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15 de abril de 2015

Legendagem e literatura

A turma do Ponte de Letras me convidou para publicar um texto nesse excelente blog sobre tradução literária. Dê uma passadinha lá para ler "Parece literatura, mas sem o livro", que traça algumas semelhanças e diferenças entre a tradução literária e a legendagem de filmes.

12 de outubro de 2012

Entrevistas

Fico meio acanhada de publicar isto no meu próprio blog... Mas enfim, acho que há informações úteis para outros tradutores ou estudantes, opiniões e recomendações que eu faço muito em redes sociais, e-mail, aqui no blog, etc.

Então aqui vai, não (só) como autopromoção, mas esperando que seja útil para alguém.

A revista Tradução & Comunicação, editada pela universidade Anhanguera, publicou uma entrevista comigo feita pelos doutorandos Thaís Collet e Rafael Matielo. Eu participei da banca do Rafael quando ele escreveu uma dissertação sobre legendagem, e a Thaís foi minha aluna de legendagem na PUC-Rio.

A entrevista está aqui.

Aproveito para mencionar outra entrevista, que eu não cheguei a divulgar aqui. Foi feita pelo Petê Risatti, que conversou com diversos tradutores -- vale a pena ler todas as conversas!

A conversa comigo está aqui.

25 de agosto de 2012

Tradução na Globo Universidade

A formação de tradutores e o mercado de tradução foram o tema de várias matérias publicadas na Globo Universidade. O foco foi sobretudo na PUC-Rio, onde eu estudei e leciono. São bem aprofundadas e ótimas para tradutores profissionais ou para quem ainda está planejando a carreira.

A matéria principal é em vídeo, mas o site da Globo Universidade traz alguns artigos complementares:

Matéria em vídeo sobre diversas especializações oferecidas na PUC-Rio

Artigo sobre o mercado de tradução

Artigo sobre interpretação

Artigo sobre o mercado de tradução audiovisual e literária

Artigo sobre tradução juramentada

Achei as matérias excelentes. Raramente uma reportagem na imprensa sobre tradução passa do mais básico. Mas o mercado de tradução está crescendo muito no Brasil e o profissional vem ganhando muita visibilidade.

Do ponto de vista pessoal, o mais incrível é que eu conheço praticamente todo mundo em todas as matérias! Uns foram meus professores, outros meus colegas e outros meus alunos. O mundo da tradução é uma enorme família, mesmo.

1 de julho de 2012

Autotradução: parte tradução, parte autoria

Fazia tempo que eu queria escrever um artigo/reflexão que não fosse sobre legendagem. Este assunto já estava nos rascunhos há muito tempo, mas foi só quando li outras coisinhas por aí que decidi juntar tudo.

Você sabe o que é autotradução?

Eu ouvi falar nisso quando durante o mestrado (2003-2005), pois minha colega Maria Alice Antunes estava pesquisando esse tema para seu doutorado.

Autotradução é a tradução que alguém realiza da sua própria obra original. Quer dizer: é um autor que escreve um texto e decide, ele próprio, traduzir para outra língua.

A Maria Alice passou alguns anos investigando quais seriam as diferenças e os limites, ou as sobreposições, entre os papéis do autor e do tradutor. Quanto um autor traduz a própria obra, ele age mais como autor ou mais como tradutor? Há como perceber isso no texto? E quais seriam, exatamente, essas diferenças?

Além de muito estudo teórico e de levantar muitos outros casos de autotradução literária pelo mundo (entre os mais notórios, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e Milan Kundera traduziram suas próprias obras), Maria Alice abordou, como estudo de caso, as autotraduções que João Ubaldo Ribeiro fez para o inglês de dois romances seus, Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. João Ubaldo morou muitos anos nos EUA e se considera falante bilíngue de inglês e português.

Durante meus dois anos no mestrado, eu adorei acompanhar a pesquisa dela e as trocas de e-mails com João Ubaldo, cujo humor variava bastante e que repetidas vezes disse que sofreu horrores para fazer essas traduções e que jamais faria isso de novo. Maria Alice fez uma análise comparativa dos romances traduzidos e ia fazendo a ele várias perguntas específicas, além de contar com outros depoimentos dados por ele, inclusive um artigo que ele escreveu para a ATA sobre a experiência.

Mas o melhor foi quando a Maria Alice me pediu para fazer a revisão do texto final de sua tese. Passei vários dias debruçada sobre todo esse estudo, que é interessantíssimo e muito revelador. O texto é muito bem elaborado e essa leitura me marcou bastante.

Não vou resumir um trabalho tão amplo e complexo. Basta dizer que nada é bem o que parece e os limites não são nada claros. E, em muitos casos, aquilo que o autor/tradutor declara quanto às suas intenções, sua postura consciente e seus procedimentos não bate com o que é observado no texto, em uma análise aprofundada.

A tese de doutorado da Maria Alice Antunes está disponível aqui.
A tese foi transformada em livro, que está aqui.
Há também um grande número de artigos menores que foram sendo publicados durante e após o doutorado, como este aqui, que faz um relato mais abrangente e histórico sobre autotradução, e este aqui, que traz um pedacinho do estudo de caso.

 Agora outros desdobramentos que me fizeram pensar ainda mais.

Recentemente, nem sei bem como, eu vim parar neste artigo de Olafur Gunnarsson, autor e tradutor islandês. Ele fala um pouco sobre a tradição literária islandesa, os gostos atuais dos leitores (que preferem mais literatura americana traduzida do que a sua própria, como costuma acontecer no Brasil também) e um pouco sobre a mentalidade da sociedade islandesa. Se você ler em inglês, leia! É um artiguinho delicioso.

O que mais me intrigou foi ele dizer que se sente mais temeroso e se autocensura ao escrever em islandês. É uma sociedade pequena, em que todo mundo se conhece, e parece que há gente que tem o hábito de vestir carapuças e achar que personagens e fatos relatados em histórias de ficção dizem respeito a si própria, e vai tirar satisfação com o autor.

Por isso, Gunnarsson se sente mais livre quando traduz do inglês para o islandês. Como o texto não é dele, ele não precisa se censurar ou ficar pensando se corre o risco de ofender alguém. Assim, se liberta e traduz com grande prazer. E eu tenho a impressão de sentir, nas entrelinhas, que ele se utiliza da sua prática e da sua posição de autor também nas traduções, não necessariamente sendo um tradutor submisso e temeroso com relação ao status do autor original.

E aí fica mais interessante ainda: como ele se sente mais livre adotando a identidade de tradutor, ele também escreve seus contos assim. Primeiro em inglês, que não é sua língua materna, e depois autotraduz o seu conto de volta para o islandês. Mesmo que o único texto publicado seja em islandês, ele se sente mais à vontade ao escrevê-lo fingindo que o texto veio de outro lugar.

