30 de setembro de 2012

Feliz dia do tradutor!


30 de setembro é o dia do tradutor. É a data em que se comemora São Jerônimo, que traduziu a Vulgata (versão da bíblia em latim) no século IV.

Há uma grande quantidade de pinturas que ilustram cenas da vida de São Jerônimo. Ele é sempre retratado idoso, magro, geralmente careca (com o crânio protuberante), de barbas longas e túnica, geralmente vermelha. Quase sempre está cercado de livros ou papéis e é acompanhado de um leão domesticado, e quase sempre tem ao seu lado uma caveira, símbolo de memento mori, a lembrança da mortalidade iminente.

Muitas pinturas mostram Jerônimo em situação dramática: quase nu, muito magro, debruçado sobre a mesa de trabalho, lutando com o texto.

Eu só fui me deparar recentemente com a pintura acima, de Andrea Mantegna, feita em 1450. Gostei muito dela e acho que ela tem muito a ver com os tradutores.

Primeiro, ele está numa caverna. Convenhamos, todos os tradutores têm um lado ermitão, que sabe apreciar a solidão e o silêncio. Para quem olha de fora, nosso escritório pode parecer um buraco empoeirado, mas é onde a gente se sente realmente em casa.

Ele está vestido, mas largou o chapéu e as sandálias porque a gente trabalha em casa e fica à vontade, mesmo.

É importante estar sempre hidratado, e nesse quadro São Jerônimo tem um riozinho de água cristalina passando bem na frente da caverna.

O leão domesticado virou um gatinho -- tradutores são grandes amigos dos felinos -- que olha para ele com uma carinha de "faz tempo que ninguém brinca comigo..." Os meus também me olham assim às vezes. Como todos sabem, é daí que se origina o termo "CAT tools" ;-)

Na frente da caverna, bebendo água, tem um passarinho vermelho que parece um cardeal, e em cima da caverna tem uma coruja. Achei bacana ter uma ave bem diurna e alegre e outra noturna. Tradutor está na ativa dia e noite, e muitos tradutores têm fortes tendências estrigiformes.

E o próprio Jerônimo está com cara de cansado, mas ainda matutando, procurando aquela palavra que falta, aquela adaptação aparentemente impossível. Está rezando para o santo protetor dele... quem será o São Jê do São Jê?

Acho que está um pouco triste porque a internet ainda não foi inventada. Devem ter sido uma barra esses tempos primitivos pré-banda larga. Hoje a gente pesquisa instantaneamente o corpus do mundo todo, usa dicionários digitais, memória de tradução, e troca ideias com milhares de tradutores pelo mundo. Mas, mesmo assim, tem dia que só mesmo Jerônimo para mandar uma inspiração.

Parabéns a todos os tradutores pelo dia de hoje! Não existiria aldeia global sem a nossa dedicação a cada palavrinha que transformamos na nossa cabeça para que as pessoas se entendam.

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DIA DO TRADUTOR, parte 2

Ontem (dia 30 de setembro) tinha tanta coisa interessante sendo postada em blogs, Facebook etc. sobre o dia do tradutor que eu me vi, mais uma vez, navegando pelo Google Images em busca de representações de São Jerônimo que eu ainda não conhecia, o que inevitavelmente me fez relembrar outras que eu tinha esquecido.

Foi então que percebi que o nosso querido São Jê passou por todas as mesmas fases que a gente enfrenta na nossa rotina profissional, sobretudo durante aqueles projetos "memoráveis" que todos nós encaramos de vez em quando. É tudo questão de pôr as imagens na ordem certa:


Fase 1, Van Eyck: São Jê começa o dia de trabalho. Está descansado e concentrado. Tomou um bom café da manhã, fez a barba, se vestiu, alimentou o leãozinho. Seu escritório está razoavalmente organizado e ele cuida da ergonomia, pois sabe que o projeto será longo.


Fase 2, Caravaggio: Ele está totalmente compenetrado no trabalho. Fica mais à vontade, com as roupas mais soltas. Se debruça sobre a mesa. Seu cérebro cresce visivelmente e sua produtividade atinge o ápice. Memento mori: ele é constantemente lembrado de que precisa terminar o serviço antes que a morte venha buscá-lo.


Fase 3, Pieter Coecke van Aelst: As coisas começam a não sair do jeito esperado. Há trechos para os quais não parece haver solução. A vela se apagou, o leão faminto fugiu de casa, e ele nem notou. Desesperado, discute com a caveira.


Fase 4, Lionello Spada: Esqueça a mesa, ela atrapalha. As roupas também são praticamente eliminadas, já que ele não tem planos de encontrar outro ser humano tão cedo. Ele está envelhecendo precocemente e agora precisa de óculos. Tem ao seu lado o crucifixo, pois precisa de inspiração divina e não quer perder o norte. A caveira morreu (de novo).


Fase 5, Simon Vouet: São Jê está delirante. Um anjo efetivamente desce em seu auxílio, mas São Jê discute com ele. O que esse moleque pensa que sabe sobre tradução? E ainda por cima com uma vuvuzela, era só o que faltava! O horror, o horror.

Mas eis que sim, o projeto finalmente termina. Ele sobreviveu! Em retrospecto, até que não foi tão ruim assim. E, quando o trabalho é publicado, a sensação de orgulho é indescritível. Ser tradutor é a melhor profissão do mundo!

26 de agosto de 2012

Como otimizar seu projeto de tradução – Parte I


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Da série DICAS PARA CLIENTES DE TRADUÇÃO,
a versão em português do blog Translation Client Zone,
de autoria de Bianca Bold
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O maior interessado no sucesso de uma tradução deve ser, sem dúvida, o cliente. No entanto, por falta de conhecimento sobre o processo de tradução, a sua colaboração no projeto pode não ser muito eficaz ou, ainda pior, você pode acabar atrapalhando o andamento ou o resultado.

Com isso em mente, eu listei algumas medidas que deveriam ser observadas por todos os envolvidos em uma tradução, e não apenas por quem é designado especificamente como gerente de projeto ou PM (do inglês “project manager”). Entendo que na vida real a situação às vezes foge ao nosso controle. Então, digamos que as recomendações a seguir representem a melhor das hipóteses, em que todos saem ganhando.


Planejamento

É importantíssimo planejar um projeto com antecedência e dar aos tradutores o tempo necessário para fazerem um trabalho cuidadoso. Se você já estiver acostumado a trabalhar com um tradutor, deve ter uma ideia de quanto tempo ele precisa para realizar uma determinada tarefa. No entanto, a produtividade varia de pessoa para pessoa, de texto para texto e até mesmo de dia para dia. Além disso, lembre que vários "obstáculos" podem atrapalhar seu tradutor a qualquer momento: ele pode estar com tempo reservado para outro projeto, fazendo malabarismo com dois ou mais textos (em vez de poder lhe oferecer dedicação integral, o que é bem comum), o texto pode se distanciar do que o profissional está acostumado a traduzir (o que deixa o processo mais demorado), o tradutor pode estar ocupado com questões pessoais ou até se preparando para tirar férias...

Recomendo que você sempre fale com seu tradutor assim que souber de projetos futuros. Se sua empresa lida com projetos recorrentes que precisam de tradução, por exemplo, não há motivo para não avisar o tradutor com antecedência. É claro que você só pode pedir que alguém reserve seu tempo quando tiver mais detalhes, como datas, tamanho do texto, conteúdo, etc. Um tradutor organizado ficará grato ao saber que algo está por vir e, possivelmente, terá esse futuro projeto em mente quando montar sua agenda de trabalho.

Em seu escritório ou empresa, certifique-se de que todos os envolvidos na produção do texto original respeitem os prazos. Além disso, o cronograma deve levar em conta não só o trabalho do tradutor propriamente dito como também o tempo necessário para alguém da sua empresa fazer uma leitura final da tradução. Mas tome muito cuidado: pedir que sua equipe "edite" uma tradução é uma faca de dois gumes e deve ser feito com muita atenção e responsabilidade.
Saiba que prazos muito curtos são geralmente acompanhados de taxas de urgência, e estas são despesas que você pode evitar. E tem mais: prazos caóticos podem afetar a qualidade do texto final. Em breve, discutirei esse tema em mais detalhes.


