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12 de janeiro de 2015

O mundo virtual é o novo mundo real

Um dos argumentos nos quais eu venho insistindo em palestras, aulas e fóruns de tradução é que a tradução audiovisual há bastante tempo não é um nicho do setor de entretenimento, mas está se tornando a norma e permeando todas as áreas que envolvem tradução e interpretação. Não somente usamos a internet para enviar e receber traduções, a internet cada vez mais é o meio -- o único meio -- em que a tradução existe, é divulgada e utilizada, fazendo uso intenso de recursos audiovisuais.

Apenas para ilustrar essa questão, há alguns meses um dos meus clientes -- uma grande rede social -- me encomendou a tradução e legendagem deste vídeo. O tema do vídeo é a própria expansão das redes sociais e seu impacto e relevância crescentes para o mundo "físico". Agora recebi autorização desse cliente para divulgar o vídeo com a tradução. Pessoalmente, fiquei impressionada com as informações dadas nesse vídeo.

E você? Ainda acha que redes sociais são pura distração e que a área de tradução audiovisual é um nicho mal pago para quem gosta de séries na TV?

19 de abril de 2014

Quatro traduções de um mesmo vídeo

(Atualizado com mais uma tradução amadora.)

Estes dias, passou a circular um vídeo que se tornou viral, sobre uma falsa vaga de emprego que parece impossível (propaganda de uma empresa de cartões).

Vários conhecidos começaram a pedir que fosse traduzido, e me ofereci para fazer a legendagem. De vez em quando eu traduzo algo de que gosto, para mim mesma ou para alguém querido. Foi o que fiz, traduzindo e editando o vídeo com legendas fixas.

Dois dias após ter divulgado o vídeo no YouTube, descobri outras duas traduções em português, publicadas quase ao mesmo tempo que a minha. Mais um par de dias depois, encontrei outra versão legendada que já se tornou muito popular.

Achei muito interessante comparar a redação, o estilo e as características técnicas (sincronia, subdivisão de legendas, ritmo de leitura) de duas traduções amadoras com a minha, que fiz usando os critérios da legendagem profissional com que trabalho normalmente.

São estes:

1 (amador, clique em 'cc' e selecione legendas em português)

2 (amador)

3 (amador)

4 (profissional)


Algumas ressalvas importantes:

Meu objetivo aqui não é criticar nem ridicularizar as traduções amadoras. Foram feitas por gente que, como eu, quis tornar um vídeo bonito acessível para pessoas queridas, e cumprem com esse objetivo. Também não me sinto de forma alguma "moralmente superior" a ninguém.

Por outro lado, o tempo todo ouvimos comentários sobre a excelente qualidade das traduções amadoras ("fansubs"). Inclusive já tive alunos que eram fansubbers e achavam absurdas as imposições técnicas nas quais eu insistia para conseguirem se inserir no mercado profissional, pois argumentavam que "todo mundo" elogiava seu trabalho.

Esta comparação é apenas uma boa oportunidade de destacar essas diferenças.

Essas legendagens amadoras cumprem a função de transmitir rapidamente um conteúdo em língua estrangeira? Sem dúvida.

Seriam aceitas por uma produtora de vídeo ou canal de TV como um serviço profissional? Em hipótese alguma.

Os textos contêm inúmeros problemas de tradução, gramática e estilo. Há legendas com tanto texto que não dá tempo de ler (ou, se conseguimos ler, não temos tempo de observar as imagens, o que é uma perda grave). A sincronia não está precisa, assim como a quebra de legendas e de linhas, e tudo isso exige um esforço redobrado do espectador para acompanhar as legendas, em detrimento da experiência prazerosa de assistir ao vídeo.

Todas essas observações se baseiam em conhecimentos bastante técnicos e nem sempre intuitivos.

Tudo isto não é para pedir elogios nem nada disso, absolutamente -- eu continuo me aprimorando e não me considero dona da verdade.

É apenas para ilustrar o que qualquer tradutor qualificado já sabe: o bom resultado final de uma tradução é a ponta do iceberg, fruto de um esforço significativo de estudo, capacitação e treinamento, aliado a um trabalho intenso e extremamente detalhista durante o processo de tradução -- tudo isso apenas para que o receptor desse conteúdo não note demais a tradução em si, como alguém que aprecia a paisagem sem reparar no vidro da janela.

E também para lembrar que ainda falta muito, muito mesmo, para sermos substituídos por máquinas ou por voluntários bem-intencionados, caso alguém tivesse alguma dúvida.

5 de dezembro de 2012

Balé e ópera multimídia

Como é que uma "arte morta", como muitos se referem à ópera, ou um antigo estilo de dança, podem de repente atrair novas gerações a alcançar o maior público a que já teve acesso?

Através de recursos multimídia!


Algumas companhias de balé e ópera têm exibido suas apresentações ao vivo, para cinemas de todo o mundo. É o caso do Bolshoi Ballet, a Metropolitan Opera, a Royal Ballet e a Royal Opera House. A Emerging Pictures lista a maioria dessas apresentações.

No ano passado, eu fui procurada pela Royal Opera House/Royal Ballet (ROH) para traduzir algumas dessas apresentações para o português, pois eles estavam começando a exibi-las para uma rede de cinemas em todo o Brasil. Foi uma experiência ótima, e recentemente começou a temporada de 2012-2013 e eu fui escalada para fazer todas as traduções em português. É por isso que falo mais do ROH aqui, já que conheço de primeira mão como essas transmissões funcionam.

Essa tecnologia já existe há vários anos. Em 2003, eu assisti a um show de David Bowie que foi exibido ao vivo, desde Londres, para cinemas em todo o mundo. Eu estava no Brasil e, além de vermos o show, pudemos fazer perguntas para Bowie depois, desde o cinema, e ele ouvia e respondia desde Londres. Considerando como essa experiência foi incrível, chega a ser surpreendente (quase assombroso) que não tenha se tornado uma opção de entretenimento muito mais comum.

Mas parece que as transmissões ao vivo para cinemas finalmente estão vindo para ficar. A ROH começou a exibir as apresentações em cinemas do Reino Unido em 2009; o Brasil foi incluído no ano passado e o Japão nesta nova temporada. Agora transmitem para 240 cinemas de 32 países, em 6 ou 7 línguas, se não me engano.

Este vídeo (em inglês) destaca as vantagens de assistir balés e operas no cinema.


Os sons e imagens são capturados em alta definição, e as legendas em todas as línguas são todas transmitidas desde Londres. As traduções são realizadas com poucos dias (ou, às vezes, poucas horas) de antecedência. No caso de óperas, traduzimos o libretto, naturalmente, mas também há trailers e curtas sobre cada produção, que mostram ensaios, entrevistas e outras informações importantes sobre a produção, e que são exibidos antes do espetáculo e durante os intervalos. Também há mensagens exibidas na tela para os espectadores (por exemplo, incentivando-os a enviarem tweets com comentários sobre o espetáculo) e um resumo de cada ato que verão. Alguns dos tweets enviados também são exibidos na tela do cinema durante os intervalos.

Como as imagens são geradas ao vivo, as legendas não podem ser editadas permanentemente sobre o filme. São exibidas manualmente, ao vivo, pelo departamento de surtitling da ROH ("surtitling" é o nome das legendas exibidas em teatros, geralmente acima do palco).

A ROH interage com os espectadores nas principais redes sociais. Tem seu canal no YouTube, página no Facebook e conta no Twitter. E divulgou recentemente alguns números impressionantes sobre a temporada de 2011-2012, que sem dúvida irão crescer a cada ano. Alguns destaques:
  • Cerca de 300.000 pessoas assistiram à  Royal Opera e à Royal Ballet em cinemas.
  • Quando a Royal Ballet fez um dia inteiro de streaming grátis (um dia na vida da Royal Ballet exibido no YouTube, sem editar), a audiência atingiu um milhão de espectadores.
  • O público está cada vez mais jovem, com um grande número de pessoas que assistem a ópera  e balé pela primeira vez na vida, pois vê-las no cinema é bem mais barato e acessível, e menos intimidador, do que ir até um teatro.
Conquistar novos públicos e aproveitar as vantagens oferecidas pelas redes sociais sem dúvida são objetivos importantes. E um dos aspectos atraentes das redes sociais e dos recursos multimídia é o contato mais próximo entre astros e fãs, que a ROH também explora, como se vê neste vídeo (em inglês):


Novos públicos e novas mídias também implicam o uso de uma nova linguagem. As legendas devem ser breves e simples, para que possam ser lidas depressa e permitam aos espectadores entender o que é dito e ainda assim apreciar plenamente as belíssimas imagens à sua frente. No caso de óperas, isso significa que as traduções empregam uma linguagem mais moderna, sem termos obscuros ou obsoletos. O texto original continua intacto na performance, mas seria impossível acompanhar o libretto completo junto com o espetáculo. Assim, as legendas estão lá para falar a língua dos espectadores nos cinemas e ajudá-los a aproveitar totalmente a experiência, sem se sentirem deslocados.

A ROH é um modelo de cliente para os tradutores. O trabalho antes de cada apresentação é intenso e muitas vezes nos fins de semana, mas a remuneração faz jus ao que eles pedem. Procuraram tradutores recomendados, com experiência em legendagem e que se sentissem à vontade com os temas e a terminologia envolvida. Levando em conta a magnitude dessa operação, o custo da tradução provavelmente é quase insignificante, e a prioridade é oferecer a maior qualidade aos espectadores. A ROH reconhece o valor de uma tradução audiovisual especializada.

Este último vídeo mostra o departamento de audiovisual, e eu acho particularmente fascinante.


Acredito que há muito a aprender com essa experiência bem-sucedida da Royal Opera House e de outras companhias de balé e ópera. O público agora é global, novas tecnologias e mídias podem dar vida nova a antigas formas de arte -- incluindo lucro, sim, a internet não está matando a indústria do entretenimento, muito pelo contrário -- e serviços de tradução profissionais e especializados podem fazer a ponte entre as línguas.


