30 de setembro de 2012

Feliz dia do tradutor!


30 de setembro é o dia do tradutor. É a data em que se comemora São Jerônimo, que traduziu a Vulgata (versão da bíblia em latim) no século IV.

Há uma grande quantidade de pinturas que ilustram cenas da vida de São Jerônimo. Ele é sempre retratado idoso, magro, geralmente careca (com o crânio protuberante), de barbas longas e túnica, geralmente vermelha. Quase sempre está cercado de livros ou papéis e é acompanhado de um leão domesticado, e quase sempre tem ao seu lado uma caveira, símbolo de memento mori, a lembrança da mortalidade iminente.

Muitas pinturas mostram Jerônimo em situação dramática: quase nu, muito magro, debruçado sobre a mesa de trabalho, lutando com o texto.

Eu só fui me deparar recentemente com a pintura acima, de Andrea Mantegna, feita em 1450. Gostei muito dela e acho que ela tem muito a ver com os tradutores.

Primeiro, ele está numa caverna. Convenhamos, todos os tradutores têm um lado ermitão, que sabe apreciar a solidão e o silêncio. Para quem olha de fora, nosso escritório pode parecer um buraco empoeirado, mas é onde a gente se sente realmente em casa.

Ele está vestido, mas largou o chapéu e as sandálias porque a gente trabalha em casa e fica à vontade, mesmo.

É importante estar sempre hidratado, e nesse quadro São Jerônimo tem um riozinho de água cristalina passando bem na frente da caverna.

O leão domesticado virou um gatinho -- tradutores são grandes amigos dos felinos -- que olha para ele com uma carinha de "faz tempo que ninguém brinca comigo..." Os meus também me olham assim às vezes. Como todos sabem, é daí que se origina o termo "CAT tools" ;-)

Na frente da caverna, bebendo água, tem um passarinho vermelho que parece um cardeal, e em cima da caverna tem uma coruja. Achei bacana ter uma ave bem diurna e alegre e outra noturna. Tradutor está na ativa dia e noite, e muitos tradutores têm fortes tendências estrigiformes.

E o próprio Jerônimo está com cara de cansado, mas ainda matutando, procurando aquela palavra que falta, aquela adaptação aparentemente impossível. Está rezando para o santo protetor dele... quem será o São Jê do São Jê?

Acho que está um pouco triste porque a internet ainda não foi inventada. Devem ter sido uma barra esses tempos primitivos pré-banda larga. Hoje a gente pesquisa instantaneamente o corpus do mundo todo, usa dicionários digitais, memória de tradução, e troca ideias com milhares de tradutores pelo mundo. Mas, mesmo assim, tem dia que só mesmo Jerônimo para mandar uma inspiração.

Parabéns a todos os tradutores pelo dia de hoje! Não existiria aldeia global sem a nossa dedicação a cada palavrinha que transformamos na nossa cabeça para que as pessoas se entendam.

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DIA DO TRADUTOR, parte 2

Ontem (dia 30 de setembro) tinha tanta coisa interessante sendo postada em blogs, Facebook etc. sobre o dia do tradutor que eu me vi, mais uma vez, navegando pelo Google Images em busca de representações de São Jerônimo que eu ainda não conhecia, o que inevitavelmente me fez relembrar outras que eu tinha esquecido.

Foi então que percebi que o nosso querido São Jê passou por todas as mesmas fases que a gente enfrenta na nossa rotina profissional, sobretudo durante aqueles projetos "memoráveis" que todos nós encaramos de vez em quando. É tudo questão de pôr as imagens na ordem certa:


Fase 1, Van Eyck: São Jê começa o dia de trabalho. Está descansado e concentrado. Tomou um bom café da manhã, fez a barba, se vestiu, alimentou o leãozinho. Seu escritório está razoavalmente organizado e ele cuida da ergonomia, pois sabe que o projeto será longo.


Fase 2, Caravaggio: Ele está totalmente compenetrado no trabalho. Fica mais à vontade, com as roupas mais soltas. Se debruça sobre a mesa. Seu cérebro cresce visivelmente e sua produtividade atinge o ápice. Memento mori: ele é constantemente lembrado de que precisa terminar o serviço antes que a morte venha buscá-lo.