Materiais de referência

Ao escrever sobre formas de evitar erros na tradução de um texto técnico, Chris Durban sugere que você use pessoas da sua empresa que sejam especialistas no assunto para fornecer aos tradutores terminologia apropriada e materiais de referência. Esse conselho é pertinente a todos os tipos de texto e mídia. É importante enviar ao tradutor todos os materiais que sejam de alguma forma relacionados ao texto a ser traduzido.

Se você tiver documentos bilíngues relevantes, como conteúdos previamente traduzidos, nem pense duas vezes! Outros materiais úteis são glossários (monolíngues ou bilíngues), listas de termos preferenciais, manuais de estilo, listas de siglas, abreviações e acrônimos escritos por extenso, etc. Em geral, os tradutores experientes estão preparados para detectar termos pertinentes, expressões, frases e outros elementos de estilo presentes até mesmo em textos monolíngues. Então, vá em frente e envie aquele relatório em inglês produzido em 2002, mesmo que você não encontre a tradução para o português. Da mesma forma, todos os textos relevantes na língua-alvo (isto é, língua para a qual o texto é traduzido) serão muito bem-vindos.

Esses materiais de apoio ajudam a manter a consistência entre os textos de sua empresa e colaboram para que seu tradutor preste um serviço de alta qualidade. Dependendo do caso, o acesso a esses materiais pode até mesmo reduzir o cronograma de entrega.

Como você pode perceber, todos tiram proveito dessas medidas. Você aumenta suas chances de receber um texto final impecável, e os tradutores apreciam o apoio e a consideração que os ajudam a atender às necessidades de seu cliente de forma mais rápida e eficiente.

25 de agosto de 2012

Tradução na Globo Universidade

A formação de tradutores e o mercado de tradução foram o tema de várias matérias publicadas na Globo Universidade. O foco foi sobretudo na PUC-Rio, onde eu estudei e leciono. São bem aprofundadas e ótimas para tradutores profissionais ou para quem ainda está planejando a carreira.

A matéria principal é em vídeo, mas o site da Globo Universidade traz alguns artigos complementares:

Matéria em vídeo sobre diversas especializações oferecidas na PUC-Rio

Artigo sobre o mercado de tradução

Artigo sobre interpretação

Artigo sobre o mercado de tradução audiovisual e literária

Artigo sobre tradução juramentada

Achei as matérias excelentes. Raramente uma reportagem na imprensa sobre tradução passa do mais básico. Mas o mercado de tradução está crescendo muito no Brasil e o profissional vem ganhando muita visibilidade.

Do ponto de vista pessoal, o mais incrível é que eu conheço praticamente todo mundo em todas as matérias! Uns foram meus professores, outros meus colegas e outros meus alunos. O mundo da tradução é uma enorme família, mesmo.

1 de julho de 2012

Autotradução: parte tradução, parte autoria

Fazia tempo que eu queria escrever um artigo/reflexão que não fosse sobre legendagem. Este assunto já estava nos rascunhos há muito tempo, mas foi só quando li outras coisinhas por aí que decidi juntar tudo.

Você sabe o que é autotradução?

Eu ouvi falar nisso quando durante o mestrado (2003-2005), pois minha colega Maria Alice Antunes estava pesquisando esse tema para seu doutorado.

Autotradução é a tradução que alguém realiza da sua própria obra original. Quer dizer: é um autor que escreve um texto e decide, ele próprio, traduzir para outra língua.

A Maria Alice passou alguns anos investigando quais seriam as diferenças e os limites, ou as sobreposições, entre os papéis do autor e do tradutor. Quanto um autor traduz a própria obra, ele age mais como autor ou mais como tradutor? Há como perceber isso no texto? E quais seriam, exatamente, essas diferenças?

Além de muito estudo teórico e de levantar muitos outros casos de autotradução literária pelo mundo (entre os mais notórios, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e Milan Kundera traduziram suas próprias obras), Maria Alice abordou, como estudo de caso, as autotraduções que João Ubaldo Ribeiro fez para o inglês de dois romances seus, Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. João Ubaldo morou muitos anos nos EUA e se considera falante bilíngue de inglês e português.

Durante meus dois anos no mestrado, eu adorei acompanhar a pesquisa dela e as trocas de e-mails com João Ubaldo, cujo humor variava bastante e que repetidas vezes disse que sofreu horrores para fazer essas traduções e que jamais faria isso de novo. Maria Alice fez uma análise comparativa dos romances traduzidos e ia fazendo a ele várias perguntas específicas, além de contar com outros depoimentos dados por ele, inclusive um artigo que ele escreveu para a ATA sobre a experiência.

Mas o melhor foi quando a Maria Alice me pediu para fazer a revisão do texto final de sua tese. Passei vários dias debruçada sobre todo esse estudo, que é interessantíssimo e muito revelador. O texto é muito bem elaborado e essa leitura me marcou bastante.

Não vou resumir um trabalho tão amplo e complexo. Basta dizer que nada é bem o que parece e os limites não são nada claros. E, em muitos casos, aquilo que o autor/tradutor declara quanto às suas intenções, sua postura consciente e seus procedimentos não bate com o que é observado no texto, em uma análise aprofundada.

A tese de doutorado da Maria Alice Antunes está disponível aqui.
A tese foi transformada em livro, que está aqui.
Há também um grande número de artigos menores que foram sendo publicados durante e após o doutorado, como este aqui, que faz um relato mais abrangente e histórico sobre autotradução, e este aqui, que traz um pedacinho do estudo de caso.

 Agora outros desdobramentos que me fizeram pensar ainda mais.

Recentemente, nem sei bem como, eu vim parar neste artigo de Olafur Gunnarsson, autor e tradutor islandês. Ele fala um pouco sobre a tradição literária islandesa, os gostos atuais dos leitores (que preferem mais literatura americana traduzida do que a sua própria, como costuma acontecer no Brasil também) e um pouco sobre a mentalidade da sociedade islandesa. Se você ler em inglês, leia! É um artiguinho delicioso.

O que mais me intrigou foi ele dizer que se sente mais temeroso e se autocensura ao escrever em islandês. É uma sociedade pequena, em que todo mundo se conhece, e parece que há gente que tem o hábito de vestir carapuças e achar que personagens e fatos relatados em histórias de ficção dizem respeito a si própria, e vai tirar satisfação com o autor.

Por isso, Gunnarsson se sente mais livre quando traduz do inglês para o islandês. Como o texto não é dele, ele não precisa se censurar ou ficar pensando se corre o risco de ofender alguém. Assim, se liberta e traduz com grande prazer. E eu tenho a impressão de sentir, nas entrelinhas, que ele se utiliza da sua prática e da sua posição de autor também nas traduções, não necessariamente sendo um tradutor submisso e temeroso com relação ao status do autor original.

E aí fica mais interessante ainda: como ele se sente mais livre adotando a identidade de tradutor, ele também escreve seus contos assim. Primeiro em inglês, que não é sua língua materna, e depois autotraduz o seu conto de volta para o islandês. Mesmo que o único texto publicado seja em islandês, ele se sente mais à vontade ao escrevê-lo fingindo que o texto veio de outro lugar.

Eu achei essa história absolutamente fascinante.

Para fechar, só mais um detalhe que encontrei e que corrobora o que Gunnarsson diz. Li o seguinte trecho num artigo do Open Culture, meu novo vício e o arqui-inimigo de quem tem prazo para entregar serviços, que comemorava o aniversário de Jack Kerouac:
He was born March 12, 1922 in Lowell, Massachusetts to French-Canadian immigrants. He grew up speaking the Quebec French dialect Joual, and didn’t learn English until he was six years old. “The reason I handle English words so easily,” Kerouac once said, “is because it is not my own language. I re-fashion it to fit French images.”
Quer dizer, é a mesma ideia: por sentir que o inglês não era totalmente a sua língua, ele não se sentia na obrigação de se prender muito aos seus rigores e limites. Achei fantástica a noção de que ele formava imagens em francês e depois moldava a língua inglesa para tentar descrevê-las.

