A Arte da Tradução
Espaço dedicado a refletir e promover esta arte-ciência que nos leva a aprender com cada novo parágrafo, descobrir nuances a cada nova combinação de palavras, mergulhar nas entrelinhas e construir realidades com essa fantástica ferramenta que é a língua.
24 de abril de 2013
Curso de legendagem no Rio de Janeiro - julho de 2013
O formato intensivo do curso de Tradução para Legendagem de Filmes: Teoria, Técnica e Prática tem sido um sucesso tão grande que já estão abertas as inscrições para mais uma turma, em julho de 2013.
É o curso mais completo que eu dou e com certeza um dos mais extensos e completos disponíveis no Brasil. Será oferecida uma só turma, para tradutores de inglês para português. As vagas têm sido preenchidas depressa, se esgotando geralmente dois meses antes do início das aulas. Portanto, se você tiver interesse, não perca tempo em se inscrever!
O curso será realizado na PUC do Rio de Janeiro, na unidade do Centro da cidade, do dia 9 de julho (terça) a 17 de julho (quarta) de 2013, em formato intensivíssimo: são seis horas de aulas por dia durante 7 dias, três horas à manhã e três à tarde. Serão quatro dias consecutivos na primeira semana, um fim de semana para recuperar o fôlego e mais três dias seguidos na semana seguinte. No total serão 42 horas. O certificado de conclusão do curso é emitido pela PUC-Rio.
O formato intensivo foi muito solicitado, principalmente para que aqueles que não moram na cidade onde o curso é realizado possam se deslocar para lá durante poucos dias. Por isso foi escolhida uma época de férias escolares. Agora há a oportunidade de passar 10 dias no Rio, aproveitando a cidade maravilhosa, e sair de lá especializado em legendagem.
Todas as aulas serão em laboratório de informática, com toda a infraestrutura necessária. O curso inclui reflexões e a leitura de textos sobre tradução audiovisual e legendagem, mas seu conteúdo é fortemente prático, repleto de exercícios reais que visam trabalhar diversos gêneros de filmes, simular serviços para diferentes clientes e ensinar técnicas e métodos de trabalho para cinema, DVD, TV a cabo e o mercado corporativo. Em aproximadamente metade das horas de aula é utilizado o software Subtitle Workshop.
Este curso tem sido muito bem-sucedido em seus objetivos: são vários os alunos que passaram a atuar no mercado de legendagem de filmes, e cada vez mais produtoras de vídeo entram em contato pedindo recomendações dos melhores alunos para serem seus prestadores de serviços. O mercado é exigente e o curso também: é intenso e os exercícios apresentam um grau de dificuldade crescente, visando preparar os alunos para a realidade do mercado em seus melhores nichos. Não é um curso fácil, exige muita dedicação. A experiência prévia com tradução de textos é desejável mas não imprescindível; já o excelente domínio das duas línguas envolvidas, com ênfase na compreensão do inglês e na ótima redação em português, é fundamental e faz toda diferença no desempenho. Também é muito importante que os alunos se sintam à vontade usando computadores, tenham bom domínio de Windows, Office, programas de vídeo, ferramentas de internet e saibam realizar tarefas essenciais como download, instalação de programas, etc.
O valor pleno do curso é de R$ 1874,00, mas a PUC oferece 20% de desconto (o que dá R$ 1499,20) para inscrições à vista realizadas até o dia 13 de maio. Há também a opção de parcelar o valor pleno em três vezes de R$ 624,66 no cartão de crédito.
Algumas considerações sobre este curso presencial e os valores. A PUC tem fama de cobrar preços altos, mas leve em conta a quantidade de horas em laboratório de informática, com uma ótima infraestrutura, técnico à disposição e tudo mais. 42 horas é muito tempo (posso estar enganada, mas pelo que sei é o mais longo no Brasil). Basta fazer uma comparação analisando o conteúdo oferecido, a infraestrutura e a quantidade de horas para perceber que este curso oferece um ótimo custo-benefício.
Eu também dou cursos à distância, sobretudo porque eu mesma estou distante. São ótimas opções para quem está longe, há o conforto de não precisar sair de casa e tudo mais. Mas, proporcionalmente, os cursos à distância são mais caros por hora do que este e o conteúdo é consideravelmente mais restrito (o curso de legendagem que eu ofereço à distância, incluindo os módulos básico e avançado, somam 10 horas de aulas, portanto correspondem a aproximadamente 1/4 do programa do curso presencial).
Além disso, por mais que os recursos de ensino à distância sejam muito úteis e eu procure tirar o máximo proveito deles, a sala de aula "real" promove uma sinergia única: são vinte e poucas cabeças pensantes trabalhando juntas, debruçadas sobre os mesmos problemas, levantando dúvidas, propondo soluções, debatendo... Esse relacionamento acaba multiplicando os conhecimentos transmitidos, sem falar do networking que já começa na sala de aula e continua depois, através de contatos e oportunidades por e-mail.
E fique à vontade para comentar e perguntar o que precisar.
11 de março de 2013
Novo curso de legendagem online
Estão abertas as inscrições para o curso de legendagem de filmes (para tradutores de inglês para português)
em formato online, isto é, pela internet: você se conecta com a sala de aula pelo seu computador, desde qualquer lugar do planeta.
A estrutura do curso foi remodelada: os antigos módulos básico e avançado agora estão reunidos em um único curso completo, com 10 horas de aula por audioconferência e exercícios semanais.
As aulas serão aos sábados, de 20 de abril a 29 de junho, às 10 da manhã (Brasília) e é preciso ter computador com Windows para assistir às aulas e instalar o software de legendagem.
Clique aqui para ver a descrição completa do curso, valores, forma de pagamento e inscrições.
São poucas vagas!
A estrutura do curso foi remodelada: os antigos módulos básico e avançado agora estão reunidos em um único curso completo, com 10 horas de aula por audioconferência e exercícios semanais.
As aulas serão aos sábados, de 20 de abril a 29 de junho, às 10 da manhã (Brasília) e é preciso ter computador com Windows para assistir às aulas e instalar o software de legendagem.
Clique aqui para ver a descrição completa do curso, valores, forma de pagamento e inscrições.
