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15 de abril de 2015

Legendagem e literatura

A turma do Ponte de Letras me convidou para publicar um texto nesse excelente blog sobre tradução literária. Dê uma passadinha lá para ler "Parece literatura, mas sem o livro", que traça algumas semelhanças e diferenças entre a tradução literária e a legendagem de filmes.

6 de junho de 2014

Tradução e tênis

Além de línguas e tradução, uma das atividades que mais ocupam meu tempo é o tênis -- o esporte.

Comecei a jogar aos 7 anos e competi dos 10 aos 17. A partir dos 14 eu treinava 4 horas por dia, mas parei aos 17 quando percebi que não teria mais chance de me tornar profissional, sendo que desde os 15 ou 16 eu já estava praticamente obcecada em ser tradutora. No meu ano livre entre a formatura da escola e o início da faculdade, com 17-18 anos, dei aulas de tênis em dois clubes. Jogo regularmente até hoje e, como ao longo de toda a vida, eu me integrei à nova cidade (a terceira em que eu moro) e fiz vários bons amigos por meio do tênis. Sempre convivi com amantes desse esporte, fossem amadores ou profissionais.

Além disso, é claro, o gosto pelo estudo de línguas, gramática, literatura e tradução, além de há mais de 20 anos ser estudante ou professora de tradução (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo), define grande parte de quem eu sou, como penso, com quem me relaciono e a que dedico a maior parte do meu tempo.