Aliás, Gunnarsson traduziu Kerouac para o islandês e achou fácil e divertido.

Não sei exatamente que conclusões tirar disso, mas sinto uma enorme euforia ao ler esses depoimentos e experiências. Uma língua não é algo externo a nós, mas é algo que nos forma, que nos constrói, que molda a nossa forma de pensar e enxergar.

Eu me interesso também por estudos sobre bilinguismo, que têm insights interessantes sobre esse tipo de coisa. Ah, mas também gosto de neurolinguística... Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito.

Mas a questão é que sou bilíngue, aliás razoavelmente trilíngue, e passo praticamente todas as horas da minha vida com três línguas transitando pela minha cabeça, falando, lendo, escrevendo e transformando uma língua em outra. E, desde que comecei a ler e refletir sobre autotradução e sobre bilinguismo, esses insights (que às vezes nem são muito palpáveis) ficaram comigo e se fazem lembrar em diversos instantes do dia a dia. Tenho a impressão de que eu vivo me autotraduzindo, mesmo sem querer.

29 de abril de 2012

Estamos na revista 'Língua Portuguesa'

Acaba de sair uma edição especial da revista Língua Portuguesa intitulada "Tradução & Linguagem", que aborda o mercado de tradução no Brasil.

A Bianca Bold, minha sócia, e eu participamos em duas matérias da revista:

O artigo "Profissionais conectados" aborda o uso de redes sociais e outros recursos de internet por tradutores independentes. Bianca Bold é uma das entrevistadas, e conta um pouco de sua história e dá dicas para outros profissionais. O artigo é excelente para quem estuda ou trabalha com tradução. Clique aqui para ler a matéria no site da Bianca.

"As lógicas do audiovisual" aborda a tradução de materiais audiovisuais no Brasil, com ênfase em legendagem e dublagem, e é de minha autoria (Carolina Alfaro de Carvalho). Clique aqui para ler a matéria em PDF.

Aproveito aqui para corrigir dois erros que saíram nessa matéria, mas que não foram cometidos por mim:
  • O último quadro foi intitulado "As peculiaridades do mercado de TAV" e saiu com um erro de ortografia.
  • Lá no finalzinho, onde está o meu nome, consta a informação "ministra cursos de legendagem on-line na PUC-Rio", o que obviamente não faz sentido. Eu dou cursos online (à distância, portanto as aulas ocorrem no mundo cibernético e não em nenhuma cidade particular) e também dou cursos presenciais na PUC-Rio.
A revista Língua Portuguesa é excelente e merece ser assinada por todo profissional que utilizar o português como instrumento de trabalho (professores, comunicadores, jornalistas, tradutores, revisores e, enfim, pessoas que gostam de se comunicar bem e prezam a cultura geral). A publicação de um número especial sobre tradução, com artigos escritos por diversos profissionais da área, é muito bem-vinda e esperamos que tenha sido o primeiro de vários números - ou pelo menos várias outras matérias com foco nesse mercado.

11 de fevereiro de 2012

Artigos sobre tradução audiovisual

No fim de 2011, a PUC-Rio lançou um número especial da publicação Tradução em revista, n. 11, sobre tradução audiovisual. A revista conta com diversos artigos sobre tecnologia, legendagem, dublagem, legenda fechada, audiodescrição e traduções de fãs.

Eu considero imprescindível, para quem se interessa minimamente pelo assunto (nem que seja como "espectador com opinião"), o artigo da Sabrina Martinez, "Tecnologia digital, acessibilidade e novos mercados para o tradutor audiovisual". Ela traça um panorama da evolução tecnológica e as transformações da tradução audiovisual no Brasil, chegando aos reflexos da nova lei da acessibilidade e a recente polêmica sobre a maior preferência pela dublagem na TV a cabo. Pretendo passar a usar esse artigo nos meus cursos, e acho que qualquer um deveria ler esse texto para discutir esses assuntos com uma base maior de informações, transmitidas por quem trabalha e estuda tradução audiovisual há muitos anos.

Aproveitando este assunto: eu recebo pedidos constantes de alunos de cursos de tradução para ajudar com bibliografia sobre tradução audiovisual para trabalhos de conclusão de cursos e monografias. Às vezes fico surpresa quando me dizem que não têm bibliografia para estudar, considerando que o que há por aí hoje em dia daria para passar uma vida estudando -- o que eu acho difícil mesmo é justamente selecionar um recorte relevante.

Então, vou listar aqui alguns recursos e, com o tempo, pretendo expandi-los.

O periódico Cadernos de tradução, publicado pela Universidade Federal de Santa Catarina, e a revista Tradução & comunicação, da Anhanguera (ex-Unibero), não publicaram (que eu saiba) um número especial sobre tradução audiovisual, mas quase sempre há algum artigo sobre o tema em cada número. É preciso garimpar um pouquinho, mas é nisso que consiste o trabalho do pesquisador... ;-)

As duas maiores editoras especializadas em tradução, Saint Jerome e John Benjamins, têm números dedicados ao tema.

A publicação canadense Meta lançou uma edição especial sobre tradução audiovisual em 2004, com artigos diversos de ótimos pesquisadores do tema. Agora no início de 2012 deve sair mais um número especial, que espero poder divulgar em breve.

A nova edição especial da Meta será editada por Jorge Díaz-Cintas, tradutor e pesquisador com uma enorme lista de publicações sobre o tema.

Outros autores onipresentes neste campo de estudo, e que é interessante acompanhar, são Yves Gambier, editor do número da Meta de 2004 e da excelente coletânea (Multi) Media Translation, disponível no Google Books -- o texto introdutório, mesmo tendo mais de 10 anos, continua atualíssimo; Patrick Catrysse; Henrik Gottlieb; além de, no Brasil, Vera Lúcia Santiago Araújo e Eliana Franco.

Autores bons há muitos, mas infelizmente poucos mantêm um site e uma lista atualizada de publicações.

Finalmente, além do que eu já publiquei e apresentei sobre o tema (há pouco disponível online) e do que escrevo neste blog, minha maior contribuição para a área foi minha dissertação de mestrado. Aliás, vale lembrar que as principais universidades do Brasil mantêm catálogos online de trabalhos acadêmicos e permitem o acesso digital a muitos deles.

Este foi só um primeiro apanhado geral. Caso você conheça alguma outra publicação sobre tradução audiovisual, principalmente se estiver disponível online, por favor me informe em um comentário para que eu confira e aumente esta lista. Espero que seja útil!

19 de novembro de 2011

Tradução audiovisual e "censura"

Antes de mais nada, uma pergunta: onde quer que você more, seja no Brasil ou em algum outro país, qual é a sua impressão sobre o linguajar usado em legendagem e dublagem de filmes comerciais, em cinemas e canais de TV? Ele tende a ser conservador ou explícito em termos de termos ofensivos, expletivos, escatologia, etc.? Você já criticou negativamente uma tradução por ser "careta" demais? E já se indignou com uma tradução que, na sua opinião, tinha excesso de palavrões?

Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.

Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.

Às vezes, o cliente -- seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo -- é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando "careta" demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da "censura" à tradução.

No caso de filmes "independentes" ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.

Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.

No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa "Forbrydelsen" (traduzida em inglês como "The Killing" e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original -- dinamarquês -- com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor "pecar pelo excesso de cautela" em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.

Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais "família". Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.

São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).

Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos "normal" já passa por um filtro.

Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de "South Park" decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de "fuck you" que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por "foda-se" e sim por "dane-se" (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)

Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: "Assim, (...) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil." No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.

Quer dizer: muita gente se queixa da "censura" ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.

Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão "entranhada" em nós. É por isso que "fuck you" parece mais suave do que "vá se foder".

Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.

Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de "Tropa de Elite" em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.

Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.

Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da "censura" e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.

16 de novembro de 2011

O foco no cliente

A profissionalização da tradução, ao longo das últimas (várias) décadas, passou primeiro pelo estágio de definição e consolidação do campo de estudo, com foco em teorias e metodologias de ensino. Mais recentemente houve um esforço para aproximar mais os profissionais formados em tradução das diversas realidades do mercado de trabalho, incluindo, além das reflexões teóricas e de muita prática, o treinamento com tecnologias atuais e informações de cunho empresarial e financeiro.

Temos hoje uma grande quantidade de profissionais bem preparados, seja formados ou especializados em tradução, que se aperfeiçoam continuamente através de cursos, conferências e a febre do momento, os webinars.

Mas um lado da equação em que se pensa muito pouco, do ponto de vista da educação, é quem solicita traduções. O tradutor treina para dominar seu trabalho, é ensinado a não aceitar preços baixos, a exigir prazos razoáveis, a cobrar taxas de urgência, a usar ferramentas, a assinar um contrato com o cliente antes de começar o serviço. Ótimo. Quando somos procurados por um cliente que valoriza o nosso trabalho e quer qualidade, o relacionamento é harmonioso. Quando quem nos procura demonstra nem perceber a diferença entre o nosso serviço e o Google Translate, ficamos até felizes quando o serviço não acontece. E, se vemos uma tradução ruim publicada (em site, livro, filme, manual, o que for), atribuímos parte da responsabilidade sobre esse serviço ruim ao próprio cliente, que não soube ou não quis contratar um serviço decente e pagar o preço justo.

E por acaso todo cliente nasce sabendo? É claro que não. As empresas dedicadas a intermediar traduções têm padrões de custo-benefício que podem restringir os valores pagos e até comprometer certas práticas conscientemente, mas em geral entendem de tradução. Não confundiriam tradução com interpretação, nem legendagem com dublagem. Em geral. Mas uma imensidão de clientes que não vive em contato com o mercado de tradução, sejam pessoas físicas ou jurídicas, pode ser simplesmente ingênua. Há quem procure preço baixo, há quem realmente ache que ter feito um curso de línguas baste, há quem nunca ouviu falar em curso de tradução. Ora, se quem hoje é tradutor profissional precisou aprender essas e muitas outras coisas, muitos de nossos clientes precisam aprender isso também.

Nós não temos por que esperar passivamente pelo cliente ideal. Aliás, não podemos nos dar a esse luxo no panorama atual de tradutores automáticos gratuitos na rede, agências que cobram valores irrisórios e a empolgação em torno das práticas de crowdsourcing e fansubbing, que pregam o amadorismo como solução para as necessidades do "mundo globalizado" (haja redundância nessa expressão...).

É importante educarmos os clientes também, e não só esperando que se deem mal usando o Google Translate e voltem com o rabo entre as pernas. Se eles conhecerem melhor o nosso mercado e os detalhes do nosso trabalho, não só vão saber avaliar melhor o tipo de serviço de que precisam como vão nos valorizar mais, também. Aliás, apenas o fato de conhecer de perto alguma coisa já leva automaticamente a mais empatia e respeito. Quer ver só? Veja esta lista e me diga se você não valoriza um pouco mais estes profissionais, a maioria deles indispensável (e se não agradeceu pelo emprego que tem).

Naturalmente, não existem cursos de formação para gente que porventura precise de serviços de tradução. Mas há bastante material na internet. Basta recomendar alguns dos recursos sugeridos abaixo para clientes em potencial ou divulgá-los sempre que possível. Aliás, tudo o que serve para educar clientes se aplica a nós também. Um tradutor inexperiente ou sem familiaridade com alguma especialização tem dificuldade em explicá-la a seus clientes em potencial, o que é perceptível. Além disso, saber fazer algo é diferente de saber explicar para quem não é da área. Portanto, estas sugestões são extremamente úteis também para nós, tradutores profissionais. O que esperamos do cliente ideal necessariamente passa pelas melhores práticas de tradução, que nós devemos dominar.
Com certeza há muito mais por aí. Se você conhece um bom recurso pensado para clientes de tradução, sugira-o nos comentários para que eu o avalie e acrescente a esta lista.

10 de janeiro de 2011

"Expansão na legendagem abre novas possibilidades"

No fim do ano passado, fiz uma breve entrevista por telefone. Só hoje descobri (obrigada, Bianca!) que saiu uma matéria no caderno "Empregos e Negócios" do jornal O Fluminense sobre o mercado de legendagem, voltada para estudantes.

Apenas um detalhe sobre o trechinho em que a matéria me cita. A jornalista me perguntou se eu achava que era um mercado mal remunerado, e eu respondi "Eu não acho." Depois, na redação final da matéria, ela omitiu a pergunta e fica difícil saber o que é que eu não acho. Pois bem, não acho que seja um mercado ruim, muito pelo contrário.

17 de dezembro de 2010

Motivação versus Procrastinação, e os respectivos resultados

Nos últimos meses, muitas coisas que tenho feito e visto me fizeram refletir sobre produtividade, sobre o que motiva e o que atrapalha a nossa rotina de trabalho, e como tudo isso reflete na nossa imagem e nosso sucesso profissional. Basta ver as últimas entradas aqui no blog. Hoje vou reunir mais algumas reflexões e informações sobre isso.

Recentemente, concluí a tradução de um livrinho sensacional, que teve grande impacto em mim. Rework, escrito pela empresa de desenvolvimento de software 37 Signals. No site do livro é possível ler alguns dos capítulos em PDF.

Adorei fazer essa tradução, com a qual também aprendi muito. O livro vai ser publicado pela Sextante em algum momento em 2011, ainda não sei com que título.

Pequeno, com capítulos minúsculos, escrito em linguagem simples e direta, permeado de ilustrações, ele se destina a empresários ou gente que deseje começar um negócio, ou talvez nem isso. Mas é muito diferente de qualquer outro livro do tipo auto-ajuda empresarial que há por aí. Ele desmistifica muitas noções sobre negócios que vivemos ouvindo e diz umas boas verdades, mas sempre com muito bom senso e uma franqueza quase excessiva. Praticamente todos os assuntos abordados no livro podem ser aplicados a profissionais autônomos também, sobretudo aos tradutores que têm empresa. Eu me vi refletida em muitos capítulos -- ou vi meu passado, minha formação, empregos anteriores, colegas. Mesmo em situações típicas do dia-a-dia em um escritório, que não têm nada a ver comigo, eu vi ali parentes e amigos. Recomendo muito a leitura e posso garantir que ela vai ter impactos positivos sobre a rotina e o aspecto administrativo do trabalho de qualquer tradutor.