São poucas vagas!
5 de dezembro de 2012
Balé e ópera multimídia
Como é que uma "arte morta", como muitos se referem à ópera, ou um antigo estilo de dança, podem de repente atrair novas gerações a alcançar o maior público a que já teve acesso?
Através de recursos multimídia!
Algumas companhias de balé e ópera têm exibido suas apresentações ao vivo, para cinemas de todo o mundo. É o caso do Bolshoi Ballet, a Metropolitan Opera, a Royal Ballet e a Royal Opera House. A Emerging Pictures lista a maioria dessas apresentações.
No ano passado, eu fui procurada pela Royal Opera House/Royal Ballet (ROH) para traduzir algumas dessas apresentações para o português, pois eles estavam começando a exibi-las para uma rede de cinemas em todo o Brasil. Foi uma experiência ótima, e recentemente começou a temporada de 2012-2013 e eu fui escalada para fazer todas as traduções em português. É por isso que falo mais do ROH aqui, já que conheço de primeira mão como essas transmissões funcionam.
Essa tecnologia já existe há vários anos. Em 2003, eu assisti a um show de David Bowie que foi exibido ao vivo, desde Londres, para cinemas em todo o mundo. Eu estava no Brasil e, além de vermos o show, pudemos fazer perguntas para Bowie depois, desde o cinema, e ele ouvia e respondia desde Londres. Considerando como essa experiência foi incrível, chega a ser surpreendente (quase assombroso) que não tenha se tornado uma opção de entretenimento muito mais comum.
Mas parece que as transmissões ao vivo para cinemas finalmente estão vindo para ficar. A ROH começou a exibir as apresentações em cinemas do Reino Unido em 2009; o Brasil foi incluído no ano passado e o Japão nesta nova temporada. Agora transmitem para 240 cinemas de 32 países, em 6 ou 7 línguas, se não me engano.
Este vídeo (em inglês) destaca as vantagens de assistir balés e operas no cinema.
Os sons e imagens são capturados em alta definição, e as legendas em todas as línguas são todas transmitidas desde Londres. As traduções são realizadas com poucos dias (ou, às vezes, poucas horas) de antecedência. No caso de óperas, traduzimos o libretto, naturalmente, mas também há trailers e curtas sobre cada produção, que mostram ensaios, entrevistas e outras informações importantes sobre a produção, e que são exibidos antes do espetáculo e durante os intervalos. Também há mensagens exibidas na tela para os espectadores (por exemplo, incentivando-os a enviarem tweets com comentários sobre o espetáculo) e um resumo de cada ato que verão. Alguns dos tweets enviados também são exibidos na tela do cinema durante os intervalos.
Como as imagens são geradas ao vivo, as legendas não podem ser editadas permanentemente sobre o filme. São exibidas manualmente, ao vivo, pelo departamento de surtitling da ROH ("surtitling" é o nome das legendas exibidas em teatros, geralmente acima do palco).
A ROH interage com os espectadores nas principais redes sociais. Tem seu canal no YouTube, página no Facebook e conta no Twitter. E divulgou recentemente alguns números impressionantes sobre a temporada de 2011-2012, que sem dúvida irão crescer a cada ano. Alguns destaques:
Novos públicos e novas mídias também implicam o uso de uma nova linguagem. As legendas devem ser breves e simples, para que possam ser lidas depressa e permitam aos espectadores entender o que é dito e ainda assim apreciar plenamente as belíssimas imagens à sua frente. No caso de óperas, isso significa que as traduções empregam uma linguagem mais moderna, sem termos obscuros ou obsoletos. O texto original continua intacto na performance, mas seria impossível acompanhar o libretto completo junto com o espetáculo. Assim, as legendas estão lá para falar a língua dos espectadores nos cinemas e ajudá-los a aproveitar totalmente a experiência, sem se sentirem deslocados.
A ROH é um modelo de cliente para os tradutores. O trabalho antes de cada apresentação é intenso e muitas vezes nos fins de semana, mas a remuneração faz jus ao que eles pedem. Procuraram tradutores recomendados, com experiência em legendagem e que se sentissem à vontade com os temas e a terminologia envolvida. Levando em conta a magnitude dessa operação, o custo da tradução provavelmente é quase insignificante, e a prioridade é oferecer a maior qualidade aos espectadores. A ROH reconhece o valor de uma tradução audiovisual especializada.
Este último vídeo mostra o departamento de audiovisual, e eu acho particularmente fascinante.
Acredito que há muito a aprender com essa experiência bem-sucedida da Royal Opera House e de outras companhias de balé e ópera. O público agora é global, novas tecnologias e mídias podem dar vida nova a antigas formas de arte -- incluindo lucro, sim, a internet não está matando a indústria do entretenimento, muito pelo contrário -- e serviços de tradução profissionais e especializados podem fazer a ponte entre as línguas.
Através de recursos multimídia!
Algumas companhias de balé e ópera têm exibido suas apresentações ao vivo, para cinemas de todo o mundo. É o caso do Bolshoi Ballet, a Metropolitan Opera, a Royal Ballet e a Royal Opera House. A Emerging Pictures lista a maioria dessas apresentações.
No ano passado, eu fui procurada pela Royal Opera House/Royal Ballet (ROH) para traduzir algumas dessas apresentações para o português, pois eles estavam começando a exibi-las para uma rede de cinemas em todo o Brasil. Foi uma experiência ótima, e recentemente começou a temporada de 2012-2013 e eu fui escalada para fazer todas as traduções em português. É por isso que falo mais do ROH aqui, já que conheço de primeira mão como essas transmissões funcionam.
Essa tecnologia já existe há vários anos. Em 2003, eu assisti a um show de David Bowie que foi exibido ao vivo, desde Londres, para cinemas em todo o mundo. Eu estava no Brasil e, além de vermos o show, pudemos fazer perguntas para Bowie depois, desde o cinema, e ele ouvia e respondia desde Londres. Considerando como essa experiência foi incrível, chega a ser surpreendente (quase assombroso) que não tenha se tornado uma opção de entretenimento muito mais comum.