Um dia desses, batendo bola, minha cabeça começou a "viajar" e tecer paralelos entre as duas atividades. Fiquei maravilhada de constatar quanta coisa elas têm em comum. Então aqui vai um pequeno exercício de reflexão: qualquer um dos itens abaixo são o que vejo e sinto tanto com relação ao campo da tradução quanto ao tênis.
  • É uma atividade notoriamente solitária, o que não quer dizer que tudo dependa somente de você.
  • Quem vê essa atividade de fora, sem conhecê-la, pensa que é algo puramente mecânico.
  • É preciso treinar a vida toda; não existe um momento em que não há mais necessidade de praticar e se aperfeiçoar. No começo é apenas para conseguir fazer o básico, mas, quanto mais alto o nível a que você chega, mais importante é treinar com regularidade para buscar estender seus próprios limites.
  • Sempre dá para melhorar.
  • É 99% ralação e 1% inspiração.
  • Se, para quem olha de fora, o que a pessoa faz parece fácil e natural, pode ter certeza de que exigiu um esforço muitíssimo maior do que se pode imaginar.
  • É preciso treinar muito, durante anos e anos, para, quando nos depararmos com algum daqueles momentos cruciais da carreira, algum desafio imenso que nos marcará pelo resto da vida, sabermos aproveitar a oportunidade.
  • Existe sorte. Mas ela não pode fazer parte da nossa estratégia. 
  • Há muita margem para discussão de regras e questionamentos. Mas dentro é dentro, e fora é fora.
  • Temos que conseguir pegar gosto -- ou ao menos aceitar e tirar satisfação -- da prática em todos os aspectos (mesmo aqueles de que a gente não gosta), do cansaço, da repetição, da frustração, da dor. Os momentos de vitórias memoráveis e reconhecimento são raros e estão diretamente relacionados a esse esforço contínuo.
  • O erro faz parte e acontece com frequência. Simplesmente não existe a possibilidade de não errar. É preciso aceitar que isso vai acontecer e saber lidar com a presença de erros de modo a não comprometer o resultado final, sua postura e autoconfiança e o prazer de continuar se dedicando àquela atividade.
  • A derrota também faz parte. É preciso saber usá-la como fonte de motivação para melhorar. Mas, se você repetidamente não consegue ganhar, há algo muito errado com o que está fazendo, e precisa reconhecer esse fato e buscar ajuda.
  • O único jeito de melhorar é nos medirmos sempre com quem é melhor do que nós.
  • É importante termos um modelo (ou alguns) daquilo que gostaríamos de ser. E é importante saber por que escolhemos justamente esse modelo.
  • Derrotar ou apontar erros de quem é tecnicamente inferior não nos torna melhor em absolutamente nada.
  • Ao cometer um erro grave, ficar remoendo ou apresentando justificativas só piora a situação. A única solução é aprender com ele imediatamente e dar um jeito de acertar da próxima vez.
  • A sensação de orgulho ao vencer é muito forte, pois lutamos sozinhos e o mérito é fortemente individual. Mas quem conquista uma vitória importante sempre tem uma enorme quantidade de gente para agradecer por ter chegado lá.
  • É preciso ter uma combinação muito especial de ambição e humildade, sempre.
  • Não se fica parado lugar. Parar é retroceder. 
  • Não se pode descansar nos louros enquanto a carreira não chegou ao fim. Isso é um pecado mortal.
  • Poucas coisas revelam nossa verdadeira ética quanto uma derrota dolorosa. Ou mesmo a possibilidade de derrota.
  • Mesmo a mais correta das pessoas tenta distorcer uma regra a seu favor ou tirar vantagem de vez em quando. Mas nada é mais difícil do que fazer o que sabemos ser correto quando somos roubados ou prejudicados de má fé. E isso acontece com frequência.
  • Fatores externos, sejam naturais ou humanos, interferem o tempo todo. Ninguém está imune a eles. Mas quem é realmente sério jamais usa esses fatores como justificativa para suas falhas.
  • É perfeitamente possível ser autodidata, mas a imensa maioria dos autodidatas terá vícios ou carências técnicas visíveis se nunca parar e se aperfeiçoar formalmente.
  • Salvo raras e honrosas exceções, é possível identificar autodidatas, amadores ou praticantes ocasionais em questão de segundos.
  • "Ter paixão" pela atividade e ser um profissional -- que faz daquela atividade a carreira de uma vida -- são coisas completamente diferentes. Ser profissional e não perder a paixão por algo que requer tamanho esforço e dedicação é que é o grande desafio.
  • Há muito espaço para ótimos profissionais que nunca vão estar no topo ou entrar para a história. Não há vergonha alguma e é possível ter uma carreira muito digna e produtiva em níveis intermediários. O grau de esforço e dedicação necessário continua sendo exatamente o mesmo.
  • Há quem tenha talento inato para a coisa, e isso é perceptível, mesmo que a gente não saiba exatamente o que é.
  • Ajudar alguém a melhorar nos faz melhorar ainda mais.
  • Nosso adversário é nosso colega. Sem ele, nós não somos nada, não temos mérito algum. Nosso inimigo de hoje é seu parceiro de amanhã, ou vice-versa.
  • É fundamental respeitar o adversário e saber reconhecer seus méritos.
  • É crucial saber separar profissão de relacionamento pessoal, apesar de essas duas dimensões se misturarem constantemente.
  • Não nos dedicamos a essa atividade porque esperamos reconhecimento. Nos dedicamos a essa atividade porque é parte de quem somos e queremos realizá-la com qualidade.
  • É uma viagem de autoconhecimento. Precisamos encarar nossos defeitos e pontos fracos, assim como descobrir e saber aproveitar nossos talentos.
  • Temos que saber estudar sós, trabalhar sós, nos defendermos sós, superarmos desafios sós.
  • Quem nos observa de fora vai nos julgar, às vezes com base em detalhes que mal percebemos. Faz parte.
  • Dizer que se é bom naquilo não significa nada. Tem que mostrar.
  • Uma vitória bonita de um de orgulho enche a todos.
  • Quem diz que não sente pressão quando outras pessoas estão assistindo ou seu nome vai ficar gravado está mentindo descaradamente. O grande mérito está em justamente não deixar o desempenho cair demais sob pressão.
  • Quem pensa que investir constantemente em instrumental de qualidade não faz diferença no desempenho não entende nada. Quem acha que só o instrumental resolve tudo também não.
  • Quanto melhor se é, mais diferença faz uma fração de segundo, um centímetro, um grau.
  • Não é algo que a gente faz. É algo que se é. É um estilo de vida, uma forma de pensar. Não só da pessoa, mas da família toda.
  • É uma atividade que transforma a nossa forma de encarar a vida e que influencia tudo o que fazemos, mesmo que sejam coisas totalmente desvinculadas da atividade em si.
  • Quando bem executada, chega a comover. Mas só para quem sabe apreciar de verdade.
  • É ciência. É arte. É malabarismo. É dança.
E tenho certeza de que não termina aqui. Provavelmente eu ainda volte para acrescentar itens na lista...
(Aliás, já acrescentei.)

