6 de setembro de 2014

Curso de legendagem no Rio de Janeiro - dezembro de 2014


O formato intensivo do curso de Tradução para Legendagem de Filmes: Teoria, Técnica e Prática tem sido muito procurado. Em 2013 abrimos três turmas. Agora, novamente há inscrições abertas para este curso, que ocorrerá em dezembro de 2014.

É o curso mais completo que eu dou e com certeza um dos mais extensos e completos disponíveis no Brasil. Será oferecida uma só turma, para tradutores de inglês para português. As vagas têm sido preenchidas depressa, se esgotando geralmente dois meses antes do início das aulas. Portanto, se você tiver interesse, não perca tempo em se inscrever!

O curso será realizado na PUC do Rio de Janeiro, na unidade do Centro da cidade, do dia 9 de dezembro (terça) a 17 de dezembro (quarta) de 2014, em formato intensivíssimo: são seis horas de aulas por dia durante 7 dias, três horas à manhã e três à tarde. Serão quatro dias consecutivos na primeira semana, um fim de semana para recuperar o fôlego e mais três dias seguidos na semana seguinte. No total serão 42 horas. O certificado de conclusão do curso é emitido pela PUC-Rio.


O formato intensivo foi muito solicitado, principalmente para que aqueles que não moram na cidade onde o curso é realizado possam se deslocar para lá durante poucos dias. Por isso foi escolhida uma época de férias escolares. Agora há a oportunidade de passar 10 dias no Rio, aproveitando a cidade maravilhosa, e sair de lá especializado em legendagem.

Todas as aulas são em laboratório de informática, com toda a infraestrutura necessária. O curso inclui reflexões e a leitura de textos sobre tradução audiovisual e legendagem, mas seu conteúdo é fortemente prático, repleto de exercícios reais que visam trabalhar diversos gêneros de filmes, simular serviços para diferentes clientes e ensinar técnicas e métodos de trabalho para cinema, DVD, TV a cabo e o mercado corporativo. Em aproximadamente metade das horas de aula é utilizado o software Subtitle Workshop.

Este curso tem sido muito bem-sucedido em seus objetivos: são vários os alunos que passaram a atuar no mercado de legendagem de filmes, e cada vez mais produtoras  de vídeo entram em contato pedindo recomendações dos melhores alunos para serem seus prestadores de serviços. O mercado é exigente e o curso também: é intenso e os exercícios apresentam um grau de dificuldade crescente, visando preparar os alunos para a realidade do mercado em seus melhores nichos. Não é um curso fácil, exige muita dedicação. A experiência prévia com tradução de textos é desejável mas não imprescindível; já o excelente domínio das duas línguas envolvidas, com ênfase na compreensão do inglês e na ótima redação em português, é fundamental e faz toda diferença no desempenho. Também é muito importante que os alunos se sintam à vontade usando computadores, tenham bom domínio de Windows, Office, programas de vídeo, ferramentas de internet e saibam realizar tarefas essenciais como download, instalação de programas, etc.

O valor do curso é de R$ 1.994,00, e pode ser parcelado em duas vezes.

Algumas considerações sobre este curso presencial e os valores. A PUC tem fama de cobrar preços altos, mas leve em conta a quantidade de horas em laboratório de informática, com uma ótima infraestrutura, técnico à disposição e tudo mais. 42 horas é muito tempo (pelo que sei, é o mais longo no Brasil). Basta fazer uma comparação analisando o conteúdo oferecido, a infraestrutura e a quantidade de horas para perceber que este curso oferece um ótimo custo-benefício.


E fique à vontade para comentar e perguntar o que precisar.

6 de junho de 2014

Tradução e tênis

Além de línguas e tradução, uma das atividades que mais ocupam meu tempo é o tênis -- o esporte.

Comecei a jogar aos 7 anos e competi dos 10 aos 17. A partir dos 14 eu treinava 4 horas por dia, mas parei aos 17 quando percebi que não teria mais chance de me tornar profissional, sendo que desde os 15 ou 16 eu já estava praticamente obcecada em ser tradutora. No meu ano livre entre a formatura da escola e o início da faculdade, com 17-18 anos, dei aulas de tênis em dois clubes. Jogo regularmente até hoje e, como ao longo de toda a vida, eu me integrei à nova cidade (a terceira em que eu moro) e fiz vários bons amigos por meio do tênis. Sempre convivi com amantes desse esporte, fossem amadores ou profissionais.

Além disso, é claro, o gosto pelo estudo de línguas, gramática, literatura e tradução, além de há mais de 20 anos ser estudante ou professora de tradução (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo), define grande parte de quem eu sou, como penso, com quem me relaciono e a que dedico a maior parte do meu tempo.

