28 de dezembro de 2007
Tradutores unidos
Um caso recente e louvável é o do abaixo-assinado elaborado por tradutores literários em repúdio aos casos de plágio de traduções veiculados recentemente na mídia. Não houve a participação de nenhuma entidade de classe, profissional ou acadêmica; trata-se apenas de indivíduos em comunicação por e-mail.
O texto é excelente e já está gerando repercussão. A publicação foi feita originalmente num blog, onde estão sendo publicados comentários e questões relacionadas.
20 de novembro de 2007
Legendagem à distância - nova turma
Atualização: este tópico se refere a atividades já encerradas. Veja as postagens mais recentes para ficar a par de novos cursos e eventos.
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O curso de introdução à legendagem de filmes, ministrado à distância através do Aulavox, será repetido e as inscrições para uma nova turma estão abertas.
O conteúdo será exatamente o mesmo do que está terminando agora - veja meu post anterior sobre o curso. Para frisar o principal:
Serão 5 "encontros" virtuais, uma vez por semana, com duração de uma hora. Neles eu vou expor noções gerais sobre a tradução audiovisual e características técnicas e estilísticas da modalidade de tradução que visa a exibição através de legendas -- desta vez pensando no DVD como meio de distribuição.
A ênfase do curso é prática. Em cada encontro (exceto no último), os alunos receberão um exercício para fazer em casa e me enviar por e-mail, o qual eu vou comentar e devolver. Na aula seguinte as dúvidas e soluções serão discutidas, e serão transmitidas novas informações e exercícios. Todos os exercícios serão em inglês, para tradução em português.
Neste primeiro curso, não será utilizado nenhum software específico. As únicas ferramentas necessárias são internet, qualquer "media player" e Word. Ao fim do curso eu demonstrarei um software de legendagem.
Desta vez, as aulas serão aos sábados, às 14h de Brasília, em janeiro e fevereiro.
Perguntas sobre vagas, forma de pagamento e outras questões administrativas, diretamente para o Aulavox.
Dúvidas sobre o conteúdo, as línguas e outras questões sobre o que será dado no curso, ou pedidos de cursos em outros dias/horas, línguas, ferramentas, continuações etc. para mim: caroltranslator@gmail.com
6 de outubro de 2007
Curso de legendagem à distância
Atualização: este tópico se refere a atividades já encerradas. Veja as postagens mais recentes para ficar a par de novos cursos e eventos.
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Vou ministrar pela primeira vez um curso de legendagem à distância, através do sistema Aulavox. O curso é introdutório, para tradutores e estudantes de tradução inglês-português sem experiência com legendagem.
Serão 5 "encontros" virtuais, uma vez por semana, com duração de uma hora. Neles eu vou expor noções gerais sobre a tradução audiovisual e características técnicas e estilísticas da modalidade de tradução que visa a exibição através de legendas -- desta vez pensando no DVD como meio de distribuição.
A ênfase do curso é prática. Em cada encontro (exceto no último), os alunos receberão um exercício para fazer em casa e me enviar por e-mail, o qual eu vou comentar e devolver. Na aula seguinte as dúvidas e soluções serão discutidas, e serão transmitidas novas informações e exercícios. Todos os exercícios serão em inglês, para tradução em português.
Neste primeiro curso, não será utilizado nenhum software específico. As únicas ferramentas necessárias são internet, qualquer "media player" e Word. Ao fim do curso eu demonstrarei um software de legendagem.
As aulas serão em novembro, sempre às quintas-feiras (1, 8, 15, 22 e 29 de novembro) às 19h do horário de Brasília. Clique aqui para mais informações.
Se esta primeira experiência for satisfatória, são várias as possibilidades no futuro, além da repetição deste curso em outros horários: tradução espanhol-português, treinamento com ferramentas específicas, e modalidades diferentes, como a tradução para cinema.
Estou aberta a sugestões e esclarecimentos. Basta adicionar um comentário aqui mesmo ou me mandar um e-mail.
29 de abril de 2007
God’s Secretaries: The Making of the King James Bible
Esta obra de 270 páginas, com ilustrações, descreve o contexto histórico, político, social e religioso que levou à elaboração da Bíblia do rei Jaime I (King James’ Bible), a tradução mais marcante da Bíblia. Até os dias de hoje esta é a versão mais citada e recitada da Bíblia em língua inglesa, entre as mais diversas denominações protestantes.
Esta Bíblia é algo fascinante: traduzida entre 1604 e 1611 (enquanto Shakespeare encenava algumas de suas peças mais significativas), ainda não foi superada por nenhuma outra das muitas versões mais recentes; é tão poética e sonora que muitos recitam trechos longos de cor (estádios inteiros no mundo todo, inclusive no Brasil, repetem uma longa passagem do Apocalipse sob o comando do vocalista do Iron Maiden, e quantos não decoraram as passagens que Samuel L. Jackson declama antes de assassinar suas vítimas em Pulp Fiction?); em nenhuma outra língua alcançou-se um feito à altura, de modo que os tradutores volta e meia nos vemos em palpos de aranha para traduzir os trechos em poesia recorrendo a diversas traduções em prosa em português.
O livro de Adam Nicolson, claramente uma exultação à Bíblia do rei Jaime, esmiúça as razões, os objetivos, as pressões e os processos que culminaram em seu texto e apresenta exemplos de opções conscientes de tradução segundo os interesses do rei e da grande comissão contratada para atender ao seu desejo. Um prato cheio para as diversas vertentes teóricas de literatura e tradução que investigam as influências ideológicas por trás de decisões tradutórias, representadas por Lawrence Venuti, André Lefevere, Susan Bassnett e José Lambert, entre outros.
Uma ressalva importante: o livro não é sobre tradução, não faz menção a nenhuma linha teórica específica e dedica poucas páginas ao processo de tradução da Bíblia e a comparar trechos com outras versões. O foco é o momento histórico peculiar em que ela foi produzida, que vai sendo preenchido com os personagens envolvidos, suas vidas e interesses. Nesse sentido, confesso que a leitura foi um pouco frustrante: como eu ansiava por conhecer os segredos íntimos do texto traduzido da Bíblia, li boa parte do livro construindo um clímax que se passou em pouquíssimas páginas, retratado como apenas um dos componentes da intrincada narrativa histórica.