Eu achei essa história absolutamente fascinante.

Para fechar, só mais um detalhe que encontrei e que corrobora o que Gunnarsson diz. Li o seguinte trecho num artigo do Open Culture, meu novo vício e o arqui-inimigo de quem tem prazo para entregar serviços, que comemorava o aniversário de Jack Kerouac:
He was born March 12, 1922 in Lowell, Massachusetts to French-Canadian immigrants. He grew up speaking the Quebec French dialect Joual, and didn’t learn English until he was six years old. “The reason I handle English words so easily,” Kerouac once said, “is because it is not my own language. I re-fashion it to fit French images.”
Quer dizer, é a mesma ideia: por sentir que o inglês não era totalmente a sua língua, ele não se sentia na obrigação de se prender muito aos seus rigores e limites. Achei fantástica a noção de que ele formava imagens em francês e depois moldava a língua inglesa para tentar descrevê-las.

Aliás, Gunnarsson traduziu Kerouac para o islandês e achou fácil e divertido.

Não sei exatamente que conclusões tirar disso, mas sinto uma enorme euforia ao ler esses depoimentos e experiências. Uma língua não é algo externo a nós, mas é algo que nos forma, que nos constrói, que molda a nossa forma de pensar e enxergar.

Eu me interesso também por estudos sobre bilinguismo, que têm insights interessantes sobre esse tipo de coisa. Ah, mas também gosto de neurolinguística... Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito.

Mas a questão é que sou bilíngue, aliás razoavelmente trilíngue, e passo praticamente todas as horas da minha vida com três línguas transitando pela minha cabeça, falando, lendo, escrevendo e transformando uma língua em outra. E, desde que comecei a ler e refletir sobre autotradução e sobre bilinguismo, esses insights (que às vezes nem são muito palpáveis) ficaram comigo e se fazem lembrar em diversos instantes do dia a dia. Tenho a impressão de que eu vivo me autotraduzindo, mesmo sem querer.

29 de abril de 2012

Estamos na revista 'Língua Portuguesa'

Acaba de sair uma edição especial da revista Língua Portuguesa intitulada "Tradução & Linguagem", que aborda o mercado de tradução no Brasil.

A Bianca Bold, minha sócia, e eu participamos em duas matérias da revista:

O artigo "Profissionais conectados" aborda o uso de redes sociais e outros recursos de internet por tradutores independentes. Bianca Bold é uma das entrevistadas, e conta um pouco de sua história e dá dicas para outros profissionais. O artigo é excelente para quem estuda ou trabalha com tradução. Clique aqui para ler a matéria no site da Bianca.

"As lógicas do audiovisual" aborda a tradução de materiais audiovisuais no Brasil, com ênfase em legendagem e dublagem, e é de minha autoria (Carolina Alfaro de Carvalho). Clique aqui para ler a matéria em PDF.

Aproveito aqui para corrigir dois erros que saíram nessa matéria, mas que não foram cometidos por mim:
  • O último quadro foi intitulado "As peculiaridades do mercado de TAV" e saiu com um erro de ortografia.
  • Lá no finalzinho, onde está o meu nome, consta a informação "ministra cursos de legendagem on-line na PUC-Rio", o que obviamente não faz sentido. Eu dou cursos online (à distância, portanto as aulas ocorrem no mundo cibernético e não em nenhuma cidade particular) e também dou cursos presenciais na PUC-Rio.
A revista Língua Portuguesa é excelente e merece ser assinada por todo profissional que utilizar o português como instrumento de trabalho (professores, comunicadores, jornalistas, tradutores, revisores e, enfim, pessoas que gostam de se comunicar bem e prezam a cultura geral). A publicação de um número especial sobre tradução, com artigos escritos por diversos profissionais da área, é muito bem-vinda e esperamos que tenha sido o primeiro de vários números - ou pelo menos várias outras matérias com foco nesse mercado.

11 de fevereiro de 2012

Artigos sobre tradução audiovisual

No fim de 2011, a PUC-Rio lançou um número especial da publicação Tradução em revista, n. 11, sobre tradução audiovisual. A revista conta com diversos artigos sobre tecnologia, legendagem, dublagem, legenda fechada, audiodescrição e traduções de fãs.

Eu considero imprescindível, para quem se interessa minimamente pelo assunto (nem que seja como "espectador com opinião"), o artigo da Sabrina Martinez, "Tecnologia digital, acessibilidade e novos mercados para o tradutor audiovisual". Ela traça um panorama da evolução tecnológica e as transformações da tradução audiovisual no Brasil, chegando aos reflexos da nova lei da acessibilidade e a recente polêmica sobre a maior preferência pela dublagem na TV a cabo. Pretendo passar a usar esse artigo nos meus cursos, e acho que qualquer um deveria ler esse texto para discutir esses assuntos com uma base maior de informações, transmitidas por quem trabalha e estuda tradução audiovisual há muitos anos.

Aproveitando este assunto: eu recebo pedidos constantes de alunos de cursos de tradução para ajudar com bibliografia sobre tradução audiovisual para trabalhos de conclusão de cursos e monografias. Às vezes fico surpresa quando me dizem que não têm bibliografia para estudar, considerando que o que há por aí hoje em dia daria para passar uma vida estudando -- o que eu acho difícil mesmo é justamente selecionar um recorte relevante.

Então, vou listar aqui alguns recursos e, com o tempo, pretendo expandi-los.

O periódico Cadernos de tradução, publicado pela Universidade Federal de Santa Catarina, e a revista Tradução & comunicação, da Anhanguera (ex-Unibero), não publicaram (que eu saiba) um número especial sobre tradução audiovisual, mas quase sempre há algum artigo sobre o tema em cada número. É preciso garimpar um pouquinho, mas é nisso que consiste o trabalho do pesquisador... ;-)

As duas maiores editoras especializadas em tradução, Saint Jerome e John Benjamins, têm números dedicados ao tema.

A publicação canadense Meta lançou uma edição especial sobre tradução audiovisual em 2004, com artigos diversos de ótimos pesquisadores do tema. Agora no início de 2012 deve sair mais um número especial, que espero poder divulgar em breve.

A nova edição especial da Meta será editada por Jorge Díaz-Cintas, tradutor e pesquisador com uma enorme lista de publicações sobre o tema.

Outros autores onipresentes neste campo de estudo, e que é interessante acompanhar, são Yves Gambier, editor do número da Meta de 2004 e da excelente coletânea (Multi) Media Translation, disponível no Google Books -- o texto introdutório, mesmo tendo mais de 10 anos, continua atualíssimo; Patrick Catrysse; Henrik Gottlieb; além de, no Brasil, Vera Lúcia Santiago Araújo e Eliana Franco.