Mas parece que as transmissões ao vivo para cinemas finalmente estão vindo para ficar. A ROH começou a exibir as apresentações em cinemas do Reino Unido em 2009; o Brasil foi incluído no ano passado e o Japão nesta nova temporada. Agora transmitem para 240 cinemas de 32 países, em 6 ou 7 línguas, se não me engano.
Este vídeo (em inglês) destaca as vantagens de assistir balés e operas no cinema.
Os sons e imagens são capturados em alta definição, e as legendas em todas as línguas são todas transmitidas desde Londres. As traduções são realizadas com poucos dias (ou, às vezes, poucas horas) de antecedência. No caso de óperas, traduzimos o libretto, naturalmente, mas também há trailers e curtas sobre cada produção, que mostram ensaios, entrevistas e outras informações importantes sobre a produção, e que são exibidos antes do espetáculo e durante os intervalos. Também há mensagens exibidas na tela para os espectadores (por exemplo, incentivando-os a enviarem tweets com comentários sobre o espetáculo) e um resumo de cada ato que verão. Alguns dos tweets enviados também são exibidos na tela do cinema durante os intervalos.
Como as imagens são geradas ao vivo, as legendas não podem ser editadas permanentemente sobre o filme. São exibidas manualmente, ao vivo, pelo departamento de surtitling da ROH ("surtitling" é o nome das legendas exibidas em teatros, geralmente acima do palco).
A ROH interage com os espectadores nas principais redes sociais. Tem seu canal no YouTube, página no Facebook e conta no Twitter. E divulgou recentemente alguns números impressionantes sobre a temporada de 2011-2012, que sem dúvida irão crescer a cada ano. Alguns destaques:
- Cerca de 300.000 pessoas assistiram à Royal Opera e à Royal Ballet em cinemas.
- Quando a Royal Ballet fez um dia inteiro de streaming grátis (um dia na vida da Royal Ballet exibido no YouTube, sem editar), a audiência atingiu um milhão de espectadores.
- O público está cada vez mais jovem, com um grande número de pessoas que assistem a ópera e balé pela primeira vez na vida, pois vê-las no cinema é bem mais barato e acessível, e menos intimidador, do que ir até um teatro.
Novos públicos e novas mídias também implicam o uso de uma nova linguagem. As legendas devem ser breves e simples, para que possam ser lidas depressa e permitam aos espectadores entender o que é dito e ainda assim apreciar plenamente as belíssimas imagens à sua frente. No caso de óperas, isso significa que as traduções empregam uma linguagem mais moderna, sem termos obscuros ou obsoletos. O texto original continua intacto na performance, mas seria impossível acompanhar o libretto completo junto com o espetáculo. Assim, as legendas estão lá para falar a língua dos espectadores nos cinemas e ajudá-los a aproveitar totalmente a experiência, sem se sentirem deslocados.
A ROH é um modelo de cliente para os tradutores. O trabalho antes de cada apresentação é intenso e muitas vezes nos fins de semana, mas a remuneração faz jus ao que eles pedem. Procuraram tradutores recomendados, com experiência em legendagem e que se sentissem à vontade com os temas e a terminologia envolvida. Levando em conta a magnitude dessa operação, o custo da tradução provavelmente é quase insignificante, e a prioridade é oferecer a maior qualidade aos espectadores. A ROH reconhece o valor de uma tradução audiovisual especializada.
Este último vídeo mostra o departamento de audiovisual, e eu acho particularmente fascinante.
Acredito que há muito a aprender com essa experiência bem-sucedida da Royal Opera House e de outras companhias de balé e ópera. O público agora é global, novas tecnologias e mídias podem dar vida nova a antigas formas de arte -- incluindo lucro, sim, a internet não está matando a indústria do entretenimento, muito pelo contrário -- e serviços de tradução profissionais e especializados podem fazer a ponte entre as línguas.
Este texto foi publicado originalmente no meu blog sobre tradução de multimídia, em inglês.
12 de outubro de 2012
Entrevistas
Fico meio acanhada de publicar isto no meu próprio blog... Mas enfim, acho que há informações úteis para outros tradutores ou estudantes, opiniões e recomendações que eu faço muito em redes sociais, e-mail, aqui no blog, etc.
Então aqui vai, não (só) como autopromoção, mas esperando que seja útil para alguém.
A revista Tradução & Comunicação, editada pela universidade Anhanguera, publicou uma entrevista comigo feita pelos doutorandos Thaís Collet e Rafael Matielo. Eu participei da banca do Rafael quando ele escreveu uma dissertação sobre legendagem, e a Thaís foi minha aluna de legendagem na PUC-Rio.
A entrevista está aqui.
Aproveito para mencionar outra entrevista, que eu não cheguei a divulgar aqui. Foi feita pelo Petê Risatti, que conversou com diversos tradutores -- vale a pena ler todas as conversas!
A conversa comigo está aqui.
Então aqui vai, não (só) como autopromoção, mas esperando que seja útil para alguém.
A revista Tradução & Comunicação, editada pela universidade Anhanguera, publicou uma entrevista comigo feita pelos doutorandos Thaís Collet e Rafael Matielo. Eu participei da banca do Rafael quando ele escreveu uma dissertação sobre legendagem, e a Thaís foi minha aluna de legendagem na PUC-Rio.
A entrevista está aqui.
Aproveito para mencionar outra entrevista, que eu não cheguei a divulgar aqui. Foi feita pelo Petê Risatti, que conversou com diversos tradutores -- vale a pena ler todas as conversas!
A conversa comigo está aqui.
9 de outubro de 2012
Como otimizar seu projeto de tradução – Parte II
* * *
Da série DICAS PARA CLIENTES DE TRADUÇÃO,
a versão em português do blog Translation Client Zone,
de autoria de Bianca Bold
* * *
No primeiro texto desta série, eu comecei a dar dicas a clientes de tradução sobre como colaborar
com tradutores para seu próprio bem, iniciando com aspectos ligados a
planejamento e materiais de referência. Agora o foco das sugestões para
otimizar o processo é no arquivo que você enviará ao tradutor.