Mas a história é absolutamente fascinante. Numa Inglaterra com um estado-igreja já separado do Vaticano mas que manteve a estrutura hierárquica e simbólica da Igreja Católica e que começava a testemunhar a eclosão de guerras religiosas na Europa continental, Jaime, escocês de modos rudes, filho da católica Mary – aprisionada quando ele era criança e morta anos depois – e educado por presbiterianos radicais, é nomeado rei. Seus passatempos eram caçar, escrever tratados (foi o primeiro rei a ter sua obra reunida e publicada em muitos volumes) e sentar-se para discutir acaloradamente passagens bíblicas por horas a fio com representantes de opiniões opostas. Ao chegar à Inglaterra, foi logo assediado simultaneamente pelos puritanos para que extirpasse os resquícios católicos da Igreja Anglicana e instaurasse uma autêntica república calvinista, pelos católicos para que se reconciliasse com o Vaticano, e pelos anglicanos para que não pusesse a perder todo o trabalho de Elizabeth I, que os fixara no poder eclesial inglês. Não se sentia à vontade com nenhuma das três posições, sobretudo com a puritana, que significaria o fim da monarquia, mas percebeu a oportunidade de tentar amalgamar todas essas vertentes sob um estado culto, religioso e tolerante. Tratou então de manter afastados os integrantes extremistas dos três movimentos e reuniu os demais, os moderados que ansiavam por cair nas graças do rei. Essas reuniões deram origem à ordem de providenciar uma nova versão da Bíblia, à altura da próspera sociedade jacobina.
Circulavam então uma tradução do luterano William Tyndale, produzida durante sua fuga pela Europa e interrompida com sua morte, e outras duas ou três aprovadas pela Igreja Anglicana que eram versões “corrigidas” daquela, além da chamada Bishop’s Bible, feita durante o reinado de Elizabeth e usada como Bíblia oficial, e a Bíblia calvinista de Genebra, anti-monarquista e repleta de fortes notas explicativas, utilizada em privado pelos puritanos. Todas elas serviram como fontes oficiais de referência para os tradutores de Jaime, cinqüenta teólogos de diferentes denominações que viviam de cargos nas esferas religiosa e educacional, e portanto dependiam do status quo. Aliás, “Tradutores”: desde o princípio fez-se referência aos escolhidos com letra maiúscula, e eles incluíram em seu currículo o fato de terem sido Tradutores. Não era preciso dizer mais nada, já que somente os tradutores dessa Bíblia mereciam a maiúscula.
O rei Jaime foi o primeiro grande gerente de projetos. Estabeleceu normas claras de estilo e conduta: as fontes de consulta autorizadas (a Bishop’s Bible seria o modelo a ser seguido, as demais versões consultadas); regras gerais para grafar nomes próprios; princípios em caso de mais de um sentido para um vocábulo (sua origem mais antiga deveria ser priorizada); a proibição de notas explicativas de qualquer natureza interpretativa, sendo permitidos apenas breves esclarecimentos sobre palavras gregas ou hebraicas; a autorização para consultar outros eruditos em caso de dúvidas que as companhias de tradutores não conseguissem resolver; e o procedimento a ser seguido. Este foi magistral: os tradutores foram divididos em seis companhias, cada uma com um diretor e mais seis a nove tradutores. Cada companhia recebeu certo número de livros para traduzir. Cada tradutor, individualmente, traduzia todos eles. A companhia então se reunia e devia chegar a um consenso, a uma versão única. Quando cada companhia finalizasse seus livros, os diretores deviam reunir-se para chegar a um consenso final. Essa Bíblia, agora fruto do consenso progressivo de 50 eruditos, era submetida ao conselho real e, por fim, à aprovação do rei. Nem todos os 50 chegaram ao fim: alguns morreram, outros abandonaram o empreendimento. Alguns dos que ficaram pleitearam uma remuneração melhor, pois o trabalho se estendeu mais do que o previsto. Mas no fim o plano foi cumprido como planejado.
São raros os registros da evolução desse processo. Muitos dos rascunhos e das cartas trocadas se perderam em incêndios ocorridos anos depois em grandes bibliotecas, restando um rascunho e um par de cartas com consultas enviadas a outros acadêmicos. Além disso, as reuniões e discussões eram presenciais e orais. As versões traduzidas de cada trecho eram lidas em voz alta, pois o alvo era o púlpito, não a mesa de cabeceira. Muitas escolhas foram feitas com base no ritmo e na sonoridade.
O resultado de um rei que se queria conciliador mas era autoritário e temia pela perda de poder (destino de seu filho e sucessor Charles, decapitado por Oliver Cromwell e os puritanos), de um período de explosão intelectual e educacional porém intensamente tenso e emotivo (foram várias as epidemias de peste negra, considerada um castigo divino), e de profundas reflexões e transformações da igreja no mundo todo é uma Bíblia de beleza estética singular, grande simplicidade e clareza, consciente das grandes questões de sua época porém empenhada em evocar um universo elevado através de uma linguagem distante da falada corriqueiramente, fruto de grande pesquisa técnica mas ainda assim expressão emotiva da fé de teólogos devotos e dedicados a transmitir a palavra de Deus como secretários perfeitos:
Aqui não há nenhuma autoria envolvida. A autoria é egoísta, uma suposição de que se tem algo de novo a dizer. Não se tem. Cada iota da Bíblia é importante, mas sem ela você não tem valor algum. (...) Um secretário, seja de Deus ou do rei, está numa posição de dependente do poder. Ele não tem autoridade independente de seu mestre, mas executa essa autoridade sem hesitação nem concessões. Ele não é nada sem o mestre, porém é tudo através dele. Lealdade é poder e submissão é controle. Por isso, a tradução bíblica, assim como o serviço real, pode somente ser plenamente fiel. Sem fidelidade, perde todo o sentido.
(p. 184, tradução livre minha)
Para encerrar, uma das curiosidades mais deliciosas que aprendi com este livro: os founding fathers que, após se exilarem na Europa, chegaram à América para criar sua república calvinista perfeita, carregaram consigo, naturalmente, a Bíblia de Genebra. Duas ou três gerações depois, contudo, as cidades se desenvolviam e havia que administrá-las e dirigi-las devidamente. A Bíblia calvinista, cujas notas deslegitimavam todo e qualquer poder humano sobre o conjunto de membros da comunidade – estes sim a verdadeira igreja e poder máximo – não ajudava em nada. Em pouco tempo passou a ser adotada a Bíblia do rei Jaime, tão bela, tão cativante e tão a favor do poder centralizado que conquistou o trono como a grande Bíblia em língua inglesa e lá se mantém até hoje, graças ao grande poder americano.
11 de março de 2007
O tradutor, o autor e o escritor
São inúmeros os aspectos positivos do artigo: a formação de tradutores, a profissionalização e a especialização da tradução, a crítica atenta, o destaque do tradutor atrelado à sua responsabilidade sobre o texto traduzido, a maior preocupação das editoras na escolha dos profissionais, a necessidade de remuneração compatível com a responsabilidade assumida e com a visibilidade do texto.Grandes tradutores agora recebem status de autor
Fonte: Litteratura - 5/2/2007
Marcos Strecker
O mercado editorial brasileiro vive hoje o melhor momento de sua história - quando se fala de tradução. Uma grande geração de tradutores valorizados pelas editoras e fiscalizados pela crítica responde por uma profissionalização inédita, um movimento ainda em expansão. Eles ganham o status de autor, sonho dos teóricos desde os anos 60.
O fenômeno é mais visível pelas grandes traduções lançadas nos últimos anos, pelo esforço empreendido em traduções alternativas, pela melhor remuneração dos profissionais (pagamento por empreitada, e não mais por lauda) e pela diversidade de línguas traduzidas do original - várias raramente eram vertidas diretamente para o português.