Um dia desses, batendo bola, minha cabeça começou a "viajar" e tecer paralelos entre as duas atividades. Fiquei maravilhada de constatar quanta coisa elas têm em comum. Então aqui vai um pequeno exercício de reflexão: qualquer um dos itens abaixo são o que vejo e sinto tanto com relação ao campo da tradução quanto ao tênis.
  • É uma atividade notoriamente solitária, o que não quer dizer que tudo dependa somente de você.
  • Quem vê essa atividade de fora, sem conhecê-la, pensa que é algo puramente mecânico.
  • É preciso treinar a vida toda; não existe um momento em que não há mais necessidade de praticar e se aperfeiçoar. No começo é apenas para conseguir fazer o básico, mas, quanto mais alto o nível a que você chega, mais importante é treinar com regularidade para buscar estender seus próprios limites.
  • Sempre dá para melhorar.
  • É 99% ralação e 1% inspiração.
  • Se, para quem olha de fora, o que a pessoa faz parece fácil e natural, pode ter certeza de que exigiu um esforço muitíssimo maior do que se pode imaginar.
  • É preciso treinar muito, durante anos e anos, para, quando nos depararmos com algum daqueles momentos cruciais da carreira, algum desafio imenso que nos marcará pelo resto da vida, sabermos aproveitar a oportunidade.
  • Existe sorte. Mas ela não pode fazer parte da nossa estratégia. 
  • Há muita margem para discussão de regras e questionamentos. Mas dentro é dentro, e fora é fora.
  • Temos que conseguir pegar gosto -- ou ao menos aceitar e tirar satisfação -- da prática em todos os aspectos (mesmo aqueles de que a gente não gosta), do cansaço, da repetição, da frustração, da dor. Os momentos de vitórias memoráveis e reconhecimento são raros e estão diretamente relacionados a esse esforço contínuo.
  • O erro faz parte e acontece com frequência. Simplesmente não existe a possibilidade de não errar. É preciso aceitar que isso vai acontecer e saber lidar com a presença de erros de modo a não comprometer o resultado final, sua postura e autoconfiança e o prazer de continuar se dedicando àquela atividade.
  • A derrota também faz parte. É preciso saber usá-la como fonte de motivação para melhorar. Mas, se você repetidamente não consegue ganhar, há algo muito errado com o que está fazendo, e precisa reconhecer esse fato e buscar ajuda.
  • O único jeito de melhorar é nos medirmos sempre com quem é melhor do que nós.
  • É importante termos um modelo (ou alguns) daquilo que gostaríamos de ser. E é importante saber por que escolhemos justamente esse modelo.
  • Derrotar ou apontar erros de quem é tecnicamente inferior não nos torna melhor em absolutamente nada.
  • Ao cometer um erro grave, ficar remoendo ou apresentando justificativas só piora a situação. A única solução é aprender com ele imediatamente e dar um jeito de acertar da próxima vez.
  • A sensação de orgulho ao vencer é muito forte, pois lutamos sozinhos e o mérito é fortemente individual. Mas quem conquista uma vitória importante sempre tem uma enorme quantidade de gente para agradecer por ter chegado lá.
  • É preciso ter uma combinação muito especial de ambição e humildade, sempre.
  • Não se fica parado lugar. Parar é retroceder. 
  • Não se pode descansar nos louros enquanto a carreira não chegou ao fim. Isso é um pecado mortal.
  • Poucas coisas revelam nossa verdadeira ética quanto uma derrota dolorosa. Ou mesmo a possibilidade de derrota.
  • Mesmo a mais correta das pessoas tenta distorcer uma regra a seu favor ou tirar vantagem de vez em quando. Mas nada é mais difícil do que fazer o que sabemos ser correto quando somos roubados ou prejudicados de má fé. E isso acontece com frequência.
  • Fatores externos, sejam naturais ou humanos, interferem o tempo todo. Ninguém está imune a eles. Mas quem é realmente sério jamais usa esses fatores como justificativa para suas falhas.
  • É perfeitamente possível ser autodidata, mas a imensa maioria dos autodidatas terá vícios ou carências técnicas visíveis se nunca parar e se aperfeiçoar formalmente.
  • Salvo raras e honrosas exceções, é possível identificar autodidatas, amadores ou praticantes ocasionais em questão de segundos.
  • "Ter paixão" pela atividade e ser um profissional -- que faz daquela atividade a carreira de uma vida -- são coisas completamente diferentes. Ser profissional e não perder a paixão por algo que requer tamanho esforço e dedicação é que é o grande desafio.
  • Há muito espaço para ótimos profissionais que nunca vão estar no topo ou entrar para a história. Não há vergonha alguma e é possível ter uma carreira muito digna e produtiva em níveis intermediários. O grau de esforço e dedicação necessário continua sendo exatamente o mesmo.
  • Há quem tenha talento inato para a coisa, e isso é perceptível, mesmo que a gente não saiba exatamente o que é.
  • Ajudar alguém a melhorar nos faz melhorar ainda mais.
  • Nosso adversário é nosso colega. Sem ele, nós não somos nada, não temos mérito algum. Nosso inimigo de hoje é seu parceiro de amanhã, ou vice-versa.
  • É fundamental respeitar o adversário e saber reconhecer seus méritos.
  • É crucial saber separar profissão de relacionamento pessoal, apesar de essas duas dimensões se misturarem constantemente.
  • Não nos dedicamos a essa atividade porque esperamos reconhecimento. Nos dedicamos a essa atividade porque é parte de quem somos e queremos realizá-la com qualidade.
  • É uma viagem de autoconhecimento. Precisamos encarar nossos defeitos e pontos fracos, assim como descobrir e saber aproveitar nossos talentos.
  • Temos que saber estudar sós, trabalhar sós, nos defendermos sós, superarmos desafios sós.
  • Quem nos observa de fora vai nos julgar, às vezes com base em detalhes que mal percebemos. Faz parte.
  • Dizer que se é bom naquilo não significa nada. Tem que mostrar.
  • Uma vitória bonita de um de orgulho enche a todos.
  • Quem diz que não sente pressão quando outras pessoas estão assistindo ou seu nome vai ficar gravado está mentindo descaradamente. O grande mérito está em justamente não deixar o desempenho cair demais sob pressão.
  • Quem pensa que investir constantemente em instrumental de qualidade não faz diferença no desempenho não entende nada. Quem acha que só o instrumental resolve tudo também não.
  • Quanto melhor se é, mais diferença faz uma fração de segundo, um centímetro, um grau.
  • Não é algo que a gente faz. É algo que se é. É um estilo de vida, uma forma de pensar. Não só da pessoa, mas da família toda.
  • É uma atividade que transforma a nossa forma de encarar a vida e que influencia tudo o que fazemos, mesmo que sejam coisas totalmente desvinculadas da atividade em si.
  • Quando bem executada, chega a comover. Mas só para quem sabe apreciar de verdade.
  • É ciência. É arte. É malabarismo. É dança.
E tenho certeza de que não termina aqui. Provavelmente eu ainda volte para acrescentar itens na lista...
(Aliás, já acrescentei.)

Um adendo: eu escrevi sobre tênis porque, claro, é o esporte que pratiquei a vida toda e mais admiro. Tenho medo de generalizar e nem é esse o objetivo. Mas é claro que muito disto valeria também para diversos outros esportes individuais, como squash, natação, golfe ou atletismo.

19 de abril de 2014

Quatro traduções de um mesmo vídeo

(Atualizado com mais uma tradução amadora.)