Autores bons há muitos, mas infelizmente poucos mantêm um site e uma lista atualizada de publicações.

Finalmente, além do que eu já publiquei e apresentei sobre o tema (há pouco disponível online) e do que escrevo neste blog, minha maior contribuição para a área foi minha dissertação de mestrado. Aliás, vale lembrar que as principais universidades do Brasil mantêm catálogos online de trabalhos acadêmicos e permitem o acesso digital a muitos deles.

Este foi só um primeiro apanhado geral. Caso você conheça alguma outra publicação sobre tradução audiovisual, principalmente se estiver disponível online, por favor me informe em um comentário para que eu confira e aumente esta lista. Espero que seja útil!

16 de novembro de 2011

O foco no cliente

A profissionalização da tradução, ao longo das últimas (várias) décadas, passou primeiro pelo estágio de definição e consolidação do campo de estudo, com foco em teorias e metodologias de ensino. Mais recentemente houve um esforço para aproximar mais os profissionais formados em tradução das diversas realidades do mercado de trabalho, incluindo, além das reflexões teóricas e de muita prática, o treinamento com tecnologias atuais e informações de cunho empresarial e financeiro.

Temos hoje uma grande quantidade de profissionais bem preparados, seja formados ou especializados em tradução, que se aperfeiçoam continuamente através de cursos, conferências e a febre do momento, os webinars.

Mas um lado da equação em que se pensa muito pouco, do ponto de vista da educação, é quem solicita traduções. O tradutor treina para dominar seu trabalho, é ensinado a não aceitar preços baixos, a exigir prazos razoáveis, a cobrar taxas de urgência, a usar ferramentas, a assinar um contrato com o cliente antes de começar o serviço. Ótimo. Quando somos procurados por um cliente que valoriza o nosso trabalho e quer qualidade, o relacionamento é harmonioso. Quando quem nos procura demonstra nem perceber a diferença entre o nosso serviço e o Google Translate, ficamos até felizes quando o serviço não acontece. E, se vemos uma tradução ruim publicada (em site, livro, filme, manual, o que for), atribuímos parte da responsabilidade sobre esse serviço ruim ao próprio cliente, que não soube ou não quis contratar um serviço decente e pagar o preço justo.

E por acaso todo cliente nasce sabendo? É claro que não. As empresas dedicadas a intermediar traduções têm padrões de custo-benefício que podem restringir os valores pagos e até comprometer certas práticas conscientemente, mas em geral entendem de tradução. Não confundiriam tradução com interpretação, nem legendagem com dublagem. Em geral. Mas uma imensidão de clientes que não vive em contato com o mercado de tradução, sejam pessoas físicas ou jurídicas, pode ser simplesmente ingênua. Há quem procure preço baixo, há quem realmente ache que ter feito um curso de línguas baste, há quem nunca ouviu falar em curso de tradução. Ora, se quem hoje é tradutor profissional precisou aprender essas e muitas outras coisas, muitos de nossos clientes precisam aprender isso também.

Nós não temos por que esperar passivamente pelo cliente ideal. Aliás, não podemos nos dar a esse luxo no panorama atual de tradutores automáticos gratuitos na rede, agências que cobram valores irrisórios e a empolgação em torno das práticas de crowdsourcing e fansubbing, que pregam o amadorismo como solução para as necessidades do "mundo globalizado" (haja redundância nessa expressão...).

É importante educarmos os clientes também, e não só esperando que se deem mal usando o Google Translate e voltem com o rabo entre as pernas. Se eles conhecerem melhor o nosso mercado e os detalhes do nosso trabalho, não só vão saber avaliar melhor o tipo de serviço de que precisam como vão nos valorizar mais, também. Aliás, apenas o fato de conhecer de perto alguma coisa já leva automaticamente a mais empatia e respeito. Quer ver só? Veja esta lista e me diga se você não valoriza um pouco mais estes profissionais, a maioria deles indispensável (e se não agradeceu pelo emprego que tem).

Naturalmente, não existem cursos de formação para gente que porventura precise de serviços de tradução. Mas há bastante material na internet. Basta recomendar alguns dos recursos sugeridos abaixo para clientes em potencial ou divulgá-los sempre que possível. Aliás, tudo o que serve para educar clientes se aplica a nós também. Um tradutor inexperiente ou sem familiaridade com alguma especialização tem dificuldade em explicá-la a seus clientes em potencial, o que é perceptível. Além disso, saber fazer algo é diferente de saber explicar para quem não é da área. Portanto, estas sugestões são extremamente úteis também para nós, tradutores profissionais. O que esperamos do cliente ideal necessariamente passa pelas melhores práticas de tradução, que nós devemos dominar.
Com certeza há muito mais por aí. Se você conhece um bom recurso pensado para clientes de tradução, sugira-o nos comentários para que eu o avalie e acrescente a esta lista.

17 de dezembro de 2010

Motivação versus Procrastinação, e os respectivos resultados

Nos últimos meses, muitas coisas que tenho feito e visto me fizeram refletir sobre produtividade, sobre o que motiva e o que atrapalha a nossa rotina de trabalho, e como tudo isso reflete na nossa imagem e nosso sucesso profissional. Basta ver as últimas entradas aqui no blog. Hoje vou reunir mais algumas reflexões e informações sobre isso.

Recentemente, concluí a tradução de um livrinho sensacional, que teve grande impacto em mim. Rework, escrito pela empresa de desenvolvimento de software 37 Signals. No site do livro é possível ler alguns dos capítulos em PDF.

Adorei fazer essa tradução, com a qual também aprendi muito. O livro vai ser publicado pela Sextante em algum momento em 2011, ainda não sei com que título.

Pequeno, com capítulos minúsculos, escrito em linguagem simples e direta, permeado de ilustrações, ele se destina a empresários ou gente que deseje começar um negócio, ou talvez nem isso. Mas é muito diferente de qualquer outro livro do tipo auto-ajuda empresarial que há por aí. Ele desmistifica muitas noções sobre negócios que vivemos ouvindo e diz umas boas verdades, mas sempre com muito bom senso e uma franqueza quase excessiva. Praticamente todos os assuntos abordados no livro podem ser aplicados a profissionais autônomos também, sobretudo aos tradutores que têm empresa. Eu me vi refletida em muitos capítulos -- ou vi meu passado, minha formação, empregos anteriores, colegas. Mesmo em situações típicas do dia-a-dia em um escritório, que não têm nada a ver comigo, eu vi ali parentes e amigos. Recomendo muito a leitura e posso garantir que ela vai ter impactos positivos sobre a rotina e o aspecto administrativo do trabalho de qualquer tradutor.