É o caso do japonês, por exemplo. A tradutora Leiko Gotoda, sobrinha do escritor Junichiro Tanizaki e uma das "estrelas" da atual geração de tradutores, já verteu inéditos de Yukio Mishima, do clássico Eiji Yoshikawa e do tio Tanizaki para a Estação Liberdade. Acaba de finalizar seu maior desafio: traduzir "Jovens de um Novo Tempo, Despertai!", do Prêmio Nobel Kenzaburo Oe, a ser lançado em junho pela Companhia das Letras.
Os exemplos são vários. Pela primeira vez o "Livro das Mil e Uma Noites" (ed. Globo) foi traduzido do árabe, por Mamede Mustafa Jarouche. "Dom Quixote "ganhou nova tradução ("O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha", ed. Record), feita em parceria pelo brasileiro Carlos Nougué e o espanhol José Luis Sánchez. O monumental "Ulisses" (ed. Objetiva), de James Joyce, ganhou nova versão de Bernardina da Silveira Pinheiro, para concorrer com a conhecida tradução de Antônio Houaiss.
Um dos sinais mais evidentes da profissionalização é a diminuição das traduções feitas a partir de versões do inglês e do francês, o que era prática corrente.
"A tradução se tornou um tema relevante, não marginal. A crítica e o "policiamento crítico" da tradução fez com que os tradutores fossem mais reconhecidos pelos editores e cuidassem melhor do seu trabalho", afirma o professor e tradutor Modesto Carone, especialista nas obras de Franz Kafka.
"Hoje a coisa está muito mais profissional: o que eram ilhas [grandes nomes do passado], hoje são arquipélagos. Muita gente está trabalhando e competindo no sentido de ter uma tradução melhor", diz José Mario Pereira, da editora Topbooks.
Para Carone, "sem dúvida há uma quantidade maior de tradutores talentosos. O que existia antes eram grandes e notáveis exceções. Agora a média é bastante elevada". Para Davi Arrigucci Jr., um dos principais críticos literários do país, "houve uma renovação notável da tradução de um modo geral". Segundo ele, "a tradução adquiriu um nível de qualidade artística que disputa o espaço da própria criação. Isso é bastante visível".
Segundo o professor Boris Schnaiderman, "houve uma diversificação maior, estamos traduzindo do húngaro, do japonês, línguas que eram completamente desconhecidas". A proliferação de cursos de literatura e a criação das cátedras de teoria da tradução certamente ajudaram. "Hoje é um absurdo falar em uma tradução sem mencionar o tradutor. Antes isso era comum", afirma o poeta e tradutor Ivo Barroso. "O público universitário não era o de hoje", pondera Pereira.
Para Barroso, "a profissionalização veio após os anos 70, quando já começa a aparecer o tradutor especialista em assuntos, como existe em outros países mais adiantados".
Segundo ele, o problema continua sendo a remuneração. "Poderiam ter coisas muito melhores se houvesse uma participação na vendagem. Na França havia um sujeito que vivia dos direitos de tradução de "O Vento Levou'", diz. "O serviço do tradutor é o mais importante. Todo mundo já conhece o autor, agora precisa prestar atenção em quem é o tradutor", afirma.
Segundo Arrigucci, "a imprensa era muito omissa em relação ao valor da tradução. Isso também acontecia na universidade".
"O crítico vigilante é o mais importante", diz Barroso. Para ele, "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor. Hoje acontece a conscientização ao máximo, que é a tradução direto do original. Mas falta a adequação do tradutor, que tem que ser um bom escritor em português. Um Leonardo Fróes traduzindo Virginia Woolf é sensacional, você sente a prosa inglesa, é admirável", afirma.
O que remete à questão: traduzir diretamente dos originais é garantia de qualidade? Muitas vezes não, e tanto Barroso quanto Arrigucci elogiam traduções antigas, feitas do francês ou inglês.
Como quase sempre que se menciona tradução na mídia, leva-se em consideração somente a tradução de literatura -- e não de qualquer literatura de consumo, mas da "alta" literatura. É claro que essa é uma área importante por ser uma "vitrine" para os tradutores e que quando se chama a atenção positivamente para um segmento do mercado de tradução a classe profissional como um todo é beneficiada. Vale lembrar, porém, que esse é o menor campo da tradução: o volume de obras de alta literatura traduzidas e a quantidade de tradutores envolvidos é bastante pequeno, sobretudo em comparação com as inúmeras aplicações da tradução em áreas técnicas, cujos tradutores na maioria das vezes são anônimos.
Seria muito bom, muito benéfico para os profissionais envolvidos com tradução e para o público consumidor de modo geral, se surgissem matérias tão bem elaboradas como essa que abordassem a tradução que permeia nosso dia-a-dia sem que percebamos: em instruções para usar um celular, botões e telas de programas computacionais, notícias publicadas em jornais, caixas de cereais.
Outra questão muito interessante levantada pelo artigo é a relação entre os conceitos de tradutor, autor e escritor.
Direitos autorais do tradutor existem, apesar de não significarem exatamente o mesmo que os direitos autor. A discussão sobre o tema é longa e tem aflorado recentemente no Brasil, sempre vinculada à tradução literária. Em círculos acadêmicos e profissionais discute-se uma diferença entre tradução-meio e tradução-fim: a primeira é a que permite ao comprador de um celular entender as instruções e utilizar o aparelho; a segunda seria um livro traduzido que é comercializado. No primeiro caso, argumenta-se que o fabricante do celular precisa da tradução, mas não ganha dinheiro com a venda da tradução. Esse tradutor, portanto, não receberia direitos autorais. Já o editor pode lucrar muito com a venda do livro traduzido, de modo que o tradutor mereceria uma participação nas vendas. A discussão é muito rica e bastante controversa. E se complica ainda mais quando se pensa no caso, não raro, em que a venda de uma tradução publicada dá prejuízo para o editor -- o tradutor também perderia dinheiro? (Particularmente, eu confesso que não consegui formar uma opinião clara sobre essa questão e prefiro me manter bem acomodada em cima do muro.)
Quanto à questão do escritor, todo tradutor profissional é sem dúvida um escritor. Segundo o teórico André Lefevere, é ainda um leitor profissional, de forma semelhante aos acadêmicos das áreas de letras e literatura e aos críticos especializados. Quando um tradutor vende seus serviços de tradução, está vendendo sua capacidade de ler e de escrever profissionalmente -- e mais algumas coisinhas na passagem de um para outro. Mas é claro que não é esse o significado de escritor quando Ivo Barroso afirma que "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor". Esse é um dos dogmas clássicos da tradução literária: os melhores tradutores seriam, antes, autores reconhecidos. Supostamente a profissão de escritor ou poeta seria um pré-requisito para se traduzir obras literárias. Eu discordo veementemente desse dogma, o que não quer dizer que diversos escritores renomados não sejam magníficos tradutores -- uma coisa não exclui a outra, mas também não a obriga.