Um adendo: eu escrevi sobre tênis porque, claro, é o esporte que pratiquei a vida toda e mais admiro. Tenho medo de generalizar e nem é esse o objetivo. Mas é claro que muito disto valeria também para diversos outros esportes individuais, como squash, natação, golfe ou atletismo.

13 de abril de 2014

Novamente a discussão sobre dublagem x legendagem

Eu nem me lembrava de que o último que escrevi neste blog foi sobre o debate de dublagem x legendagem, que já mais parece São Paulo x Corinthians ou Flamengo x Fluminense, com a tendência a cada lado defender suas preferências pessoais como se fossem a única verdade possível. Mas a todo momento alguma notícia reacende esse debate, mesmo que a notícia em si nem diga respeito à forma de tradução -- a mídia adora lançar polêmicas e, em frações de segundo, as pessoas voltam à briga.

Desta vez, uma longa discussão num grupo grande de tradutores profissionais surgiu por conta desta notícia sobre uma adaptação feita nas imagens do filme Capitão América para os diversos países de destino, inclusive o Brasil.

Embora eu já tenha comentado e escrito sobre o assunto em outros lugares, como nesta matéria sobre tradução audiovisual para a revista Língua Portuguesa, vejo que, mesmo entre tradutores, que supostamente deveriam ter um conhecimento um pouquinho acima da média sobre o tema, continuam sendo repetidos e reforçados argumentos infundados e baseados em preconceitos errôneos a respeito das diversas opções usadas para adaptar um filme a uma cultura diferente.

Então volto a expor minha opinião sobre essa questão -- que, para falar a verdade, não entendo bem por que rende tanto debate.

Um desses preconceitos é a noção de que um tradutor "rebelde" qualquer, por conta própria, seria capaz de modificar um filme. Ouvimos isso sobre títulos de filmes, edições de imagem, de som, adaptações na tradução, etc.


O processo de tradução e pós-produção de um filme envolve várias empresas, muita gente e muito dinheiro. O tradutor é apenas um dos elos (um elozinho praticamente dos mais insignificantes) do processo, que não tem poder para tomar nenhuma decisão que minimamente fuja do padrão. Nenhum tradutor jamais decidiu o título de um filme, imprimiu cartazes e outdoors e os espalhou por todo o país, assim como não trocou uma imagem do filme original por uma imagem com textos adaptados. Tudo isso envolve muito dinheiro, muitas decisões, e o tradutor apenas cumpre ordens, talvez dê sugestões, mas definitivamente não toma nenhuma decisão nem tem controle sobre o resultado final do processo.

Isso sem dizer que, no caso de Capitão América, se trata da Disney, a distribuidora mais controladora do mundo com relação às traduções e adaptações, cujo processo começa muitas vezes seis meses antes do lançamento de um filme.

Outro preconceito é o de associar legendagem a superioridade cultural, inteligência ou "evolução" (acreditem, vi esse termo usado em um argumento), e dublagem a inferioridade, burrice e preguiça. Basta olhar para o resto do mundo e ver que isso não se sustenta. Eu já li bastante sobre o assunto e há especulações muito variadas sobre as origens das preferências de cada cultura por dublagem ou legendagem, mas não há explicações definitivas. Faço aqui um resuminho:

Por um lado, a dublagem se tornou obrigatória em muitos países durante regimes autoritários, por facilitar a censura e alteração do conteúdo estrangeiro (caso do Brasil e de muitos países da Europa quando da disseminação do cinema falado ou da televisão). Esses mesmos regimes costumavam usar como pretexto a acessibilidade para a parcela menos letrada da população, e muita gente até hoje faz essa associação, embora não se sustente em muitos casos.

Por outro lado, a pós-produção para dublagem é um processo muitíssimo mais caro do que a legendagem. No caso do Brasil, como a lei que previa a obrigatoriedade da dublagem se aplicava à TV, quando do advento do VHS -- aqui é meio que teoria minha -- as produtoras tenderam a optar pela legendagem por ser muito mais barata, considerando o volume de novas traduções a serem feitas. O DVD também tradicionalmente tem mais opções de legendagem do que de dublagem.