Há reflexões valiosas sobre a preparação e o lançamento de novos empreendimentos, divulgação, conceitos de negócios, uso de tecnologia, cooperação à distância, concorrência, e muito sobre produtividade e motivação. Não quero entregar o ouro aqui, mas muita coisa me marcou. Nem tudo é novidade, mas dito de uma forma tão eloquente, com ótimos exemplos reais, o texto acaba reforçando o que a gente no fundo já sabe, além de nos dar alguns merecidos tapas na cara. Por exemplo:
  • Tudo o que se faz, diz, escreve, cada telefonema, cada nota fiscal, cada email -- tudo -- é marketing.
  • Ser workahólico, virar noites e fins de semana, dormir pouco e comer mal, e ainda se orgulhar disso, no fim das contas é ser incompetente, desorganizado, atrapalhado. Trabalhar muito nada tem a ver com trabalhar bem.
  • Ter ideias brilhantes ou fazer grandes planos não é mérito algum; o que realmente faz a diferença é realizar de fato uma sucessão de pequenas boas ideias, diariamente.
  • As ferramentas atuais de interação revalorizaram a escrita -- emails, mensagens de texto, sites, blogs. A comunicação deve ser eficiente, clara, informativa. Escrever bem é fruto da clareza e da organização dos pensamentos; portanto, ao recrutar parceiros, dê preferência a quem escreve bem. (O que entre tradutores é importante ao quadrado!)
  • Quer ser imune à concorrência? Faça com que seu produto seja você mesmo, algo que só você é capaz de fazer, o seu jeito de ser, algo inimitável. Não apenas o resultado do seu trabalho, mas toda a experiência de se trabalhar com você. (Outra que se aplica mais ainda aos tradutores, em contraposição a empresários de outras áreas.)
  • Para se destacar e ter diferencial, compartilhe e ensine. Quanto mais as pessoas queiram fazer aquilo que você faz, do jeito que você faz, mais você se estabelece como líder.
  • Nosso grande inimigo são as interrupções; só rendemos quando conseguimos trabalhar durante um tempo sem nenhum tipo de interrupção, portanto é preciso programar períodos de trabalho assim.
  • O que impulsiona a produtividade é a motivação, e esta é fruto de diversos fatores, entre eles um ambiente propício, metas atingíveis e pequenos sucessos diários -- mais sobre esta questão em seguida.
E muito, muito mais. De novo, recomendo a leitura.

Também recentemente, participei de uma convenção para pequenos empreendedores organizada pela prefeitura aqui de Toronto. Confesso que de início não dei muito crédito -- uma coisa assim pública, de graça... sei lá, né? Mas foi excepcional. Palestras ótimas, começando com um dos diretores da Google no Canadá, e com muitos painéis sobre mídia digital, ferramentas de marketing e negócios, etc. Em um salão cheio de computadores, voluntários ajudavam quem quisesse aprender e abrir contas em Twitter, LinkedIn e outros sites de networking. Ao fim do dia, saí de lá com energia total para melhorar minha produtividade, selecionar melhores clientes, fazer parcerias mais produtivas.

E nem sei dizer por que, mas tenho a impressão de que só essa motivação, essa vontade de ser eficaz, de reforçar as coisas que eu claramente venho fazendo direito e corrigir o que não está legal, já gera resultados positivos, mesmo que a gente não faça nada muito notável. Acho que só o fato de estabelecermos certas prioridades ou termos certos aspectos mais claros na cabeça já se traduz em produtividade -- e eficácia e produtividade se traduzem em elogios, serviços melhores, mais dinheiro, mais tempo para fazer o que a gente gosta, e tudo isso produz mais motivação, é claro.

Falando em motivação, descobri hoje, através de um link no Twitter, esta palestrinha belamente ilustrada sobre os resultados de uma pesquisa a respeito de motivação -- que tipo de recompensa gera bons resultados, nos faz vencer desafios. Estilo TED Talk, curta e direta. De novo, no fundo não diz nada que a gente já não saiba ou intua, mas ver isto me encheu de entusiasmo:



Não é a mais pura verdade? Já presenciei na pele dilemas, debates e vivências sobre escolhas profissionais pouco apaixonantes com uma enorme compensação monetária versus escolhas que dão mais satisfação pessoal e profissional com pouco retorno financeiro, e cada vez mais sou partidária incondicional da segunda opção. Até porque um trabalho que conte com uma boa dose de motivação, que seja prioridade, que faça sentido, inevitavelmente gera retorno financeiro também -- e, como bem mostra o vídeo, a partir de certo ponto um retorno financeiro maior por si só não aumenta a motivação, muito pelo contrário.

Há também uma diferença crucial nas diferentes posturas que eu observo em aspirantes a tradutores -- por exemplo, em alunos dos meus cursos ou nos inúmeros e-mails que recebo de estudantes de tradução pedindo todo tipo de opinião, conselho ou ajuda.

Há gente que, ao primeiro contato, antes mesmo de tentar traduzir alguma coisa, logo demonstra estar afoita por saber quanto vai ganhar por mês. Tem que ser muito. Tem que ser já. Em geral, essas mesmas pessoas querem saber que áreas são fáceis de entrar, têm serviço molezinha e salário alto garantido. Não é raro ouvirmos alguns mitos bem disseminados por aí, como o de que os tradutores juramentados ganham somas abissais de dinheiro por mês traduzindo umas bobagens tipo carteira de motorista, ou que bom mesmo é legendar pornografia, pois só tem gemido e você ganha uma nota por minuto de filme. Sim, claro. Deve ser por isso que tantos dos meus colegas são magnatas da indústria da pornografia, e meus amigos tradutores juramentados moram em iates, e só eu não me dei conta disso ainda. Enfim, o fato é que quase sempre quem tem esse tipo de preocupação como foco central ao planejar a carreira não é quem vai passar meia hora imerso em dicionários tentando chegar à tradução perfeita para uma expressão, nem quem costuma "perder tempo" se dedicando a cursos longos e aprofundados, nem iniciar na profissão disposto a ralar muito por pouco dinheiro no começo. Não é por acaso que não são essas as pessoas que tendem a alcançar o tipo de sucesso profissional que alvejavam.

Outros, os que me chamam a atenção positivamente, querem se aperfeiçoar. Querem estudar mais, ler mais, fazer mais exercícios, querem que você recomende outros cursos. Existe uma paixão por trás do que fazem, além da busca incansável pelo aprimoramento técnico -- que é algo bem mais maçante e menos emocionante do que a "paixão por línguas". Muitas vezes eu mantenho contato com essas pessoas, e é com prazer que vejo o sucesso que alcançam na profissão. Viram ótimos colegas. E o interessante é que muitas vezes se surpreendem, acham que tiveram sorte ou não pensam que fizeram nada demais. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Mas agora que eu tenho a perspectiva do docente, a diferença é muito clara. As pessoas assim são minoria, sim, e decolam porque têm a motivação impulsionada pelas prioridades certas, as quais as levam a não medir esforços para se aprimorar. Elas embarcam na profissão tendo como objetivo serem excelentes profissionais durante toda a vida, e não traçando como meta uma poupança recheada de dinheiro e uma aposentadoria precoce. A diferença entre esses valores é gritante.

Para finalizar, chego ao nosso pior inimigo: a procrastinação. Quem não sofre disso que atire a primeira pedra. A gente precisa passar o dia inteiro conectado, fácil de ser encontrado por clientes e colegas, antenado, precisamos responder rapidamente a emails, precisamos estar por dentro de notícias e debates, vamos lá ajudar alguém a solucionar uma dúvida no Facebook e nos deparamos com um álbum de fotos da viagem, aí alguém ri da tradução em um vídeo no YouTube... 1h45 depois, você se pergunta por que é mesmo que está assistindo o terceiro episódio antigo dos Trapalhões. E o serviço está atrasado.

Sem falar daquela segunda-feira de manhã, quando você respira fundo e abre os arquivos da próxima revisão de 35 páginas de um texto sobre química, e subitamente aquele é o momento ideal para organizar a sapateira por cores ou limpar todos os vidros da casa, antes que fiquem muito sujos. (Ou atualizar o blog...)

Às vezes a procrastinação é mais descarada, às vezes fica camuflada de pesquisa ou se confunde com a hora do cafezinho. De qualquer forma, se formos sinceros, todos nós sabemos que enrolamos mais do que deveríamos, que muitas vezes perdemos o controle sobre o tempo de descanso. Aí bate a culpa e trabalhamos até as 3h da manhã, pulamos refeições. E, quando vamos ver, caímos no ciclo vicioso do workaholismo ineficiente, que pode acabar comprometendo a qualidade.

Foi justamente quando eu estava pensando sobre esses assuntos que me deparei com este artigo, sobre as razões evolutivas, neurológicas e comportamentais por trás da procrastinação, e por que ela parece nos sabotar de formas tão eficazes. Ele traz algumas dicas para enganarmos nosso próprio cérebro, ou ao menos não nos deixarmos enganar. Outra leitura que vale muito a pena.