Este texto foi publicado originalmente no meu blog sobre tradução de multimídia, em inglês.

25 de agosto de 2012

Tradução na Globo Universidade

A formação de tradutores e o mercado de tradução foram o tema de várias matérias publicadas na Globo Universidade. O foco foi sobretudo na PUC-Rio, onde eu estudei e leciono. São bem aprofundadas e ótimas para tradutores profissionais ou para quem ainda está planejando a carreira.

A matéria principal é em vídeo, mas o site da Globo Universidade traz alguns artigos complementares:

Matéria em vídeo sobre diversas especializações oferecidas na PUC-Rio

Artigo sobre o mercado de tradução

Artigo sobre interpretação

Artigo sobre o mercado de tradução audiovisual e literária

Artigo sobre tradução juramentada

Achei as matérias excelentes. Raramente uma reportagem na imprensa sobre tradução passa do mais básico. Mas o mercado de tradução está crescendo muito no Brasil e o profissional vem ganhando muita visibilidade.

Do ponto de vista pessoal, o mais incrível é que eu conheço praticamente todo mundo em todas as matérias! Uns foram meus professores, outros meus colegas e outros meus alunos. O mundo da tradução é uma enorme família, mesmo.

16 de novembro de 2011

O foco no cliente

A profissionalização da tradução, ao longo das últimas (várias) décadas, passou primeiro pelo estágio de definição e consolidação do campo de estudo, com foco em teorias e metodologias de ensino. Mais recentemente houve um esforço para aproximar mais os profissionais formados em tradução das diversas realidades do mercado de trabalho, incluindo, além das reflexões teóricas e de muita prática, o treinamento com tecnologias atuais e informações de cunho empresarial e financeiro.

Temos hoje uma grande quantidade de profissionais bem preparados, seja formados ou especializados em tradução, que se aperfeiçoam continuamente através de cursos, conferências e a febre do momento, os webinars.

Mas um lado da equação em que se pensa muito pouco, do ponto de vista da educação, é quem solicita traduções. O tradutor treina para dominar seu trabalho, é ensinado a não aceitar preços baixos, a exigir prazos razoáveis, a cobrar taxas de urgência, a usar ferramentas, a assinar um contrato com o cliente antes de começar o serviço. Ótimo. Quando somos procurados por um cliente que valoriza o nosso trabalho e quer qualidade, o relacionamento é harmonioso. Quando quem nos procura demonstra nem perceber a diferença entre o nosso serviço e o Google Translate, ficamos até felizes quando o serviço não acontece. E, se vemos uma tradução ruim publicada (em site, livro, filme, manual, o que for), atribuímos parte da responsabilidade sobre esse serviço ruim ao próprio cliente, que não soube ou não quis contratar um serviço decente e pagar o preço justo.

E por acaso todo cliente nasce sabendo? É claro que não. As empresas dedicadas a intermediar traduções têm padrões de custo-benefício que podem restringir os valores pagos e até comprometer certas práticas conscientemente, mas em geral entendem de tradução. Não confundiriam tradução com interpretação, nem legendagem com dublagem. Em geral. Mas uma imensidão de clientes que não vive em contato com o mercado de tradução, sejam pessoas físicas ou jurídicas, pode ser simplesmente ingênua. Há quem procure preço baixo, há quem realmente ache que ter feito um curso de línguas baste, há quem nunca ouviu falar em curso de tradução. Ora, se quem hoje é tradutor profissional precisou aprender essas e muitas outras coisas, muitos de nossos clientes precisam aprender isso também.

Nós não temos por que esperar passivamente pelo cliente ideal. Aliás, não podemos nos dar a esse luxo no panorama atual de tradutores automáticos gratuitos na rede, agências que cobram valores irrisórios e a empolgação em torno das práticas de crowdsourcing e fansubbing, que pregam o amadorismo como solução para as necessidades do "mundo globalizado" (haja redundância nessa expressão...).

É importante educarmos os clientes também, e não só esperando que se deem mal usando o Google Translate e voltem com o rabo entre as pernas. Se eles conhecerem melhor o nosso mercado e os detalhes do nosso trabalho, não só vão saber avaliar melhor o tipo de serviço de que precisam como vão nos valorizar mais, também. Aliás, apenas o fato de conhecer de perto alguma coisa já leva automaticamente a mais empatia e respeito. Quer ver só? Veja esta lista e me diga se você não valoriza um pouco mais estes profissionais, a maioria deles indispensável (e se não agradeceu pelo emprego que tem).

Naturalmente, não existem cursos de formação para gente que porventura precise de serviços de tradução. Mas há bastante material na internet. Basta recomendar alguns dos recursos sugeridos abaixo para clientes em potencial ou divulgá-los sempre que possível. Aliás, tudo o que serve para educar clientes se aplica a nós também. Um tradutor inexperiente ou sem familiaridade com alguma especialização tem dificuldade em explicá-la a seus clientes em potencial, o que é perceptível. Além disso, saber fazer algo é diferente de saber explicar para quem não é da área. Portanto, estas sugestões são extremamente úteis também para nós, tradutores profissionais. O que esperamos do cliente ideal necessariamente passa pelas melhores práticas de tradução, que nós devemos dominar.
Com certeza há muito mais por aí. Se você conhece um bom recurso pensado para clientes de tradução, sugira-o nos comentários para que eu o avalie e acrescente a esta lista.

10 de janeiro de 2011

"Expansão na legendagem abre novas possibilidades"

No fim do ano passado, fiz uma breve entrevista por telefone. Só hoje descobri (obrigada, Bianca!) que saiu uma matéria no caderno "Empregos e Negócios" do jornal O Fluminense sobre o mercado de legendagem, voltada para estudantes.

Apenas um detalhe sobre o trechinho em que a matéria me cita. A jornalista me perguntou se eu achava que era um mercado mal remunerado, e eu respondi "Eu não acho." Depois, na redação final da matéria, ela omitiu a pergunta e fica difícil saber o que é que eu não acho. Pois bem, não acho que seja um mercado ruim, muito pelo contrário.

20 de novembro de 2010

Blogs educacionais e a "nuvem"

Fui dar uma olhada nas estatísticas de acesso deste blog, o que eu faço muito ocasionalmente, e levei um susto porque dos dias 14 a 18 de novembro houve um salto absurdo na quantidade de acessos, dez vezes mais do que a média.

Descobri que a origem foi esta "convocação" do blog English Experts aos blogs educacionais. Meu blog está na lista dos convocados, mas ninguém me informou disso e poderia muito bem nem ter ficado sabendo.

("Está vendo", diria meu Grilo Falante, "como foi importante, após tantas semanas trabalhando sete dias por semana, tirar um dia para descansar e navegar um pouco? Trabalhando sem parar você mal vê o mundo lá fora!")

Mas voltando: a excelente convocação do Alessandro veio a calhar, pois esta semana mesmo eu estive discutindo com colegas - tradutores e professores - sobre a importância do networking virtual para os profissionais autônomos. Mas, se é importante para todo mundo, para os estudantes e iniciantes é realmente imprescindível.

Quando eu terminei a faculdade, há uns (aham...) 14 anos, usei de todos os recursos disponíveis na época para fazer e manter contato com colegas e profissionais. Criei meu primeiro site em 1997, escrevendo direto em HTML no Notepad. As primeiras redes de contato de tradutores profissionais aconteciam por e-mail, com a Trad-Prt (criada em 1998) e depois outras listas de discussão. O ProZ é de 1999 e foi um grande avanço pela proposta e pela tecnologia utilizada para promover o intercâmbio entre profissionais e clientes.

Eu comecei a trabalhar ainda na faculdade, por indicação de professores, às vezes para outros departamentos da universidade. Uma coisa foi puxando outra, eu sempre corri atrás de contatos e já nem sei como acabei traduzindo um livro muito bacana para uma editora de peso quando estava formada ainda há poucos meses. Sempre adorei tudo o que pudesse ser feito em computador e já na faculdade não desgrudava do Palm, que tenho até hoje (confesso que mais por razões afetivas do que qualquer motivo mais prático...)

Em 2001 abri minha empresa, comprei o domínio e sempre mantive o site. Comecei a blogar pouco depois (um blog pessoal já extinto) e iniciei este aqui em 2006. A essa altura já havia vários outros blogs, Orkut, uma multidão de opções. Aliás, a melhor comunidade de tradutores do Orkut continua firme e forte, reunindo vários dos melhores profissionais de tradução e interpretação e integrando e ajudando iniciantes.

Hoje em dia é preciso muita disciplina para não se perder em meio a tanto Twitter, Facebook, Orkut, LinkedIn, etc. E blogs. Blogs e mais blogs. E gente, como tem blog bom! Bonitos, bem produzidos, bem escritos, informativos. E pensar que começou meio na linha de "querido diário". Aliás, o Twitter também, mas hoje quem não sabe aproveitar as coisas incríveis que as mensagens em 140 caracteres podem fazer por você está perdendo - muito mais do que imagina.

São informações que não acabam mais, criadas constantemente. Entrada de blog é bem mais duradoura do que tuíte, mas os blogs também nascem e morrem, se reciclam, mudam de lugar. É difícil acompanhar tudo.

O universo da internet é absolutamente imenso. É como esses filmes sobre o Big Bang que a gente vê em planetário: ele expande, expande, expande... galáxias geram mais galáxias e mais galáxias. Virou uma nuvem, mesmo. Uma nuvem cósmica, com planetas, satélites e meteoros.