Pelo que li em textos da área audiovisual, o aumento proporcional da preferência pela dublagem no Brasil tem muito a ver com o maior poder aquisitivo de classes mais baixas, aliado a um investimento maior das distribuidoras na pós-produção de filmes, visando atingir um público claramente maior. O interesse é comercial, e mútuo. As distribuidoras não gastariam muitíssimo mais em adaptar o som e as imagens de um filme se isso não lhes desse um retorno bem maior do que inserir legendas, que é muito mais barato.


Cheguei a ver o argumento de que o aumento dos filmes dublados no brasil faria parte de um projeto político de emburrecimento da população. Pessoalmente, acho essa ideia teoria da conspiração demais, até porque esse argumento se baseia em um preconceito infundado (ou será que a população alemã é mais burra agora do que era há 50 anos?) e porque, particularmente, acredito que os interesses econômicos são muito mais fortes que os puramente políticos.

Já quanto às preferências pessoais (menos ou mais acaloradas) por legendagem ou dublagem, pelo que observo em diversos grupos e diversos países, é apenas questão de hábito e de gosto. Para alguns, não ouvir os diálogos na língua original é insuportável; para outros, ter que ler texto aplicado na parte de baixo da tela é um crime contra a experiência cinematográfica. Vai ter gente que odeia de morte uma ou outra forma, assim como tem gente capaz de morrer pelo Bragantino, mas aí se tratam de paixões pessoais, pouco fundamentadas na razão.

No Brasil, a parcela da população capaz de entender um filme estrangeiro sem tradução é tão ínfima que deve ser irrelevante para fins comerciais. A legenda obviamente não se destina a essa parcela. Aliás, eu arriscaria dizer que mesmo entre tradutores profissionais só uma parte bem pequena conseguiria entender realmente bem um filme falado na nossa segunda língua. Com apoio de legendas, quem já é bastante fluente na língua estrangeira consegue ir comparando original e tradução e preenchendo as lacunas, e assim formar a ilusão de que está entendendo a língua estrangeira (eu sou assim com francês: quando vejo filme legendado, sou francófona nata! Já sem legendas, só entendo "bonjour" e olhe lá.)


Pelo que vejo, essas pessoas costumam preferir a legendagem dos filmes na língua estrangeira que entendem razoavelmente. Já em outras línguas, tenho minhas dúvidas. Eu, por exemplo, gosto de animações japonesas, mas acho muito cansativo ver filmes longos legendados. Moro no Canadá e vejo filmes do Miyazaki no cinema dublados em inglês, feliz da vida. Talvez mais de um pense que a dublagem em inglês é muito melhor que a dublagem em português, mas nesse caso eu diria que é mais um preconceito bem arraigado.

Apenas para deixar claro: eu não sou "defensora" da dublagem. Nem sei fazer tradução de roteiros para dublagem. Sou tradutora especializada e professora de legendagem, e pessoalmente prefiro assistir a filmes legendados, na maioria dos casos. Só acho meio frustrante ver esses preconceitos contra a dublagem serem reproduzidos sem uma reflexão um pouco mais aprofundada, principalmente por quem é da área de tradução.

29 de junho de 2013

Como falar da profissão

Penso que qualquer tradutor, principalmente os autônomos (a maioria de nós), já passou por algum aperto ao falar da própria profissão. Aquelas perguntas do tipo "Mas você também trabalha?", ter que ouvir um desfile de "pérolas" vergonhosas, etc.

Também é comum, nos meios de interação entre profissionais, a tradicional choradeira dos pobres coitados tradutores que ninguém reconhece, que só se sacrificam, que não têm horário, que não tem vida e tudo mais. Já devo ter presenciado cem vezes a situação em que alguém reclama por passar um feriado prolongado inteiro trabalhando até de madrugada, ao que outro responde que ele é que tem sorte por ter algum tipo de trabalho.

A vida não é fácil, e a vida de profissional autônomo não é para qualquer um. Aliás, a vida de assalariado também não é, porque aí tem toda uma outra série de dificuldades e motivos para choramingar.