Estes dias, passou a circular um vídeo que se tornou viral, sobre uma falsa vaga de emprego que parece impossível (propaganda de uma empresa de cartões).

Vários conhecidos começaram a pedir que fosse traduzido, e me ofereci para fazer a legendagem. De vez em quando eu traduzo algo de que gosto, para mim mesma ou para alguém querido. Foi o que fiz, traduzindo e editando o vídeo com legendas fixas.

Dois dias após ter divulgado o vídeo no YouTube, descobri outras duas traduções em português, publicadas quase ao mesmo tempo que a minha. Mais um par de dias depois, encontrei outra versão legendada que já se tornou muito popular.

Achei muito interessante comparar a redação, o estilo e as características técnicas (sincronia, subdivisão de legendas, ritmo de leitura) de duas traduções amadoras com a minha, que fiz usando os critérios da legendagem profissional com que trabalho normalmente.

São estes:

1 (amador, clique em 'cc' e selecione legendas em português)

2 (amador)

3 (amador)

4 (profissional)


Algumas ressalvas importantes:

Meu objetivo aqui não é criticar nem ridicularizar as traduções amadoras. Foram feitas por gente que, como eu, quis tornar um vídeo bonito acessível para pessoas queridas, e cumprem com esse objetivo. Também não me sinto de forma alguma "moralmente superior" a ninguém.

Por outro lado, o tempo todo ouvimos comentários sobre a excelente qualidade das traduções amadoras ("fansubs"). Inclusive já tive alunos que eram fansubbers e achavam absurdas as imposições técnicas nas quais eu insistia para conseguirem se inserir no mercado profissional, pois argumentavam que "todo mundo" elogiava seu trabalho.

Esta comparação é apenas uma boa oportunidade de destacar essas diferenças.

Essas legendagens amadoras cumprem a função de transmitir rapidamente um conteúdo em língua estrangeira? Sem dúvida.

Seriam aceitas por uma produtora de vídeo ou canal de TV como um serviço profissional? Em hipótese alguma.

Os textos contêm inúmeros problemas de tradução, gramática e estilo. Há legendas com tanto texto que não dá tempo de ler (ou, se conseguimos ler, não temos tempo de observar as imagens, o que é uma perda grave). A sincronia não está precisa, assim como a quebra de legendas e de linhas, e tudo isso exige um esforço redobrado do espectador para acompanhar as legendas, em detrimento da experiência prazerosa de assistir ao vídeo.

Todas essas observações se baseiam em conhecimentos bastante técnicos e nem sempre intuitivos.

Tudo isto não é para pedir elogios nem nada disso, absolutamente -- eu continuo me aprimorando e não me considero dona da verdade.

É apenas para ilustrar o que qualquer tradutor qualificado já sabe: o bom resultado final de uma tradução é a ponta do iceberg, fruto de um esforço significativo de estudo, capacitação e treinamento, aliado a um trabalho intenso e extremamente detalhista durante o processo de tradução -- tudo isso apenas para que o receptor desse conteúdo não note demais a tradução em si, como alguém que aprecia a paisagem sem reparar no vidro da janela.

E também para lembrar que ainda falta muito, muito mesmo, para sermos substituídos por máquinas ou por voluntários bem-intencionados, caso alguém tivesse alguma dúvida.

13 de abril de 2014

Novamente a discussão sobre dublagem x legendagem

Eu nem me lembrava de que o último que escrevi neste blog foi sobre o debate de dublagem x legendagem, que já mais parece São Paulo x Corinthians ou Flamengo x Fluminense, com a tendência a cada lado defender suas preferências pessoais como se fossem a única verdade possível. Mas a todo momento alguma notícia reacende esse debate, mesmo que a notícia em si nem diga respeito à forma de tradução -- a mídia adora lançar polêmicas e, em frações de segundo, as pessoas voltam à briga.

Desta vez, uma longa discussão num grupo grande de tradutores profissionais surgiu por conta desta notícia sobre uma adaptação feita nas imagens do filme Capitão América para os diversos países de destino, inclusive o Brasil.

Embora eu já tenha comentado e escrito sobre o assunto em outros lugares, como nesta matéria sobre tradução audiovisual para a revista Língua Portuguesa, vejo que, mesmo entre tradutores, que supostamente deveriam ter um conhecimento um pouquinho acima da média sobre o tema, continuam sendo repetidos e reforçados argumentos infundados e baseados em preconceitos errôneos a respeito das diversas opções usadas para adaptar um filme a uma cultura diferente.

Então volto a expor minha opinião sobre essa questão -- que, para falar a verdade, não entendo bem por que rende tanto debate.

Um desses preconceitos é a noção de que um tradutor "rebelde" qualquer, por conta própria, seria capaz de modificar um filme. Ouvimos isso sobre títulos de filmes, edições de imagem, de som, adaptações na tradução, etc.


O processo de tradução e pós-produção de um filme envolve várias empresas, muita gente e muito dinheiro. O tradutor é apenas um dos elos (um elozinho praticamente dos mais insignificantes) do processo, que não tem poder para tomar nenhuma decisão que minimamente fuja do padrão. Nenhum tradutor jamais decidiu o título de um filme, imprimiu cartazes e outdoors e os espalhou por todo o país, assim como não trocou uma imagem do filme original por uma imagem com textos adaptados. Tudo isso envolve muito dinheiro, muitas decisões, e o tradutor apenas cumpre ordens, talvez dê sugestões, mas definitivamente não toma nenhuma decisão nem tem controle sobre o resultado final do processo.

Isso sem dizer que, no caso de Capitão América, se trata da Disney, a distribuidora mais controladora do mundo com relação às traduções e adaptações, cujo processo começa muitas vezes seis meses antes do lançamento de um filme.

Outro preconceito é o de associar legendagem a superioridade cultural, inteligência ou "evolução" (acreditem, vi esse termo usado em um argumento), e dublagem a inferioridade, burrice e preguiça. Basta olhar para o resto do mundo e ver que isso não se sustenta. Eu já li bastante sobre o assunto e há especulações muito variadas sobre as origens das preferências de cada cultura por dublagem ou legendagem, mas não há explicações definitivas. Faço aqui um resuminho:

Por um lado, a dublagem se tornou obrigatória em muitos países durante regimes autoritários, por facilitar a censura e alteração do conteúdo estrangeiro (caso do Brasil e de muitos países da Europa quando da disseminação do cinema falado ou da televisão). Esses mesmos regimes costumavam usar como pretexto a acessibilidade para a parcela menos letrada da população, e muita gente até hoje faz essa associação, embora não se sustente em muitos casos.