Fase 3, Pieter Coecke van Aelst: As coisas começam a não sair do jeito esperado. Há trechos para os quais não parece haver solução. A vela se apagou, o leão faminto fugiu de casa, e ele nem notou. Desesperado, discute com a caveira.


Fase 4, Lionello Spada: Esqueça a mesa, ela atrapalha. As roupas também são praticamente eliminadas, já que ele não tem planos de encontrar outro ser humano tão cedo. Ele está envelhecendo precocemente e agora precisa de óculos. Tem ao seu lado o crucifixo, pois precisa de inspiração divina e não quer perder o norte. A caveira morreu (de novo).


Fase 5, Simon Vouet: São Jê está delirante. Um anjo efetivamente desce em seu auxílio, mas São Jê discute com ele. O que esse moleque pensa que sabe sobre tradução? E ainda por cima com uma vuvuzela, era só o que faltava! O horror, o horror.

Mas eis que sim, o projeto finalmente termina. Ele sobreviveu! Em retrospecto, até que não foi tão ruim assim. E, quando o trabalho é publicado, a sensação de orgulho é indescritível. Ser tradutor é a melhor profissão do mundo!

26 de agosto de 2012

Como otimizar seu projeto de tradução – Parte I


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Da série DICAS PARA CLIENTES DE TRADUÇÃO,
a versão em português do blog Translation Client Zone,
de autoria de Bianca Bold
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O maior interessado no sucesso de uma tradução deve ser, sem dúvida, o cliente. No entanto, por falta de conhecimento sobre o processo de tradução, a sua colaboração no projeto pode não ser muito eficaz ou, ainda pior, você pode acabar atrapalhando o andamento ou o resultado.

Com isso em mente, eu listei algumas medidas que deveriam ser observadas por todos os envolvidos em uma tradução, e não apenas por quem é designado especificamente como gerente de projeto ou PM (do inglês “project manager”). Entendo que na vida real a situação às vezes foge ao nosso controle. Então, digamos que as recomendações a seguir representem a melhor das hipóteses, em que todos saem ganhando.


Planejamento

É importantíssimo planejar um projeto com antecedência e dar aos tradutores o tempo necessário para fazerem um trabalho cuidadoso. Se você já estiver acostumado a trabalhar com um tradutor, deve ter uma ideia de quanto tempo ele precisa para realizar uma determinada tarefa. No entanto, a produtividade varia de pessoa para pessoa, de texto para texto e até mesmo de dia para dia. Além disso, lembre que vários "obstáculos" podem atrapalhar seu tradutor a qualquer momento: ele pode estar com tempo reservado para outro projeto, fazendo malabarismo com dois ou mais textos (em vez de poder lhe oferecer dedicação integral, o que é bem comum), o texto pode se distanciar do que o profissional está acostumado a traduzir (o que deixa o processo mais demorado), o tradutor pode estar ocupado com questões pessoais ou até se preparando para tirar férias...

Recomendo que você sempre fale com seu tradutor assim que souber de projetos futuros. Se sua empresa lida com projetos recorrentes que precisam de tradução, por exemplo, não há motivo para não avisar o tradutor com antecedência. É claro que você só pode pedir que alguém reserve seu tempo quando tiver mais detalhes, como datas, tamanho do texto, conteúdo, etc. Um tradutor organizado ficará grato ao saber que algo está por vir e, possivelmente, terá esse futuro projeto em mente quando montar sua agenda de trabalho.

Em seu escritório ou empresa, certifique-se de que todos os envolvidos na produção do texto original respeitem os prazos. Além disso, o cronograma deve levar em conta não só o trabalho do tradutor propriamente dito como também o tempo necessário para alguém da sua empresa fazer uma leitura final da tradução. Mas tome muito cuidado: pedir que sua equipe "edite" uma tradução é uma faca de dois gumes e deve ser feito com muita atenção e responsabilidade.
Saiba que prazos muito curtos são geralmente acompanhados de taxas de urgência, e estas são despesas que você pode evitar. E tem mais: prazos caóticos podem afetar a qualidade do texto final. Em breve, discutirei esse tema em mais detalhes.