Também não é trivial mudar a postura, própria ou alheia, com relação à profissão. Eu sempre aprendi, apliquei e senti na pele que a nossa imagem é a gente que constrói, que respeito é a gente que se dá, que valorização começa por nós mesmos. Mas "falar é fácil", dizem muitos.

Outra tendência é cada um de nós olhar para outro colega ou para outra profissão e achar que todos se dão bem, exceto nós. E aí também tem aquela situação recorrente: se um intérprete reclama de alguma coisa na profissão, chega um tradutor e diz: "Ah, é? Experimenta ser tradutor, para ver o que é bom." Aí chega o revisor: "Pois então vai ser revisor para ver o que é sofrer!" E então chega o professor de línguas: "Vocês reclamam de barriga cheia! Experimentem ser professores..." E aí vem a secretária, e assim sucessivamente.

Mas então não vamos falar de tradutores, intérpretes ou revisores, nem nada que tenha a ver com a nossa profissão. Vamos olhar para uma situação completamente diferente.

O vídeo a seguir caiu nas minhas mãos como parte das traduções que eu faço para a Royal Opera House. Foi exibido nos cinemas, no intervalo da transmissão da ópera "Nabucco", e relata o dia-a-dia do coro permanente da Royal Opera. Eu adorei, porque já cantei em coral e adoro canto coral. Mas, ao fazer essa tradução, tive uma série de revelações e uma epifania: É ISSO! É ASSIM que nós devíamos falar da nossa profissão!

Assista atentamente e depois continue lendo o que eu pensei quando traduzi esse vídeo.


Logo de cara, sabemos que um cantor de coral é um cantor profissional (nesse caso), mas não se destaca. Ele serve ao conjunto e cada componente tem um papel essencial, mas esse papel não inclui dar showzinhos particulares. Durante a apresentação, eles são praticamente "invisíveis" como indivíduos. Mas a valorização da profissão se dá por cumprirem esse objetivo e em outros momentos, como nesse vídeo, quando falam de si próprios e de seu trabalho.

Em 00:28, há um depoimento muito comum: "Isso é emprego de verdade?" Imagine quantas vezes eles não devem ouvir isso, assim como nós. Não estamos sós.

Em seguida, fica claro que, apesar de se apresentarem até tarde da noite, nem sempre têm a manhã livre, como deveriam. Quer dizer, não é aquele empreguinho com horário fixo, 8 horas por dia. Ainda assim, o cantor enfatiza a empolgação que é fazer aquilo todo dia.

Em 1:08, ele diz que eles preparam 4 ou 5 óperas ao mesmo tempo, em diversas línguas. Preciso enfatizar as semelhanças com os tradutores?

A partir de 1:50, são mostrados os ensaios de "Nabucco". Fica claro que eles passam muito tempo preparando uma única peça. A dedicação, o esmero, a atenção aos detalhes são absolutos, mesmo que o resultado final seja transitório e presenciado por poucos. Mas eles não estão reclamando disso. É justamente isso que torna seu trabalho tão especial.

2:16: o regente demanda muitíssimo deles, diz a cantora. E complementa: "Isso é ótimo!"

3:02: as cantoras falam de quanto texto e quantas informações devem reter na memória, mas por pouco tempo, para depois fazer outra coisa. Mentalmente, achei muito semelhante ao nosso trabalho de pesquisa para cada um dos diferentes projetos. Repare que elas descrevem a própria capacidade mental com orgulho, como algo especial.

3:34: o cantor fala da profissão, extremamente competitiva. A cantora relata que, quando ela se candidatou, eram 400 candidatos para 4 vagas. Sim, é um emprego fixo, mas fica claro que só os mais qualificados chegam lá. Há várias diferenças com os profissionais autônomos, mas convenhamos, entre os autônomos o objetivo não é apenas conseguir um novo cliente, mas principalmente retê-lo, ser o tradutor preferencial daquele cliente durante décadas, assim como esses cantores deixam claro: ninguém quer largar o osso, pois muita gente gostaria de estar no lugar deles. E, para se manter lá, é preciso ser impecável no trabalho.