Há alguns anos que eu praticamente moro nessa nuvem. Resido a uns 8.000 km de distância de onde tenho minha empresa. A comunicação por voz é via Skype em todas as suas variações - muitos clientes ligam para meu número no Rio e nem imaginam onde é que eu estou. Os orçamentos são por e-mail, os serviços são em diversos formatos de arquivos. Bendito FTP sem limite de tamanho para trabalhar com filmes, tranferindo conteúdos inteiros de DVDs para legendar. Dou muitos cursos online também, para gente espalhada pelo mundo todo. Conheci a Bianca Bold, minha sócia, pelo Orkut, e por total coincidência hoje moramos na mesma cidade. Meu irmão Diego Alfaro, outro sócio, há vários anos mora na Europa e também presta serviços principalmente para clientes no Brasil. As notas fiscais são eletrônicas, os depósitos são feitos quase sempre pela internet, eu passo no banco todo dia usando "online banking" (felizmente o dinheiro que sai do caixa automático ainda é de carne e osso!)

E eu nunca tive tantos, tantos colegas. A internet tem esse poder de eliminar um monte de barreiras sociais. Você se comunica tanto com seus ídolos quanto com seus alunos, e na verdade esse tipo de rótulo importa cada vez menos.

Muitos clientes e amigos eu nunca vi. Outros eu vi, mas pouco comparado com o quanto nos comunicamos pela internet. Outros eu conheci primeiro pela internet e só depois em pessoa. Qual é a diferença entre virtual e real, mesmo? Eu confesso que já não sei bem.

Hoje em dia, independentemente da nossa procedência, de quantos amigos temos e de onde estudamos, uma coisa é certa: a maior parte dos conhecimentos que obtemos e da comunicação que mantemos é online. Pense em quanto do que você sabe hoje foi aprendido lendo diretamente de uma publicação em papel ou ouvindo da boca de uma pessoa, e quanto foi aprendido navegando? Eu adoro a experiência da sala de aula presencial, adoro a universidade, que considero importantíssima, mas em termos numéricos um professor diz algo para 25 pessoas durante duas horas e, nesse tempo, dezenas de milhares de pessoas leram informações como essas, e muitas outras, em artigos de blogs.

A educação é algo contínuo, e na internet é possível se educar muitas vezes mais do que em qualquer ambiente offline. Além disso, a "nuvem" novamente funde uma série de conceitos: você aprende enquanto se comunica, interage, faz contato. Contato gera feedback, gera parceria, gera amizade, gera trabalho. Uma série de degraus como o de primeiro aprender, depois fazer testes e estágios, depois ser profissional, vira uma rampa contínua.

E, no universo da tradução, há ainda aquela maravilhosa e fértil promiscuidade de contatos, em que seu aluno vira seu cliente, seu cliente vira seu sócio, seu sócio vira seu professor, às vezes tudo ao mesmo tempo. No ano passado, por exemplo, eu passei várias semanas me comunicando com a mesma pessoa, que ora era a editora para a qual eu estava traduzindo um livro, ora era minha aluna de teorias de tradução em um curso online. Mas tudo bem separadinho, nossas "identidades" não se confundiam em momento algum. O mesmo ocorre quando um ex-aluno vira amigo do tipo que troca receitas de cozinha, mas aí você passa um serviço para ele e o tratamento passa a ser profissional.

Quem está procurando entrar hoje no mercado de tradução, seja saindo de uma faculdade ou curso, ou vindo de outra profissão, deve o mais depressa possível se integrar a essa vida na "nuvem". As relações de trabalho antes eram mais verticais: a gente batia na porta (real ou metafórica) do cliente, ou ele nos procurava com uma proposta. E também aluno era aluno, professor era professor. Tudo muito hierárquico. Mas na nuvem, essa nuvem cósmica com mil conexões, como as sinapses do cérebro, tudo corre em mil direções. Um comentário no Facebook, um tuíte, uma visita a um blog, pode render um emprego. E amanhã mesmo, quem hoje estava procurando trabalho encaminha o pedido de um colega que precisa de ajuda e pronto, se torna o responsável por dar uma oportunidade de trabalho a outra pessoa. E tudo isso acontece muito, muito rápido. Progressos que levavam semanas e meses para acontecer hoje levam horas, minutos.

Essa integração beneficia a todos: quem comenta, quem repassa, quem dialoga é visto, ao mesmo tempo que dá visibilidade a seus interlocutores. Um blog ensina muita coisa, mas para continuar vivendo precisa receber opiniões, sugestões, precisa ser lido. E também é fundamental vincular blog com site, com Twitter, com Facebook, com e-mail, etc. Para existir na nuvem é preciso ser visto. Para ser visto, é preciso que seu site seja encontrado. E como ele é encontrado? Através de recomendações.

Aprendeu alguma coisa em um blog? Diga isso lá no Facebook.
Leu um comentário bacana? Comente também.
Recebeu uma dica legal? Retuíte.

Acredite, você mesmo tem muito mais a ganhar com isso do que imagina. Pois, ao dizer que os outros existem, automaticamente você existe também. Ao dizer "Eu vi", você é visto. E as oportunidades podem pintar de qualquer lugar.

Por isso achei tão legal essa campanha lançada pelo English Experts. Aumentando e intensificando as conexões entre blogs educacionais, as sinapses da nuvem se fortalecem e todos têm a ganhar com esse intercâmbio.

O próprio English Experts listou muitos blogs educacionais interessantes na convocação. Reforço aqui alguns e indico outros:
  • O Tecla Sap é espetacular, uma grande referência. O Ulisses Wehby de Carvalho é muito fera.
  • O Tradutor Profissional, do Danilo Nogueira (com a Kelli Semolini), também virou referência para os tradutores, sobretudo os iniciantes.
  • Fidus Interpres, excelente blog do Fabio Said.
  • Petê Rissatti fala sobre literatura e tradução, e conversa com tradutores.
  • O Tradução Via Val trata de tecnologia.
  • O TradCast é o primeiro podcast brasileiro sobre tradução, e é ótimo!
  • PriBi, sobre tradução e tecnologia, de Pricila e Fabiano Franz.
  • Adir Ferreira, sobre idiomas.
  • De Scripta, língua e tradução em espanhol, do Pablo Cardellino Soto.
  • El Heraldo de la Traducción, também em espanhol, mas de outro tradutor residente no Brasil, o Víctor Gonzalez.
  • Ao Principiante de tradução, pela Lorena Leandro.
  • i4B, sobre internet e tecnologias da informação, do meu fabuloso consultor para assuntos cibernéticos Roney Belhassof
E tem muitos outros, vários listados no menu à direita, mais embaixo. E, naturalmente, se você tiver alguma outra boa indicação de blog educacional bacana, comente aqui que eu acrescento (e também tuíte, inclua link, comente no Facebook... você já entendeu a ideia!)

18 de outubro de 2010

Matéria sobre legendagem de séries

Saiu ontem na Folha de S. Paulo uma matéria sobre as produtoras de vídeos que traduzem séries americanas para a TV a cabo.

Os prazos e os procedimentos para a tradução e a exibição dos programas estão cada vez mais ágeis, e a matéria relata alguns dos métodos usados pelas produtoras.

Leitura atual, informativa e importante para estudantes e tradutores interessados na área de legendagem:

Folha.com - Ilustrada - 17/10/2010
Chegada mais rápida de séries americanas acelera mercado de tradução
Lúcia Valentim Rodrigues

Agradeço à Leonor Cione pelo envio da matéria.

30 de setembro de 2010

Dia do Tradutor e recomendação de livro

No dia 30 de setembro, comemoramos o Dia do Tradutor -- data do nosso patrono, assim como dos secretários, São Jerônimo. Ele traduziu a Bíblia para o latim, na versão que ficou conhecida como vulgata. Quer saber mais?

Muitos estão comemorando a ocasião com palestras e outros eventos, e o Fabio Said está oferecendo um desconto no livro Fidus interpres: a prática da tradução profissional, muito interessante sobretudo para estudantes e profissionais iniciantes. Aproveite!

Drei Marc contrata assistente de controle de qualidade

Divulgo esta notícia aqui a pedido da produtora de vídeos Drei Marc, localizada no Rio de Janeiro:

A Drei Marc está procurando uma pessoa para o cargo de "Assistente de Controle de Qualidade", com bons conhecimentos em inglês e português e que saiba usar o software Subtitle Workshop. O trabalho será realizado dentro da própria produtora, 6 horas por dia, 6 dias por semana. Qualquer indicação, favor enviar currículo para mleite@dreimarc.com.br e fernandalanhas@dreimarc.com.br.

4 de março de 2009

A tradução em tempos de recessão

Desde meados do ano passado, o mundo vem se preparando para encarar uma das maiores crises mundiais das últimas décadas. Dependendo do grau de sensacionalismo com que a notícia é veiculada, tem gente já estocando papel higiênico até o dia do Juízo Final ou comprando passagem no próximo cometa.

Eu realmente não acho que haja motivo para pânico. Mas sim, é bom a gente se preparar, avaliar nossa trajetória, pensar em que vale a pena investir, imaginar algum Plano B.

Vale lembrar que, principalmente no Brasil, para muita gente o ano de trabalho pra valer só começa depois do carnaval. Muitos tradutores, dependendo dos clientes que têm, estão em época de calmaria desde dezembro. Eu já tinha falado sobre isso e as dicas de preparativos e melhorias aproveitando um período mais calmo continuam valendo.

O Danilo Nogueira já escreveu um pouco sobre a crise em janeiro, no blog Tradutor Profissional. Ele fala mais sobre a postura profissional e as pressões que os tradutores autônomos costumam sofrer por parte dos clientes. De fato, saber lidar bem com isso é fundamental a todo momento, independentemente do que esteja acontecendo na economia. São duas postagens, parte 1 e parte 2.

Outro artigo interessante, escrito por Faisal Kalim e publicado agora no começo de março, é intitulado "A Freelance Translator Recession Survival Kit". Também traz dicas concretas, úteis para manter os pés no chão.