Materiais de referência

Ao escrever sobre formas de evitar erros na tradução de um texto técnico, Chris Durban sugere que você use pessoas da sua empresa que sejam especialistas no assunto para fornecer aos tradutores terminologia apropriada e materiais de referência. Esse conselho é pertinente a todos os tipos de texto e mídia. É importante enviar ao tradutor todos os materiais que sejam de alguma forma relacionados ao texto a ser traduzido.

Se você tiver documentos bilíngues relevantes, como conteúdos previamente traduzidos, nem pense duas vezes! Outros materiais úteis são glossários (monolíngues ou bilíngues), listas de termos preferenciais, manuais de estilo, listas de siglas, abreviações e acrônimos escritos por extenso, etc. Em geral, os tradutores experientes estão preparados para detectar termos pertinentes, expressões, frases e outros elementos de estilo presentes até mesmo em textos monolíngues. Então, vá em frente e envie aquele relatório em inglês produzido em 2002, mesmo que você não encontre a tradução para o português. Da mesma forma, todos os textos relevantes na língua-alvo (isto é, língua para a qual o texto é traduzido) serão muito bem-vindos.

Esses materiais de apoio ajudam a manter a consistência entre os textos de sua empresa e colaboram para que seu tradutor preste um serviço de alta qualidade. Dependendo do caso, o acesso a esses materiais pode até mesmo reduzir o cronograma de entrega.

Como você pode perceber, todos tiram proveito dessas medidas. Você aumenta suas chances de receber um texto final impecável, e os tradutores apreciam o apoio e a consideração que os ajudam a atender às necessidades de seu cliente de forma mais rápida e eficiente.

25 de agosto de 2012

Tradução na Globo Universidade

A formação de tradutores e o mercado de tradução foram o tema de várias matérias publicadas na Globo Universidade. O foco foi sobretudo na PUC-Rio, onde eu estudei e leciono. São bem aprofundadas e ótimas para tradutores profissionais ou para quem ainda está planejando a carreira.

A matéria principal é em vídeo, mas o site da Globo Universidade traz alguns artigos complementares:

Matéria em vídeo sobre diversas especializações oferecidas na PUC-Rio

Artigo sobre o mercado de tradução

Artigo sobre interpretação

Artigo sobre o mercado de tradução audiovisual e literária

Artigo sobre tradução juramentada

Achei as matérias excelentes. Raramente uma reportagem na imprensa sobre tradução passa do mais básico. Mas o mercado de tradução está crescendo muito no Brasil e o profissional vem ganhando muita visibilidade.

Do ponto de vista pessoal, o mais incrível é que eu conheço praticamente todo mundo em todas as matérias! Uns foram meus professores, outros meus colegas e outros meus alunos. O mundo da tradução é uma enorme família, mesmo.

1 de julho de 2012

Autotradução: parte tradução, parte autoria

Fazia tempo que eu queria escrever um artigo/reflexão que não fosse sobre legendagem. Este assunto já estava nos rascunhos há muito tempo, mas foi só quando li outras coisinhas por aí que decidi juntar tudo.

Você sabe o que é autotradução?

Eu ouvi falar nisso quando durante o mestrado (2003-2005), pois minha colega Maria Alice Antunes estava pesquisando esse tema para seu doutorado.

Autotradução é a tradução que alguém realiza da sua própria obra original. Quer dizer: é um autor que escreve um texto e decide, ele próprio, traduzir para outra língua.

A Maria Alice passou alguns anos investigando quais seriam as diferenças e os limites, ou as sobreposições, entre os papéis do autor e do tradutor. Quanto um autor traduz a própria obra, ele age mais como autor ou mais como tradutor? Há como perceber isso no texto? E quais seriam, exatamente, essas diferenças?