• Envie a versão final do texto
Faça tudo o que
estiver ao seu alcance para que o texto enviado ao tradutor seja a versão final
e revisada. Se não for possível, o mínimo que você deve fazer é destacar as
mudanças feitas depois da primeira entrega. Você pode usar fonte de outra cor,
uma ferramenta de marcador de texto ou, ainda melhor, uma ferramenta específica
para revisões, como aquela que marca as mudanças feitas no Word (“controlar
alterações” ou “track changes”). Nesses casos, é bem comum o tradutor cobrar
conforme o trabalho extra e, dependendo do volume de texto novo, o prazo deverá
ser reajustado.
O que você deve
evitar sempre é aquele vai e vem infindável de e-mails com várias versões do
mesmo texto, principalmente depois que o tradutor já começou o trabalho. Essa é
a receita perfeita para perder tempo e, muito provavelmente, dinheiro.
• Envie arquivos editáveis
Tradutor traduz.
Simples, não é? Entretanto, algumas pessoas pensam que podem enviar uma imagem
a um tradutor e recebê-la de volta com tudo igualzinho, mas em outro idioma.
Bem, isso é perfeitamente viável, mas é outro
serviço que seu tradutor pode oferecer ou não. E nem todos os tradutores
oferecem. Enquanto alguns de nós adoram editoração eletrônica e se divertem
formatando textos, fazendo gráficos, preparando tabelas, criando imagens...
outros não levam muito jeito para isso, não gostam ou simplesmente acham que
não vale a pena investir tempo nessas atividades extras e preferem concentrar
seus esforços no que sabem fazer melhor: traduzir.
A maioria dos
tradutores prefere receber arquivos editáveis. Dito isso, PDFs editáveis são
aceitáveis, mas não ideais. Às vezes é até possível copiar o conteúdo de um
determinado PDF e colar num processador de texto, mas muitas vezes a formatação
se perde. Isso acontece principalmente quando o documento não contém apenas
texto corrido.
O melhor tipo de
arquivo que você pode enviar a um tradutor é num formato que possa ser editado
e que também seja suportado pelas chamadas “ferramentas CAT” (ferramentas de
tradução assistida por computador) que seu tradutor usa. Um breve parêntese é
crucial aqui: ferramentas CAT e, mais especificamente, softwares de memória de
tradução, não são a mesma coisa que ferramentas de tradução automática.
Explicando de forma bem simples e resumida, podemos dizer que memórias de
tradução são arquivos que armazenam frases/segmentos traduzidos pelo usuário.
Então, quando seu tradutor se depara com o mesmo conteúdo ou algo semelhante, o
software oferece as soluções já usadas anteriormente, ajudando a manter a
consistência textual. Uma das vantagens dessas ferramentas é que a formatação
costuma permanecer intacta.
No caso de você
não poder enviar um arquivo editável, as reações variam de tradutor para
tradutor. Antes de começar o trabalho, talvez o tradutor peça que você envie o
material a outro profissional para transformá-lo em texto editável. O tradutor
também pode optar por digitar o texto traduzido em um arquivo simples, sem se
preocupar com a formatação final. Nesse caso, você será responsável por
realizar essa tarefa ou contratar quem a faça. O tradutor pode, ainda, oferecer
a formatação (e cobrar pelo trabalho extra) ou encaminhar o texto a um colega
que cuide dessa tarefa (que cobrará suas próprias tarifas).
Uma ótima citação
para fechar esta discussão, por enquanto, é um trecho da seção "Business
Smarts" de janeiro de 2007 da ATA Chronicle (revista
da American Translators Association),
intitulada "Working with PDFs"
(tradução minha):
Alguns colegas cobram uma sobretaxa fixa para trabalhar a partir de textos impressos e PDFs, a fim de compensar as tarefas de formatação extra e as dificuldades de uso de ferramentas CAT. Em muitos casos, clientes diretos acabam enviando uma cópia editável do documento [...] ao serem informados de que a tradução de um PDF leva mais tempo e, portanto, custa mais caro.
O mesmo artigo
mostra que trabalhar com textos editáveis é também uma forma de reduzir a
margem de erros:
Eles [clientes de tradução] também podem gostar de saber que um tradutor que trabalha a partir de arquivos no próprio processador de texto pode oferecer níveis mais altos de qualidade e precisão, já que elementos como tabelas e listas não precisam ser digitados de forma trabalhosa (e talvez até mesmo imprecisa).
A esta altura,
deve ter ficado claro que colaborar com seus tradutores não significa apenas
facilitar a vida deles. O mais importante disso tudo é que há muitas coisas que
você pode fazer a fim de obter o
melhor produto possível.
Concluindo esta
primeira série de artigos, o próximo texto vai tratar da etapa de tradução
propriamente dita e o que fazer após receber o texto traduzido. Mais uma vez,
vou dar sugestões sobre como se comportar em situações comuns para conseguir o
máximo de retorno em seus projetos de tradução.
30 de setembro de 2012
Feliz dia do tradutor!
30 de setembro é o dia do tradutor. É a data em que se comemora São Jerônimo, que traduziu a Vulgata (versão da bíblia em latim) no século IV.
Há uma grande quantidade de pinturas que ilustram cenas da vida de São Jerônimo. Ele é sempre retratado idoso, magro, geralmente careca (com o crânio protuberante), de barbas longas e túnica, geralmente vermelha. Quase sempre está cercado de livros ou papéis e é acompanhado de um leão domesticado, e quase sempre tem ao seu lado uma caveira, símbolo de memento mori, a lembrança da mortalidade iminente.
Muitas pinturas mostram Jerônimo em situação dramática: quase nu, muito magro, debruçado sobre a mesa de trabalho, lutando com o texto.
Eu só fui me deparar recentemente com a pintura acima, de Andrea Mantegna, feita em 1450. Gostei muito dela e acho que ela tem muito a ver com os tradutores.
Primeiro, ele está numa caverna. Convenhamos, todos os tradutores têm um lado ermitão, que sabe apreciar a solidão e o silêncio. Para quem olha de fora, nosso escritório pode parecer um buraco empoeirado, mas é onde a gente se sente realmente em casa.
Ele está vestido, mas largou o chapéu e as sandálias porque a gente trabalha em casa e fica à vontade, mesmo.