Esse texto cita Dan Ariely, um estudioso do comportamento humano associado à economia que já deu palestras ótimas no TED. Acabo de comprar o livro de autoria dele chamado Predictably Irrational. No site dele há links para podcasts que ele fez sobre os vários capítulos. Ainda não sei bem como relacionar tudo isso ao universo da tradução, mas toda essa discussão tem me atraído imensamente e sinto que ainda vai me trazer algo de útil -- nem que sejam boas reflexões e recomendações de leitura.

Agora, ao trabalho!

20 de novembro de 2010

Blogs educacionais e a "nuvem"

Fui dar uma olhada nas estatísticas de acesso deste blog, o que eu faço muito ocasionalmente, e levei um susto porque dos dias 14 a 18 de novembro houve um salto absurdo na quantidade de acessos, dez vezes mais do que a média.

Descobri que a origem foi esta "convocação" do blog English Experts aos blogs educacionais. Meu blog está na lista dos convocados, mas ninguém me informou disso e poderia muito bem nem ter ficado sabendo.

("Está vendo", diria meu Grilo Falante, "como foi importante, após tantas semanas trabalhando sete dias por semana, tirar um dia para descansar e navegar um pouco? Trabalhando sem parar você mal vê o mundo lá fora!")

Mas voltando: a excelente convocação do Alessandro veio a calhar, pois esta semana mesmo eu estive discutindo com colegas - tradutores e professores - sobre a importância do networking virtual para os profissionais autônomos. Mas, se é importante para todo mundo, para os estudantes e iniciantes é realmente imprescindível.

Quando eu terminei a faculdade, há uns (aham...) 14 anos, usei de todos os recursos disponíveis na época para fazer e manter contato com colegas e profissionais. Criei meu primeiro site em 1997, escrevendo direto em HTML no Notepad. As primeiras redes de contato de tradutores profissionais aconteciam por e-mail, com a Trad-Prt (criada em 1998) e depois outras listas de discussão. O ProZ é de 1999 e foi um grande avanço pela proposta e pela tecnologia utilizada para promover o intercâmbio entre profissionais e clientes.

Eu comecei a trabalhar ainda na faculdade, por indicação de professores, às vezes para outros departamentos da universidade. Uma coisa foi puxando outra, eu sempre corri atrás de contatos e já nem sei como acabei traduzindo um livro muito bacana para uma editora de peso quando estava formada ainda há poucos meses. Sempre adorei tudo o que pudesse ser feito em computador e já na faculdade não desgrudava do Palm, que tenho até hoje (confesso que mais por razões afetivas do que qualquer motivo mais prático...)

Em 2001 abri minha empresa, comprei o domínio e sempre mantive o site. Comecei a blogar pouco depois (um blog pessoal já extinto) e iniciei este aqui em 2006. A essa altura já havia vários outros blogs, Orkut, uma multidão de opções. Aliás, a melhor comunidade de tradutores do Orkut continua firme e forte, reunindo vários dos melhores profissionais de tradução e interpretação e integrando e ajudando iniciantes.

Hoje em dia é preciso muita disciplina para não se perder em meio a tanto Twitter, Facebook, Orkut, LinkedIn, etc. E blogs. Blogs e mais blogs. E gente, como tem blog bom! Bonitos, bem produzidos, bem escritos, informativos. E pensar que começou meio na linha de "querido diário". Aliás, o Twitter também, mas hoje quem não sabe aproveitar as coisas incríveis que as mensagens em 140 caracteres podem fazer por você está perdendo - muito mais do que imagina.

São informações que não acabam mais, criadas constantemente. Entrada de blog é bem mais duradoura do que tuíte, mas os blogs também nascem e morrem, se reciclam, mudam de lugar. É difícil acompanhar tudo.

O universo da internet é absolutamente imenso. É como esses filmes sobre o Big Bang que a gente vê em planetário: ele expande, expande, expande... galáxias geram mais galáxias e mais galáxias. Virou uma nuvem, mesmo. Uma nuvem cósmica, com planetas, satélites e meteoros.

Há alguns anos que eu praticamente moro nessa nuvem. Resido a uns 8.000 km de distância de onde tenho minha empresa. A comunicação por voz é via Skype em todas as suas variações - muitos clientes ligam para meu número no Rio e nem imaginam onde é que eu estou. Os orçamentos são por e-mail, os serviços são em diversos formatos de arquivos. Bendito FTP sem limite de tamanho para trabalhar com filmes, tranferindo conteúdos inteiros de DVDs para legendar. Dou muitos cursos online também, para gente espalhada pelo mundo todo. Conheci a Bianca Bold, minha sócia, pelo Orkut, e por total coincidência hoje moramos na mesma cidade. Meu irmão Diego Alfaro, outro sócio, há vários anos mora na Europa e também presta serviços principalmente para clientes no Brasil. As notas fiscais são eletrônicas, os depósitos são feitos quase sempre pela internet, eu passo no banco todo dia usando "online banking" (felizmente o dinheiro que sai do caixa automático ainda é de carne e osso!)

E eu nunca tive tantos, tantos colegas. A internet tem esse poder de eliminar um monte de barreiras sociais. Você se comunica tanto com seus ídolos quanto com seus alunos, e na verdade esse tipo de rótulo importa cada vez menos.

Muitos clientes e amigos eu nunca vi. Outros eu vi, mas pouco comparado com o quanto nos comunicamos pela internet. Outros eu conheci primeiro pela internet e só depois em pessoa. Qual é a diferença entre virtual e real, mesmo? Eu confesso que já não sei bem.

Hoje em dia, independentemente da nossa procedência, de quantos amigos temos e de onde estudamos, uma coisa é certa: a maior parte dos conhecimentos que obtemos e da comunicação que mantemos é online. Pense em quanto do que você sabe hoje foi aprendido lendo diretamente de uma publicação em papel ou ouvindo da boca de uma pessoa, e quanto foi aprendido navegando? Eu adoro a experiência da sala de aula presencial, adoro a universidade, que considero importantíssima, mas em termos numéricos um professor diz algo para 25 pessoas durante duas horas e, nesse tempo, dezenas de milhares de pessoas leram informações como essas, e muitas outras, em artigos de blogs.

A educação é algo contínuo, e na internet é possível se educar muitas vezes mais do que em qualquer ambiente offline. Além disso, a "nuvem" novamente funde uma série de conceitos: você aprende enquanto se comunica, interage, faz contato. Contato gera feedback, gera parceria, gera amizade, gera trabalho. Uma série de degraus como o de primeiro aprender, depois fazer testes e estágios, depois ser profissional, vira uma rampa contínua.

E, no universo da tradução, há ainda aquela maravilhosa e fértil promiscuidade de contatos, em que seu aluno vira seu cliente, seu cliente vira seu sócio, seu sócio vira seu professor, às vezes tudo ao mesmo tempo. No ano passado, por exemplo, eu passei várias semanas me comunicando com a mesma pessoa, que ora era a editora para a qual eu estava traduzindo um livro, ora era minha aluna de teorias de tradução em um curso online. Mas tudo bem separadinho, nossas "identidades" não se confundiam em momento algum. O mesmo ocorre quando um ex-aluno vira amigo do tipo que troca receitas de cozinha, mas aí você passa um serviço para ele e o tratamento passa a ser profissional.

Quem está procurando entrar hoje no mercado de tradução, seja saindo de uma faculdade ou curso, ou vindo de outra profissão, deve o mais depressa possível se integrar a essa vida na "nuvem". As relações de trabalho antes eram mais verticais: a gente batia na porta (real ou metafórica) do cliente, ou ele nos procurava com uma proposta. E também aluno era aluno, professor era professor. Tudo muito hierárquico. Mas na nuvem, essa nuvem cósmica com mil conexões, como as sinapses do cérebro, tudo corre em mil direções. Um comentário no Facebook, um tuíte, uma visita a um blog, pode render um emprego. E amanhã mesmo, quem hoje estava procurando trabalho encaminha o pedido de um colega que precisa de ajuda e pronto, se torna o responsável por dar uma oportunidade de trabalho a outra pessoa. E tudo isso acontece muito, muito rápido. Progressos que levavam semanas e meses para acontecer hoje levam horas, minutos.