Pensando sobre a identidade desse indivíduo, o tradutor, eu imagino algo que poderia ser representado pela teoria dos conjuntos: há um conjunto "autor", um conjunto "escritor", um conjunto "leitor" e outros conjuntos que envolvem áreas de especialidade, como "medicina" ou "direito". O tradutor seria um conjunto que faz interseções com todos esses conjuntos, sem estar contido nem conter inteiramente nenhum deles e tendo ainda uma parcela que lhe é própria.
Eu, pelo menos, gosto de me ver assim.
6 de março de 2007
Erros de tradução nas legendas de canais pagos
O contexto desta discussão:
- No dia 19 de janeiro foi publicada uma matéria no site Séries Etc. intitulada "Erros de tradução, digitação, português, falta de legendas: é difícil entender as séries na TV paga". A matéria critica, não sem uma boa dose de razão, problemas sérios em alguns canais de TV a cabo, entre eles a falta de legendas ou a presença de legendas ou palavras em espanhol, além dos sempre destacados erros de tradução. Contudo, muitos dos erros não são exatamente erros e muitas das soluções apresentadas como "tradução adequada" são traduções muito ruins.
- Eu tomei conhecimento dessa matéria no fórum Tradutores/Intérpretes BR do Orkut, onde o tema foi debatido e vários exemplos de "erros" foram dissecados. A tônica aqui foi mais no sentido de desqualificar os argumentos do autor da matéria (afinal, é um fórum de tradutores), mas as críticas são bem fundamentadas.
- Ao mesmo tempo, a matéria foi divulgada no Legendar.com.br, desta vez um site/blog de profissionais da área de legendagem, que elogia a matéria pois ela demonstraria indiretamente a necessidade de canais e produtoras melhorarem as condições de trabalho e o controle de qualidade das traduções e valorizarem mais o espectador.
- Depois, no dia 24 de janeiro, foi publicada outra nota no Séries Etc. em que André Braga, sócio da Bravo Filmes, responsável por uma das séries cujas tradução foi criticada, pede desculpas, justifica algumas das dificuldades e explica um pouco sobre as questões técnicas da legendagem.
Eu concordo com parte todas essas posições e me manifestei no fórum do Orkut e no Legendar. Aqui discorro um pouco mais sobre essa questão.
Em princípio, é ótimo que críticos e espectadores se manifestem para reclamar da má qualidade dos serviços oferecidos. Em canais dedicados à exibição de programas estrangeiros, a tradução deveria ser um dos serviços mais valorizados. Não é. Todos estão sempre apertando os cintos e cortando custos, e o custo da tradução é relativamente fácil de cortar, sobretudo num mercado com alta demanda de serviços e uma oferta muitíssimo maior de tradutores.
Não que exista um número tão grande de tradutores especializados em legendagem, com grande domínio das técnicas - lingüísticas e tecnológicas - envolvidas na elaboração de legendas, com alto nível de proficiência na tradução dos mais variados assuntos e com a capacidade de traduzir algumas horas de programas por semana. Nenhum desses aspectos é fácil ou intuitivo e são necessários anos de prática até se atingir o nível de técnica, qualidade e velocidade exigido pelos clientes mais relevantes - aqueles que pagam muito bem, são muito exigentes e, se satisfeitos, fornecem muito trabalho a seus tradutores. Aliás, se são poucos os tradutores desse nível, também são poucos os clientes desse tipo. O mais comum são canais e produtoras com grandes volumes de serviço, muita pressa, a necessidade de cortar despesas e com dezenas de tradutores iniciantes batendo na porta, ansiosos para trabalharem com filmes e séries. Se estes não são muito bem preparados e aqueles não se preocupam muito com a qualidade, já sabemos que resultado esperar.
O espectador reclama com toda razão quando detecta problemas como alguns dos citados na matéria do Séries Etc., por exemplo:
Sincronia:
"Criminal Minds", no AXN, apresentou legendas fora de sincronia, ultrapassando o programa e exibidas durante o comercial.
Dependendo do canal, às vezes ocorre da imagem ser transmitida de um país e a legenda de outro, via satélite, e serem exibidas em sincronia num terceiro lugar. É uma estratégia altamente propensa a erros, a mesma que às vezes resulta em programas inteiros legendados em espanhol aqui no Brasil.
"Portunhol":
Programa "Inside the Movies", no Warner Channel, sobre o filme "Menores Desacompanhados"
Legendas em "portunhol": "Un pouco da personalidade do outro". // "E de estarnos juntos, fez com que ficássemos mais unidos". // "Daí o bonito de ver com fazem parte de una família, mesmo sem terem uma."
Como explica o sócio da Bravo Filmes na segunda matéria do Séries Etc., para economizar tempo refazendo a sincronia das legendas, é comum aproveitar uma tradução já feita, no caso em espanhol, e substituir o texto em espanhol pela tradução em português. Se bem revisada, a prática é comum e eficiente. O problema é quando falta revisão, inclusive ortográfica. E falta de correção ortográfica é um erro gravíssimo em qualquer contexto.
(Inexplicável:)
"Grounded For Life", na Fox
Fala Original: Get that done!
Tradução Adequada: Termine isso!
Tradução do Canal: Pegue a boneca!
(Detalhe: os personagens estão no meio da rua carregando canos e não há nenhuma boneca na cena.)
A tradução provavelmente foi feita de ouvido, sem script para acompanhar, e o tradutor entendeu "doll" em vez de "done". O lapso de audição não seria tão sério se o tradutor não tivesse cometido o erro, muitíssimo mais grave, de não desconfiar de que aquilo não faz sentido no contexto. De fato, nada justifica isso.
Há ainda erros mais bobos aos quais todos estão sujeitos, que idealmente deveriam ser identificados e consertados na revisão, desde que a tradução em geral seja boa e a revisão também.
Porém, o texto das legendas sofre muitas alterações com relação ao original para que não ultrapasse um número máximo de caracteres por segundo, isto é, para garantir que o espectador médio consiga ler todo o texto da legenda antes que ela desapareça. Uma tradução perfeita e completíssima pode resultar em um filme incompreensível, pelo simples fato de que ninguém consegue ler as legendas a tempo. Sempre é necessário sintetizar e simplificar o texto nas legendas - às vezes, drasticamente. Esse pode ser o motivo das adaptações feitas em um dos exemplos criticados como erro:
"The New Adventures of Old Christine", no Warner
Fala Original: Did mom and dad took you to church?
Tradução Adequada: A mamãe e o papai te levavam à igreja?
Tradução do Canal: Papai e mamãe iam à igreja?
Fala Original: No, they dropped me off on the way to bingo.
Tradução Adequada: Não, eles me deixavam lá no caminho do bingo.
Tradução do Canal: Não, eles iam jogar bingo.
Finalmente, há casos em que não há nada de errado na tradução, mas o crítico discordou dela porque ela não corresponde à tradução literal e macarrônica que ele considera "adequada":
Episódio de estréia de "Prison Break", na Fox
Fala Original: Specially since we don’t have a pot to piss in, thanks to Abruzzi’s magically desapearing plane.