É importante estar sempre hidratado, e nesse quadro São Jerônimo tem um riozinho de água cristalina passando bem na frente da caverna.
O leão domesticado virou um gatinho -- tradutores são grandes amigos dos felinos -- que olha para ele com uma carinha de "faz tempo que ninguém brinca comigo..." Os meus também me olham assim às vezes. Como todos sabem, é daí que se origina o termo "CAT tools" ;-)
Na frente da caverna, bebendo água, tem um passarinho vermelho que parece um cardeal, e em cima da caverna tem uma coruja. Achei bacana ter uma ave bem diurna e alegre e outra noturna. Tradutor está na ativa dia e noite, e muitos tradutores têm fortes tendências estrigiformes.
E o próprio Jerônimo está com cara de cansado, mas ainda matutando, procurando aquela palavra que falta, aquela adaptação aparentemente impossível. Está rezando para o santo protetor dele... quem será o São Jê do São Jê?
Acho que está um pouco triste porque a internet ainda não foi inventada. Devem ter sido uma barra esses tempos primitivos pré-banda larga. Hoje a gente pesquisa instantaneamente o corpus do mundo todo, usa dicionários digitais, memória de tradução, e troca ideias com milhares de tradutores pelo mundo. Mas, mesmo assim, tem dia que só mesmo Jerônimo para mandar uma inspiração.
Parabéns a todos os tradutores pelo dia de hoje! Não existiria aldeia global sem a nossa dedicação a cada palavrinha que transformamos na nossa cabeça para que as pessoas se entendam.
* * * * *
DIA DO TRADUTOR, parte 2Ontem (dia 30 de setembro) tinha tanta coisa interessante sendo postada em blogs, Facebook etc. sobre o dia do tradutor que eu me vi, mais uma vez, navegando pelo Google Images em busca de representações de São Jerônimo que eu ainda não conhecia, o que inevitavelmente me fez relembrar outras que eu tinha esquecido.
Foi então que percebi que o nosso querido São Jê passou por todas as mesmas fases que a gente enfrenta na nossa rotina profissional, sobretudo durante aqueles projetos "memoráveis" que todos nós encaramos de vez em quando. É tudo questão de pôr as imagens na ordem certa:
Fase 1, Van Eyck: São Jê começa o dia de trabalho. Está descansado e concentrado. Tomou um bom café da manhã, fez a barba, se vestiu, alimentou o leãozinho. Seu escritório está razoavalmente organizado e ele cuida da ergonomia, pois sabe que o projeto será longo.
Fase 2, Caravaggio: Ele está totalmente compenetrado no trabalho. Fica mais à vontade, com as roupas mais soltas. Se debruça sobre a mesa. Seu cérebro cresce visivelmente e sua produtividade atinge o ápice. Memento mori: ele é constantemente lembrado de que precisa terminar o serviço antes que a morte venha buscá-lo.
Fase 3, Pieter Coecke van Aelst: As coisas começam a não sair do jeito esperado. Há trechos para os quais não parece haver solução. A vela se apagou, o leão faminto fugiu de casa, e ele nem notou. Desesperado, discute com a caveira.
Fase 4, Lionello Spada: Esqueça a mesa, ela atrapalha. As roupas também são praticamente eliminadas, já que ele não tem planos de encontrar outro ser humano tão cedo. Ele está envelhecendo precocemente e agora precisa de óculos. Tem ao seu lado o crucifixo, pois precisa de inspiração divina e não quer perder o norte. A caveira morreu (de novo).
Fase 5, Simon Vouet: São Jê está delirante. Um anjo efetivamente desce em seu auxílio, mas São Jê discute com ele. O que esse moleque pensa que sabe sobre tradução? E ainda por cima com uma vuvuzela, era só o que faltava! O horror, o horror.
Mas eis que sim, o projeto finalmente termina. Ele sobreviveu! Em retrospecto, até que não foi tão ruim assim. E, quando o trabalho é publicado, a sensação de orgulho é indescritível. Ser tradutor é a melhor profissão do mundo!
26 de agosto de 2012
Como otimizar seu projeto de tradução – Parte I
* * *
Da série DICAS PARA CLIENTES DE TRADUÇÃO,
a versão em português do blog Translation Client Zone,
de autoria de Bianca Bold
* * *
O maior interessado no sucesso de uma tradução deve ser, sem dúvida, o cliente. No entanto, por falta de conhecimento sobre o processo de tradução, a sua colaboração no projeto pode não ser muito eficaz ou, ainda pior, você pode acabar atrapalhando o andamento ou o resultado.
Com isso em mente, eu
listei algumas medidas que deveriam ser observadas por todos os envolvidos em
uma tradução, e não apenas por quem é designado especificamente como gerente de
projeto ou PM (do inglês “project manager”). Entendo que na vida real a
situação às vezes foge ao nosso controle. Então, digamos que as recomendações a
seguir representem a melhor das hipóteses, em que todos saem ganhando.
Planejamento
É importantíssimo
planejar um projeto com antecedência e dar aos tradutores o tempo necessário
para fazerem um trabalho cuidadoso. Se você já estiver acostumado a trabalhar
com um tradutor, deve ter uma ideia de quanto tempo ele precisa para realizar
uma determinada tarefa. No entanto, a produtividade varia de pessoa para
pessoa, de texto para texto e até mesmo de dia para dia. Além disso, lembre que
vários "obstáculos" podem atrapalhar seu tradutor a qualquer momento:
ele pode estar com tempo reservado para outro projeto, fazendo malabarismo com
dois ou mais textos (em vez de poder lhe oferecer dedicação integral, o que é
bem comum), o texto pode se distanciar do que o profissional está acostumado a
traduzir (o que deixa o processo mais demorado), o tradutor pode estar ocupado
com questões pessoais ou até se preparando para tirar férias...
Recomendo que você sempre
fale com seu tradutor assim que souber de projetos futuros. Se sua empresa lida
com projetos recorrentes que precisam de tradução, por exemplo, não há motivo
para não avisar o tradutor com antecedência. É claro que você só pode pedir que
alguém reserve seu tempo quando tiver mais detalhes, como datas, tamanho do
texto, conteúdo, etc. Um tradutor organizado ficará grato ao saber que algo
está por vir e, possivelmente, terá esse futuro projeto em mente quando montar
sua agenda de trabalho.