No mesmo tema, em 4:20 a cantora resume o que, na minha opinião, é a chave da valorização da profissão: "Nós fomos escolhidos para estar aqui e nos esforçamos para chegar até onde estamos. E é por isso que este coro tem tamanha qualidade". Repare na circularidade: é um trabalho que exige demais e demanda os melhores, e é graças a eles, os melhores, que o resultado tem tanta qualidade. Fica o recado de que não é bico, não é para qualquer um. É difícil entrar, é difícil permanecer e, se o resultado é bom, é graças a nós. Percebeu que eles nem por um instante se preocupam com os cantores que não chegaram lá, ou com outros empregos piores? Isso não importa, o que importa é valorizar o seu emprego e assim, necessariamente, valorizar a si próprio.

4:30: a cantora fala dos horários estranhos de trabalho, principalmente à tarde e à noite. Fica claro que ela tem filhos e que não é sempre que está com eles durante o dia. Mas nada de xororô: "É brilhante!"

Em 4:45, todo o trecho do ensaio de 80 britânicos dirigidos por três italianos é hilário. Agora, veja bem: a mesma situação poderia ser pintada como caótica, inadmissível. Alguém poderia dizer que não foi contratado para fazer esse tipo de palhaçada. Mas não: estão todos no mesmo barco, dentro do possível se divertem e seguem em frente. Às vezes é um caos, mas o importante é que no fim dê tudo certo.

A partir de 5:45, quando mostram o camarim, achei interessante ver que também faz parte do trabalho dos cantores passar bastante tempo sem cantar. Ainda assim, é necessário. Eu às vezes passo a maior parte do dia preparando orçamentos ou fazendo transações bancárias ou esperando algo acontecer. Mas eles apresentam todo aquele universo como algo bom, entretido, em que eles se integram, se conhecem, se preparam. Achei muito interessante ver que mesmo essa situação é retratada como algo positivo.

Em 6:41, temos uma boa noção da intensidade de trabalho e da pressão sobre esses profissionais, que trabalham em tantas obras simultâneas que às vezes nem se lembram qual é a daquela noite. Dá para sentir a tensão dos minutos logo antes da hora H. Há os últimos detalhes, o figurino, o palco... Mas, novamente, nada de reclamações. Tem que cantar vestindo armadura? Vamos nessa.

7:35: agora é o regente que elogia a dedicação dos cantores. Aqui eu pensei que bom, é como em todo "making of" de qualquer produção, todo mundo acha tudo lindo e maravilhoso. Puro marketing. Mas bom, quando nós falamos bem de nossos clientes, quando relatamos para amigos os projetos em que estamos envolvidos, isso também não é marketing? É marketing do nosso próprio trabalho. Quem é que vai fazer marketing para nós, senão nós? A empolgação e emoção com que cada um desses profissionais fala de cada música, de cada obra e do próprio trabalho é contagiante. Há problemas? É claro que há! Mas não são os problemas que eles vão sair divulgando por aí.

E, bem ao fim do vídeo, é enfatizada a dedicação deles para com o público, que é quem realmente importa. Aqueles instantes podem transformar muitas pessoas. Você é um anônimo no meio de 80 e seu trabalho é sacrificado, mas tem um poder transformador.

É assim que eu gostaria de falar e ver falarem da minha profissão. Já comecei.

30 de setembro de 2012

Feliz dia do tradutor!


30 de setembro é o dia do tradutor. É a data em que se comemora São Jerônimo, que traduziu a Vulgata (versão da bíblia em latim) no século IV.

Há uma grande quantidade de pinturas que ilustram cenas da vida de São Jerônimo. Ele é sempre retratado idoso, magro, geralmente careca (com o crânio protuberante), de barbas longas e túnica, geralmente vermelha. Quase sempre está cercado de livros ou papéis e é acompanhado de um leão domesticado, e quase sempre tem ao seu lado uma caveira, símbolo de memento mori, a lembrança da mortalidade iminente.

Muitas pinturas mostram Jerônimo em situação dramática: quase nu, muito magro, debruçado sobre a mesa de trabalho, lutando com o texto.

Eu só fui me deparar recentemente com a pintura acima, de Andrea Mantegna, feita em 1450. Gostei muito dela e acho que ela tem muito a ver com os tradutores.