Há reflexões valiosas sobre a preparação e o lançamento de novos empreendimentos, divulgação, conceitos de negócios, uso de tecnologia, cooperação à distância, concorrência, e muito sobre produtividade e motivação. Não quero entregar o ouro aqui, mas muita coisa me marcou. Nem tudo é novidade, mas dito de uma forma tão eloquente, com ótimos exemplos reais, o texto acaba reforçando o que a gente no fundo já sabe, além de nos dar alguns merecidos tapas na cara. Por exemplo:
  • Tudo o que se faz, diz, escreve, cada telefonema, cada nota fiscal, cada email -- tudo -- é marketing.
  • Ser workahólico, virar noites e fins de semana, dormir pouco e comer mal, e ainda se orgulhar disso, no fim das contas é ser incompetente, desorganizado, atrapalhado. Trabalhar muito nada tem a ver com trabalhar bem.
  • Ter ideias brilhantes ou fazer grandes planos não é mérito algum; o que realmente faz a diferença é realizar de fato uma sucessão de pequenas boas ideias, diariamente.
  • As ferramentas atuais de interação revalorizaram a escrita -- emails, mensagens de texto, sites, blogs. A comunicação deve ser eficiente, clara, informativa. Escrever bem é fruto da clareza e da organização dos pensamentos; portanto, ao recrutar parceiros, dê preferência a quem escreve bem. (O que entre tradutores é importante ao quadrado!)
  • Quer ser imune à concorrência? Faça com que seu produto seja você mesmo, algo que só você é capaz de fazer, o seu jeito de ser, algo inimitável. Não apenas o resultado do seu trabalho, mas toda a experiência de se trabalhar com você. (Outra que se aplica mais ainda aos tradutores, em contraposição a empresários de outras áreas.)
  • Para se destacar e ter diferencial, compartilhe e ensine. Quanto mais as pessoas queiram fazer aquilo que você faz, do jeito que você faz, mais você se estabelece como líder.
  • Nosso grande inimigo são as interrupções; só rendemos quando conseguimos trabalhar durante um tempo sem nenhum tipo de interrupção, portanto é preciso programar períodos de trabalho assim.
  • O que impulsiona a produtividade é a motivação, e esta é fruto de diversos fatores, entre eles um ambiente propício, metas atingíveis e pequenos sucessos diários -- mais sobre esta questão em seguida.
E muito, muito mais. De novo, recomendo a leitura.

Também recentemente, participei de uma convenção para pequenos empreendedores organizada pela prefeitura aqui de Toronto. Confesso que de início não dei muito crédito -- uma coisa assim pública, de graça... sei lá, né? Mas foi excepcional. Palestras ótimas, começando com um dos diretores da Google no Canadá, e com muitos painéis sobre mídia digital, ferramentas de marketing e negócios, etc. Em um salão cheio de computadores, voluntários ajudavam quem quisesse aprender e abrir contas em Twitter, LinkedIn e outros sites de networking. Ao fim do dia, saí de lá com energia total para melhorar minha produtividade, selecionar melhores clientes, fazer parcerias mais produtivas.

E nem sei dizer por que, mas tenho a impressão de que só essa motivação, essa vontade de ser eficaz, de reforçar as coisas que eu claramente venho fazendo direito e corrigir o que não está legal, já gera resultados positivos, mesmo que a gente não faça nada muito notável. Acho que só o fato de estabelecermos certas prioridades ou termos certos aspectos mais claros na cabeça já se traduz em produtividade -- e eficácia e produtividade se traduzem em elogios, serviços melhores, mais dinheiro, mais tempo para fazer o que a gente gosta, e tudo isso produz mais motivação, é claro.

Falando em motivação, descobri hoje, através de um link no Twitter, esta palestrinha belamente ilustrada sobre os resultados de uma pesquisa a respeito de motivação -- que tipo de recompensa gera bons resultados, nos faz vencer desafios. Estilo TED Talk, curta e direta. De novo, no fundo não diz nada que a gente já não saiba ou intua, mas ver isto me encheu de entusiasmo:



Não é a mais pura verdade? Já presenciei na pele dilemas, debates e vivências sobre escolhas profissionais pouco apaixonantes com uma enorme compensação monetária versus escolhas que dão mais satisfação pessoal e profissional com pouco retorno financeiro, e cada vez mais sou partidária incondicional da segunda opção. Até porque um trabalho que conte com uma boa dose de motivação, que seja prioridade, que faça sentido, inevitavelmente gera retorno financeiro também -- e, como bem mostra o vídeo, a partir de certo ponto um retorno financeiro maior por si só não aumenta a motivação, muito pelo contrário.

Há também uma diferença crucial nas diferentes posturas que eu observo em aspirantes a tradutores -- por exemplo, em alunos dos meus cursos ou nos inúmeros e-mails que recebo de estudantes de tradução pedindo todo tipo de opinião, conselho ou ajuda.

Há gente que, ao primeiro contato, antes mesmo de tentar traduzir alguma coisa, logo demonstra estar afoita por saber quanto vai ganhar por mês. Tem que ser muito. Tem que ser já. Em geral, essas mesmas pessoas querem saber que áreas são fáceis de entrar, têm serviço molezinha e salário alto garantido. Não é raro ouvirmos alguns mitos bem disseminados por aí, como o de que os tradutores juramentados ganham somas abissais de dinheiro por mês traduzindo umas bobagens tipo carteira de motorista, ou que bom mesmo é legendar pornografia, pois só tem gemido e você ganha uma nota por minuto de filme. Sim, claro. Deve ser por isso que tantos dos meus colegas são magnatas da indústria da pornografia, e meus amigos tradutores juramentados moram em iates, e só eu não me dei conta disso ainda. Enfim, o fato é que quase sempre quem tem esse tipo de preocupação como foco central ao planejar a carreira não é quem vai passar meia hora imerso em dicionários tentando chegar à tradução perfeita para uma expressão, nem quem costuma "perder tempo" se dedicando a cursos longos e aprofundados, nem iniciar na profissão disposto a ralar muito por pouco dinheiro no começo. Não é por acaso que não são essas as pessoas que tendem a alcançar o tipo de sucesso profissional que alvejavam.

Outros, os que me chamam a atenção positivamente, querem se aperfeiçoar. Querem estudar mais, ler mais, fazer mais exercícios, querem que você recomende outros cursos. Existe uma paixão por trás do que fazem, além da busca incansável pelo aprimoramento técnico -- que é algo bem mais maçante e menos emocionante do que a "paixão por línguas". Muitas vezes eu mantenho contato com essas pessoas, e é com prazer que vejo o sucesso que alcançam na profissão. Viram ótimos colegas. E o interessante é que muitas vezes se surpreendem, acham que tiveram sorte ou não pensam que fizeram nada demais. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Mas agora que eu tenho a perspectiva do docente, a diferença é muito clara. As pessoas assim são minoria, sim, e decolam porque têm a motivação impulsionada pelas prioridades certas, as quais as levam a não medir esforços para se aprimorar. Elas embarcam na profissão tendo como objetivo serem excelentes profissionais durante toda a vida, e não traçando como meta uma poupança recheada de dinheiro e uma aposentadoria precoce. A diferença entre esses valores é gritante.