Por outro lado, a pós-produção para dublagem é um processo muitíssimo mais caro do que a legendagem. No caso do Brasil, como a lei que previa a obrigatoriedade da dublagem se aplicava à TV, quando do advento do VHS -- aqui é meio que teoria minha -- as produtoras tenderam a optar pela legendagem por ser muito mais barata, considerando o volume de novas traduções a serem feitas. O DVD também tradicionalmente tem mais opções de legendagem do que de dublagem.

Pelo que li em textos da área audiovisual, o aumento proporcional da preferência pela dublagem no Brasil tem muito a ver com o maior poder aquisitivo de classes mais baixas, aliado a um investimento maior das distribuidoras na pós-produção de filmes, visando atingir um público claramente maior. O interesse é comercial, e mútuo. As distribuidoras não gastariam muitíssimo mais em adaptar o som e as imagens de um filme se isso não lhes desse um retorno bem maior do que inserir legendas, que é muito mais barato.


Cheguei a ver o argumento de que o aumento dos filmes dublados no brasil faria parte de um projeto político de emburrecimento da população. Pessoalmente, acho essa ideia teoria da conspiração demais, até porque esse argumento se baseia em um preconceito infundado (ou será que a população alemã é mais burra agora do que era há 50 anos?) e porque, particularmente, acredito que os interesses econômicos são muito mais fortes que os puramente políticos.

Já quanto às preferências pessoais (menos ou mais acaloradas) por legendagem ou dublagem, pelo que observo em diversos grupos e diversos países, é apenas questão de hábito e de gosto. Para alguns, não ouvir os diálogos na língua original é insuportável; para outros, ter que ler texto aplicado na parte de baixo da tela é um crime contra a experiência cinematográfica. Vai ter gente que odeia de morte uma ou outra forma, assim como tem gente capaz de morrer pelo Bragantino, mas aí se tratam de paixões pessoais, pouco fundamentadas na razão.

No Brasil, a parcela da população capaz de entender um filme estrangeiro sem tradução é tão ínfima que deve ser irrelevante para fins comerciais. A legenda obviamente não se destina a essa parcela. Aliás, eu arriscaria dizer que mesmo entre tradutores profissionais só uma parte bem pequena conseguiria entender realmente bem um filme falado na nossa segunda língua. Com apoio de legendas, quem já é bastante fluente na língua estrangeira consegue ir comparando original e tradução e preenchendo as lacunas, e assim formar a ilusão de que está entendendo a língua estrangeira (eu sou assim com francês: quando vejo filme legendado, sou francófona nata! Já sem legendas, só entendo "bonjour" e olhe lá.)


Pelo que vejo, essas pessoas costumam preferir a legendagem dos filmes na língua estrangeira que entendem razoavelmente. Já em outras línguas, tenho minhas dúvidas. Eu, por exemplo, gosto de animações japonesas, mas acho muito cansativo ver filmes longos legendados. Moro no Canadá e vejo filmes do Miyazaki no cinema dublados em inglês, feliz da vida. Talvez mais de um pense que a dublagem em inglês é muito melhor que a dublagem em português, mas nesse caso eu diria que é mais um preconceito bem arraigado.

Apenas para deixar claro: eu não sou "defensora" da dublagem. Nem sei fazer tradução de roteiros para dublagem. Sou tradutora especializada e professora de legendagem, e pessoalmente prefiro assistir a filmes legendados, na maioria dos casos. Só acho meio frustrante ver esses preconceitos contra a dublagem serem reproduzidos sem uma reflexão um pouco mais aprofundada, principalmente por quem é da área de tradução.

15 de janeiro de 2014

Títulos de séries, legendagem e dublagem

Está rodando nas redes sociais esta matéria sobre o subtítulo que foi dado para a série "Breaking Bad" pelo canal Record.

Vale esclarecer que o subtítulo de um filme ou série, ou mesmo o título, *não* se trata de tradução. É um novo título dado pelos produtores ou distribuidores no país de destino, e não envolve tradutores nem estratégias de tradução.

Também é importante não confundir as críticas feitas ao título com as preferências em torno de legendagem ou dublagem -- o título seria o mesmo, independentemente da forma de tradução adotada.

Quanto ao gosto (ou desgosto) por dublagem ou legendagem, é algo puramente subjetivo, que nada tem a ver com o grau de escolaridade das pessoas, superioridade ou inferioridade cultural, nem mesmo com noções de arte, como já foi extensamente discutido na literatura acadêmica sobre esses temas.

Uma breve introdução ao mundo da tradução audiovisual, com algumas dessas distinções, está disponível na edição especial sobre tradução da revista Língua Portuguesa, para a qual eu escrevi esta matéria sobre tradução audiovisual (em PDF).

29 de junho de 2013

Como falar da profissão

Penso que qualquer tradutor, principalmente os autônomos (a maioria de nós), já passou por algum aperto ao falar da própria profissão. Aquelas perguntas do tipo "Mas você também trabalha?", ter que ouvir um desfile de "pérolas" vergonhosas, etc.

Também é comum, nos meios de interação entre profissionais, a tradicional choradeira dos pobres coitados tradutores que ninguém reconhece, que só se sacrificam, que não têm horário, que não tem vida e tudo mais. Já devo ter presenciado cem vezes a situação em que alguém reclama por passar um feriado prolongado inteiro trabalhando até de madrugada, ao que outro responde que ele é que tem sorte por ter algum tipo de trabalho.

A vida não é fácil, e a vida de profissional autônomo não é para qualquer um. Aliás, a vida de assalariado também não é, porque aí tem toda uma outra série de dificuldades e motivos para choramingar.