Em seu escritório ou
empresa, certifique-se de que todos os envolvidos na produção do texto original
respeitem os prazos. Além disso, o cronograma deve levar em conta não só o trabalho do tradutor
propriamente dito como também o tempo necessário para alguém
da sua empresa fazer uma leitura final da tradução. Mas tome muito cuidado:
pedir que sua equipe "edite" uma tradução é uma faca de dois gumes e
deve ser feito com muita atenção e responsabilidade.
Saiba que prazos muito
curtos são geralmente acompanhados de taxas de urgência, e estas são despesas
que você pode evitar. E tem mais: prazos caóticos podem afetar a qualidade do
texto final. Em breve, discutirei esse tema em mais detalhes.
Materiais de referência
Ao escrever sobre formas de evitar erros na tradução de um texto técnico, Chris Durban sugere que você use pessoas da sua empresa que sejam especialistas no assunto
para fornecer aos tradutores terminologia apropriada e materiais de referência.
Esse conselho é pertinente a todos os tipos de texto e mídia. É importante
enviar ao tradutor todos os materiais que sejam de alguma forma relacionados ao
texto a ser traduzido.
Se você tiver documentos
bilíngues relevantes, como conteúdos previamente traduzidos, nem pense duas
vezes! Outros materiais úteis são glossários (monolíngues ou bilíngues), listas
de termos preferenciais, manuais de estilo, listas de siglas, abreviações e
acrônimos escritos por extenso, etc. Em geral, os tradutores experientes estão
preparados para detectar termos pertinentes, expressões, frases e outros
elementos de estilo presentes até mesmo em textos monolíngues. Então, vá em
frente e envie aquele relatório em inglês produzido em 2002, mesmo que você não
encontre a tradução para o português. Da mesma forma, todos os textos
relevantes na língua-alvo (isto é, língua para a qual o texto é traduzido)
serão muito bem-vindos.
Esses materiais de apoio
ajudam a manter a consistência entre os textos de sua empresa e colaboram para
que seu tradutor preste um serviço de alta qualidade. Dependendo do caso, o
acesso a esses materiais pode até mesmo reduzir o cronograma de entrega.
Como você pode perceber, todos tiram proveito dessas medidas. Você aumenta suas chances de receber um texto final impecável, e os tradutores apreciam o apoio e a consideração que os ajudam a atender às necessidades de seu cliente de forma mais rápida e eficiente.
25 de agosto de 2012
Tradução na Globo Universidade
A formação de tradutores e o mercado de tradução foram o tema de várias matérias publicadas na Globo Universidade. O foco foi sobretudo na PUC-Rio, onde eu estudei e leciono. São bem aprofundadas e ótimas para tradutores profissionais ou para quem ainda está planejando a carreira.
A matéria principal é em vídeo, mas o site da Globo Universidade traz alguns artigos complementares:
Matéria em vídeo sobre diversas especializações oferecidas na PUC-Rio
Artigo sobre o mercado de tradução
Artigo sobre interpretação
Artigo sobre o mercado de tradução audiovisual e literária
Artigo sobre tradução juramentada
Achei as matérias excelentes. Raramente uma reportagem na imprensa sobre tradução passa do mais básico. Mas o mercado de tradução está crescendo muito no Brasil e o profissional vem ganhando muita visibilidade.
Do ponto de vista pessoal, o mais incrível é que eu conheço praticamente todo mundo em todas as matérias! Uns foram meus professores, outros meus colegas e outros meus alunos. O mundo da tradução é uma enorme família, mesmo.
A matéria principal é em vídeo, mas o site da Globo Universidade traz alguns artigos complementares:
Matéria em vídeo sobre diversas especializações oferecidas na PUC-Rio
Artigo sobre o mercado de tradução
Artigo sobre interpretação
Artigo sobre o mercado de tradução audiovisual e literária
Artigo sobre tradução juramentada
Achei as matérias excelentes. Raramente uma reportagem na imprensa sobre tradução passa do mais básico. Mas o mercado de tradução está crescendo muito no Brasil e o profissional vem ganhando muita visibilidade.
Do ponto de vista pessoal, o mais incrível é que eu conheço praticamente todo mundo em todas as matérias! Uns foram meus professores, outros meus colegas e outros meus alunos. O mundo da tradução é uma enorme família, mesmo.
1 de julho de 2012
Autotradução: parte tradução, parte autoria
Fazia tempo que eu queria escrever um artigo/reflexão que não fosse sobre legendagem. Este assunto já estava nos rascunhos há muito tempo, mas foi só quando li outras coisinhas por aí que decidi juntar tudo.
Você sabe o que é autotradução?
Eu ouvi falar nisso quando durante o mestrado (2003-2005), pois minha colega Maria Alice Antunes estava pesquisando esse tema para seu doutorado.
Autotradução é a tradução que alguém realiza da sua própria obra original. Quer dizer: é um autor que escreve um texto e decide, ele próprio, traduzir para outra língua.
A Maria Alice passou alguns anos investigando quais seriam as diferenças e os limites, ou as sobreposições, entre os papéis do autor e do tradutor. Quanto um autor traduz a própria obra, ele age mais como autor ou mais como tradutor? Há como perceber isso no texto? E quais seriam, exatamente, essas diferenças?
Além de muito estudo teórico e de levantar muitos outros casos de autotradução literária pelo mundo (entre os mais notórios, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e Milan Kundera traduziram suas próprias obras), Maria Alice abordou, como estudo de caso, as autotraduções que João Ubaldo Ribeiro fez para o inglês de dois romances seus, Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. João Ubaldo morou muitos anos nos EUA e se considera falante bilíngue de inglês e português.
Durante meus dois anos no mestrado, eu adorei acompanhar a pesquisa dela e as trocas de e-mails com João Ubaldo, cujo humor variava bastante e que repetidas vezes disse que sofreu horrores para fazer essas traduções e que jamais faria isso de novo. Maria Alice fez uma análise comparativa dos romances traduzidos e ia fazendo a ele várias perguntas específicas, além de contar com outros depoimentos dados por ele, inclusive um artigo que ele escreveu para a ATA sobre a experiência.