Para finalizar, chego ao nosso pior inimigo: a procrastinação. Quem não sofre disso que atire a primeira pedra. A gente precisa passar o dia inteiro conectado, fácil de ser encontrado por clientes e colegas, antenado, precisamos responder rapidamente a emails, precisamos estar por dentro de notícias e debates, vamos lá ajudar alguém a solucionar uma dúvida no Facebook e nos deparamos com um álbum de fotos da viagem, aí alguém ri da tradução em um vídeo no YouTube... 1h45 depois, você se pergunta por que é mesmo que está assistindo o terceiro episódio antigo dos Trapalhões. E o serviço está atrasado.

Sem falar daquela segunda-feira de manhã, quando você respira fundo e abre os arquivos da próxima revisão de 35 páginas de um texto sobre química, e subitamente aquele é o momento ideal para organizar a sapateira por cores ou limpar todos os vidros da casa, antes que fiquem muito sujos. (Ou atualizar o blog...)

Às vezes a procrastinação é mais descarada, às vezes fica camuflada de pesquisa ou se confunde com a hora do cafezinho. De qualquer forma, se formos sinceros, todos nós sabemos que enrolamos mais do que deveríamos, que muitas vezes perdemos o controle sobre o tempo de descanso. Aí bate a culpa e trabalhamos até as 3h da manhã, pulamos refeições. E, quando vamos ver, caímos no ciclo vicioso do workaholismo ineficiente, que pode acabar comprometendo a qualidade.

Foi justamente quando eu estava pensando sobre esses assuntos que me deparei com este artigo, sobre as razões evolutivas, neurológicas e comportamentais por trás da procrastinação, e por que ela parece nos sabotar de formas tão eficazes. Ele traz algumas dicas para enganarmos nosso próprio cérebro, ou ao menos não nos deixarmos enganar. Outra leitura que vale muito a pena.

Esse texto cita Dan Ariely, um estudioso do comportamento humano associado à economia que já deu palestras ótimas no TED. Acabo de comprar o livro de autoria dele chamado Predictably Irrational. No site dele há links para podcasts que ele fez sobre os vários capítulos. Ainda não sei bem como relacionar tudo isso ao universo da tradução, mas toda essa discussão tem me atraído imensamente e sinto que ainda vai me trazer algo de útil -- nem que sejam boas reflexões e recomendações de leitura.

Agora, ao trabalho!

18 de outubro de 2010

Matéria sobre legendagem de séries

Saiu ontem na Folha de S. Paulo uma matéria sobre as produtoras de vídeos que traduzem séries americanas para a TV a cabo.

Os prazos e os procedimentos para a tradução e a exibição dos programas estão cada vez mais ágeis, e a matéria relata alguns dos métodos usados pelas produtoras.

Leitura atual, informativa e importante para estudantes e tradutores interessados na área de legendagem:

Folha.com - Ilustrada - 17/10/2010
Chegada mais rápida de séries americanas acelera mercado de tradução
Lúcia Valentim Rodrigues

Agradeço à Leonor Cione pelo envio da matéria.

30 de setembro de 2010

Dia do Tradutor e recomendação de livro

No dia 30 de setembro, comemoramos o Dia do Tradutor -- data do nosso patrono, assim como dos secretários, São Jerônimo. Ele traduziu a Bíblia para o latim, na versão que ficou conhecida como vulgata. Quer saber mais?

Muitos estão comemorando a ocasião com palestras e outros eventos, e o Fabio Said está oferecendo um desconto no livro Fidus interpres: a prática da tradução profissional, muito interessante sobretudo para estudantes e profissionais iniciantes. Aproveite!

28 de setembro de 2008

"O caminho das legendas"

Esta notícia está uns dois meses atrasada, mas antes tarde do que nunca.

Fiquei feliz em ver a matéria sobre os bastidores da legendagem publicada na Revista da TV do jornal O Globo, em agosto. A autora é a Elizabete Antunes.

Coisa rara de se ver, a reportagem enfoca as produtoras cariocas responsáveis por boa parte dos programas legendados que o Brasil assiste nos canais de TV a cabo. Os tradutores participam também, é claro, mas o fato do foco serem as produtoras dá uma perspectiva muito mais real. Afinal, são as produtoras que contratam os tradutores -- os materiais fornecidos, as normas e os padrões impostos, a revisão, a remuneração ficam a cargo delas.

A matéria mostra bem essa integração entre tradutores e produtores. Aliás, dizer só "produtores" também é reducionista, pois em uma produtora trabalham engenheiros de som e vídeo, programadores e outros profissionais (dos quais relativamente poucos lidam com línguas e textos). Além disso, a relação de trabalho mais direta é entre o tradutor e o produtor, mas este por sua vez está prestando um serviço para o canal ou a distribuidora -- que passa a ser o cliente indireto do tradutor também -- e vale lembrar que o público-alvo dessa turma toda é outro, bem diferente: é o pessoal que está no sofá, comendo pipoca e querendo rir e chorar vendo filmes e programas (rir e chorar por causa do conteúdo, não da qualidade da tradução, é claro). É justamente uma integração bem-sucedida entre todos os profissionais que interagem nos bastidores que vai garantir uma boa qualidade no final do processo.

Vale lembrar que a matéria enfoca apenas um recorte do que é o mercado de legendagem. O público repara muito nas legendas da TV, é claro, mas o universo da legendagem é muito maior do que isso.

Clicando na imagem abaixo dá para ler a matéria toda.

29 de abril de 2007

God’s Secretaries: The Making of the King James Bible

de Adam Nicolson, publicado pela Harper Collins.

Esta obra de 270 páginas, com ilustrações, descreve o contexto histórico, político, social e religioso que levou à elaboração da Bíblia do rei Jaime I (King James’ Bible), a tradução mais marcante da Bíblia. Até os dias de hoje esta é a versão mais citada e recitada da Bíblia em língua inglesa, entre as mais diversas denominações protestantes.

Esta Bíblia é algo fascinante: traduzida entre 1604 e 1611 (enquanto Shakespeare encenava algumas de suas peças mais significativas), ainda não foi superada por nenhuma outra das muitas versões mais recentes; é tão poética e sonora que muitos recitam trechos longos de cor (estádios inteiros no mundo todo, inclusive no Brasil, repetem uma longa passagem do Apocalipse sob o comando do vocalista do Iron Maiden, e quantos não decoraram as passagens que Samuel L. Jackson declama antes de assassinar suas vítimas em Pulp Fiction?); em nenhuma outra língua alcançou-se um feito à altura, de modo que os tradutores volta e meia nos vemos em palpos de aranha para traduzir os trechos em poesia recorrendo a diversas traduções em prosa em português.