Também não é trivial mudar a postura, própria ou alheia, com relação à profissão. Eu sempre aprendi, apliquei e senti na pele que a nossa imagem é a gente que constrói, que respeito é a gente que se dá, que valorização começa por nós mesmos. Mas "falar é fácil", dizem muitos.

Outra tendência é cada um de nós olhar para outro colega ou para outra profissão e achar que todos se dão bem, exceto nós. E aí também tem aquela situação recorrente: se um intérprete reclama de alguma coisa na profissão, chega um tradutor e diz: "Ah, é? Experimenta ser tradutor, para ver o que é bom." Aí chega o revisor: "Pois então vai ser revisor para ver o que é sofrer!" E então chega o professor de línguas: "Vocês reclamam de barriga cheia! Experimentem ser professores..." E aí vem a secretária, e assim sucessivamente.

Mas então não vamos falar de tradutores, intérpretes ou revisores, nem nada que tenha a ver com a nossa profissão. Vamos olhar para uma situação completamente diferente.

O vídeo a seguir caiu nas minhas mãos como parte das traduções que eu faço para a Royal Opera House. Foi exibido nos cinemas, no intervalo da transmissão da ópera "Nabucco", e relata o dia-a-dia do coro permanente da Royal Opera. Eu adorei, porque já cantei em coral e adoro canto coral. Mas, ao fazer essa tradução, tive uma série de revelações e uma epifania: É ISSO! É ASSIM que nós devíamos falar da nossa profissão!

Assista atentamente e depois continue lendo o que eu pensei quando traduzi esse vídeo.


Logo de cara, sabemos que um cantor de coral é um cantor profissional (nesse caso), mas não se destaca. Ele serve ao conjunto e cada componente tem um papel essencial, mas esse papel não inclui dar showzinhos particulares. Durante a apresentação, eles são praticamente "invisíveis" como indivíduos. Mas a valorização da profissão se dá por cumprirem esse objetivo e em outros momentos, como nesse vídeo, quando falam de si próprios e de seu trabalho.

Em 00:28, há um depoimento muito comum: "Isso é emprego de verdade?" Imagine quantas vezes eles não devem ouvir isso, assim como nós. Não estamos sós.

Em seguida, fica claro que, apesar de se apresentarem até tarde da noite, nem sempre têm a manhã livre, como deveriam. Quer dizer, não é aquele empreguinho com horário fixo, 8 horas por dia. Ainda assim, o cantor enfatiza a empolgação que é fazer aquilo todo dia.

Em 1:08, ele diz que eles preparam 4 ou 5 óperas ao mesmo tempo, em diversas línguas. Preciso enfatizar as semelhanças com os tradutores?

A partir de 1:50, são mostrados os ensaios de "Nabucco". Fica claro que eles passam muito tempo preparando uma única peça. A dedicação, o esmero, a atenção aos detalhes são absolutos, mesmo que o resultado final seja transitório e presenciado por poucos. Mas eles não estão reclamando disso. É justamente isso que torna seu trabalho tão especial.

2:16: o regente demanda muitíssimo deles, diz a cantora. E complementa: "Isso é ótimo!"

3:02: as cantoras falam de quanto texto e quantas informações devem reter na memória, mas por pouco tempo, para depois fazer outra coisa. Mentalmente, achei muito semelhante ao nosso trabalho de pesquisa para cada um dos diferentes projetos. Repare que elas descrevem a própria capacidade mental com orgulho, como algo especial.

3:34: o cantor fala da profissão, extremamente competitiva. A cantora relata que, quando ela se candidatou, eram 400 candidatos para 4 vagas. Sim, é um emprego fixo, mas fica claro que só os mais qualificados chegam lá. Há várias diferenças com os profissionais autônomos, mas convenhamos, entre os autônomos o objetivo não é apenas conseguir um novo cliente, mas principalmente retê-lo, ser o tradutor preferencial daquele cliente durante décadas, assim como esses cantores deixam claro: ninguém quer largar o osso, pois muita gente gostaria de estar no lugar deles. E, para se manter lá, é preciso ser impecável no trabalho.

No mesmo tema, em 4:20 a cantora resume o que, na minha opinião, é a chave da valorização da profissão: "Nós fomos escolhidos para estar aqui e nos esforçamos para chegar até onde estamos. E é por isso que este coro tem tamanha qualidade". Repare na circularidade: é um trabalho que exige demais e demanda os melhores, e é graças a eles, os melhores, que o resultado tem tanta qualidade. Fica o recado de que não é bico, não é para qualquer um. É difícil entrar, é difícil permanecer e, se o resultado é bom, é graças a nós. Percebeu que eles nem por um instante se preocupam com os cantores que não chegaram lá, ou com outros empregos piores? Isso não importa, o que importa é valorizar o seu emprego e assim, necessariamente, valorizar a si próprio.

4:30: a cantora fala dos horários estranhos de trabalho, principalmente à tarde e à noite. Fica claro que ela tem filhos e que não é sempre que está com eles durante o dia. Mas nada de xororô: "É brilhante!"

Em 4:45, todo o trecho do ensaio de 80 britânicos dirigidos por três italianos é hilário. Agora, veja bem: a mesma situação poderia ser pintada como caótica, inadmissível. Alguém poderia dizer que não foi contratado para fazer esse tipo de palhaçada. Mas não: estão todos no mesmo barco, dentro do possível se divertem e seguem em frente. Às vezes é um caos, mas o importante é que no fim dê tudo certo.

A partir de 5:45, quando mostram o camarim, achei interessante ver que também faz parte do trabalho dos cantores passar bastante tempo sem cantar. Ainda assim, é necessário. Eu às vezes passo a maior parte do dia preparando orçamentos ou fazendo transações bancárias ou esperando algo acontecer. Mas eles apresentam todo aquele universo como algo bom, entretido, em que eles se integram, se conhecem, se preparam. Achei muito interessante ver que mesmo essa situação é retratada como algo positivo.

Em 6:41, temos uma boa noção da intensidade de trabalho e da pressão sobre esses profissionais, que trabalham em tantas obras simultâneas que às vezes nem se lembram qual é a daquela noite. Dá para sentir a tensão dos minutos logo antes da hora H. Há os últimos detalhes, o figurino, o palco... Mas, novamente, nada de reclamações. Tem que cantar vestindo armadura? Vamos nessa.