Tradução Adequada: Principalmente, desde que não temos nem onde urinar, graças ao avião do Abruzzi que magicamente desapareceu.
Tradução do Canal: E não temos nem um centavo, graças ao avião do Abruzzi que sumiu.
Como eu disse, o espectador tem o direito de reclamar e de exigir um bom serviço. Porém, para que a reclamação surta algum efeito, ela deve (i) estar bem embasada e formulada e (ii) ser encaminhada ao responsável por aquele serviço. E, se bem o tradutor que cometeu os erros tem uma parcela de culpa, no contexto do serviço o responsável é o cliente (o canal, a distribuidora, a produtora), pois foi ele que selecionou o tradutor, avaliou o serviço, comprou os direitos autorais e assumiu a responsabilidade por aquela exibição. Críticas pouco fundamentadas e mal direcionadas podem, no máximo, causar graça, mas dificilmente ajudarão a melhorar a qualidade das traduções.
Para fundamentar bem a reclamação, é preciso tomar nota de onde e quando aquele programa foi exibido (um mesmo material recebe várias traduções diferentes, dependendo da produtora contratada e do detentor dos direitos autorais, de modo que a tradução para o cinema será diferente da tradução para o DVD, o VHS e a TV, na maioria das vezes realizada por pessoas diferentes), reparar bem no contexto (as imagens, a cena, o que está acontecendo além daquela frase em particular) e levar em consideração que a legendagem não corresponde à tradução integral dos diálogos do filme. É uma adaptação desses diálogos para um formato muito específico, que permite ao espectador acompanhar o programa com som original, ler a tradução e ainda assim entender o que está acontecendo e curtir o programa -- o que não é nada trivial.
* * *
Aproveitando o tema: tenho coletado ou recebido perguntas sobre a prática e o mercado de legendagem e estou organizando um texto de perguntas e respostas, que espero publicar em breve. Portanto, se tiver alguma pergunta, aproveite para me mandar e eu a incorporo a esse post futuro.
10 de janeiro de 2007
Google Books: a Biblioteca de Babel
Não chega a tanto, mas uma boa amostra do infinito está no serviço Google Books, agora em versão brasileira.
Basta digitar palavras-chave, um tema, uma editora ou um autor (como em uma busca comum no Google) ou fazer uma pesquisa avançada. O resultado não são sites, mas livros. Isso mesmo, livros inteirinhos, para folhear no próprio navegador. Não é possível copiar/colar nem imprimir, mas nada impede que você leia 500 páginas no computador antes de decidir se a surpresa no final vale a compra do livro impresso.
Uma pequena amostra: digitando "translation studies" temos acesso às obras mais relevantes da disciplina de tradução, inclusive algumas muito recentes, de autores como Susan Bassnett, Lawrence Venuti, Peter Newmark, Jeremy Munday, Mona Baker, Gideon Toury, além de coletâneas e enciclopédias.
Agora só falta o Google publicar a fórmula da vida eterna.
20 de agosto de 2006
"Translation Directory"
As seções gerais mais importantes são:
- The translation profession
- Translation theory
- Working as a freelancer (por sua vez com várias categorias)
- Payment practices in freelance translation
- Translation job market
- Marketing your language services
- Translators and computers
- Running a translation company
Show!
19 de agosto de 2006
Serviços e desserviços
Um exemplo de um enorme desserviço a quem adotou a tradução como profissão e luta pela sua qualidade e valorização é a matéria publicada no Jornal do Brasil no dia 8 de agosto, a partir da divulgação dos 10 finalistas do Prêmio Jabuti, na categoria Tradução. A manchete, "Tradução traz prestígio mas é mal remunerada", traz uma falsa esperança de defesa do profissionalismo responsável, mas o conteúdo revela exatamente o contrário.
Dois dos tradutores indicados ao prêmio que foram entrevistados para essa matéria, Bernardina da Silveira Pinheiro e Mamede Mustafa Jarouche, são exemplos "de um grupo de tradutores cada vez mais procurado pelas editoras: o dos especialistas vindos das universidades, que traduzem diretamente do idioma de origem da obra e valorizam mais uma boa publicação do que a remuneração." (grifo meu) Ora, por que serão tão procurados? Jarouche responde: "Como não preciso da tradução para viver [por ser professor universitário], meu interesse é por uma boa edição do trabalho". É claro que, se eu fosse editora, não pensaria duas vezes em quem contratar. Até porque afirmações como essa transmitem nas entrelinhas que quem vive de tradução não teria a menor preocupação com a qualidade.
Rubens Figueiredo sai em defesa dos profissionais desqualificando elegantemente os tradutores vindos da academia: "Não é por serem doutores que as traduções superam as de outros profissionais." Mas a questão não é ser ou não ser doutor, e sim servir ou não ao vil metal. Ao menos no texto desta reportagem, a breve opinião de Figueiredo quase desaparece ao lado do relato das peripécias intelectuais dos outros dois tradutores e das justificativas dos editores para cortar custos a qualquer custo, inclusive a clássica "Já aconteceu muito de mandar traduzir um livro duas vezes", como se a responsabilidade por um tiro n'água não fosse, em grande parte, de quem contrata o serviço.
Realmente dá tristeza constatar a propagação de preconceitos reforçada pela troca pública de alfinetadas entre acadêmicos e profissionais, ambos com egos igualmente inchados. Estudo não é necessariamente sinônimo de arrogância, assim como ganhar dinheiro não depõe contra a erudição e o cuidado com o texto. O único alívio é ver que pelo menos as nobres traduções de nobres autores está em mãos de quem, de uma forma ou de outra, dedica a vida ao estudo das línguas, e não mais de aristocratas, diplomatas ou eruditos aleatórios.
Muito mais alegria me trouxe a entrevista com Millôr Fernandes publicada na revista Língua Portuguesa de agosto de 2005 (aliás, todo número dessa revista traz alguma reportagem sobre tradução. Infelizmente, nenhuma delas fica disponível online).
Não que Millôr não seja controverso, e também desdenha a academia. Mas é modesto e espontâneo, e com isso diz umas poucas e boas que pelo menos dão margem a discussões frutíferas. Perguntado sobre como começou a fazer tradução, diz: "Aprendi a fazer tradução porque me encomendaram e foi assim desde então. (...) Sempre fui movido por forças exógenas, exteriores. O primeiro livro que traduzi foi Dragon Seed, de Pearl S. Buck, em 1942. Nunca me senti tão roubado na vida, você traduz 300 páginas por uma mixaria."
Pena que a entrevista não é sobre tradução e a conversa toma outros rumos, mas depreendemos daí que, se ele aceitou traduzir vários outros livros, é porque foi bem remunerado. E, mesmo sendo bem remunerado, fez um ótimo trabalho e se preocupou com a qualidade da edição. Ergo, a culpa pelos textos descuidados não é apenas do vil metal. cqd.
Termino citando Anthony Pym, exemplo de acadêmico-profissional bem-sucedido nos dois universos, cujos textos eu sempre incluo em minhas aulas de tradução: "The most important part of a translation job is getting paid."