O livro de Adam Nicolson, claramente uma exultação à Bíblia do rei Jaime, esmiúça as razões, os objetivos, as pressões e os processos que culminaram em seu texto e apresenta exemplos de opções conscientes de tradução segundo os interesses do rei e da grande comissão contratada para atender ao seu desejo. Um prato cheio para as diversas vertentes teóricas de literatura e tradução que investigam as influências ideológicas por trás de decisões tradutórias, representadas por Lawrence Venuti, André Lefevere, Susan Bassnett e José Lambert, entre outros.

Uma ressalva importante: o livro não é sobre tradução, não faz menção a nenhuma linha teórica específica e dedica poucas páginas ao processo de tradução da Bíblia e a comparar trechos com outras versões. O foco é o momento histórico peculiar em que ela foi produzida, que vai sendo preenchido com os personagens envolvidos, suas vidas e interesses. Nesse sentido, confesso que a leitura foi um pouco frustrante: como eu ansiava por conhecer os segredos íntimos do texto traduzido da Bíblia, li boa parte do livro construindo um clímax que se passou em pouquíssimas páginas, retratado como apenas um dos componentes da intrincada narrativa histórica.

Mas a história é absolutamente fascinante. Numa Inglaterra com um estado-igreja já separado do Vaticano mas que manteve a estrutura hierárquica e simbólica da Igreja Católica e que começava a testemunhar a eclosão de guerras religiosas na Europa continental, Jaime, escocês de modos rudes, filho da católica Mary – aprisionada quando ele era criança e morta anos depois – e educado por presbiterianos radicais, é nomeado rei. Seus passatempos eram caçar, escrever tratados (foi o primeiro rei a ter sua obra reunida e publicada em muitos volumes) e sentar-se para discutir acaloradamente passagens bíblicas por horas a fio com representantes de opiniões opostas. Ao chegar à Inglaterra, foi logo assediado simultaneamente pelos puritanos para que extirpasse os resquícios católicos da Igreja Anglicana e instaurasse uma autêntica república calvinista, pelos católicos para que se reconciliasse com o Vaticano, e pelos anglicanos para que não pusesse a perder todo o trabalho de Elizabeth I, que os fixara no poder eclesial inglês. Não se sentia à vontade com nenhuma das três posições, sobretudo com a puritana, que significaria o fim da monarquia, mas percebeu a oportunidade de tentar amalgamar todas essas vertentes sob um estado culto, religioso e tolerante. Tratou então de manter afastados os integrantes extremistas dos três movimentos e reuniu os demais, os moderados que ansiavam por cair nas graças do rei. Essas reuniões deram origem à ordem de providenciar uma nova versão da Bíblia, à altura da próspera sociedade jacobina.

Circulavam então uma tradução do luterano William Tyndale, produzida durante sua fuga pela Europa e interrompida com sua morte, e outras duas ou três aprovadas pela Igreja Anglicana que eram versões “corrigidas” daquela, além da chamada Bishop’s Bible, feita durante o reinado de Elizabeth e usada como Bíblia oficial, e a Bíblia calvinista de Genebra, anti-monarquista e repleta de fortes notas explicativas, utilizada em privado pelos puritanos. Todas elas serviram como fontes oficiais de referência para os tradutores de Jaime, cinqüenta teólogos de diferentes denominações que viviam de cargos nas esferas religiosa e educacional, e portanto dependiam do status quo. Aliás, “Tradutores”: desde o princípio fez-se referência aos escolhidos com letra maiúscula, e eles incluíram em seu currículo o fato de terem sido Tradutores. Não era preciso dizer mais nada, já que somente os tradutores dessa Bíblia mereciam a maiúscula.

O rei Jaime foi o primeiro grande gerente de projetos. Estabeleceu normas claras de estilo e conduta: as fontes de consulta autorizadas (a Bishop’s Bible seria o modelo a ser seguido, as demais versões consultadas); regras gerais para grafar nomes próprios; princípios em caso de mais de um sentido para um vocábulo (sua origem mais antiga deveria ser priorizada); a proibição de notas explicativas de qualquer natureza interpretativa, sendo permitidos apenas breves esclarecimentos sobre palavras gregas ou hebraicas; a autorização para consultar outros eruditos em caso de dúvidas que as companhias de tradutores não conseguissem resolver; e o procedimento a ser seguido. Este foi magistral: os tradutores foram divididos em seis companhias, cada uma com um diretor e mais seis a nove tradutores. Cada companhia recebeu certo número de livros para traduzir. Cada tradutor, individualmente, traduzia todos eles. A companhia então se reunia e devia chegar a um consenso, a uma versão única. Quando cada companhia finalizasse seus livros, os diretores deviam reunir-se para chegar a um consenso final. Essa Bíblia, agora fruto do consenso progressivo de 50 eruditos, era submetida ao conselho real e, por fim, à aprovação do rei. Nem todos os 50 chegaram ao fim: alguns morreram, outros abandonaram o empreendimento. Alguns dos que ficaram pleitearam uma remuneração melhor, pois o trabalho se estendeu mais do que o previsto. Mas no fim o plano foi cumprido como planejado.

São raros os registros da evolução desse processo. Muitos dos rascunhos e das cartas trocadas se perderam em incêndios ocorridos anos depois em grandes bibliotecas, restando um rascunho e um par de cartas com consultas enviadas a outros acadêmicos. Além disso, as reuniões e discussões eram presenciais e orais. As versões traduzidas de cada trecho eram lidas em voz alta, pois o alvo era o púlpito, não a mesa de cabeceira. Muitas escolhas foram feitas com base no ritmo e na sonoridade.