7:35: agora é o regente que elogia a dedicação dos cantores. Aqui eu pensei que bom, é como em todo "making of" de qualquer produção, todo mundo acha tudo lindo e maravilhoso. Puro marketing. Mas bom, quando nós falamos bem de nossos clientes, quando relatamos para amigos os projetos em que estamos envolvidos, isso também não é marketing? É marketing do nosso próprio trabalho. Quem é que vai fazer marketing para nós, senão nós? A empolgação e emoção com que cada um desses profissionais fala de cada música, de cada obra e do próprio trabalho é contagiante. Há problemas? É claro que há! Mas não são os problemas que eles vão sair divulgando por aí.

E, bem ao fim do vídeo, é enfatizada a dedicação deles para com o público, que é quem realmente importa. Aqueles instantes podem transformar muitas pessoas. Você é um anônimo no meio de 80 e seu trabalho é sacrificado, mas tem um poder transformador.

É assim que eu gostaria de falar e ver falarem da minha profissão. Já comecei.

5 de dezembro de 2012

Balé e ópera multimídia

Como é que uma "arte morta", como muitos se referem à ópera, ou um antigo estilo de dança, podem de repente atrair novas gerações a alcançar o maior público a que já teve acesso?

Através de recursos multimídia!


Algumas companhias de balé e ópera têm exibido suas apresentações ao vivo, para cinemas de todo o mundo. É o caso do Bolshoi Ballet, a Metropolitan Opera, a Royal Ballet e a Royal Opera House. A Emerging Pictures lista a maioria dessas apresentações.

No ano passado, eu fui procurada pela Royal Opera House/Royal Ballet (ROH) para traduzir algumas dessas apresentações para o português, pois eles estavam começando a exibi-las para uma rede de cinemas em todo o Brasil. Foi uma experiência ótima, e recentemente começou a temporada de 2012-2013 e eu fui escalada para fazer todas as traduções em português. É por isso que falo mais do ROH aqui, já que conheço de primeira mão como essas transmissões funcionam.

Essa tecnologia já existe há vários anos. Em 2003, eu assisti a um show de David Bowie que foi exibido ao vivo, desde Londres, para cinemas em todo o mundo. Eu estava no Brasil e, além de vermos o show, pudemos fazer perguntas para Bowie depois, desde o cinema, e ele ouvia e respondia desde Londres. Considerando como essa experiência foi incrível, chega a ser surpreendente (quase assombroso) que não tenha se tornado uma opção de entretenimento muito mais comum.

Mas parece que as transmissões ao vivo para cinemas finalmente estão vindo para ficar. A ROH começou a exibir as apresentações em cinemas do Reino Unido em 2009; o Brasil foi incluído no ano passado e o Japão nesta nova temporada. Agora transmitem para 240 cinemas de 32 países, em 6 ou 7 línguas, se não me engano.

Este vídeo (em inglês) destaca as vantagens de assistir balés e operas no cinema.


Os sons e imagens são capturados em alta definição, e as legendas em todas as línguas são todas transmitidas desde Londres. As traduções são realizadas com poucos dias (ou, às vezes, poucas horas) de antecedência. No caso de óperas, traduzimos o libretto, naturalmente, mas também há trailers e curtas sobre cada produção, que mostram ensaios, entrevistas e outras informações importantes sobre a produção, e que são exibidos antes do espetáculo e durante os intervalos. Também há mensagens exibidas na tela para os espectadores (por exemplo, incentivando-os a enviarem tweets com comentários sobre o espetáculo) e um resumo de cada ato que verão. Alguns dos tweets enviados também são exibidos na tela do cinema durante os intervalos.

Como as imagens são geradas ao vivo, as legendas não podem ser editadas permanentemente sobre o filme. São exibidas manualmente, ao vivo, pelo departamento de surtitling da ROH ("surtitling" é o nome das legendas exibidas em teatros, geralmente acima do palco).

A ROH interage com os espectadores nas principais redes sociais. Tem seu canal no YouTube, página no Facebook e conta no Twitter. E divulgou recentemente alguns números impressionantes sobre a temporada de 2011-2012, que sem dúvida irão crescer a cada ano. Alguns destaques:
  • Cerca de 300.000 pessoas assistiram à  Royal Opera e à Royal Ballet em cinemas.
  • Quando a Royal Ballet fez um dia inteiro de streaming grátis (um dia na vida da Royal Ballet exibido no YouTube, sem editar), a audiência atingiu um milhão de espectadores.
  • O público está cada vez mais jovem, com um grande número de pessoas que assistem a ópera  e balé pela primeira vez na vida, pois vê-las no cinema é bem mais barato e acessível, e menos intimidador, do que ir até um teatro.
Conquistar novos públicos e aproveitar as vantagens oferecidas pelas redes sociais sem dúvida são objetivos importantes. E um dos aspectos atraentes das redes sociais e dos recursos multimídia é o contato mais próximo entre astros e fãs, que a ROH também explora, como se vê neste vídeo (em inglês):


Novos públicos e novas mídias também implicam o uso de uma nova linguagem. As legendas devem ser breves e simples, para que possam ser lidas depressa e permitam aos espectadores entender o que é dito e ainda assim apreciar plenamente as belíssimas imagens à sua frente. No caso de óperas, isso significa que as traduções empregam uma linguagem mais moderna, sem termos obscuros ou obsoletos. O texto original continua intacto na performance, mas seria impossível acompanhar o libretto completo junto com o espetáculo. Assim, as legendas estão lá para falar a língua dos espectadores nos cinemas e ajudá-los a aproveitar totalmente a experiência, sem se sentirem deslocados.

A ROH é um modelo de cliente para os tradutores. O trabalho antes de cada apresentação é intenso e muitas vezes nos fins de semana, mas a remuneração faz jus ao que eles pedem. Procuraram tradutores recomendados, com experiência em legendagem e que se sentissem à vontade com os temas e a terminologia envolvida. Levando em conta a magnitude dessa operação, o custo da tradução provavelmente é quase insignificante, e a prioridade é oferecer a maior qualidade aos espectadores. A ROH reconhece o valor de uma tradução audiovisual especializada.