Notas finais: Quando a matéria do JB foi publicada, havia 10 finalistas concorrendo ao Prêmio Jabuti. No momento da publicação desta nota há 3, entre eles Mamede Jarouche e Bernardina Pinheiro. A tradução de Rubens Figueiredo foi desclassificada.
Pelo que pude apurar, nenhuma tradução de Millôr Fernandes esteve entre as 10 finalistas de nenhuma edição do Prêmio Jabuti.
Não estou tirando nenhuma conclusão ;o)
Atualização:
Mamede Jarouche pediu a publicação de uma resposta a esta discussão numa comunidade de tradutores do Orkut (o debate também ocorreu em listas de discussão de tradutores). Como a resposta dele é pública e muito valiosa para as questões discutidas aqui, acredito que eu também possa reproduzi-la aqui.
Não me lembro dessa entrevista. Faz um bom tempo que não falo com ninguém do Jornal do Brasil, logo não sei de que contexto exatamente foram tiradas as minhas palavras. Jamais, em tempo algum, eu me atreveria a me pronunciar de maneira depreciativamente genérica, ou genericamente depreciativa, contra os tradutores profissionais, de cujo labor, aliás, dependo muitíssimas vezes. Não acho, de modo algum, que por não ser profissional, e logo poder me dar ao luxo quase depravado de traduzir por prazer e produzir uma obra melhor. Isso é rematada tolice. Ocorre-me, talvez, que eu tenha dito o seguinte: como, ao contrário dos tradutores profissionais, não trabalhei premido por prazos, e como estava, além da tradução, pesquisando o assunto, pude colocar umas notas a mais que talvez um tradutor profissional não tivesse tempo de fazer. Veja bem, estou tentando adivinhar qual o contexto que levou à alteração das minhas palavras. Não posso garantir que tenha sido exatamente isso; o que posso garantir é que jamais, em tempo algum, eu atacaria os tradutores profssionais. Isso é loucura. Certamente não sou nenhum exemplo de sanidade, mas não chegaria a ponto de fazer uma sandice dessas, desqualificar o trabalho de toda uma categoria profissional. Por favor, deixem-me fora dessa encrenca. Se for o caso, escreverei ao próprio Jornal do Brasil. Vejam aí o que é melhor. Só não quero que esse mal-entendido permaneça.
grande abraço,
Mamede
Portanto, vale a pena reforçar: o desserviço é da matéria publicada no jornal, mas não necessariamente dos tradutores nela retratados. É sempre bom ler reportagens com uma pitada de sal.
27 de março de 2006
Três histórias verdadeiras
Aconteceu em 1970, quando comecei. Estava na Editora Atlas, na sala do diretor editorial, entrou um senhor com um pacote de folhas de papel almaço e entregou ao Avelino, assistente do diretor. Era uma tradução, um livro inteiro, manuscrito. Perguntei, curioso, "manuscrito"? O tradutor, não me lembro mais seu nome, me olhou com superioridade e não pouco escárnio e respondeu: "Sou tradutor, não datilógrafo. Na minha escola, ensinava-se caligrafia, e com pautas de quatro linhas, não essa bobagem de três linhas de hoje. Sei escrever a mão, não preciso dessas coisas." Lembrou-me, em seguida, que o Barão do Rio Branco se recusava a ler documentos datilografados e obrigava um amanuense a "passar a limpo" tudo o que lhe era encaminhado "à máquina".
Muito mais tarde, lá para 1995, estava numa "mesa-redonda" na então Faculdade Ibero-americana e o tradutor ao meu lado disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de computador: tenho uma IBM de esfera e sou excelente datilógrafo. Sobretudo, tenho o hábito de pensar antes de escrever e, quando escrevo, escrevo direito". Sua observação recebeu, em modo de comentário, as palmas de boa parte do auditório.
No fim do século passado um colega disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de memória de tradução. Eu tenho uma memória muito boa." A maioria achou muito divertido. Eu também, claro, mas por motivos diferentes.
10 de março de 2006
Títulos de filmes
Pois finalmente saiu um artiguinho na imprensa - pequeno, simples e simpático - que explica como são criados os títulos de filmes estrangeiros no Brasil.
Criados, não traduzidos. Porque o tradutor não tem nada a ver com essa questão. Não por acaso, nem se faz menção ao tradutor no artigo.
Sorry... Qual é o nome mesmo?
por Meriane Morselli
Isso mesmo: os títulos não fazem parte da nossa jurisdição. Muitas vezes, nem sabemos qual é ou será o título de um filme que estamos traduzindo. Portanto, livre os pobres tradutores de filmes da culpa pelos títulos esquisitos, está bem? :o)
8 de março de 2006
A internet como corpus
Vários blogs sobre tradução recentemente fizeram referências a este artigo de Stephen Strauss, no qual ele dá dicas para procurar e confirmar a tradução de uma expressão na internet. Em resumo, o método consiste em:
- Pesquisar a expressão original pedindo resultados na outra língua e/ou restringindo a busca a sites governamentais ou que inspirem confiança.
- Tomar nota das traduções encontradas (em geral, mais de uma).
- Pesquisar as traduções encontradas e comparar o número de ocorrências de cada uma.
Aliás, duas formas de pesquisa "clássicas" aproveitando o corpus da internet são a de expressões ou "colocações" (collocations) e a de biologia/zoologia. A primeira se dá como explicado acima, procurando expressões entre aspas e comparando o número de resultados. A segunda é feita de um modo muito parecido ao método acima:
- Pesquisa-se o animal ou a planta na língua original e obtém-se o nome científico.
- Procura-se pelo nome científico pedindo resultados na língua-meta.
Infelizmente, o Google não possui um mecanismo de busca simultânea de consultas diferentes. A forma mais prática é abrir duas janelas do navegador, uma para cada pesquisa.
Há um mecanismo externo, aparentemente desenvolvido com fins de entretenimento, que faz essa busca simultânea: o Googlefight. Basta preencher as duas caixas de busca e o programa pesquisa as duas ao mesmo tempo no Google. Após uma luta entre dois bonequinhos, o número de ocorrências de cada pesquisa é exibido.
Dois pontos contra: primeiro, a busca é feita em inglês. Os resultados podem ser totalmente distorcidos se forem inseridas palavras em outras línguas, pois não há como informar isso exceto acrescentando domínios de site como filtros (por exemplo "site:.br") na janela de busca. Segundo, só é fornecido o número de ocorrências, sem mais informações. Isto é, não temos como interpretar os resultados.
Ainda assim, é uma ferramentazinha adicional, que pode complementar a busca no Google propriamente dita. Mas desde que a descobri eu aguardo algo parecido oferecido pelo próprio Google - aí sim, vai ser uma festa!
14 de fevereiro de 2006
Guia para entrar no mercado
A Lingo24, grande agência de tradução com escritórios no Reino Unido e nos Estados Unidos, lançou o Translation Industry Career Guide, um manual para estudantes de línguas e aqueles que desejam entrar no mercado de tradução.