Essa integração beneficia a todos: quem comenta, quem repassa, quem dialoga é visto, ao mesmo tempo que dá visibilidade a seus interlocutores. Um blog ensina muita coisa, mas para continuar vivendo precisa receber opiniões, sugestões, precisa ser lido. E também é fundamental vincular blog com site, com Twitter, com Facebook, com e-mail, etc. Para existir na nuvem é preciso ser visto. Para ser visto, é preciso que seu site seja encontrado. E como ele é encontrado? Através de recomendações.

Aprendeu alguma coisa em um blog? Diga isso lá no Facebook.
Leu um comentário bacana? Comente também.
Recebeu uma dica legal? Retuíte.

Acredite, você mesmo tem muito mais a ganhar com isso do que imagina. Pois, ao dizer que os outros existem, automaticamente você existe também. Ao dizer "Eu vi", você é visto. E as oportunidades podem pintar de qualquer lugar.

Por isso achei tão legal essa campanha lançada pelo English Experts. Aumentando e intensificando as conexões entre blogs educacionais, as sinapses da nuvem se fortalecem e todos têm a ganhar com esse intercâmbio.

O próprio English Experts listou muitos blogs educacionais interessantes na convocação. Reforço aqui alguns e indico outros:
  • O Tecla Sap é espetacular, uma grande referência. O Ulisses Wehby de Carvalho é muito fera.
  • O Tradutor Profissional, do Danilo Nogueira (com a Kelli Semolini), também virou referência para os tradutores, sobretudo os iniciantes.
  • Fidus Interpres, excelente blog do Fabio Said.
  • Petê Rissatti fala sobre literatura e tradução, e conversa com tradutores.
  • O Tradução Via Val trata de tecnologia.
  • O TradCast é o primeiro podcast brasileiro sobre tradução, e é ótimo!
  • PriBi, sobre tradução e tecnologia, de Pricila e Fabiano Franz.
  • Adir Ferreira, sobre idiomas.
  • De Scripta, língua e tradução em espanhol, do Pablo Cardellino Soto.
  • El Heraldo de la Traducción, também em espanhol, mas de outro tradutor residente no Brasil, o Víctor Gonzalez.
  • Ao Principiante de tradução, pela Lorena Leandro.
  • i4B, sobre internet e tecnologias da informação, do meu fabuloso consultor para assuntos cibernéticos Roney Belhassof
E tem muitos outros, vários listados no menu à direita, mais embaixo. E, naturalmente, se você tiver alguma outra boa indicação de blog educacional bacana, comente aqui que eu acrescento (e também tuíte, inclua link, comente no Facebook... você já entendeu a ideia!)

18 de outubro de 2010

Matéria sobre legendagem de séries

Saiu ontem na Folha de S. Paulo uma matéria sobre as produtoras de vídeos que traduzem séries americanas para a TV a cabo.

Os prazos e os procedimentos para a tradução e a exibição dos programas estão cada vez mais ágeis, e a matéria relata alguns dos métodos usados pelas produtoras.

Leitura atual, informativa e importante para estudantes e tradutores interessados na área de legendagem:

Folha.com - Ilustrada - 17/10/2010
Chegada mais rápida de séries americanas acelera mercado de tradução
Lúcia Valentim Rodrigues

Agradeço à Leonor Cione pelo envio da matéria.

30 de setembro de 2010

Dia do Tradutor e recomendação de livro

No dia 30 de setembro, comemoramos o Dia do Tradutor -- data do nosso patrono, assim como dos secretários, São Jerônimo. Ele traduziu a Bíblia para o latim, na versão que ficou conhecida como vulgata. Quer saber mais?

Muitos estão comemorando a ocasião com palestras e outros eventos, e o Fabio Said está oferecendo um desconto no livro Fidus interpres: a prática da tradução profissional, muito interessante sobretudo para estudantes e profissionais iniciantes. Aproveite!

Drei Marc contrata assistente de controle de qualidade

Divulgo esta notícia aqui a pedido da produtora de vídeos Drei Marc, localizada no Rio de Janeiro:

A Drei Marc está procurando uma pessoa para o cargo de "Assistente de Controle de Qualidade", com bons conhecimentos em inglês e português e que saiba usar o software Subtitle Workshop. O trabalho será realizado dentro da própria produtora, 6 horas por dia, 6 dias por semana. Qualquer indicação, favor enviar currículo para mleite@dreimarc.com.br e fernandalanhas@dreimarc.com.br.

16 de setembro de 2010

Introdução à legendagem online (inglês-português): inscrições abertas para outubro

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Atualização: este tópico se refere a atividades já encerradas. Veja as postagens mais recentes para ficar a par de novos cursos e eventos.
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Estão abertas as inscrições para mais uma edição de Introdução à Legendagem de Filmes -- à distância, através do sistema Aulavox.

O público-alvo são tradutores de inglês para português. O curso é idêntico às edições anteriores: são 5 palestras semanais por audioconferência, com uma hora de duração, seguidas de exercícios feitos e corrigidos individualmente. O objetivo é transmitir os fundamentos técnicos e estilísticos da tradução adaptada ao formato de legendas.

As aulas serão às quartas-feiras, de 20 de outubro a 17 de novembro, às 19h (horário de Brasília). As aulas são ministradas por mim, Carolina Alfaro.

Este curso introdutório não inclui o uso de software específico para legendagem, mas ainda assim é preciso ter bom traquejo com informática.

Para outros detalhes e inscrições, clique aqui e contate diretamente a Aulavox.

E não deixe de voltar aqui em breve, pois estamos planejando novos cursos online, incluindo oficinas dos programas de legendagem Subtitle Workshop e Horse!

Mais uma parceria Scriba & Aulavox.

4 de julho de 2010

Controle de produtividade

Experiências recentes me levaram a assumir meu mau desempenho, em termos de produtividade, quando encaro projetos longos como a tradução de um livro. Percebi que gosto de novidades, mergulho de cabeça em todo projeto novo, e, como a imensa maioria do que faço dura no máximo 3 ou 4 dias, minha produtividade é muito alta. Mas em qualquer projeto que se estenda mais do que 2 ou 3 semanas, eu começo a me entediar ou me interessar por outras atividades.

Traduzi alguns livros recentemente e, invariavelmente, minha produtividade é um U: altíssima nos primeiros 3 ou 4 dias, quando tenho a impressão de que vou terminar muito antes do prazo. Então relaxo, começo a aceitar outros serviços menores ou dou um curso, e vou tocando a tradução com produtividade baixa até finalmente perceber que, com o prazo restante, vai ser quase impossível terminar tudo. Por sorte eu tenho pânico de atrasar a entrega de um serviço, então esse "quase" sempre me salva. Então, em questão de duas semanas, produzo tudo o que não produzi em dois meses. Final feliz, mas termino exaurida. Após umas 4 ou 5 experiências recentes assim, passei um ano cumprindo minha promessa para mim mesma de que não encararia mais projetos longos.

Só que aí um bom cliente me ofereceu um livro interessante e eu negociei um aumento no valor da lauda. Fiquei tentada, mas sabia o que me aconteceria. Então criei ESTA PLANILHA. Já tinha visto outras planilhas de controle de produtividade, mas as achei complicadas. Eu precisava de algo simples, para atualizar todo dia e não perder ainda mais tempo lidando com ela.

