27 de março de 2006

Três histórias verdadeiras

Contadas por e-mail pelo Danilo Nogueira, que gentilmente me permitiu reproduzir esta mensagem aqui. Elas falam por si próprias.

Aconteceu em 1970, quando comecei. Estava na Editora Atlas, na sala do diretor editorial, entrou um senhor com um pacote de folhas de papel almaço e entregou ao Avelino, assistente do diretor. Era uma tradução, um livro inteiro, manuscrito. Perguntei, curioso, "manuscrito"? O tradutor, não me lembro mais seu nome, me olhou com superioridade e não pouco escárnio e respondeu: "Sou tradutor, não datilógrafo. Na minha escola, ensinava-se caligrafia, e com pautas de quatro linhas, não essa bobagem de três linhas de hoje. Sei escrever a mão, não preciso dessas coisas." Lembrou-me, em seguida, que o Barão do Rio Branco se recusava a ler documentos datilografados e obrigava um amanuense a "passar a limpo" tudo o que lhe era encaminhado "à máquina".

Muito mais tarde, lá para 1995, estava numa "mesa-redonda" na então Faculdade Ibero-americana e o tradutor ao meu lado disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de computador: tenho uma IBM de esfera e sou excelente datilógrafo. Sobretudo, tenho o hábito de pensar antes de escrever e, quando escrevo, escrevo direito". Sua observação recebeu, em modo de comentário, as palmas de boa parte do auditório.

No fim do século passado um colega disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de memória de tradução. Eu tenho uma memória muito boa." A maioria achou muito divertido. Eu também, claro, mas por motivos diferentes.

6 comentários:

Riccardo disse...

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I actually look forward to the moment all these pesky technological things will go away.

I figure that, as I'm the only translator among my acquaintances who, if need be, knows how to cut his own quill pens, I should be more than a step ahead when we go back to such simpler and more human technolgies!
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[irony2]
Translation Memory? Why should I need translation memory? I'm perfectly capable to do the same blunders over and over again, without the need for any mere machine to remind me!
[/irony2]

Emilio Pacheco disse...

Quem não simpatizou muito com as novas tecnologias de edição de texto foi minha irmã. Ela era uma exímia datilógrafa, dessas que produzia um documento impecável, com "margem da direita" e tudo, sem um errinho. E rápida, também. Não era datilógrafa de ofício, mas chegou a fazer um serviço uma vez há muitos anos para um colega de meu pai. Bem cobrado, é claro. Com o advento do editor de texto, ela reclamou que "agora qualquer um é bom datilógrafo".

Quanto à questão do tradutor ter que dominar outras ferramentas, entendo a indignação dos mais resistentes. Eu, por exemplo, sempre tive facilidade de escrever e traduzir, mas trabalhar com qualquer tipo de FORMATAÇÃO, pra mim, é uma tortura chinesa. Então chego a me revoltar quando aparecem documentos cheios de tabelas ou figuras. O cliente, claro, pensa que "é só escrever por cima". Tão fácil... Por uma letra a mais as colunas se desformatam completamente. Figuras dentro do Word, então, são pra matar. Tem que abrir uma por uma, clicar em cada célula, ah, é um saco. Ouvi dizer que Trados ou Wordfast resolvem esse problema.

Mas não adianta, tradutor tem que aprender as novas ferramentas e também se sujeitar a ser um pouco "editor de documentos". Sob meu protesto, mas tem.

Carol disse...

Emílio,

O Wordfast resolve o teu problema da formatação. Na hora, parece que ele está esculhambando tudo. Mas mantenha o sangue frio. Depois de mandar "clean up" o documento, tudo fica lindamente formatado como estava originalmente. Show de bola.

Carolina disse...

olá,

sou nova por aqui e já posso dizer que sou uma fã do blog! Sou aspirante a tradutora, iniciei meus estudos há pouco tempo(estudo na Unibero eme SP) e desde então procuro ler e saber de tudo a respeito da minha carreira...o site já está na minha lista de favoritos!

beijos,
Carol

M.M. disse...

Olá

Tenho um fórum sobre tradução, que talvez lhe interesse.

http://tradilingua.suddenlaunch3.com/index.cgi

Cristine Martin disse...

Estas histórias que o Danilo Nogueira conta parecem aquelas citações sempre lembradas, em que se desdenhava o trem, o computador, etc... achando que eram modismos desnecessários e passageiros.
Acho que qualquer tecnologia é benvinda se for para ajudar a fazer um trabalho mais rápido, com maior facilidade e mantendo a coerência e a consistência do texto.
Afinal, bom-senso é uma virtude, pena que nem todos a tenham...