O guia ainda está pequeno, mas já traz várias informações interessantes e promete crescer conforme for agregando colaborações. Ele apresenta os requisitos de um bom tradutor, sugere os estudos a serem seguidos, dá dicas sobre profissionalização, faz uma introdução ao gerenciamento de projetos de tradução e exemplifica com alguns casos reais.
Na mesma seção de recursos desse site, há vários artigos e links interessantes. É claro que muitas informações são voltadas para os que residem nos EUA ou no Reino Unido, mas no Brasil não estamos muito atrás em termos de cursos, publicações e sites. (Aliás, se alguém conhecer um guia online em português semelhante a esse, não deixe de me informar!)
Esta notícia complementa minha última mensagem, trazendo mais algumas leituras extremamente úteis para dar um impulso na carreira em 2006
10 de fevereiro de 2006
Como surfar uma tsunami
Mas 2006 está prometendo muito trabalho para os tradutores e a tradicional calmaria, para quem a está sentindo, está parecendo aquela maré baixa antes da tsunami. Quando a onda vier para valer, é preciso estar bem preparado para conseguir surfar a crista e não ser engolido pelo redemoinho.
Portanto, este é um excelente momento para se atualizar e equipar para trabalhar mais e melhor. Aqui vão algumas sugestões.
- Aproveite para ler aqueles textos enfileirados na estante e procurar novos livros e artigos sobre tradução e assuntos de nosso interesse. O Translation Journal e o Meta têm uma grande coleção de artigos. Há também Cadernos de Tradução e publicações do CITRAT para comprar pela internet a preços muito acessíveis. Para quem acessa o Orkut, há dois tópicos (1 e 2) no fórum Tradutores/Intérpretes BR que reúnem bastantes sugestões de leituras para os tradutores. Lembre-se: você é o que você lê.
- Compre ou assine mais alguns dicionários em CD ou na Internet. Apesar de achar linda a minha estante de dicionários, consultar palavras em papel não é nada eficiente. A maioria dos dicionários gratuitos da Internet também não é lá muito completa. Realmente vale a pena assinar o conteúdo integral e serviços adicionais de alguns dicionários bons, como o Merriam-Webster Unabridged e o Diccionarios, além de ter dicionários eletrônicos instalados no computador.
- Faça melhorias no seu espaço de trabalho. Para trabalhar bem muitas horas por dia, é preciso cuidar da ergonomia (veja este esquema) para prevenir dores de coluna, problemas de circulação e LER, além de estar com o computador pronto para trabalhar intensamente por pelo menos um ano. Nem sempre é preciso gastar muito dinheiro, mas pode fazer toda a diferença, por exemplo, providenciar um apoio para os pés (tenho uma banquetinha acolchoada sem a qual não agüento trabalhar nem 10 minutos), uma estante de música para apoiar papéis ao lado do monitor (um dos melhores investimentos que já fiz!), um pouco mais de memória ou espaço em disco para o computador (enquanto não desenvolvem um pen drive para o nosso cérebro...), um teclado novo, macio e cheio de atalhos inteligentes ou um mouse óptico. Essas pequenas melhorias aceleram muito o nosso trabalho, cuidam da nossa saúde e -- sim! -- nos fazem ganhar mais.
- Aproveite para testar programas com os quais ainda não esteja familiarizado, como o Wordfast ou, para quem já tem alguma inserção na área, programas de legendagem como o Horse e o Subtitle Workshop. Nunca se sabe quando vai surgir uma oportunidade de usá-los profissionalmente, e então é bom já estar afiado.
- Renove sua filiação ou filie-se a associações de tradutores que combinem com seu perfil, como o Sintra, a Abrates e a Abrapt aqui no Brasil, além da APIC para os intérpretes. Lá fora tem a tradicional ATA e a nova IATIS. E há muitas outras, mais especializadas ou regionais. Vale a pena também participar das inúmeras listas de discussão por e-mail, como a Trad-Prt, a Tradutores e a Litterati. Todos esses sites oferecem mais links úteis. Navegar é preciso!
- Last but not least, você já tem um site? É muito fácil fazer um, por exemplo usando o Front Page, que vem com o MS Office. Há inúmeros provedores de hospedagem gratuitos, mas comprar seu próprio registro é muito barato. É extremamente prático ter seu currículo atualizado disponível para os clientes em seu site, além de outras informações que você desejar, como preços, serviços prestados, etc.
30 de janeiro de 2006
Mais algumas Googlices
O pacote gratuito Google Pack traz diversos programas computacionais -- navegador Firefox, barra do Google para o navegador, organizador de fotos Picasa, mapas do Google Earth, Adobe Acrobat, protetor de tela, anti-vírus Norton, anti-spyware Ad-Aware, reprodutor de mídia Real Player, programa de troca de mensagens e voz Google Talk e outras coisinhas mais. Cada usuário pode determinar os programas que quer incluir no seu pacote, e o programa de instalação o mantém a par de atualizações.
Além da enorme utilidade do serviço de e-mail Gmail (gigante, rapidíssimo, maravilhosamente organizado e organizável, excelente para manejar listas de tradução e manter backups), da revolução Orkut (agora otimizada pelo Google) e do Blogger (este provedor gratuito e simpático de blogs), meus serviços favoritos do Google são o Google Scholar, serviço de busca especializado em artigos acadêmicos, e minha última aquisição, o Google Reader, que mantém e atualiza conteúdos gerados em XML e afins.
Explico melhor este último. Se você, como eu, há tempos vinha se perguntando que diabos são uns links que têm aparecido em vários sites, dizendo "syndicate this site", "RSS", "Atom", uns ícones que dizem "+Yahoo", "+Google" e coisas do gênero, isso significa que fornecem esse tipo de conteúdo em XML e afins. (No caso deste blog, por exemplo, há dois links no menu à direita, acima, que oferecem meios e códigos para "assiná-lo".) Diversos programas ou serviços oferecidos em sites (como o Google Reader) indexam esses sites. Então, você pode ir "assinando" ("syndicating") através deles os sites que você costuma visitar e que são atualizados freqüentemente, como os de notícias e blogs. Uma vez coletados, basta você acessar um só lugar (o tal programa ou serviço de sua escolha) para ler todos eles e se inteirar de todas as atualizações feitas, sem precisar ficar navegando por sites e mais sites para ver se há alguma novidade ou procurando um determinado conteúdo. O visual e as funções oferecidas pelo Google Reader são bem parecidos aos do Gmail, o que é um atrativo a mais para os já familiarizados com as ferramentas Google.
Mais serviços e ferramentas do Google
O "laboratório" do Google, onde vão nascendo as novidades
Na nossa profissão, muito literalmente, tempo é dinheiro -- tempo de digitação, de envio e recebimento de arquivos, de pesquisa e de aquisição de informações -- e o Google tem nos ajudado a economizar muitas horas preciosas.