*** Atualização ***
Após publicar este texto, encontrei mais um ótimo post, com o qual concordo totalmente: "Lowering your translation rates: why/why not". Aliás, é mais um blog que está indo para a minha lista de visitas regulares.
*****************

Falando mais do que eu tenho visto e sentido:

Quem presta muitos serviços a clientes estrangeiros, sobretudo europeus e americanos, ou a agências que dependem desse tipo de cliente, já começou a sentir o baque. Aliás, acho que essa é a turma que levou o pior golpe logo de cara, pelos depoimentos que ouvi de colegas. De fato, quem lida mais com moedas estrangeiras, remessas de divisas e fluxos de serviço mais distantes costuma ser adepto das emoções fortes -- por exemplo, quando alguma medida econômica muda radicalmente a relação de câmbio, ou uma agência internacional de peso se muda para a Índia e coisas desse tipo. Por outro lado, dependendo do câmbio, quem fatura em dólar ou euro ganha muito mais em épocas de recessão no Brasil. Acontece que desta vez a crise está vindo de fora.

Eu quase nunca trabalho para agências. Meus principais clientes são universidades e centros de pesquisa, editoras e produtores de vídeo, quase sempre no Brasil. Pessoalmente, eu não senti diferença alguma na demanda. Tive uma quantidade enorme de trabalho durante o fim do ano, e 2009 começou a mil por hora. Muita gente publicando internacionalmente, muita gente produzindo, exportando e importando filmes. E ninguém chorando preços. *batendo na madeira*

Sei que não sou só eu que estou sentindo isso. A maioria dos meus colegas está repleta de trabalho.

Para confirmar que isso não estava acontecendo só em um nicho mais restrito, saí em busca de informações mais longe da minha esfera. Na virada do ano, eu já tinha ouvido notícias positivas no podcast Speaking of Translation. No episódio 1, as tradutoras responsáveis pelo podcast mencionam algumas tendências positivas para o mercado de tradução como um todo, e essa questão é explorada no episódio 2a, onde há entrevistas com empresários e tradutores.

Na matéria do Renato Beninatto mencionada no podcast, estão resumidos depoimentos e tendências percebidas na indústria da tradução no mundo todo (vale destacar que a pesquisa que ele fez envolve grandes agências dedicadas a setores técnicos). No fim do artigo, há o pertinente comentário de que a tradução geralmente é a última etapa da cadeia de produção, então talvez sinta os efeitos da crise só mais tarde. Pode ser, mas eu não concordo muito com isso. Justamente por ser a última etapa, costuma ser a primeira a ser cortada quando a verba fica curta. Um fabricante de celulares não vai deixar de vender celulares cada vez mais baratos, mas provavelmente vai deixar de vendê-los acompanhados de um manual traduzido por seres humanos competentes. É por isso que muitos tradutores que trabalham diretamente para clientes americanos e europeus já vêm sentindo os efeitos da recessão desde o ano passado.

No Brasil, o mercado editorial me parece continuar bem aquecido. Tenho recebido pedidos constantes de traduções para editoras, e tenho recomendado e sido recomendada por muitos colegas que também estão repletos de serviço.

E o setor de mídia, principalmente o de TV, também está com uma demanda imensa. Para cada pedido que eu aceito, preciso recusar dois ou três. Dei um curso de legendagem para 25 alunos em São Paulo, que terminou há pouco mais de duas semanas. Antes mesmo que terminasse, já havia produtoras de vídeo me pedindo recomendações, e já tive o prazer de indicar duas alunas excelentes. E posso afirmar com certeza que a demanda vai continuar alta o ano todo, a menos que aconteça alguma catástrofe mundial muito pior do que a que está sendo prevista. *batendo na madeira*

Sim, claro, mas e a remuneração? Porque, convenhamos, de nada adianta estar mergulhado até as orelhas em serviço e ganhar uma mixaria. Nem sempre quem está lotado de clientes está ganhando mais do que quem tem metade dos clientes, mas pagando cinco vezes mais.

A remuneração varia muito, é claro. É da natureza do cliente buscar o melhor serviço pelo menor preço. E deve ser da natureza do tradutor conseguir oferecer um serviço diferenciado e cobrar o valor mais alto que puder por esse serviço. Há todo tipo de cliente e todo tipo de tradutor por aí. É preciso buscar permanentemente uma posição mais alta, especializar-se, aumentar a produtividade, diversificar. Ninguém está com a vida ganha.

Eu gostaria de ganhar mais trabalhando menos, é claro. Quem não gostaria? Mas não tenho motivo para reclamar e estou pagando minhas contas -- que são em dólar, por sinal, embora o dólar canadense tenha se desvalorizado um pouco.

(Estou para escrever mais sobre esse aspecto em relação ao mercado de legendagem, em breve.)

Para encerrar com mais uma notícia positiva, saiu agora em março uma listagem de carreiras "a prova de recessão". (Publicada pela Reader's Digest. Sim, eu sei. Mas enfim.) Lá estamos nós, no item 7. E vale lembrar que nós estamos em vários outros itens também, escondidinhos nas engrenagens da ciência, da tecnologia e da informação.

15 de janeiro de 2009

"QI"

"Dá para entrar nesse mercado ou tem que ter QI?"

É uma pergunta recorrente.

E capciosa, pois esse "QI" sempre vem com uma carga muito negativa. Não é raro que quem desconfie do tal "QI" também se refira a "máfia" ou "panelinha". Como se ser indicado por alguém fosse algo meio ilícito.

Talvez até seja, dependendo do contexto -- alguém ser aprovado em um concurso público sem passar na prova, por exemplo.

Mas no ramo da tradução, profissão livre e desregulamentada, em condições mais ou menos normais, conseguir serviços através de indicações é corriqueiro e não vejo nada de errado nisso.

Basta pensar em alguma vez em que você precisou pintar a casa, consertar o computador ou contratar um advogado. Você abriu os classificados e escolheu o primeiro que viu ou pediu uma indicação a algum conhecido? Saber que outra pessoa teve uma experiência positiva com aquele profissional faz uma enorme diferença.

Não é diferente com tradução. A pessoa tem um texto ou filme para traduzir, vai pagar caro pelo serviço e precisa daquilo bem feito. Existem mil maneiras de encontrar tradutores por aí, e pode até ser que o cliente receba mil currículos. Mas, se outra pessoa que ele conhece disser, de boa fé: "Conheço esse daí, já trabalhei com ele e gostei", mesmo que seja um currículo mediano a pessoa tem muito mais chances de ser a escolhida.

Por isso mesmo, dar uma indicação também implica responsabilidade.

Uma vez um amigo me perguntou sobre a diarista que eu tinha, pois ele estava atrás de uma. Queria alguém de confiança. Eu disse que a minha era eficiente e de total confiança, embora fosse meio mão pesada. Ele a contratou. Um mês depois me disse, numa boa, que a mulher tinha quebrado todos os copos de vidro da casa dele. Eu não sabia onde me enfiar!

Quando recomendamos alguém, estamos dando nosso aval, o que indiretamente fala sobre o nosso padrão de qualidade. É por isso que costumamos pedir recomendações para aqueles que achamos que sabem avaliar bem aquele serviço, aqueles em quem confiamos.

Para o tradutor iniciante, não é fácil conseguir indicações -- o que é natural, já que ele tem pouca experiência e portanto interagiu com pouca gente. Mas não são só clientes felizes que nos indicam. Colegas que conheçam nossa capacidade também. Essa é uma das vantagens (além das outras, mais óbvias) de se fazer cursos de tradução: os colegas e tradutores conhecem seu desempenho e, se este for alto, se lembrarão de você.

Esse é o tal "networking", que soa muito mais bonito do que "QI". Mas eu não vejo muita diferença. Para ter "I", é preciso ter "Q" -- é preciso conhecer gente. Quanto mais gente souber que você é um tradutor competente, ou dedicado, ou esforçado, mais indicações surgirão. Sem investir em contatos e parcerias, realmente fica difícil.

Outro detalhe é que indicação se ganha, mas não se pede. É extremamente constrangedor receber de alguém o pedido de recomendá-lo. Além da responsabilidade ser muito grande, a indicação normalmente é feita atendendo ao pedido de quem está procurando um profissional, e não o contrário. Assim: se um cliente me pedir uma recomendação de um tradutor de italiano, eu vou pensar nos tradutores de italiano que conheço e recomendar algum. Já se um amigo ou colega me disser "Eu traduzo italiano; você pode me recomendar para aquele seu cliente?" a história muda totalmente.

Eu dou cursos e muitas vezes recomendei alunos. Mas é preciso uma combinação de circunstâncias: cliente precisando de alguém, não exigindo que seja alguém com muita experiência e o aluno se encaixando bem naquele perfil. Aliás, perfil é muito mais do que saber traduzir. É preciso ter perfil de profissional -- saber se comunicar com o cliente, saber negociar, lidar bem com os prazos... Há mil pontos onde alguém pode pisar na bola.

Mas sentimos uma satisfação enorme quando uma recomendação nossa dá certo. A pessoa recomendada fica feliz, o cliente fica feliz, ambos confiam ainda mais no nosso padrão de qualidade e todos estreitam os laços da lealdade.

Boas parcerias geram bom QI para todos.

28 de setembro de 2008

"O caminho das legendas"

Esta notícia está uns dois meses atrasada, mas antes tarde do que nunca.

Fiquei feliz em ver a matéria sobre os bastidores da legendagem publicada na Revista da TV do jornal O Globo, em agosto. A autora é a Elizabete Antunes.

Coisa rara de se ver, a reportagem enfoca as produtoras cariocas responsáveis por boa parte dos programas legendados que o Brasil assiste nos canais de TV a cabo. Os tradutores participam também, é claro, mas o fato do foco serem as produtoras dá uma perspectiva muito mais real. Afinal, são as produtoras que contratam os tradutores -- os materiais fornecidos, as normas e os padrões impostos, a revisão, a remuneração ficam a cargo delas.