A usei desde o primeiro dia da tradução do meu último livro. Fiz outras traduções ao mesmo tempo e fui dar um curso presencial em São Paulo, mas mesmo assim cumpri o prazo sem pânico no final. Gostei e pretendo usá-la em outros projetos grandes. Os princípios são os seguintes:
  • Configure a planilha antes de iniciar o trabalho: calcule o total de palavras ou laudas a serem traduzidas (coluna A); calcule os dias úteis de prazo (coluna B); insira o valor unitário da lauda ou palavra (coluna G, na função da equação). O restante a planilha calcula sozinha. (Há valores aleatórios já inseridos, senão as equações dão erro. Insira os valores do seu projeto.)
  • A partir do primeiro dia útil do prazo, abra a planilha todos os dias. Pode até ser no começo do dia, mesmo que você não vá fazer aquela tradução naquele momento. Só ver a planilha aberta já cria uma certa obrigação.
  • Todos os dias úteis, você deve aumentar um dia na contagem de dias passados (coluna E), mesmo que não traduza nada. Sugiro registrar o dia passado ao fim do dia, antes de fechar a planilha.
  • Caso tenha trabalhado no projeto, registre o número de palavras ou laudas traduzidas naquele dia. A planilha automaticamente atualizará a média de palavras ou laudas por dia útil que você cumpriu até então, quanto dinheiro você ganhou, quantas palavras restam, quantos dias úteis restam, e a média diária que você precisa cumprir para terminar o trabalho dentro do prazo.
  • Então, basta ir monitorando a média diária a cumprir (coluna J): nunca deixe que ela fique alta demais. Enquanto ela estiver batendo com a média cumprida, está bom. Não se esqueça de que esse valor é uma média a ser cumprida todos os dias, e não um valor absoluto. Além disso, por se tratar de uma média, o impacto é maior quando restam poucos dias. Se, por exemplo, você tem 100 dias de prazo, não produzir nada durante dois dias não vai alterar significativamente a média a cumprir. Mas, quando faltam 7 dias, cada dia não cumprido implica uma sobrecarga alta na média dos dias restantes.
  • Lembre-se de que é preciso tempo para revisar o trabalho. Eu gosto de revisar aos poucos, não tudo de uma vez ao final. Você pode optar por revisar nos fins de semana ou só ao fim do projeto. Neste caso, sugiro que calcule um número menor de dias úteis para a tradução, deixando um certo número de dias só para revisão.
  • Caso seja necessário, os fins de semana podem ser usados para aumentar a média sem aumentar um dia útil.
O que mais funcionou para mim, e que recomendo para quem já se viu alguma vez virando fins de semana em pânico, é: seja pessimista. Só porque você produziu 5000 palavras num dia ótimo, não quer dizer que vai conseguir manter essa média durante um mês. Eu sempre faço o possível para negociar prazos confortáveis, e no caso do meu último livro o segredo foi estabelecer e cumprir uma média relativamente baixa, que eu conseguia realizar em meio dia de trabalho, mas com constância. Mesmo quando passei duas semanas quase sem mexer no livro, eu abria a planilha todos os dias e marcava mais um dia útil, monitorando a média que precisaria cumprir, que ainda assim era viável. Em suma: planeje-se bem e procure ser constante. Deixe a adrenalina para o parque de diversão.

A planilha me ajudou bastante e espero que ajude a outros. Fique à vontade para modificá-la para que ela atenda às suas prioridades ou às particularidades do seu projeto.

Caso tenha perdido o link que eu pus lá no meio do texto, baixe a planilha de controle de produtividade aqui.

8 de abril de 2010

Davi contra Golias

Estou traduzindo um livro e, como tantas vezes acontece, aparece uma citação bíblica. Coisa simples, história conhecida e, para facilitar, com livro, capítulo e versículo devidamente citados no original:

David defeated Goliath with a sling and a rock. He killed him without even using a sword. (1 Samuel 17:50)

Em tradução literal: "Davi derrotou Golias com uma funda e uma pedra. Ele o matou sem nem sequer usar uma espada."

O trecho do livro era justamente sobre a invenção da funda e sua importância histórica, e a citação cai como uma luva para reforçar o argumento do autor.

Sem pensar duas vezes, entro no Bible Gateway e procuro essa mesma passagem em versão portuguesa (lusitana). Leio o texto, que aparece com os versículos 50 e 51 juntos:

David conseguiu assim vencer o gigante filisteu com uma simples funda e uma pedra. Como não tinha espada, correu para Golias, tirou a dele da bainha, matou-o e cortou-lhe a cabeça.

Opa! Qual foi a causa da morte de Golias, afinal? Uma simples pedra ou a própria espada? No versículo anterior dessa versão portuguesa, relata-se que a pedra se cravou na testa de Golias, que caiu com o rosto na terra -- mas isso, seguido do verbo "vencer", é muito diferente de "matar sem nem sequer usar uma espada".

Comentei a discrepância com meu marido, que é muito mais versado em Bíblia do que eu. Ele me afirmou categoricamente que Davi matou Golias com a espada, após derrubá-lo com a pedra. Elocubrando, pensamos que o Rei Jaime I, que encomendou a tradução mais famosa da Bíblia em língua inglesa, provavelmente não gostaria nem um pouco de homenzinhos derrubando e decepando gigantes, o que poderia dar certas ideias anarquistas à plebe.

Peguei então a Bíblia do meu marido, traduzida por João Ferreira de Almeida, revista e atualizada pela Sociedade Bíblica do Brasil. Lá diz assim:

Assim, prevaleceu Davi contra o filisteu, com uma funda e uma pedra, e o feriu, e o matou; porém não havia espada na mão de Davi.

Bingo! Funda sim, espada não, e meu marido confundiu a história toda, pensei eu, até ler o versículo seguinte:

Pelo que correu Davi, e, lançando-se sobre o filisteu, tomou-lhe a espada, e desembainhou-a, e o matou, cortando-lhe com ela a cabeça.

Como assim? Golias morreu duas vezes?

Preocupada com a qualidade dessa tradução, voltei ao Bible Gateway para ler o trecho da King James Bible:

So David prevailed over the Philistine with a sling and with a stone, and smote the Philistine, and slew him; but there was no sword in the hand of David. Therefore David ran, and stood upon the Philistine, and took his sword, and drew it out of the sheath thereof, and slew him, and cut off his head therewith.

Que é basicamente o mesmo: Davi mata Golias ("and slew him") com a pedra e depois o mata novamente ("and slew him", repetido igualzinho!) cortando-lhe a cabeça. Pelo visto, Golias era forte mesmo!

Fiz minha tradução citando apenas o versículo 50, terminando com a informação de que Golias estava morto e não havia espada na mão de Davi, o que dá conta de ilustrar a importância da funda. O que acontece depois ficou escondido embaixo do tapete, como fez o autor do livro que estou traduzindo.

Mas mesmo assim fiquei grilada: como será mesmo que Golias morreu? De pedra, de espada ou dos dois? Será que alguma tradução cometeu esse erro, que foi sendo replicado sem que ninguém percebesse?

ADENDO: Depois de publicar este texto, recebo do Hugo Langone o mesmo trecho, segundo a Bíblia de Jerusalém:

Desse modo Davi venceu o filisteu com a funda e a pedra; feriu o filisteu e o matou; não havia espada na mão de Davi. Davi correu, pôs o pé sobre o filisteu, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça.

Esta é a situação relatada na citação original do meu livro: Golias morre da pedrada. Depois, Davi o decepa, mas tudo indica que ele já estava morto.

5 de março de 2010

Congresso da Abrates em Porto Alegre

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Atualização: este tópico se refere a atividades já encerradas. Veja as postagens mais recentes para ficar a par de novos cursos e eventos.
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Nos dias 19 a 21 de março de 2010, acontecerá em Porto Alegre o III Congresso Internacional de Tradução e Interpretação da Abrates.

A programação está interessantíssima, com temas relevantes e profissionais de alto gabarito. Haverá painéis sobre tradução juramentada, mercados regionais, tradução literária, Libras, formação de tradutores, direitos autorais, CAT, organizações e legendagem.

Eu vou participar desse último, no domingo (21/03) de manhã, ao lado de Bruno Murtinho, Marcelo Leite e Nick Magrath.

Há ainda várias oficinas e palestras. Confira a programação completa.

A lista detalhada de painéis está abaixo (clique para ampliar).