O resultado de um rei que se queria conciliador mas era autoritário e temia pela perda de poder (destino de seu filho e sucessor Charles, decapitado por Oliver Cromwell e os puritanos), de um período de explosão intelectual e educacional porém intensamente tenso e emotivo (foram várias as epidemias de peste negra, considerada um castigo divino), e de profundas reflexões e transformações da igreja no mundo todo é uma Bíblia de beleza estética singular, grande simplicidade e clareza, consciente das grandes questões de sua época porém empenhada em evocar um universo elevado através de uma linguagem distante da falada corriqueiramente, fruto de grande pesquisa técnica mas ainda assim expressão emotiva da fé de teólogos devotos e dedicados a transmitir a palavra de Deus como secretários perfeitos:

Aqui não há nenhuma autoria envolvida. A autoria é egoísta, uma suposição de que se tem algo de novo a dizer. Não se tem. Cada iota da Bíblia é importante, mas sem ela você não tem valor algum. (...) Um secretário, seja de Deus ou do rei, está numa posição de dependente do poder. Ele não tem autoridade independente de seu mestre, mas executa essa autoridade sem hesitação nem concessões. Ele não é nada sem o mestre, porém é tudo através dele. Lealdade é poder e submissão é controle. Por isso, a tradução bíblica, assim como o serviço real, pode somente ser plenamente fiel. Sem fidelidade, perde todo o sentido.
(p. 184, tradução livre minha)

Para encerrar, uma das curiosidades mais deliciosas que aprendi com este livro: os founding fathers que, após se exilarem na Europa, chegaram à América para criar sua república calvinista perfeita, carregaram consigo, naturalmente, a Bíblia de Genebra. Duas ou três gerações depois, contudo, as cidades se desenvolviam e havia que administrá-las e dirigi-las devidamente. A Bíblia calvinista, cujas notas deslegitimavam todo e qualquer poder humano sobre o conjunto de membros da comunidade – estes sim a verdadeira igreja e poder máximo – não ajudava em nada. Em pouco tempo passou a ser adotada a Bíblia do rei Jaime, tão bela, tão cativante e tão a favor do poder centralizado que conquistou o trono como a grande Bíblia em língua inglesa e lá se mantém até hoje, graças ao grande poder americano.

11 de março de 2007

O tradutor, o autor e o escritor

No boletim de março da SBS foi publicado este artigo excelente, que copio na íntegra abaixo:

Grandes tradutores agora recebem status de autor
Fonte: Litteratura - 5/2/2007
Marcos Strecker

O mercado editorial brasileiro vive hoje o melhor momento de sua história - quando se fala de tradução. Uma grande geração de tradutores valorizados pelas editoras e fiscalizados pela crítica responde por uma profissionalização inédita, um movimento ainda em expansão. Eles ganham o status de autor, sonho dos teóricos desde os anos 60.

O fenômeno é mais visível pelas grandes traduções lançadas nos últimos anos, pelo esforço empreendido em traduções alternativas, pela melhor remuneração dos profissionais (pagamento por empreitada, e não mais por lauda) e pela diversidade de línguas traduzidas do original - várias raramente eram vertidas diretamente para o português.

É o caso do japonês, por exemplo. A tradutora Leiko Gotoda, sobrinha do escritor Junichiro Tanizaki e uma das "estrelas" da atual geração de tradutores, já verteu inéditos de Yukio Mishima, do clássico Eiji Yoshikawa e do tio Tanizaki para a Estação Liberdade. Acaba de finalizar seu maior desafio: traduzir "Jovens de um Novo Tempo, Despertai!", do Prêmio Nobel Kenzaburo Oe, a ser lançado em junho pela Companhia das Letras.

Os exemplos são vários. Pela primeira vez o "Livro das Mil e Uma Noites" (ed. Globo) foi traduzido do árabe, por Mamede Mustafa Jarouche. "Dom Quixote "ganhou nova tradução ("O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha", ed. Record), feita em parceria pelo brasileiro Carlos Nougué e o espanhol José Luis Sánchez. O monumental "Ulisses" (ed. Objetiva), de James Joyce, ganhou nova versão de Bernardina da Silveira Pinheiro, para concorrer com a conhecida tradução de Antônio Houaiss.

Um dos sinais mais evidentes da profissionalização é a diminuição das traduções feitas a partir de versões do inglês e do francês, o que era prática corrente.

"A tradução se tornou um tema relevante, não marginal. A crítica e o "policiamento crítico" da tradução fez com que os tradutores fossem mais reconhecidos pelos editores e cuidassem melhor do seu trabalho", afirma o professor e tradutor Modesto Carone, especialista nas obras de Franz Kafka.

"Hoje a coisa está muito mais profissional: o que eram ilhas [grandes nomes do passado], hoje são arquipélagos. Muita gente está trabalhando e competindo no sentido de ter uma tradução melhor", diz José Mario Pereira, da editora Topbooks.

Para Carone, "sem dúvida há uma quantidade maior de tradutores talentosos. O que existia antes eram grandes e notáveis exceções. Agora a média é bastante elevada". Para Davi Arrigucci Jr., um dos principais críticos literários do país, "houve uma renovação notável da tradução de um modo geral". Segundo ele, "a tradução adquiriu um nível de qualidade artística que disputa o espaço da própria criação. Isso é bastante visível".

Segundo o professor Boris Schnaiderman, "houve uma diversificação maior, estamos traduzindo do húngaro, do japonês, línguas que eram completamente desconhecidas". A proliferação de cursos de literatura e a criação das cátedras de teoria da tradução certamente ajudaram. "Hoje é um absurdo falar em uma tradução sem mencionar o tradutor. Antes isso era comum", afirma o poeta e tradutor Ivo Barroso. "O público universitário não era o de hoje", pondera Pereira.

Para Barroso, "a profissionalização veio após os anos 70, quando já começa a aparecer o tradutor especialista em assuntos, como existe em outros países mais adiantados".

Segundo ele, o problema continua sendo a remuneração. "Poderiam ter coisas muito melhores se houvesse uma participação na vendagem. Na França havia um sujeito que vivia dos direitos de tradução de "O Vento Levou'", diz. "O serviço do tradutor é o mais importante. Todo mundo já conhece o autor, agora precisa prestar atenção em quem é o tradutor", afirma.

Segundo Arrigucci, "a imprensa era muito omissa em relação ao valor da tradução. Isso também acontecia na universidade".

"O crítico vigilante é o mais importante", diz Barroso. Para ele, "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor. Hoje acontece a conscientização ao máximo, que é a tradução direto do original. Mas falta a adequação do tradutor, que tem que ser um bom escritor em português. Um Leonardo Fróes traduzindo Virginia Woolf é sensacional, você sente a prosa inglesa, é admirável", afirma.

O que remete à questão: traduzir diretamente dos originais é garantia de qualidade? Muitas vezes não, e tanto Barroso quanto Arrigucci elogiam traduções antigas, feitas do francês ou inglês.

São inúmeros os aspectos positivos do artigo: a formação de tradutores, a profissionalização e a especialização da tradução, a crítica atenta, o destaque do tradutor atrelado à sua responsabilidade sobre o texto traduzido, a maior preocupação das editoras na escolha dos profissionais, a necessidade de remuneração compatível com a responsabilidade assumida e com a visibilidade do texto.