Este último vídeo mostra o departamento de audiovisual, e eu acho particularmente fascinante.


Acredito que há muito a aprender com essa experiência bem-sucedida da Royal Opera House e de outras companhias de balé e ópera. O público agora é global, novas tecnologias e mídias podem dar vida nova a antigas formas de arte -- incluindo lucro, sim, a internet não está matando a indústria do entretenimento, muito pelo contrário -- e serviços de tradução profissionais e especializados podem fazer a ponte entre as línguas.


Este texto foi publicado originalmente no meu blog sobre tradução de multimídia, em inglês.

12 de outubro de 2012

Entrevistas

Fico meio acanhada de publicar isto no meu próprio blog... Mas enfim, acho que há informações úteis para outros tradutores ou estudantes, opiniões e recomendações que eu faço muito em redes sociais, e-mail, aqui no blog, etc.

Então aqui vai, não (só) como autopromoção, mas esperando que seja útil para alguém.

A revista Tradução & Comunicação, editada pela universidade Anhanguera, publicou uma entrevista comigo feita pelos doutorandos Thaís Collet e Rafael Matielo. Eu participei da banca do Rafael quando ele escreveu uma dissertação sobre legendagem, e a Thaís foi minha aluna de legendagem na PUC-Rio.

A entrevista está aqui.

Aproveito para mencionar outra entrevista, que eu não cheguei a divulgar aqui. Foi feita pelo Petê Risatti, que conversou com diversos tradutores -- vale a pena ler todas as conversas!

A conversa comigo está aqui.

9 de outubro de 2012

Como otimizar seu projeto de tradução – Parte II


* * *
Da série DICAS PARA CLIENTES DE TRADUÇÃO,
a versão em português do blog Translation Client Zone,
de autoria de Bianca Bold
* * * 

No primeiro texto desta série, eu comecei a dar dicas a clientes de tradução sobre como colaborar com tradutores para seu próprio bem, iniciando com aspectos ligados a planejamento e materiais de referência. Agora o foco das sugestões para otimizar o processo é no arquivo que você enviará ao tradutor. 

• Envie a versão final do texto

Faça tudo o que estiver ao seu alcance para que o texto enviado ao tradutor seja a versão final e revisada. Se não for possível, o mínimo que você deve fazer é destacar as mudanças feitas depois da primeira entrega. Você pode usar fonte de outra cor, uma ferramenta de marcador de texto ou, ainda melhor, uma ferramenta específica para revisões, como aquela que marca as mudanças feitas no Word (“controlar alterações” ou “track changes”). Nesses casos, é bem comum o tradutor cobrar conforme o trabalho extra e, dependendo do volume de texto novo, o prazo deverá ser reajustado.

O que você deve evitar sempre é aquele vai e vem infindável de e-mails com várias versões do mesmo texto, principalmente depois que o tradutor já começou o trabalho. Essa é a receita perfeita para perder tempo e, muito provavelmente, dinheiro.

• Envie arquivos editáveis

Tradutor traduz. Simples, não é? Entretanto, algumas pessoas pensam que podem enviar uma imagem a um tradutor e recebê-la de volta com tudo igualzinho, mas em outro idioma. Bem, isso é perfeitamente viável, mas é outro serviço que seu tradutor pode oferecer ou não. E nem todos os tradutores oferecem. Enquanto alguns de nós adoram editoração eletrônica e se divertem formatando textos, fazendo gráficos, preparando tabelas, criando imagens... outros não levam muito jeito para isso, não gostam ou simplesmente acham que não vale a pena investir tempo nessas atividades extras e preferem concentrar seus esforços no que sabem fazer melhor: traduzir.

A maioria dos tradutores prefere receber arquivos editáveis. Dito isso, PDFs editáveis são aceitáveis, mas não ideais. Às vezes é até possível copiar o conteúdo de um determinado PDF e colar num processador de texto, mas muitas vezes a formatação se perde. Isso acontece principalmente quando o documento não contém apenas texto corrido.

O melhor tipo de arquivo que você pode enviar a um tradutor é num formato que possa ser editado e que também seja suportado pelas chamadas “ferramentas CAT” (ferramentas de tradução assistida por computador) que seu tradutor usa. Um breve parêntese é crucial aqui: ferramentas CAT e, mais especificamente, softwares de memória de tradução, não são a mesma coisa que ferramentas de tradução automática. Explicando de forma bem simples e resumida, podemos dizer que memórias de tradução são arquivos que armazenam frases/segmentos traduzidos pelo usuário. Então, quando seu tradutor se depara com o mesmo conteúdo ou algo semelhante, o software oferece as soluções já usadas anteriormente, ajudando a manter a consistência textual. Uma das vantagens dessas ferramentas é que a formatação costuma permanecer intacta.

No caso de você não poder enviar um arquivo editável, as reações variam de tradutor para tradutor. Antes de começar o trabalho, talvez o tradutor peça que você envie o material a outro profissional para transformá-lo em texto editável. O tradutor também pode optar por digitar o texto traduzido em um arquivo simples, sem se preocupar com a formatação final. Nesse caso, você será responsável por realizar essa tarefa ou contratar quem a faça. O tradutor pode, ainda, oferecer a formatação (e cobrar pelo trabalho extra) ou encaminhar o texto a um colega que cuide dessa tarefa (que cobrará suas próprias tarifas).

Uma ótima citação para fechar esta discussão, por enquanto, é um trecho da seção "Business Smarts" de janeiro de 2007 da ATA Chronicle (revista da American Translators Association), intitulada "Working with PDFs" (tradução minha):
Alguns colegas cobram uma sobretaxa fixa para trabalhar a partir de textos impressos e PDFs, a fim de compensar as tarefas de formatação extra e as dificuldades de uso de ferramentas CAT. Em muitos casos, clientes diretos acabam enviando uma cópia editável do documento [...] ao serem informados de que a tradução de um PDF leva mais tempo e, portanto, custa mais caro.