Além de muito estudo teórico e de levantar muitos outros casos de autotradução literária pelo mundo (entre os mais notórios, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e Milan Kundera traduziram suas próprias obras), Maria Alice abordou, como estudo de caso, as autotraduções que João Ubaldo Ribeiro fez para o inglês de dois romances seus, Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. João Ubaldo morou muitos anos nos EUA e se considera falante bilíngue de inglês e português.

Durante meus dois anos no mestrado, eu adorei acompanhar a pesquisa dela e as trocas de e-mails com João Ubaldo, cujo humor variava bastante e que repetidas vezes disse que sofreu horrores para fazer essas traduções e que jamais faria isso de novo. Maria Alice fez uma análise comparativa dos romances traduzidos e ia fazendo a ele várias perguntas específicas, além de contar com outros depoimentos dados por ele, inclusive um artigo que ele escreveu para a ATA sobre a experiência.

Mas o melhor foi quando a Maria Alice me pediu para fazer a revisão do texto final de sua tese. Passei vários dias debruçada sobre todo esse estudo, que é interessantíssimo e muito revelador. O texto é muito bem elaborado e essa leitura me marcou bastante.

Não vou resumir um trabalho tão amplo e complexo. Basta dizer que nada é bem o que parece e os limites não são nada claros. E, em muitos casos, aquilo que o autor/tradutor declara quanto às suas intenções, sua postura consciente e seus procedimentos não bate com o que é observado no texto, em uma análise aprofundada.

A tese de doutorado da Maria Alice Antunes está disponível aqui.
A tese foi transformada em livro, que está aqui.
Há também um grande número de artigos menores que foram sendo publicados durante e após o doutorado, como este aqui, que faz um relato mais abrangente e histórico sobre autotradução, e este aqui, que traz um pedacinho do estudo de caso.

 Agora outros desdobramentos que me fizeram pensar ainda mais.

Recentemente, nem sei bem como, eu vim parar neste artigo de Olafur Gunnarsson, autor e tradutor islandês. Ele fala um pouco sobre a tradição literária islandesa, os gostos atuais dos leitores (que preferem mais literatura americana traduzida do que a sua própria, como costuma acontecer no Brasil também) e um pouco sobre a mentalidade da sociedade islandesa. Se você ler em inglês, leia! É um artiguinho delicioso.

O que mais me intrigou foi ele dizer que se sente mais temeroso e se autocensura ao escrever em islandês. É uma sociedade pequena, em que todo mundo se conhece, e parece que há gente que tem o hábito de vestir carapuças e achar que personagens e fatos relatados em histórias de ficção dizem respeito a si própria, e vai tirar satisfação com o autor.

Por isso, Gunnarsson se sente mais livre quando traduz do inglês para o islandês. Como o texto não é dele, ele não precisa se censurar ou ficar pensando se corre o risco de ofender alguém. Assim, se liberta e traduz com grande prazer. E eu tenho a impressão de sentir, nas entrelinhas, que ele se utiliza da sua prática e da sua posição de autor também nas traduções, não necessariamente sendo um tradutor submisso e temeroso com relação ao status do autor original.

E aí fica mais interessante ainda: como ele se sente mais livre adotando a identidade de tradutor, ele também escreve seus contos assim. Primeiro em inglês, que não é sua língua materna, e depois autotraduz o seu conto de volta para o islandês. Mesmo que o único texto publicado seja em islandês, ele se sente mais à vontade ao escrevê-lo fingindo que o texto veio de outro lugar.

Eu achei essa história absolutamente fascinante.

Para fechar, só mais um detalhe que encontrei e que corrobora o que Gunnarsson diz. Li o seguinte trecho num artigo do Open Culture, meu novo vício e o arqui-inimigo de quem tem prazo para entregar serviços, que comemorava o aniversário de Jack Kerouac:
He was born March 12, 1922 in Lowell, Massachusetts to French-Canadian immigrants. He grew up speaking the Quebec French dialect Joual, and didn’t learn English until he was six years old. “The reason I handle English words so easily,” Kerouac once said, “is because it is not my own language. I re-fashion it to fit French images.”
Quer dizer, é a mesma ideia: por sentir que o inglês não era totalmente a sua língua, ele não se sentia na obrigação de se prender muito aos seus rigores e limites. Achei fantástica a noção de que ele formava imagens em francês e depois moldava a língua inglesa para tentar descrevê-las.