Mas o melhor foi quando a Maria Alice me pediu para fazer a revisão do texto final de sua tese. Passei vários dias debruçada sobre todo esse estudo, que é interessantíssimo e muito revelador. O texto é muito bem elaborado e essa leitura me marcou bastante.
Não vou resumir um trabalho tão amplo e complexo. Basta dizer que nada é bem o que parece e os limites não são nada claros. E, em muitos casos, aquilo que o autor/tradutor declara quanto às suas intenções, sua postura consciente e seus procedimentos não bate com o que é observado no texto, em uma análise aprofundada.
A tese de doutorado da Maria Alice Antunes está disponível aqui.
A tese foi transformada em livro, que está aqui.
Há também um grande número de artigos menores que foram sendo publicados durante e após o doutorado, como este aqui, que faz um relato mais abrangente e histórico sobre autotradução, e este aqui, que traz um pedacinho do estudo de caso.
Agora outros desdobramentos que me fizeram pensar ainda mais.
Recentemente, nem sei bem como, eu vim parar neste artigo de Olafur Gunnarsson, autor e tradutor islandês. Ele fala um pouco sobre a tradição literária islandesa, os gostos atuais dos leitores (que preferem mais literatura americana traduzida do que a sua própria, como costuma acontecer no Brasil também) e um pouco sobre a mentalidade da sociedade islandesa. Se você ler em inglês, leia! É um artiguinho delicioso.
O que mais me intrigou foi ele dizer que se sente mais temeroso e se autocensura ao escrever em islandês. É uma sociedade pequena, em que todo mundo se conhece, e parece que há gente que tem o hábito de vestir carapuças e achar que personagens e fatos relatados em histórias de ficção dizem respeito a si própria, e vai tirar satisfação com o autor.
Por isso, Gunnarsson se sente mais livre quando traduz do inglês para o islandês. Como o texto não é dele, ele não precisa se censurar ou ficar pensando se corre o risco de ofender alguém. Assim, se liberta e traduz com grande prazer. E eu tenho a impressão de sentir, nas entrelinhas, que ele se utiliza da sua prática e da sua posição de autor também nas traduções, não necessariamente sendo um tradutor submisso e temeroso com relação ao status do autor original.
E aí fica mais interessante ainda: como ele se sente mais livre adotando a identidade de tradutor, ele também escreve seus contos assim. Primeiro em inglês, que não é sua língua materna, e depois autotraduz o seu conto de volta para o islandês. Mesmo que o único texto publicado seja em islandês, ele se sente mais à vontade ao escrevê-lo fingindo que o texto veio de outro lugar.
Eu achei essa história absolutamente fascinante.
Para fechar, só mais um detalhe que encontrei e que corrobora o que Gunnarsson diz. Li o seguinte trecho num artigo do Open Culture, meu novo vício e o arqui-inimigo de quem tem prazo para entregar serviços, que comemorava o aniversário de Jack Kerouac:
Aliás, Gunnarsson traduziu Kerouac para o islandês e achou fácil e divertido.
Não sei exatamente que conclusões tirar disso, mas sinto uma enorme euforia ao ler esses depoimentos e experiências. Uma língua não é algo externo a nós, mas é algo que nos forma, que nos constrói, que molda a nossa forma de pensar e enxergar.
Eu me interesso também por estudos sobre bilinguismo, que têm insights interessantes sobre esse tipo de coisa. Ah, mas também gosto de neurolinguística... Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito.
Mas a questão é que sou bilíngue, aliás razoavelmente trilíngue, e passo praticamente todas as horas da minha vida com três línguas transitando pela minha cabeça, falando, lendo, escrevendo e transformando uma língua em outra. E, desde que comecei a ler e refletir sobre autotradução e sobre bilinguismo, esses insights (que às vezes nem são muito palpáveis) ficaram comigo e se fazem lembrar em diversos instantes do dia a dia. Tenho a impressão de que eu vivo me autotraduzindo, mesmo sem querer.
Você sabe o que é autotradução?
Eu ouvi falar nisso quando durante o mestrado (2003-2005), pois minha colega Maria Alice Antunes estava pesquisando esse tema para seu doutorado.
Autotradução é a tradução que alguém realiza da sua própria obra original. Quer dizer: é um autor que escreve um texto e decide, ele próprio, traduzir para outra língua.
A Maria Alice passou alguns anos investigando quais seriam as diferenças e os limites, ou as sobreposições, entre os papéis do autor e do tradutor. Quanto um autor traduz a própria obra, ele age mais como autor ou mais como tradutor? Há como perceber isso no texto? E quais seriam, exatamente, essas diferenças?
Além de muito estudo teórico e de levantar muitos outros casos de autotradução literária pelo mundo (entre os mais notórios, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e Milan Kundera traduziram suas próprias obras), Maria Alice abordou, como estudo de caso, as autotraduções que João Ubaldo Ribeiro fez para o inglês de dois romances seus, Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. João Ubaldo morou muitos anos nos EUA e se considera falante bilíngue de inglês e português.
Durante meus dois anos no mestrado, eu adorei acompanhar a pesquisa dela e as trocas de e-mails com João Ubaldo, cujo humor variava bastante e que repetidas vezes disse que sofreu horrores para fazer essas traduções e que jamais faria isso de novo. Maria Alice fez uma análise comparativa dos romances traduzidos e ia fazendo a ele várias perguntas específicas, além de contar com outros depoimentos dados por ele, inclusive um artigo que ele escreveu para a ATA sobre a experiência.
Mas o melhor foi quando a Maria Alice me pediu para fazer a revisão do texto final de sua tese. Passei vários dias debruçada sobre todo esse estudo, que é interessantíssimo e muito revelador. O texto é muito bem elaborado e essa leitura me marcou bastante.
Não vou resumir um trabalho tão amplo e complexo. Basta dizer que nada é bem o que parece e os limites não são nada claros. E, em muitos casos, aquilo que o autor/tradutor declara quanto às suas intenções, sua postura consciente e seus procedimentos não bate com o que é observado no texto, em uma análise aprofundada.
