pouco mais sobre essa questão.
Em princípio, é ótimo que críticos e espectadores se manifestem para reclamar da má qualidade dos serviços oferecidos. Em canais dedicados à exibição de programas estrangeiros, a tradução deveria ser um dos serviços mais valorizados. Não é. Todos estão sempre apertando os cintos e cortando custos, e o custo da tradução é relativamente fácil de cortar, sobretudo num mercado com alta demanda de serviços e uma oferta muitíssimo maior de tradutores.
Não que exista um número tão grande de tradutores especializados em legendagem, com grande domínio das técnicas - lingüísticas e tecnológicas - envolvidas na elaboração de legendas, com alto nível de proficiência na tradução dos mais variados assuntos e com a capacidade de traduzir algumas horas de programas por semana. Nenhum desses aspectos é fácil ou intuitivo e são necessários anos de prática até se atingir o nível de técnica, qualidade e velocidade exigido pelos clientes mais relevantes - aqueles que pagam muito bem, são muito exigentes e, se satisfeitos, fornecem muito trabalho a seus tradutores. Aliás, se são poucos os tradutores desse nível, também são poucos os clientes desse tipo. O mais comum são canais e produtoras com grandes volumes de serviço, muita pressa, a necessidade de cortar despesas e com dezenas de tradutores iniciantes batendo na porta, ansiosos para trabalharem com filmes e séries. Se estes não são muito bem preparados e aqueles não se preocupam muito com a qualidade, já sabemos que resultado esperar.
O espectador reclama com toda razão quando detecta problemas como alguns dos citados na matéria do Séries Etc., por exemplo:
Sincronia:
"Criminal Minds", no AXN, apresentou legendas fora de sincronia, ultrapassando o programa e exibidas durante o comercial.
Dependendo do canal, às vezes ocorre da imagem ser transmitida de um país e a legenda de outro, via satélite, e serem exibidas em sincronia num terceiro lugar. É uma estratégia altamente propensa a erros, a mesma que às vezes resulta em programas inteiros legendados em espanhol aqui no Brasil.
"Portunhol":
Programa "Inside the Movies", no Warner Channel, sobre o filme "Menores Desacompanhados"
Legendas em "portunhol": "Un pouco da personalidade do outro". // "E de estarnos juntos, fez com que ficássemos mais unidos". // "Daí o bonito de ver com fazem parte de una família, mesmo sem terem uma."
Como explica o sócio da Bravo Filmes na segunda matéria do Séries Etc., para economizar tempo refazendo a sincronia das legendas, é comum aproveitar uma tradução já feita, no caso em espanhol, e substituir o texto em espanhol pela tradução em português. Se bem revisada, a prática é comum e eficiente. O problema é quando falta revisão, inclusive ortográfica. E falta de correção ortográfica é um erro gravíssimo em qualquer contexto.
(Inexplicável:)
"Grounded For Life", na Fox
Fala Original: Get that done!
Tradução Adequada: Termine isso!
Tradução do Canal: Pegue a boneca!
(Detalhe: os personagens estão no meio da rua carregando canos e não há nenhuma boneca na cena.)
A tradução provavelmente foi feita de ouvido, sem script para acompanhar, e o tradutor entendeu "doll" em vez de "done". O lapso de audição não seria tão sério se o tradutor não tivesse cometido o erro, muitíssimo mais grave, de não desconfiar de que aquilo não faz sentido no contexto. De fato, nada justifica isso.
Há ainda erros mais bobos aos quais todos estão sujeitos, que idealmente deveriam ser identificados e consertados na revisão, desde que a tradução em geral seja boa e a revisão também.
Porém, o texto das legendas sofre muitas alterações com relação ao original para que não ultrapasse um número máximo de caracteres por segundo, isto é, para garantir que o espectador médio consiga ler todo o texto da legenda antes que ela desapareça. Uma tradução perfeita e completíssima pode resultar em um filme incompreensível, pelo simples fato de que ninguém consegue ler as legendas a tempo. Sempre é necessário sintetizar e simplificar o texto nas legendas - às vezes, drasticamente. Esse pode ser o motivo das adaptações feitas em um dos exemplos criticados como erro:
"The New Adventures of Old Christine", no Warner
Fala Original: Did mom and dad took you to church?
Tradução Adequada: A mamãe e o papai te levavam à igreja?
Tradução do Canal: Papai e mamãe iam à igreja?
Fala Original: No, they dropped me off on the way to bingo.
Tradução Adequada: Não, eles me deixavam lá no caminho do bingo.
Tradução do Canal: Não, eles iam jogar bingo.
Finalmente, há casos em que não há nada de errado na tradução, mas o crítico discordou dela porque ela não corresponde à tradução literal e macarrônica que ele considera "adequada":
Episódio de estréia de "Prison Break", na Fox
Fala Original: Specially since we don’t have a pot to piss in, thanks to Abruzzi’s magically desapearing plane.
Tradução Adequada: Principalmente, desde que não temos nem onde urinar, graças ao avião do Abruzzi que magicamente desapareceu.
Tradução do Canal: E não temos nem um centavo, graças ao avião do Abruzzi que sumiu.
Como eu disse, o espectador tem o direito de reclamar e de exigir um bom serviço. Porém, para que a reclamação surta algum efeito, ela deve (i) estar bem embasada e formulada e (ii) ser encaminhada ao responsável por aquele serviço. E, se bem o tradutor que cometeu os erros tem uma parcela de culpa, no contexto do serviço o responsável é o cliente (o canal, a distribuidora, a produtora), pois foi ele que selecionou o tradutor, avaliou o serviço, comprou os direitos autorais e assumiu a responsabilidade por aquela exibição. Críticas pouco fundamentadas e mal direcionadas podem, no máximo, causar graça, mas dificilmente ajudarão a melhorar a qualidade das traduções.
Para fundamentar bem a reclamação, é preciso tomar nota de onde e quando aquele programa foi exibido (um mesmo material recebe várias traduções diferentes, dependendo da produtora contratada e do detentor dos direitos autorais, de modo que a tradução para o cinema será diferente da tradução para o DVD, o VHS e a TV, na maioria das vezes realizada por pessoas diferentes), reparar bem no contexto (as imagens, a cena, o que está acontecendo além daquela frase em particular) e levar em consideração que a legendagem não corresponde à tradução integral dos diálogos do filme. É uma adaptação desses diálogos para um formato muito específico, que permite ao espectador acompanhar o programa com som original, ler a tradução e ainda assim entender o que está acontecendo e curtir o programa -- o que não é nada trivial.
* * *
Aproveitando o tema: tenho coletado ou recebido perguntas sobre a prática e o mercado de legendagem e estou organizando um texto de perguntas e respostas, que espero publicar em breve. Portanto, se tiver alguma pergunta, aproveite para me mandar e eu a incorporo a esse post futuro.
10 de março de 2006
Títulos de filmes
Pois finalmente saiu um artiguinho na imprensa - pequeno, simples e simpático - que explica como são criados os títulos de filmes estrangeiros no Brasil.
Criados, não traduzidos. Porque o tradutor não tem nada a ver com essa questão. Não por acaso, nem se faz menção ao tradutor no artigo.
Sorry... Qual é o nome mesmo?
por Meriane Morselli
Isso mesmo: os títulos não fazem parte da nossa jurisdição. Muitas vezes, nem sabemos qual é ou será o título de um filme que estamos traduzindo. Portanto, livre os pobres tradutores de filmes da culpa pelos títulos esquisitos, está bem? :o)