Aliás, Gunnarsson traduziu Kerouac para o islandês e achou fácil e divertido.

Não sei exatamente que conclusões tirar disso, mas sinto uma enorme euforia ao ler esses depoimentos e experiências. Uma língua não é algo externo a nós, mas é algo que nos forma, que nos constrói, que molda a nossa forma de pensar e enxergar.

Eu me interesso também por estudos sobre bilinguismo, que têm insights interessantes sobre esse tipo de coisa. Ah, mas também gosto de neurolinguística... Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito.

Mas a questão é que sou bilíngue, aliás razoavelmente trilíngue, e passo praticamente todas as horas da minha vida com três línguas transitando pela minha cabeça, falando, lendo, escrevendo e transformando uma língua em outra. E, desde que comecei a ler e refletir sobre autotradução e sobre bilinguismo, esses insights (que às vezes nem são muito palpáveis) ficaram comigo e se fazem lembrar em diversos instantes do dia a dia. Tenho a impressão de que eu vivo me autotraduzindo, mesmo sem querer.

29 de abril de 2012

Estamos na revista 'Língua Portuguesa'

Acaba de sair uma edição especial da revista Língua Portuguesa intitulada "Tradução & Linguagem", que aborda o mercado de tradução no Brasil.

A Bianca Bold, minha sócia, e eu participamos em duas matérias da revista:

O artigo "Profissionais conectados" aborda o uso de redes sociais e outros recursos de internet por tradutores independentes. Bianca Bold é uma das entrevistadas, e conta um pouco de sua história e dá dicas para outros profissionais. O artigo é excelente para quem estuda ou trabalha com tradução. Clique aqui para ler a matéria no site da Bianca.

"As lógicas do audiovisual" aborda a tradução de materiais audiovisuais no Brasil, com ênfase em legendagem e dublagem, e é de minha autoria (Carolina Alfaro de Carvalho). Clique aqui para ler a matéria em PDF.

Aproveito aqui para corrigir dois erros que saíram nessa matéria, mas que não foram cometidos por mim:
  • O último quadro foi intitulado "As peculiaridades do mercado de TAV" e saiu com um erro de ortografia.
  • Lá no finalzinho, onde está o meu nome, consta a informação "ministra cursos de legendagem on-line na PUC-Rio", o que obviamente não faz sentido. Eu dou cursos online (à distância, portanto as aulas ocorrem no mundo cibernético e não em nenhuma cidade particular) e também dou cursos presenciais na PUC-Rio.
A revista Língua Portuguesa é excelente e merece ser assinada por todo profissional que utilizar o português como instrumento de trabalho (professores, comunicadores, jornalistas, tradutores, revisores e, enfim, pessoas que gostam de se comunicar bem e prezam a cultura geral). A publicação de um número especial sobre tradução, com artigos escritos por diversos profissionais da área, é muito bem-vinda e esperamos que tenha sido o primeiro de vários números - ou pelo menos várias outras matérias com foco nesse mercado.

11 de fevereiro de 2012

Artigos sobre tradução audiovisual

No fim de 2011, a PUC-Rio lançou um número especial da publicação Tradução em revista, n. 11, sobre tradução audiovisual. A revista conta com diversos artigos sobre tecnologia, legendagem, dublagem, legenda fechada, audiodescrição e traduções de fãs.

Eu considero imprescindível, para quem se interessa minimamente pelo assunto (nem que seja como "espectador com opinião"), o artigo da Sabrina Martinez, "Tecnologia digital, acessibilidade e novos mercados para o tradutor audiovisual". Ela traça um panorama da evolução tecnológica e as transformações da tradução audiovisual no Brasil, chegando aos reflexos da nova lei da acessibilidade e a recente polêmica sobre a maior preferência pela dublagem na TV a cabo. Pretendo passar a usar esse artigo nos meus cursos, e acho que qualquer um deveria ler esse texto para discutir esses assuntos com uma base maior de informações, transmitidas por quem trabalha e estuda tradução audiovisual há muitos anos.