A matéria mostra bem essa integração entre tradutores e produtores. Aliás, dizer só "produtores" também é reducionista, pois em uma produtora trabalham engenheiros de som e vídeo, programadores e outros profissionais (dos quais relativamente poucos lidam com línguas e textos). Além disso, a relação de trabalho mais direta é entre o tradutor e o produtor, mas este por sua vez está prestando um serviço para o canal ou a distribuidora -- que passa a ser o cliente indireto do tradutor também -- e vale lembrar que o público-alvo dessa turma toda é outro, bem diferente: é o pessoal que está no sofá, comendo pipoca e querendo rir e chorar vendo filmes e programas (rir e chorar por causa do conteúdo, não da qualidade da tradução, é claro). É justamente uma integração bem-sucedida entre todos os profissionais que interagem nos bastidores que vai garantir uma boa qualidade no final do processo.

Vale lembrar que a matéria enfoca apenas um recorte do que é o mercado de legendagem. O público repara muito nas legendas da TV, é claro, mas o universo da legendagem é muito maior do que isso.

Clicando na imagem abaixo dá para ler a matéria toda.

8 de julho de 2008

Panorama do mercado de legendagem

Os mercados de tradução para legendagem

O mais difícil de se falar “do mercado de legendagem” é que, assim como o campo da tradução, não há um mercado uniforme, capaz de ser sintetizado sob um rótulo só. São muitos os sub-campos, que incluem diferentes especializações dentro da legendagem (que por sua vez é uma especialização dentro do campo de tradução audiovisual).

Portanto, não existe uma resposta simples para as perguntas que mais ouço de colegas e alunos: “Como funciona o mercado de legendagem?” ou “Quais são as perspectivas de trabalho com legendagem?”

Da mesma forma que acontece com a tradução, os diversos nichos de trabalho com legendagem foram se desenvolvendo a partir da necessidade. A existência de empresas especializadas na tradução de materiais audiovisuais é recente – até não muito tempo atrás, eram as próprias produtoras e distribuidoras de filmes que se encarregavam da tradução, conforme surgia essa demanda, e a tarefa nem sempre era desempenhada por profissionais devidamente preparados.

O cinema é o meio mais antigo para a exibição de filmes. À medida que a necessidade de tradução de filmes em todo o mundo foi aumentando, foi se desenvolvendo uma padronização, com métodos relativamente uniformizados mundialmente. Vale lembrar que o cinema levou décadas para se disseminar, estabelecendo sua linguagem própria, conquistando espaço, e a tradução de filmes também teve tempo para estabelecer padrões de trabalho e de qualidade.

A explosão global da tradução audiovisual veio com o advento do VHS, quando surgiu a necessidade de se relançar – e retraduzir – toda a produção já lançada em 35 mm. Além disso, os custos de produção e sobretudo de distribuição de filmes ficaram muitos mais baixos, o que aumentou a produção de novos materiais. Foi então, há 20 ou 30 anos, que começaram a surgir empresas mais voltadas para as tarefas de tradução. O VHS envolve outros materiais físicos, outros aparelhos para sua edição e outro meio para sua exibição – a telinha da televisão, em vez da telona do cinema. Isso obrigou os tradutores a adaptarem métodos e técnicas, não sendo possível utilizar as traduções feitas para o cinema e nem sequer sua metodologia. Diferentes produtoras, em diferentes locais, foram adaptando os métodos de trabalho. Surgiu um número bem maior de produtoras de VHS do que de cinema, aumentou a demanda por tradução e começaram a surgir tradutores voltados para essa indústria.

Pronto: já havia dois grandes mercados, cada qual com suas produtoras, seus métodos e seus tradutores. O cinema continuou crescendo, mas o VHS aumentou exponencialmente a comercialização de filmes e a demanda por tradução.

Depois veio a revolução do DVD, como parte do movimento dos novos meios digitais de produção. Novamente, os catálogos antigos precisavam ser relançados. Muitos programas novos passaram a ser produzidos diretamente utilizando meios digitais. O público alcançado tornou-se ainda maior do que todos os anteriores. E, desta vez, cada filme veiculado em DVD podia incluir várias traduções, em diferentes modalidades (legendagem e dublagem, por exemplo) e mais de uma língua. Novamente, houve uma mudança radical de mídia, técnica, tecnologia e, portanto, metodologia de tradução. O universo das produtoras ficou ainda mais pulverizado, pois o mundo digital demanda uma infra-estrutura fisicamente menor do que o de VHS e muito menor do que o de cinema – hoje em dia, uma produtora pode perfeitamente consistir de um homem com um computador potente.

A enorme demanda por tradução associada à fragmentação da indústria produtora e distribuidora de filmes fez com que todo o processo ligado à tradução – desde a seleção dos tradutores até o controle de qualidade, passando pela metodologia de trabalho – ficasse mais inconsistente: uma produtora séria pode investir mais na qualidade de suas traduções, mas não são poucos os editores de vídeos que só procuram um serviço barato, sem se importar com a qualidade.

Além disso, às vezes é a distribuidora original do filme que se encarrega da tradução; às vezes é uma produtora contratada para realizar outras tarefas de edição ou distribuição na cultura-alvo; às vezes é uma empresa especializada em tradução.

E vale lembrar que os recursos digitais aumentaram a produção de filmes não comerciais, portanto invisíveis ao público de cinema e TV: aqueles feitos por empresas e organizações, para fins educativos, institucionais e técnicos. Trata-se de um mercado “independente” e mais pulverizado ainda, que está em franco crescimento e costuma oferecer uma remuneração muito boa.

Há ainda a TV a cabo, que novamente levou ao desenvolvimento de produtoras especializadas, as quais muitas vezes contam com tradutores contratados, além dos terceirizados. Aqui entram também materiais diferentes, outros públicos e objetivos para a tradução. É um mercado que continua crescendo.

Portanto, já podemos mencionar 4 ou 5 mercados de legendagem. Se um mesmo filme passar por todos eles, ele provavelmente será traduzido 4 ou 5 vezes, por empresas e tradutores diferentes. Cada um deles não constitui uma especialização propriamente dita, nem são totalmente independentes ou desvinculados um do outro, mas é comum que os tradutores se envolvam mais com um deles, às vezes tendo pouco contato com os outros. Tudo depende de qual desses nichos abre a primeira porta e de como tudo se desenrola a partir daí. Se um tradutor começa prestando serviços para uma empresa do ramo de DVD e der certo, o mais provável é que ele continue nesse nicho, passando a conhecer e interagir com outras empresas do ramo. De forma semelhante, um tradutor técnico que já tenha contato com empresas de um determinado ramo e domine técnicas de legendagem tem mais chances de ser bem-sucedido traduzindo filmes técnicos para empresas desse ramo.

Nos últimos anos, os mercados de DVD e de TV a cabo, que são os mais inconstantes em termos de qualidade da tradução, vêm investindo mais na seleção e no treinamento de tradutores e no controle de qualidade das traduções, sobretudo em resposta a reclamações de consumidores e assinantes. O padrão das traduções feitas no Brasil aumentou significativamente. O que os espectadores nem sempre têm como saber é o que é feito aqui e o que não é – por exemplo, alguns canais são inteiramente traduzidos na Venezuela ou em Miami para toda a América Latina, e muitos DVDs vendidos no Brasil também não são traduzidos aqui.

Valores

Assim como não existe um mercado unificado, também não existem valores padronizados para remunerar a tradução para legendagem. Da mesma forma que acontece com todo o mercado de tradução, os preços dependem da relação oferta-demanda, do grau de especialização e experiência do tradutor e de quantos intermediários existem entre o tradutor e o cliente final.

Não é o Bill Gates que contrata os tradutores para traduzir o próximo Windows, nem o Dan Brown que procura tradutores em todo o mundo para seu próximo best-seller. Também não é o Spielberg que vem ao Brasil escolher um tradutor para seus filmes. São muitas as empresas e pessoas entre eles e nós – e os tradutores costumamos estar quase no fim da linha das etapas de produção e distribuição de qualquer material, inclusive os audiovisuais.

Naturalmente, quanto menos distância houver entre nós e quem encomenda o serviço de tradução – por exemplo, a distribuidora de determinado filme no Brasil ou a empresa que preparou determinado vídeo técnico – mais próximo conseguiremos cobrar dos valores sugeridos no site do Sindicato dos Tradutores.

Já quando o serviço é prestado para alguma produtora grande, contratada pelo cliente final para realizar uma série de serviços ligados à edição e distribuição e exibição do filme, entre eles a tradução, a produtora absorverá a maior parte do orçamento do cliente e oferecerá ao tradutor algo entre metade e um quarto dos valores sugeridos pelo Sintra. Mas há muita variação, pois cada produtora tem sua própria tabela, que pode levar em conta ou a duração dos filmes ou a quantidade de caracteres da legendagem, o grau de dificuldade do material, as línguas envolvidas e inclusive o nível de experiência do tradutor.

São muitas as variáveis e é impossível dar uma idéia precisa de quanto um tradutor dessa área ganha. Por um mesmo longa-metragem, pode-se ganhar de R$ 400 a R$ 1500, dependendo das condições. O prazo pode variar de 3 a 10 dias. Naturalmente, quanto maior a produtividade do tradutor, mais ele ganhará, então um tradutor mais especializado e experiente costuma ganhar mais – tanto sua cartela de clientes é maior quanto seu trabalho é mais eficiente.

O panorama atual

A indústria do cinema continua ativa, mas o número de títulos lançados não aumenta (ao menos significativamente) a cada ano. Portanto, trata-se de um mercado mais estabilizado, que não procura ativamente novos tradutores com muita freqüência.

O oposto ocorre com os mercados mais novos, de DVD, TV a cabo e filmes institucionais e técnicos. Eles continuam crescendo e buscando tradutores mais capacitados. A preocupação com a qualidade levou à proliferação de cursos instrumentais para tradutores, e hoje há uma grande oferta de cursos de legendagem, com propostas e objetivos diferentes. A indústria, por sua vez, tem dado preferência aos tradutores com alguma experiência ou, pelo menos, que tenham feito algum curso na área.