O mesmo artigo mostra que trabalhar com textos editáveis é também uma forma de reduzir a margem de erros:
Eles [clientes de tradução] também podem gostar de saber que um tradutor que trabalha a partir de arquivos no próprio processador de texto pode oferecer níveis mais altos de qualidade e precisão, já que elementos como tabelas e listas não precisam ser digitados de forma trabalhosa (e talvez até mesmo imprecisa).

A esta altura, deve ter ficado claro que colaborar com seus tradutores não significa apenas facilitar a vida deles. O mais importante disso tudo é que há muitas coisas que você pode fazer a fim de obter o melhor produto possível.

Concluindo esta primeira série de artigos, o próximo texto vai tratar da etapa de tradução propriamente dita e o que fazer após receber o texto traduzido. Mais uma vez, vou dar sugestões sobre como se comportar em situações comuns para conseguir o máximo de retorno em seus projetos de tradução.

30 de setembro de 2012

Feliz dia do tradutor!


30 de setembro é o dia do tradutor. É a data em que se comemora São Jerônimo, que traduziu a Vulgata (versão da bíblia em latim) no século IV.

Há uma grande quantidade de pinturas que ilustram cenas da vida de São Jerônimo. Ele é sempre retratado idoso, magro, geralmente careca (com o crânio protuberante), de barbas longas e túnica, geralmente vermelha. Quase sempre está cercado de livros ou papéis e é acompanhado de um leão domesticado, e quase sempre tem ao seu lado uma caveira, símbolo de memento mori, a lembrança da mortalidade iminente.

Muitas pinturas mostram Jerônimo em situação dramática: quase nu, muito magro, debruçado sobre a mesa de trabalho, lutando com o texto.

Eu só fui me deparar recentemente com a pintura acima, de Andrea Mantegna, feita em 1450. Gostei muito dela e acho que ela tem muito a ver com os tradutores.

Primeiro, ele está numa caverna. Convenhamos, todos os tradutores têm um lado ermitão, que sabe apreciar a solidão e o silêncio. Para quem olha de fora, nosso escritório pode parecer um buraco empoeirado, mas é onde a gente se sente realmente em casa.

Ele está vestido, mas largou o chapéu e as sandálias porque a gente trabalha em casa e fica à vontade, mesmo.

É importante estar sempre hidratado, e nesse quadro São Jerônimo tem um riozinho de água cristalina passando bem na frente da caverna.

O leão domesticado virou um gatinho -- tradutores são grandes amigos dos felinos -- que olha para ele com uma carinha de "faz tempo que ninguém brinca comigo..." Os meus também me olham assim às vezes. Como todos sabem, é daí que se origina o termo "CAT tools" ;-)

Na frente da caverna, bebendo água, tem um passarinho vermelho que parece um cardeal, e em cima da caverna tem uma coruja. Achei bacana ter uma ave bem diurna e alegre e outra noturna. Tradutor está na ativa dia e noite, e muitos tradutores têm fortes tendências estrigiformes.

E o próprio Jerônimo está com cara de cansado, mas ainda matutando, procurando aquela palavra que falta, aquela adaptação aparentemente impossível. Está rezando para o santo protetor dele... quem será o São Jê do São Jê?

Acho que está um pouco triste porque a internet ainda não foi inventada. Devem ter sido uma barra esses tempos primitivos pré-banda larga. Hoje a gente pesquisa instantaneamente o corpus do mundo todo, usa dicionários digitais, memória de tradução, e troca ideias com milhares de tradutores pelo mundo. Mas, mesmo assim, tem dia que só mesmo Jerônimo para mandar uma inspiração.

Parabéns a todos os tradutores pelo dia de hoje! Não existiria aldeia global sem a nossa dedicação a cada palavrinha que transformamos na nossa cabeça para que as pessoas se entendam.

* * * * *
DIA DO TRADUTOR, parte 2

Ontem (dia 30 de setembro) tinha tanta coisa interessante sendo postada em blogs, Facebook etc. sobre o dia do tradutor que eu me vi, mais uma vez, navegando pelo Google Images em busca de representações de São Jerônimo que eu ainda não conhecia, o que inevitavelmente me fez relembrar outras que eu tinha esquecido.

Foi então que percebi que o nosso querido São Jê passou por todas as mesmas fases que a gente enfrenta na nossa rotina profissional, sobretudo durante aqueles projetos "memoráveis" que todos nós encaramos de vez em quando. É tudo questão de pôr as imagens na ordem certa:


Fase 1, Van Eyck: São Jê começa o dia de trabalho. Está descansado e concentrado. Tomou um bom café da manhã, fez a barba, se vestiu, alimentou o leãozinho. Seu escritório está razoavalmente organizado e ele cuida da ergonomia, pois sabe que o projeto será longo.


Fase 2, Caravaggio: Ele está totalmente compenetrado no trabalho. Fica mais à vontade, com as roupas mais soltas. Se debruça sobre a mesa. Seu cérebro cresce visivelmente e sua produtividade atinge o ápice. Memento mori: ele é constantemente lembrado de que precisa terminar o serviço antes que a morte venha buscá-lo.


Fase 3, Pieter Coecke van Aelst: As coisas começam a não sair do jeito esperado. Há trechos para os quais não parece haver solução. A vela se apagou, o leão faminto fugiu de casa, e ele nem notou. Desesperado, discute com a caveira.


Fase 4, Lionello Spada: Esqueça a mesa, ela atrapalha. As roupas também são praticamente eliminadas, já que ele não tem planos de encontrar outro ser humano tão cedo. Ele está envelhecendo precocemente e agora precisa de óculos. Tem ao seu lado o crucifixo, pois precisa de inspiração divina e não quer perder o norte. A caveira morreu (de novo).


Fase 5, Simon Vouet: São Jê está delirante. Um anjo efetivamente desce em seu auxílio, mas São Jê discute com ele. O que esse moleque pensa que sabe sobre tradução? E ainda por cima com uma vuvuzela, era só o que faltava! O horror, o horror.

Mas eis que sim, o projeto finalmente termina. Ele sobreviveu! Em retrospecto, até que não foi tão ruim assim. E, quando o trabalho é publicado, a sensação de orgulho é indescritível. Ser tradutor é a melhor profissão do mundo!