Como quase sempre que se menciona tradução na mídia, leva-se em consideração somente a tradução de literatura -- e não de qualquer literatura de consumo, mas da "alta" literatura. É claro que essa é uma área importante por ser uma "vitrine" para os tradutores e que quando se chama a atenção positivamente para um segmento do mercado de tradução a classe profissional como um todo é beneficiada. Vale lembrar, porém, que esse é o menor campo da tradução: o volume de obras de alta literatura traduzidas e a quantidade de tradutores envolvidos é bastante pequeno, sobretudo em comparação com as inúmeras aplicações da tradução em áreas técnicas, cujos tradutores na maioria das vezes são anônimos.

Seria muito bom, muito benéfico para os profissionais envolvidos com tradução e para o público consumidor de modo geral, se surgissem matérias tão bem elaboradas como essa que abordassem a tradução que permeia nosso dia-a-dia sem que percebamos: em instruções para usar um celular, botões e telas de programas computacionais, notícias publicadas em jornais, caixas de cereais.

Outra questão muito interessante levantada pelo artigo é a relação entre os conceitos de tradutor, autor e escritor.

Direitos autorais do tradutor existem, apesar de não significarem exatamente o mesmo que os direitos autor. A discussão sobre o tema é longa e tem aflorado recentemente no Brasil, sempre vinculada à tradução literária. Em círculos acadêmicos e profissionais discute-se uma diferença entre tradução-meio e tradução-fim: a primeira é a que permite ao comprador de um celular entender as instruções e utilizar o aparelho; a segunda seria um livro traduzido que é comercializado. No primeiro caso, argumenta-se que o fabricante do celular precisa da tradução, mas não ganha dinheiro com a venda da tradução. Esse tradutor, portanto, não receberia direitos autorais. Já o editor pode lucrar muito com a venda do livro traduzido, de modo que o tradutor mereceria uma participação nas vendas. A discussão é muito rica e bastante controversa. E se complica ainda mais quando se pensa no caso, não raro, em que a venda de uma tradução publicada dá prejuízo para o editor -- o tradutor também perderia dinheiro? (Particularmente, eu confesso que não consegui formar uma opinião clara sobre essa questão e prefiro me manter bem acomodada em cima do muro.)

Quanto à questão do escritor, todo tradutor profissional é sem dúvida um escritor. Segundo o teórico André Lefevere, é ainda um leitor profissional, de forma semelhante aos acadêmicos das áreas de letras e literatura e aos críticos especializados. Quando um tradutor vende seus serviços de tradução, está vendendo sua capacidade de ler e de escrever profissionalmente -- e mais algumas coisinhas na passagem de um para outro. Mas é claro que não é esse o significado de escritor quando Ivo Barroso afirma que "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor". Esse é um dos dogmas clássicos da tradução literária: os melhores tradutores seriam, antes, autores reconhecidos. Supostamente a profissão de escritor ou poeta seria um pré-requisito para se traduzir obras literárias. Eu discordo veementemente desse dogma, o que não quer dizer que diversos escritores renomados não sejam magníficos tradutores -- uma coisa não exclui a outra, mas também não a obriga.

Pensando sobre a identidade desse indivíduo, o tradutor, eu imagino algo que poderia ser representado pela teoria dos conjuntos: há um conjunto "autor", um conjunto "escritor", um conjunto "leitor" e outros conjuntos que envolvem áreas de especialidade, como "medicina" ou "direito". O tradutor seria um conjunto que faz interseções com todos esses conjuntos, sem estar contido nem conter inteiramente nenhum deles e tendo ainda uma parcela que lhe é própria.

Eu, pelo menos, gosto de me ver assim.

10 de janeiro de 2007

Google Books: a Biblioteca de Babel

No conto de Borges, a biblioteca infinita abriga obras que compreendem todas as possíveis combinações de letras, em todas as línguas passadas, presentes e futuras.

Não chega a tanto, mas uma boa amostra do infinito está no serviço Google Books, agora em versão brasileira.

Basta digitar palavras-chave, um tema, uma editora ou um autor (como em uma busca comum no Google) ou fazer uma pesquisa avançada. O resultado não são sites, mas livros. Isso mesmo, livros inteirinhos, para folhear no próprio navegador. Não é possível copiar/colar nem imprimir, mas nada impede que você leia 500 páginas no computador antes de decidir se a surpresa no final vale a compra do livro impresso.

Uma pequena amostra: digitando "translation studies" temos acesso às obras mais relevantes da disciplina de tradução, inclusive algumas muito recentes, de autores como Susan Bassnett, Lawrence Venuti, Peter Newmark, Jeremy Munday, Mona Baker, Gideon Toury, além de coletâneas e enciclopédias.

Agora só falta o Google publicar a fórmula da vida eterna.

10 de março de 2006

Títulos de filmes

Uma das perguntas que mais ouço é: quem traduz os títulos dos filmes?

Pois finalmente saiu um artiguinho na imprensa - pequeno, simples e simpático - que explica como são criados os títulos de filmes estrangeiros no Brasil.

Criados, não traduzidos. Porque o tradutor não tem nada a ver com essa questão. Não por acaso, nem se faz menção ao tradutor no artigo.

Sorry... Qual é o nome mesmo?
por Meriane Morselli


Isso mesmo: os títulos não fazem parte da nossa jurisdição. Muitas vezes, nem sabemos qual é ou será o título de um filme que estamos traduzindo. Portanto, livre os pobres tradutores de filmes da culpa pelos títulos esquisitos, está bem? :o)

26 de janeiro de 2006

Os tradutores na ficção

Ficção? ;o)

Numa palestra que a Rosemary Arrojo deu na PUC-Rio, ela falou da imagem que outras pessoas têm dos tradutores, os estereótipos que obras literárias ajudam a cristalizar e as metáforas empregadas com relação aos tradutores. E mencionou algumas dessas obras, que anotei (constatando que já tinha lido a maioria) e logo em seguida fui tratar de providenciar.

São elas:
  • "O tradutor cleptomaníaco", conto de Deszö Kosztolányi em que um tradutor surrupia muitos objetos de valor que havia no texto original e são constam no traduzido.
  • Se um viajante numa noite de inverno, romance de Ítalo Calvino em que se forma um triângulo amoroso entre o autor, a leitora e o tradutor.
  • "Carta a una señorita en París", conto de Julio Cortázar em que um tradutor não consegue deixar de vomitar coelhinhos, os quais destróem a casa.
  • "Pierre Menard, autor del Quijote", conto de Jorge Luís Borges sobre um escritor que tenta traduzir o Dom Quixote para o espanhol, com as mesmas palavras do original.
Há ainda História do cerco de Lisboa, romance de José Saramago não sobre um tradutor mas um revisor que, ao cortar um "não" de uma frase, é obrigado a reescrever a história de Portugal.

Eu adoraria conhecer outras obras com os tradutores como personagens. Alguém se lembra de mais alguma?

* * *

Mais uma (obrigada, Carla!):
  • "Notas ao pé da página", conto de Moacyr Scliar que consiste apenas de notas do tradutor.