A tecnologia se desenvolve a um ritmo cada vez mais alucinado. Dez anos atrás, quase todos os tradutores especializados na área usavam *um* software de legendagem, disponível na versão “grátis porém horrenda” ou “profissional e caríssima”. Agora, surgem programas novos a cada ano, também com propostas diferentes. Um produtor de vídeo pode empregar um software caro para edição, enquanto seus tradutores trabalham com programas baratos ou até mesmo gratuitos (mas modernos e excelentes), que geram arquivos de formato compatível com o requerido pelos clientes. Portanto, uma das tarefas essenciais dos prestadores de serviços é se manterem a par das novas tecnologias e dos recursos disponíveis.

Vale ressaltar que não é imprescindível utilizar software específico para legendagem. São muitas as produtoras que preparam arquivos de texto para que seus tradutores trabalhem utilizando somente um editor de texto, como o Word. O ramo de cinema também não trabalha com software específico, e as traduções também são feitas em Word. Contudo, o tradutor que domina algum software tem acesso a uma gama maior de clientes, sobretudo os que lidam com tecnologias mais novas. Hoje em dia, um tradutor que quer entrar no mercado de legendagem terá muito menos oportunidades se não dominar um software de legendagem.

As tecnologias digitais também libertaram clientes e tradutores da restrição do espaço. Não é mais necessário estar próximo, para pegar e levar pilhas de fitas VHS e scripts em papel. Atualmente, o método de trabalho mais comum é à distância: o produtor gera uma cópia digital em baixa resolução do filme e a transfere para o tradutor via internet. Este também manda a tradução pronta (em formato de texto) pela internet para o cliente. Portanto, a localização física do tradutor e do cliente deixou de ser relevante, e mesmo o processo de seleção pode ser realizado à distância.

Início de carreira

As grandes produtoras de DVD e TV a cabo – várias delas totalmente dedicadas à tradução audiovisual – têm há vários anos uma demanda crescente de serviço e estão sempre à procura de bons tradutores. A remuneração cai, mas há grande quantidade de serviço, portanto elas são um bom ponto de entrada para os profissionais que não tenham outros contatos em algum nicho mais bem remunerado. São um bom local para se aprender e se ganhar autonomia.

Pessoalmente, a julgar pelas experiências por que já passei, eu ganho mais ou menos o mesmo dedicando-me exclusivamente a prestar serviços para produtoras de vídeo do que para editoras ou para agências de tradução (três tipos de clientes notórios pela grande oferta de serviço e pela remuneração “fraca”). Sempre que surge a oportunidade de prestar serviços diretos aos clientes finais – ou a intermediários menores e mais especializados –, essa é minha escolha, e aí os valores recebidos se multiplicam.

Não é possível dizer se “o mercado de legendagem remunera bem ou mal”, pois como vimos não existe esse tipo de padronização. No meu entender, o mercado de legendagem é uma amostra fiel do que é o universo da tradução como um todo: há clientes melhores e piores, tradutores melhores e piores, projetos menos e mais interessantes. Cabe a nós irmos abrindo caminho no mercado, fazendo contatos, nos fazendo conhecer, procurando melhorar, e assim buscarmos os melhores projetos e clientes. Muito vem com tempo e dedicação.

Estamos sempre batendo em portas, e nem sempre as que se abrem são as que imaginávamos. É preciso ter uma boa dose de jogo de cintura. Quanto mais ferramentas tenhamos à mão e quanto mais técnicas dominarmos, melhor estaremos preparados para agarrar uma oportunidade quando esta surgir.

Em síntese (ou FAQ):

É possível viver de legendagem?
Sim.
Se bem que o que se considera “viver bem” é uma questão pessoal e intransferível. Além disso, a maioria dos tradutores é “multitarefa” e não fica restrita a um só mercado de tradução – é o meu caso.

É preciso estar no Rio ou em São Paulo para trabalhar com legendagem?
Não.
Trabalha-se pela internet. Os tradutores interagem entre si e com os clientes através de diversos recursos virtuais. Não conhecer nem fazer bom uso desses recursos significa perder a maioria das oportunidades de trabalho.

É preciso algum tipo de certificado ou estudo formal para atuar no mercado?
Não.

Os clientes querem desempenho e qualidade. Ao examinarem seu currículo, querem saber se você tem alguma experiência, e é claro que ter estudado e se preparado ajuda muito. Ter feito um curso de legendagem significa que você já tem alguma experiência prática, e isso costuma ser o suficiente para o potencial cliente oferecer um teste. O que conta mesmo, na prática, é o teste e sua primeira experiência de trabalho com aquele cliente. Se for satisfatória, não importa se você tem quatro PhDs ou Supletivo. Portanto, prepare-se para atender com qualidade às demandas do mercado – as quais, no caso da legendagem, são majoritariamente práticas.

28 de dezembro de 2007

Tradutores unidos

São raros os casos de união e mobilização entre tradutores que conseguem sair da esfera restrita de círculos acadêmicos e chegar à imprensa.

Um caso recente e louvável é o do abaixo-assinado elaborado por tradutores literários em repúdio aos casos de plágio de traduções veiculados recentemente na mídia. Não houve a participação de nenhuma entidade de classe, profissional ou acadêmica; trata-se apenas de indivíduos em comunicação por e-mail.

O texto é excelente e já está gerando repercussão. A publicação foi feita originalmente num blog, onde estão sendo publicados comentários e questões relacionadas.

11 de março de 2007

O tradutor, o autor e o escritor

No boletim de março da SBS foi publicado este artigo excelente, que copio na íntegra abaixo:

Grandes tradutores agora recebem status de autor
Fonte: Litteratura - 5/2/2007
Marcos Strecker

O mercado editorial brasileiro vive hoje o melhor momento de sua história - quando se fala de tradução. Uma grande geração de tradutores valorizados pelas editoras e fiscalizados pela crítica responde por uma profissionalização inédita, um movimento ainda em expansão. Eles ganham o status de autor, sonho dos teóricos desde os anos 60.

O fenômeno é mais visível pelas grandes traduções lançadas nos últimos anos, pelo esforço empreendido em traduções alternativas, pela melhor remuneração dos profissionais (pagamento por empreitada, e não mais por lauda) e pela diversidade de línguas traduzidas do original - várias raramente eram vertidas diretamente para o português.

É o caso do japonês, por exemplo. A tradutora Leiko Gotoda, sobrinha do escritor Junichiro Tanizaki e uma das "estrelas" da atual geração de tradutores, já verteu inéditos de Yukio Mishima, do clássico Eiji Yoshikawa e do tio Tanizaki para a Estação Liberdade. Acaba de finalizar seu maior desafio: traduzir "Jovens de um Novo Tempo, Despertai!", do Prêmio Nobel Kenzaburo Oe, a ser lançado em junho pela Companhia das Letras.

Os exemplos são vários. Pela primeira vez o "Livro das Mil e Uma Noites" (ed. Globo) foi traduzido do árabe, por Mamede Mustafa Jarouche. "Dom Quixote "ganhou nova tradução ("O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha", ed. Record), feita em parceria pelo brasileiro Carlos Nougué e o espanhol José Luis Sánchez. O monumental "Ulisses" (ed. Objetiva), de James Joyce, ganhou nova versão de Bernardina da Silveira Pinheiro, para concorrer com a conhecida tradução de Antônio Houaiss.

Um dos sinais mais evidentes da profissionalização é a diminuição das traduções feitas a partir de versões do inglês e do francês, o que era prática corrente.

"A tradução se tornou um tema relevante, não marginal. A crítica e o "policiamento crítico" da tradução fez com que os tradutores fossem mais reconhecidos pelos editores e cuidassem melhor do seu trabalho", afirma o professor e tradutor Modesto Carone, especialista nas obras de Franz Kafka.

"Hoje a coisa está muito mais profissional: o que eram ilhas [grandes nomes do passado], hoje são arquipélagos. Muita gente está trabalhando e competindo no sentido de ter uma tradução melhor", diz José Mario Pereira, da editora Topbooks.

Para Carone, "sem dúvida há uma quantidade maior de tradutores talentosos. O que existia antes eram grandes e notáveis exceções. Agora a média é bastante elevada". Para Davi Arrigucci Jr., um dos principais críticos literários do país, "houve uma renovação notável da tradução de um modo geral". Segundo ele, "a tradução adquiriu um nível de qualidade artística que disputa o espaço da própria criação. Isso é bastante visível".

Segundo o professor Boris Schnaiderman, "houve uma diversificação maior, estamos traduzindo do húngaro, do japonês, línguas que eram completamente desconhecidas". A proliferação de cursos de literatura e a criação das cátedras de teoria da tradução certamente ajudaram. "Hoje é um absurdo falar em uma tradução sem mencionar o tradutor. Antes isso era comum", afirma o poeta e tradutor Ivo Barroso. "O público universitário não era o de hoje", pondera Pereira.

Para Barroso, "a profissionalização veio após os anos 70, quando já começa a aparecer o tradutor especialista em assuntos, como existe em outros países mais adiantados".

Segundo ele, o problema continua sendo a remuneração. "Poderiam ter coisas muito melhores se houvesse uma participação na vendagem. Na França havia um sujeito que vivia dos direitos de tradução de "O Vento Levou'", diz. "O serviço do tradutor é o mais importante. Todo mundo já conhece o autor, agora precisa prestar atenção em quem é o tradutor", afirma.

Segundo Arrigucci, "a imprensa era muito omissa em relação ao valor da tradução. Isso também acontecia na universidade".

"O crítico vigilante é o mais importante", diz Barroso. Para ele, "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor. Hoje acontece a conscientização ao máximo, que é a tradução direto do original. Mas falta a adequação do tradutor, que tem que ser um bom escritor em português. Um Leonardo Fróes traduzindo Virginia Woolf é sensacional, você sente a prosa inglesa, é admirável", afirma.