Aproveitando este assunto: eu recebo pedidos constantes de alunos de cursos de tradução para ajudar com bibliografia sobre tradução audiovisual para trabalhos de conclusão de cursos e monografias. Às vezes fico surpresa quando me dizem que não têm bibliografia para estudar, considerando que o que há por aí hoje em dia daria para passar uma vida estudando -- o que eu acho difícil mesmo é justamente selecionar um recorte relevante.

Então, vou listar aqui alguns recursos e, com o tempo, pretendo expandi-los.

O periódico Cadernos de tradução, publicado pela Universidade Federal de Santa Catarina, e a revista Tradução & comunicação, da Anhanguera (ex-Unibero), não publicaram (que eu saiba) um número especial sobre tradução audiovisual, mas quase sempre há algum artigo sobre o tema em cada número. É preciso garimpar um pouquinho, mas é nisso que consiste o trabalho do pesquisador... ;-)

As duas maiores editoras especializadas em tradução, Saint Jerome e John Benjamins, têm números dedicados ao tema.

A publicação canadense Meta lançou uma edição especial sobre tradução audiovisual em 2004, com artigos diversos de ótimos pesquisadores do tema. Agora no início de 2012 deve sair mais um número especial, que espero poder divulgar em breve.

A nova edição especial da Meta será editada por Jorge Díaz-Cintas, tradutor e pesquisador com uma enorme lista de publicações sobre o tema.

Outros autores onipresentes neste campo de estudo, e que é interessante acompanhar, são Yves Gambier, editor do número da Meta de 2004 e da excelente coletânea (Multi) Media Translation, disponível no Google Books -- o texto introdutório, mesmo tendo mais de 10 anos, continua atualíssimo; Patrick Catrysse; Henrik Gottlieb; além de, no Brasil, Vera Lúcia Santiago Araújo e Eliana Franco.

Autores bons há muitos, mas infelizmente poucos mantêm um site e uma lista atualizada de publicações.

Finalmente, além do que eu já publiquei e apresentei sobre o tema (há pouco disponível online) e do que escrevo neste blog, minha maior contribuição para a área foi minha dissertação de mestrado. Aliás, vale lembrar que as principais universidades do Brasil mantêm catálogos online de trabalhos acadêmicos e permitem o acesso digital a muitos deles.

Este foi só um primeiro apanhado geral. Caso você conheça alguma outra publicação sobre tradução audiovisual, principalmente se estiver disponível online, por favor me informe em um comentário para que eu confira e aumente esta lista. Espero que seja útil!

19 de novembro de 2011

Tradução audiovisual e "censura"

Antes de mais nada, uma pergunta: onde quer que você more, seja no Brasil ou em algum outro país, qual é a sua impressão sobre o linguajar usado em legendagem e dublagem de filmes comerciais, em cinemas e canais de TV? Ele tende a ser conservador ou explícito em termos de termos ofensivos, expletivos, escatologia, etc.? Você já criticou negativamente uma tradução por ser "careta" demais? E já se indignou com uma tradução que, na sua opinião, tinha excesso de palavrões?

Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.

Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.

Às vezes, o cliente -- seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo -- é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando "careta" demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da "censura" à tradução.

No caso de filmes "independentes" ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.

Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.

No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa "Forbrydelsen" (traduzida em inglês como "The Killing" e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original -- dinamarquês -- com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor "pecar pelo excesso de cautela" em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.

Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais "família". Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.

São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).

Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos "normal" já passa por um filtro.

Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de "South Park" decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de "fuck you" que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por "foda-se" e sim por "dane-se" (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)

Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: "Assim, (...) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil." No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.

Quer dizer: muita gente se queixa da "censura" ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.

Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão "entranhada" em nós. É por isso que "fuck you" parece mais suave do que "vá se foder".

Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.

Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de "Tropa de Elite" em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.

Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.

Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da "censura" e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.