A tese de doutorado da Maria Alice Antunes está disponível aqui.
A tese foi transformada em livro, que está aqui.
Há também um grande número de artigos menores que foram sendo publicados durante e após o doutorado, como este aqui, que faz um relato mais abrangente e histórico sobre autotradução, e este aqui, que traz um pedacinho do estudo de caso.
Agora outros desdobramentos que me fizeram pensar ainda mais.
Recentemente, nem sei bem como, eu vim parar neste artigo de Olafur Gunnarsson, autor e tradutor islandês. Ele fala um pouco sobre a tradição literária islandesa, os gostos atuais dos leitores (que preferem mais literatura americana traduzida do que a sua própria, como costuma acontecer no Brasil também) e um pouco sobre a mentalidade da sociedade islandesa. Se você ler em inglês, leia! É um artiguinho delicioso.
O que mais me intrigou foi ele dizer que se sente mais temeroso e se autocensura ao escrever em islandês. É uma sociedade pequena, em que todo mundo se conhece, e parece que há gente que tem o hábito de vestir carapuças e achar que personagens e fatos relatados em histórias de ficção dizem respeito a si própria, e vai tirar satisfação com o autor.
Por isso, Gunnarsson se sente mais livre quando traduz do inglês para o islandês. Como o texto não é dele, ele não precisa se censurar ou ficar pensando se corre o risco de ofender alguém. Assim, se liberta e traduz com grande prazer. E eu tenho a impressão de sentir, nas entrelinhas, que ele se utiliza da sua prática e da sua posição de autor também nas traduções, não necessariamente sendo um tradutor submisso e temeroso com relação ao status do autor original.
E aí fica mais interessante ainda: como ele se sente mais livre adotando a identidade de tradutor, ele também escreve seus contos assim. Primeiro em inglês, que não é sua língua materna, e depois autotraduz o seu conto de volta para o islandês. Mesmo que o único texto publicado seja em islandês, ele se sente mais à vontade ao escrevê-lo fingindo que o texto veio de outro lugar.
Eu achei essa história absolutamente fascinante.
Para fechar, só mais um detalhe que encontrei e que corrobora o que Gunnarsson diz. Li o seguinte trecho num artigo do Open Culture, meu novo vício e o arqui-inimigo de quem tem prazo para entregar serviços, que comemorava o aniversário de Jack Kerouac:
He was born March 12, 1922 in Lowell, Massachusetts to French-Canadian immigrants. He grew up speaking the Quebec French dialect Joual, and didn’t learn English until he was six years old. “The reason I handle English words so easily,” Kerouac once said, “is because it is not my own language. I re-fashion it to fit French images.”Quer dizer, é a mesma ideia: por sentir que o inglês não era totalmente a sua língua, ele não se sentia na obrigação de se prender muito aos seus rigores e limites. Achei fantástica a noção de que ele formava imagens em francês e depois moldava a língua inglesa para tentar descrevê-las.
Aliás, Gunnarsson traduziu Kerouac para o islandês e achou fácil e divertido.
Não sei exatamente que conclusões tirar disso, mas sinto uma enorme euforia ao ler esses depoimentos e experiências. Uma língua não é algo externo a nós, mas é algo que nos forma, que nos constrói, que molda a nossa forma de pensar e enxergar.
Eu me interesso também por estudos sobre bilinguismo, que têm insights interessantes sobre esse tipo de coisa. Ah, mas também gosto de neurolinguística... Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito.
Mas a questão é que sou bilíngue, aliás razoavelmente trilíngue, e passo praticamente todas as horas da minha vida com três línguas transitando pela minha cabeça, falando, lendo, escrevendo e transformando uma língua em outra. E, desde que comecei a ler e refletir sobre autotradução e sobre bilinguismo, esses insights (que às vezes nem são muito palpáveis) ficaram comigo e se fazem lembrar em diversos instantes do dia a dia. Tenho a impressão de que eu vivo me autotraduzindo, mesmo sem querer.
29 de abril de 2012
Estamos na revista 'Língua Portuguesa'
Acaba de sair uma edição especial da revista Língua Portuguesa intitulada "Tradução & Linguagem", que aborda o mercado de tradução no Brasil.
A Bianca Bold, minha sócia, e eu participamos em duas matérias da revista:
O artigo "Profissionais conectados" aborda o uso de redes sociais e outros recursos de internet por tradutores independentes. Bianca Bold é uma das entrevistadas, e conta um pouco de sua história e dá dicas para outros profissionais. O artigo é excelente para quem estuda ou trabalha com tradução. Clique aqui para ler a matéria no site da Bianca.
"As lógicas do audiovisual" aborda a tradução de materiais audiovisuais no Brasil, com ênfase em legendagem e dublagem, e é de minha autoria (Carolina Alfaro de Carvalho). Clique aqui para ler a matéria em PDF.
Aproveito aqui para corrigir dois erros que saíram nessa matéria, mas que não foram cometidos por mim:
A Bianca Bold, minha sócia, e eu participamos em duas matérias da revista:
O artigo "Profissionais conectados" aborda o uso de redes sociais e outros recursos de internet por tradutores independentes. Bianca Bold é uma das entrevistadas, e conta um pouco de sua história e dá dicas para outros profissionais. O artigo é excelente para quem estuda ou trabalha com tradução. Clique aqui para ler a matéria no site da Bianca.
"As lógicas do audiovisual" aborda a tradução de materiais audiovisuais no Brasil, com ênfase em legendagem e dublagem, e é de minha autoria (Carolina Alfaro de Carvalho). Clique aqui para ler a matéria em PDF.
Aproveito aqui para corrigir dois erros que saíram nessa matéria, mas que não foram cometidos por mim:
- O último quadro foi intitulado "As peculiaridades do mercado de TAV" e saiu com um erro de ortografia.
- Lá no finalzinho, onde está o meu nome, consta a informação "ministra cursos de legendagem on-line na PUC-Rio", o que obviamente não faz sentido. Eu dou cursos online (à distância, portanto as aulas ocorrem no mundo cibernético e não em nenhuma cidade particular) e também dou cursos presenciais na PUC-Rio.
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