O que remete à questão: traduzir diretamente dos originais é garantia de qualidade? Muitas vezes não, e tanto Barroso quanto Arrigucci elogiam traduções antigas, feitas do francês ou inglês.

São inúmeros os aspectos positivos do artigo: a formação de tradutores, a profissionalização e a especialização da tradução, a crítica atenta, o destaque do tradutor atrelado à sua responsabilidade sobre o texto traduzido, a maior preocupação das editoras na escolha dos profissionais, a necessidade de remuneração compatível com a responsabilidade assumida e com a visibilidade do texto.

Como quase sempre que se menciona tradução na mídia, leva-se em consideração somente a tradução de literatura -- e não de qualquer literatura de consumo, mas da "alta" literatura. É claro que essa é uma área importante por ser uma "vitrine" para os tradutores e que quando se chama a atenção positivamente para um segmento do mercado de tradução a classe profissional como um todo é beneficiada. Vale lembrar, porém, que esse é o menor campo da tradução: o volume de obras de alta literatura traduzidas e a quantidade de tradutores envolvidos é bastante pequeno, sobretudo em comparação com as inúmeras aplicações da tradução em áreas técnicas, cujos tradutores na maioria das vezes são anônimos.

Seria muito bom, muito benéfico para os profissionais envolvidos com tradução e para o público consumidor de modo geral, se surgissem matérias tão bem elaboradas como essa que abordassem a tradução que permeia nosso dia-a-dia sem que percebamos: em instruções para usar um celular, botões e telas de programas computacionais, notícias publicadas em jornais, caixas de cereais.

Outra questão muito interessante levantada pelo artigo é a relação entre os conceitos de tradutor, autor e escritor.

Direitos autorais do tradutor existem, apesar de não significarem exatamente o mesmo que os direitos autor. A discussão sobre o tema é longa e tem aflorado recentemente no Brasil, sempre vinculada à tradução literária. Em círculos acadêmicos e profissionais discute-se uma diferença entre tradução-meio e tradução-fim: a primeira é a que permite ao comprador de um celular entender as instruções e utilizar o aparelho; a segunda seria um livro traduzido que é comercializado. No primeiro caso, argumenta-se que o fabricante do celular precisa da tradução, mas não ganha dinheiro com a venda da tradução. Esse tradutor, portanto, não receberia direitos autorais. Já o editor pode lucrar muito com a venda do livro traduzido, de modo que o tradutor mereceria uma participação nas vendas. A discussão é muito rica e bastante controversa. E se complica ainda mais quando se pensa no caso, não raro, em que a venda de uma tradução publicada dá prejuízo para o editor -- o tradutor também perderia dinheiro? (Particularmente, eu confesso que não consegui formar uma opinião clara sobre essa questão e prefiro me manter bem acomodada em cima do muro.)

Quanto à questão do escritor, todo tradutor profissional é sem dúvida um escritor. Segundo o teórico André Lefevere, é ainda um leitor profissional, de forma semelhante aos acadêmicos das áreas de letras e literatura e aos críticos especializados. Quando um tradutor vende seus serviços de tradução, está vendendo sua capacidade de ler e de escrever profissionalmente -- e mais algumas coisinhas na passagem de um para outro. Mas é claro que não é esse o significado de escritor quando Ivo Barroso afirma que "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor". Esse é um dos dogmas clássicos da tradução literária: os melhores tradutores seriam, antes, autores reconhecidos. Supostamente a profissão de escritor ou poeta seria um pré-requisito para se traduzir obras literárias. Eu discordo veementemente desse dogma, o que não quer dizer que diversos escritores renomados não sejam magníficos tradutores -- uma coisa não exclui a outra, mas também não a obriga.

Pensando sobre a identidade desse indivíduo, o tradutor, eu imagino algo que poderia ser representado pela teoria dos conjuntos: há um conjunto "autor", um conjunto "escritor", um conjunto "leitor" e outros conjuntos que envolvem áreas de especialidade, como "medicina" ou "direito". O tradutor seria um conjunto que faz interseções com todos esses conjuntos, sem estar contido nem conter inteiramente nenhum deles e tendo ainda uma parcela que lhe é própria.

Eu, pelo menos, gosto de me ver assim.

6 de março de 2007

Erros de tradução nas legendas de canais pagos

O contexto desta discussão:

  • No dia 19 de janeiro foi publicada uma matéria no site Séries Etc. intitulada "Erros de tradução, digitação, português, falta de legendas: é difícil entender as séries na TV paga". A matéria critica, não sem uma boa dose de razão, problemas sérios em alguns canais de TV a cabo, entre eles a falta de legendas ou a presença de legendas ou palavras em espanhol, além dos sempre destacados erros de tradução. Contudo, muitos dos erros não são exatamente erros e muitas das soluções apresentadas como "tradução adequada" são traduções muito ruins.
  • Eu tomei conhecimento dessa matéria no fórum Tradutores/Intérpretes BR do Orkut, onde o tema foi debatido e vários exemplos de "erros" foram dissecados. A tônica aqui foi mais no sentido de desqualificar os argumentos do autor da matéria (afinal, é um fórum de tradutores), mas as críticas são bem fundamentadas.
  • Ao mesmo tempo, a matéria foi divulgada no Legendar.com.br, desta vez um site/blog de profissionais da área de legendagem, que elogia a matéria pois ela demonstraria indiretamente a necessidade de canais e produtoras melhorarem as condições de trabalho e o controle de qualidade das traduções e valorizarem mais o espectador.
  • Depois, no dia 24 de janeiro, foi publicada outra nota no Séries Etc. em que André Braga, sócio da Bravo Filmes, responsável por uma das séries cujas tradução foi criticada, pede desculpas, justifica algumas das dificuldades e explica um pouco sobre as questões técnicas da legendagem.

Eu concordo com parte todas essas posições e me manifestei no fórum do Orkut e no Legendar. Aqui discorro um pouco mais sobre essa questão.

Em princípio, é ótimo que críticos e espectadores se manifestem para reclamar da má qualidade dos serviços oferecidos. Em canais dedicados à exibição de programas estrangeiros, a tradução deveria ser um dos serviços mais valorizados. Não é. Todos estão sempre apertando os cintos e cortando custos, e o custo da tradução é relativamente fácil de cortar, sobretudo num mercado com alta demanda de serviços e uma oferta muitíssimo maior de tradutores.

Não que exista um número tão grande de tradutores especializados em legendagem, com grande domínio das técnicas - lingüísticas e tecnológicas - envolvidas na elaboração de legendas, com alto nível de proficiência na tradução dos mais variados assuntos e com a capacidade de traduzir algumas horas de programas por semana. Nenhum desses aspectos é fácil ou intuitivo e são necessários anos de prática até se atingir o nível de técnica, qualidade e velocidade exigido pelos clientes mais relevantes - aqueles que pagam muito bem, são muito exigentes e, se satisfeitos, fornecem muito trabalho a seus tradutores. Aliás, se são poucos os tradutores desse nível, também são poucos os clientes desse tipo. O mais comum são canais e produtoras com grandes volumes de serviço, muita pressa, a necessidade de cortar despesas e com dezenas de tradutores iniciantes batendo na porta, ansiosos para trabalharem com filmes e séries. Se estes não são muito bem preparados e aqueles não se preocupam muito com a qualidade, já sabemos que resultado esperar.

O espectador reclama com toda razão quando detecta problemas como alguns dos citados na matéria do Séries Etc., por exemplo:

Sincronia:

"Criminal Minds", no AXN, apresentou legendas fora de sincronia, ultrapassando o programa e exibidas durante o comercial.

Dependendo do canal, às vezes ocorre da imagem ser transmitida de um país e a legenda de outro, via satélite, e serem exibidas em sincronia num terceiro lugar. É uma estratégia altamente propensa a erros, a mesma que às vezes resulta em programas inteiros legendados em espanhol aqui no Brasil.

"Portunhol":

Programa "Inside the Movies", no Warner Channel, sobre o filme "Menores Desacompanhados"
Legendas em "portunhol": "Un pouco da personalidade do outro". // "E de estarnos juntos, fez com que ficássemos mais unidos". // "Daí o bonito de ver com fazem parte de una família, mesmo sem terem uma."

Como explica o sócio da Bravo Filmes na segunda matéria do Séries Etc., para economizar tempo refazendo a sincronia das legendas, é comum aproveitar uma tradução já feita, no caso em espanhol, e substituir o texto em espanhol pela tradução em português. Se bem revisada, a prática é comum e eficiente. O problema é quando falta revisão, inclusive ortográfica. E falta de correção ortográfica é um erro gravíssimo em qualquer contexto.

(Inexplicável:)

"Grounded For Life", na Fox
Fala Original: Get that done!
Tradução Adequada: Termine isso!
Tradução do Canal: Pegue a boneca!
(Detalhe: os personagens estão no meio da rua carregando canos e não há nenhuma boneca na cena.)

A tradução provavelmente foi feita de ouvido, sem script para acompanhar, e o tradutor entendeu "doll" em vez de "done". O lapso de audição não seria tão sério se o tradutor não tivesse cometido o erro, muitíssimo mais grave, de não desconfiar de que aquilo não faz sentido no contexto. De fato, nada justifica isso.

Há ainda erros mais bobos aos quais todos estão sujeitos, que idealmente deveriam ser identificados e consertados na revisão, desde que a tradução em geral seja boa e a revisão também.