16 de novembro de 2011

O foco no cliente

A profissionalização da tradução, ao longo das últimas (várias) décadas, passou primeiro pelo estágio de definição e consolidação do campo de estudo, com foco em teorias e metodologias de ensino. Mais recentemente houve um esforço para aproximar mais os profissionais formados em tradução das diversas realidades do mercado de trabalho, incluindo, além das reflexões teóricas e de muita prática, o treinamento com tecnologias atuais e informações de cunho empresarial e financeiro.

Temos hoje uma grande quantidade de profissionais bem preparados, seja formados ou especializados em tradução, que se aperfeiçoam continuamente através de cursos, conferências e a febre do momento, os webinars.

Mas um lado da equação em que se pensa muito pouco, do ponto de vista da educação, é quem solicita traduções. O tradutor treina para dominar seu trabalho, é ensinado a não aceitar preços baixos, a exigir prazos razoáveis, a cobrar taxas de urgência, a usar ferramentas, a assinar um contrato com o cliente antes de começar o serviço. Ótimo. Quando somos procurados por um cliente que valoriza o nosso trabalho e quer qualidade, o relacionamento é harmonioso. Quando quem nos procura demonstra nem perceber a diferença entre o nosso serviço e o Google Translate, ficamos até felizes quando o serviço não acontece. E, se vemos uma tradução ruim publicada (em site, livro, filme, manual, o que for), atribuímos parte da responsabilidade sobre esse serviço ruim ao próprio cliente, que não soube ou não quis contratar um serviço decente e pagar o preço justo.

E por acaso todo cliente nasce sabendo? É claro que não. As empresas dedicadas a intermediar traduções têm padrões de custo-benefício que podem restringir os valores pagos e até comprometer certas práticas conscientemente, mas em geral entendem de tradução. Não confundiriam tradução com interpretação, nem legendagem com dublagem. Em geral. Mas uma imensidão de clientes que não vive em contato com o mercado de tradução, sejam pessoas físicas ou jurídicas, pode ser simplesmente ingênua. Há quem procure preço baixo, há quem realmente ache que ter feito um curso de línguas baste, há quem nunca ouviu falar em curso de tradução. Ora, se quem hoje é tradutor profissional precisou aprender essas e muitas outras coisas, muitos de nossos clientes precisam aprender isso também.

Nós não temos por que esperar passivamente pelo cliente ideal. Aliás, não podemos nos dar a esse luxo no panorama atual de tradutores automáticos gratuitos na rede, agências que cobram valores irrisórios e a empolgação em torno das práticas de crowdsourcing e fansubbing, que pregam o amadorismo como solução para as necessidades do "mundo globalizado" (haja redundância nessa expressão...).

É importante educarmos os clientes também, e não só esperando que se deem mal usando o Google Translate e voltem com o rabo entre as pernas. Se eles conhecerem melhor o nosso mercado e os detalhes do nosso trabalho, não só vão saber avaliar melhor o tipo de serviço de que precisam como vão nos valorizar mais, também. Aliás, apenas o fato de conhecer de perto alguma coisa já leva automaticamente a mais empatia e respeito. Quer ver só? Veja esta lista e me diga se você não valoriza um pouco mais estes profissionais, a maioria deles indispensável (e se não agradeceu pelo emprego que tem).

Naturalmente, não existem cursos de formação para gente que porventura precise de serviços de tradução. Mas há bastante material na internet. Basta recomendar alguns dos recursos sugeridos abaixo para clientes em potencial ou divulgá-los sempre que possível. Aliás, tudo o que serve para educar clientes se aplica a nós também. Um tradutor inexperiente ou sem familiaridade com alguma especialização tem dificuldade em explicá-la a seus clientes em potencial, o que é perceptível. Além disso, saber fazer algo é diferente de saber explicar para quem não é da área. Portanto, estas sugestões são extremamente úteis também para nós, tradutores profissionais. O que esperamos do cliente ideal necessariamente passa pelas melhores práticas de tradução, que nós devemos dominar.
Com certeza há muito mais por aí. Se você conhece um bom recurso pensado para clientes de tradução, sugira-o nos comentários para que eu o avalie e acrescente a esta lista.