29 de janeiro de 2006
O tradutor e o ator
Há uma ou duas décadas vem se discutindo mais intensamente a participação do tradutor na criação do texto traduzido e pensando sob diversas visões quem é esse sujeito. Por um lado, ele é único: tem uma história pessoal, formação, raciocício e estilo que não podem ser iguais aos de mais ninguém. Por outro, não pode ser tão único assim, pois está inserido na sociedade e a leitura que faz dos textos, a visão que tem do seu trabalho, aquilo que considera uma boa tradução, o cliente e o público a que quer agradar partilham de um mesmo contexto coletivo. Portanto, ele não é nem um receptáculo oco que simplesmente processa um texto, transformando-o de uma língua para outra sem nenhum tipo de intervenção pessoal, nem é um autor no sentido tradicional, criador absoluto do texto traduzido.
Corta para pensarmos um pouco sobre os atores. Um ator precisa saber incorporar o personagem que representa, mas é claro que não tem como se desvestir de si próprio. Ainda assim, quem o assiste precisa, em parte, esquecer o ator e ver o personagem. Em parte. Há atores extremamente versáteis e que são admirados pela diversidade de seus papéis. Já outros ficam mais marcados e fazem papéis muito semelhantes, mas podem conquistar admiração justamente por quem aprecia o gênero em que se especializam ou sua forma marcante de atuar. Dentre esses dois tipos de atores (caracterizados de forma bem simplificada), haveria algum necessariamente melhor? O Russell Crowe, que foi gladiador superbombado, capitão de navio do século XIX, informante à beira de um ataque de nervos e matemático brilhante e esquizofrênico, é por isso melhor que o Jack Nicholson, que independentemente do personagem é sobretudo Jack Nicholson, despenteado, explosivo e sempre no limite da insanidade? Pensando de outra forma: o Hamlet na pele do Kenneth Branagh é melhor do que interpretado pelo Mel Gibson? Por quê? Porque é o Kenneth Branagh? Mas então onde entra o Hamlet? Se Mel Gibson não convence como Hamlet, por que é isso? O que nós preferimos é o estilo de cada um dos atores ou será que de alguma forma um deles reflete mais do que outro o personagem que esperamos encontrar?
Voltemos aos tradutores. A esmagadora maioria é anônima e mantém o mundo girando traduzindo com eficiência todo tipo de documento fundamental para o funcionamento das nossas sociedades. Mas cada um deixa sua impressão digital e, em campos mais restritos, em geral artísticos, alguns tradutores podem ganhar destaque e nesses casos é comum se tentar justificar por que eles são particularmente talentosos. Hoje em dia é de praxe criticar, às vezes até com revolta exagerada, as traduções seminais do Monteiro Lobato, que transformava o original num texto de sua autoria cortando partes, recriando personagens, reescrevendo passagens que não combinavam com suas preferências pessoais. Ele corresponderia ao ator que não deixa o personagem falar. No outro extremo, vários tradutores de renome dizem em prefácios ou entrevistas que se abstêm de interferir, que transmitem com total transparência as palavras do autor sem nenhuma distorção -- e viram motivo de chacota principalmente nos círculos acadêmicos, pois seria como um ator dizer que deixou de ser si próprio enquanto estava representando um personagem. Ainda assim, em ambos os pólos há tradutores extremamente bem-sucedidos e admirados. Quem foi que disse, falando sério, que é o "cavalo" do autor? O nome me escapa, mas foi alguém que é tido como um modelo de tradutor. Por outro lado, também é comum ouvirmos a falácia de que os melhores tradutores literários são os escritores, que não raro deixam seu lado autoral dominar a tarefa de tradução e, se forem escritores consagrados, provavelmente serão elogiados por isso.
De modo geral, contudo, pareceria que a solução que agrada à maioria é um meio-termo bastante flexível mas que não penda demais para um dos extremos. Qual é esse ponto de equilíbrio resta a cada um encontrar, em função dos nossos sucessos e insucessos no mercado. E quem sabe uma oficina de teatro não nos traria insights interessantes?
Enquanto isso, acabo de encomendar Who Translates, de Douglas Robinson, que parece apresentar uma série de visões não muito convencionais sobre esse sujeito enigmático que é o tradutor. Provavelmente ele vai embaralhar minha cabeça mais do que esclarecer dúvidas -- mas, pensando bem, acho que é por isso mesmo que quero lê-lo. Quando o fizer, posto aqui minhas observações.
27 de janeiro de 2006
Pesquisas especiais do Google
Por exemplo, para encontrar a definição de qualquer palavra, basta digitar na caixa de busca "define" (sem as aspas) e em seguida a expressão para a qual se quer encontrar definições. Eu tenho meus dicionários preferidos que sempre consulto primeiro, mas o Google freqüentemente me salva quando há uma expressão ou muito técnica ou idiomática. A última que procurei foi dita por um personagem de The West Wing, que diz: "We're taking our licks early." Ele estava falando de campanha política e não fazia nenhum sentido para mim. Mal sabia eu que era uma expressão de beisebol. Fui no Google e digitei: define "take one's licks". Bingo. Dúvida resolvida em frações de segundo.
O Google também calcula. Calcula muita coisa, inclusive conversões de medidas e moedas. Basta digitar o que precisa ser calculado ou convertido diretamente na caixa de busca. É preciso aprender alguns comandozinhos, mas só para exemplificar:
- 289 ao quadrado: 289^2
- 350 pés equivalem a quantos metros: 350 feet in meter
- 500 ienes são quantos reais: 500 yen in real
Tudo isso e muito mais está explicado só no site em inglês, aqui. E para quem tem alguma dificuldade em obter resultados precisos, vale a pena confirir as instruções básicas para pesquisar de forma mais eficiente, aqui.
Boa pesquisa!
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Adendo tardio: Encontrei mais dicas neste outro blog.
26 de janeiro de 2006
Os tradutores na ficção
Numa palestra que a Rosemary Arrojo deu na PUC-Rio, ela falou da imagem que outras pessoas têm dos tradutores, os estereótipos que obras literárias ajudam a cristalizar e as metáforas empregadas com relação aos tradutores. E mencionou algumas dessas obras, que anotei (constatando que já tinha lido a maioria) e logo em seguida fui tratar de providenciar.
São elas:
- "O tradutor cleptomaníaco", conto de Deszö Kosztolányi em que um tradutor surrupia muitos objetos de valor que havia no texto original e são constam no traduzido.
- Se um viajante numa noite de inverno, romance de Ítalo Calvino em que se forma um triângulo amoroso entre o autor, a leitora e o tradutor.
- "Carta a una señorita en París", conto de Julio Cortázar em que um tradutor não consegue deixar de vomitar coelhinhos, os quais destróem a casa.
- "Pierre Menard, autor del Quijote", conto de Jorge Luís Borges sobre um escritor que tenta traduzir o Dom Quixote para o espanhol, com as mesmas palavras do original.
Eu adoraria conhecer outras obras com os tradutores como personagens. Alguém se lembra de mais alguma?
Mais uma (obrigada, Carla!):
- "Notas ao pé da página", conto de Moacyr Scliar que consiste apenas de notas do tradutor.