Porém, o texto das legendas sofre muitas alterações com relação ao original para que não ultrapasse um número máximo de caracteres por segundo, isto é, para garantir que o espectador médio consiga ler todo o texto da legenda antes que ela desapareça. Uma tradução perfeita e completíssima pode resultar em um filme incompreensível, pelo simples fato de que ninguém consegue ler as legendas a tempo. Sempre é necessário sintetizar e simplificar o texto nas legendas - às vezes, drasticamente. Esse pode ser o motivo das adaptações feitas em um dos exemplos criticados como erro:

"The New Adventures of Old Christine", no Warner
Fala Original: Did mom and dad took you to church?
Tradução Adequada: A mamãe e o papai te levavam à igreja?
Tradução do Canal: Papai e mamãe iam à igreja?
Fala Original: No, they dropped me off on the way to bingo.
Tradução Adequada: Não, eles me deixavam lá no caminho do bingo.
Tradução do Canal: Não, eles iam jogar bingo.

Finalmente, há casos em que não há nada de errado na tradução, mas o crítico discordou dela porque ela não corresponde à tradução literal e macarrônica que ele considera "adequada":

Episódio de estréia de "Prison Break", na Fox
Fala Original: Specially since we don’t have a pot to piss in, thanks to Abruzzi’s magically desapearing plane.
Tradução Adequada: Principalmente, desde que não temos nem onde urinar, graças ao avião do Abruzzi que magicamente desapareceu.
Tradução do Canal: E não temos nem um centavo, graças ao avião do Abruzzi que sumiu.

Como eu disse, o espectador tem o direito de reclamar e de exigir um bom serviço. Porém, para que a reclamação surta algum efeito, ela deve (i) estar bem embasada e formulada e (ii) ser encaminhada ao responsável por aquele serviço. E, se bem o tradutor que cometeu os erros tem uma parcela de culpa, no contexto do serviço o responsável é o cliente (o canal, a distribuidora, a produtora), pois foi ele que selecionou o tradutor, avaliou o serviço, comprou os direitos autorais e assumiu a responsabilidade por aquela exibição. Críticas pouco fundamentadas e mal direcionadas podem, no máximo, causar graça, mas dificilmente ajudarão a melhorar a qualidade das traduções.

Para fundamentar bem a reclamação, é preciso tomar nota de onde e quando aquele programa foi exibido (um mesmo material recebe várias traduções diferentes, dependendo da produtora contratada e do detentor dos direitos autorais, de modo que a tradução para o cinema será diferente da tradução para o DVD, o VHS e a TV, na maioria das vezes realizada por pessoas diferentes), reparar bem no contexto (as imagens, a cena, o que está acontecendo além daquela frase em particular) e levar em consideração que a legendagem não corresponde à tradução integral dos diálogos do filme. É uma adaptação desses diálogos para um formato muito específico, que permite ao espectador acompanhar o programa com som original, ler a tradução e ainda assim entender o que está acontecendo e curtir o programa -- o que não é nada trivial.

* * *

Aproveitando o tema: tenho coletado ou recebido perguntas sobre a prática e o mercado de legendagem e estou organizando um texto de perguntas e respostas, que espero publicar em breve. Portanto, se tiver alguma pergunta, aproveite para me mandar e eu a incorporo a esse post futuro.

20 de agosto de 2006

"Translation Directory"

O translationdirectory.com traz uma interessantíssima seção de artigos categorizados por tema. São centenas deles, fáceis de encontrar, com o trecho inicial disponível já no índice. Mais um ótimo site para manter na lista dos favoritos.

As seções gerais mais importantes são:
Há também categorias sobre línguas específicas e sobre especialidades, como tradução jurídica, científica, financeira, médica, literária, interpretação, localização e legendagem. E mais: críticas de dicionários, terminologia, ofertas de emprego e cadastro de tradutores.

Show!

19 de agosto de 2006

Serviços e desserviços

Quando se discute tradução na mídia, com freqüência o resultado é duvidoso - principalmente para os tradutores profissionais.

Um exemplo de um enorme desserviço a quem adotou a tradução como profissão e luta pela sua qualidade e valorização é a matéria publicada no Jornal do Brasil no dia 8 de agosto, a partir da divulgação dos 10 finalistas do Prêmio Jabuti, na categoria Tradução. A manchete, "Tradução traz prestígio mas é mal remunerada", traz uma falsa esperança de defesa do profissionalismo responsável, mas o conteúdo revela exatamente o contrário.

Dois dos tradutores indicados ao prêmio que foram entrevistados para essa matéria, Bernardina da Silveira Pinheiro e Mamede Mustafa Jarouche, são exemplos "de um grupo de tradutores cada vez mais procurado pelas editoras: o dos especialistas vindos das universidades, que traduzem diretamente do idioma de origem da obra e valorizam mais uma boa publicação do que a remuneração." (grifo meu) Ora, por que serão tão procurados? Jarouche responde: "Como não preciso da tradução para viver [por ser professor universitário], meu interesse é por uma boa edição do trabalho". É claro que, se eu fosse editora, não pensaria duas vezes em quem contratar. Até porque afirmações como essa transmitem nas entrelinhas que quem vive de tradução não teria a menor preocupação com a qualidade.

Rubens Figueiredo sai em defesa dos profissionais desqualificando elegantemente os tradutores vindos da academia: "Não é por serem doutores que as traduções superam as de outros profissionais." Mas a questão não é ser ou não ser doutor, e sim servir ou não ao vil metal. Ao menos no texto desta reportagem, a breve opinião de Figueiredo quase desaparece ao lado do relato das peripécias intelectuais dos outros dois tradutores e das justificativas dos editores para cortar custos a qualquer custo, inclusive a clássica "Já aconteceu muito de mandar traduzir um livro duas vezes", como se a responsabilidade por um tiro n'água não fosse, em grande parte, de quem contrata o serviço.

Realmente dá tristeza constatar a propagação de preconceitos reforçada pela troca pública de alfinetadas entre acadêmicos e profissionais, ambos com egos igualmente inchados. Estudo não é necessariamente sinônimo de arrogância, assim como ganhar dinheiro não depõe contra a erudição e o cuidado com o texto. O único alívio é ver que pelo menos as nobres traduções de nobres autores está em mãos de quem, de uma forma ou de outra, dedica a vida ao estudo das línguas, e não mais de aristocratas, diplomatas ou eruditos aleatórios.

Muito mais alegria me trouxe a entrevista com Millôr Fernandes publicada na revista Língua Portuguesa de agosto de 2005 (aliás, todo número dessa revista traz alguma reportagem sobre tradução. Infelizmente, nenhuma delas fica disponível online).

Não que Millôr não seja controverso, e também desdenha a academia. Mas é modesto e espontâneo, e com isso diz umas poucas e boas que pelo menos dão margem a discussões frutíferas. Perguntado sobre como começou a fazer tradução, diz: "Aprendi a fazer tradução porque me encomendaram e foi assim desde então. (...) Sempre fui movido por forças exógenas, exteriores. O primeiro livro que traduzi foi Dragon Seed, de Pearl S. Buck, em 1942. Nunca me senti tão roubado na vida, você traduz 300 páginas por uma mixaria."

Pena que a entrevista não é sobre tradução e a conversa toma outros rumos, mas depreendemos daí que, se ele aceitou traduzir vários outros livros, é porque foi bem remunerado. E, mesmo sendo bem remunerado, fez um ótimo trabalho e se preocupou com a qualidade da edição. Ergo, a culpa pelos textos descuidados não é apenas do vil metal. cqd.

Termino citando Anthony Pym, exemplo de acadêmico-profissional bem-sucedido nos dois universos, cujos textos eu sempre incluo em minhas aulas de tradução: "The most important part of a translation job is getting paid."

* * *

Notas finais: Quando a matéria do JB foi publicada, havia 10 finalistas concorrendo ao Prêmio Jabuti. No momento da publicação desta nota há 3, entre eles Mamede Jarouche e Bernardina Pinheiro. A tradução de Rubens Figueiredo foi desclassificada.
Pelo que pude apurar, nenhuma tradução de Millôr Fernandes esteve entre as 10 finalistas de nenhuma edição do Prêmio Jabuti.
Não estou tirando nenhuma conclusão ;o)

* * *

Atualização:

Mamede Jarouche pediu a publicação de uma resposta a esta discussão numa comunidade de tradutores do Orkut (o debate também ocorreu em listas de discussão de tradutores). Como a resposta dele é pública e muito valiosa para as questões discutidas aqui, acredito que eu também possa reproduzi-la aqui.

Não me lembro dessa entrevista. Faz um bom tempo que não falo com ninguém do Jornal do Brasil, logo não sei de que contexto exatamente foram tiradas as minhas palavras. Jamais, em tempo algum, eu me atreveria a me pronunciar de maneira depreciativamente genérica, ou genericamente depreciativa, contra os tradutores profissionais, de cujo labor, aliás, dependo muitíssimas vezes. Não acho, de modo algum, que por não ser profissional, e logo poder me dar ao luxo quase depravado de traduzir por prazer e produzir uma obra melhor. Isso é rematada tolice. Ocorre-me, talvez, que eu tenha dito o seguinte: como, ao contrário dos tradutores profissionais, não trabalhei premido por prazos, e como estava, além da tradução, pesquisando o assunto, pude colocar umas notas a mais que talvez um tradutor profissional não tivesse tempo de fazer. Veja bem, estou tentando adivinhar qual o contexto que levou à alteração das minhas palavras. Não posso garantir que tenha sido exatamente isso; o que posso garantir é que jamais, em tempo algum, eu atacaria os tradutores profssionais. Isso é loucura. Certamente não sou nenhum exemplo de sanidade, mas não chegaria a ponto de fazer uma sandice dessas, desqualificar o trabalho de toda uma categoria profissional. Por favor, deixem-me fora dessa encrenca. Se for o caso, escreverei ao próprio Jornal do Brasil. Vejam aí o que é melhor. Só não quero que esse mal-entendido permaneça.
grande abraço,
Mamede

Portanto, vale a pena reforçar: o desserviço é da matéria publicada no jornal, mas não necessariamente dos tradutores nela retratados. É sempre bom ler reportagens com uma pitada de sal.