Primeiro, ele está numa caverna. Convenhamos, todos os tradutores têm um lado ermitão, que sabe apreciar a solidão e o silêncio. Para quem olha de fora, nosso escritório pode parecer um buraco empoeirado, mas é onde a gente se sente realmente em casa.

Ele está vestido, mas largou o chapéu e as sandálias porque a gente trabalha em casa e fica à vontade, mesmo.

É importante estar sempre hidratado, e nesse quadro São Jerônimo tem um riozinho de água cristalina passando bem na frente da caverna.

O leão domesticado virou um gatinho -- tradutores são grandes amigos dos felinos -- que olha para ele com uma carinha de "faz tempo que ninguém brinca comigo..." Os meus também me olham assim às vezes. Como todos sabem, é daí que se origina o termo "CAT tools" ;-)

Na frente da caverna, bebendo água, tem um passarinho vermelho que parece um cardeal, e em cima da caverna tem uma coruja. Achei bacana ter uma ave bem diurna e alegre e outra noturna. Tradutor está na ativa dia e noite, e muitos tradutores têm fortes tendências estrigiformes.

E o próprio Jerônimo está com cara de cansado, mas ainda matutando, procurando aquela palavra que falta, aquela adaptação aparentemente impossível. Está rezando para o santo protetor dele... quem será o São Jê do São Jê?

Acho que está um pouco triste porque a internet ainda não foi inventada. Devem ter sido uma barra esses tempos primitivos pré-banda larga. Hoje a gente pesquisa instantaneamente o corpus do mundo todo, usa dicionários digitais, memória de tradução, e troca ideias com milhares de tradutores pelo mundo. Mas, mesmo assim, tem dia que só mesmo Jerônimo para mandar uma inspiração.

Parabéns a todos os tradutores pelo dia de hoje! Não existiria aldeia global sem a nossa dedicação a cada palavrinha que transformamos na nossa cabeça para que as pessoas se entendam.

* * * * *
DIA DO TRADUTOR, parte 2

Ontem (dia 30 de setembro) tinha tanta coisa interessante sendo postada em blogs, Facebook etc. sobre o dia do tradutor que eu me vi, mais uma vez, navegando pelo Google Images em busca de representações de São Jerônimo que eu ainda não conhecia, o que inevitavelmente me fez relembrar outras que eu tinha esquecido.

Foi então que percebi que o nosso querido São Jê passou por todas as mesmas fases que a gente enfrenta na nossa rotina profissional, sobretudo durante aqueles projetos "memoráveis" que todos nós encaramos de vez em quando. É tudo questão de pôr as imagens na ordem certa:


Fase 1, Van Eyck: São Jê começa o dia de trabalho. Está descansado e concentrado. Tomou um bom café da manhã, fez a barba, se vestiu, alimentou o leãozinho. Seu escritório está razoavalmente organizado e ele cuida da ergonomia, pois sabe que o projeto será longo.


Fase 2, Caravaggio: Ele está totalmente compenetrado no trabalho. Fica mais à vontade, com as roupas mais soltas. Se debruça sobre a mesa. Seu cérebro cresce visivelmente e sua produtividade atinge o ápice. Memento mori: ele é constantemente lembrado de que precisa terminar o serviço antes que a morte venha buscá-lo.


Fase 3, Pieter Coecke van Aelst: As coisas começam a não sair do jeito esperado. Há trechos para os quais não parece haver solução. A vela se apagou, o leão faminto fugiu de casa, e ele nem notou. Desesperado, discute com a caveira.


Fase 4, Lionello Spada: Esqueça a mesa, ela atrapalha. As roupas também são praticamente eliminadas, já que ele não tem planos de encontrar outro ser humano tão cedo. Ele está envelhecendo precocemente e agora precisa de óculos. Tem ao seu lado o crucifixo, pois precisa de inspiração divina e não quer perder o norte. A caveira morreu (de novo).


Fase 5, Simon Vouet: São Jê está delirante. Um anjo efetivamente desce em seu auxílio, mas São Jê discute com ele. O que esse moleque pensa que sabe sobre tradução? E ainda por cima com uma vuvuzela, era só o que faltava! O horror, o horror.

Mas eis que sim, o projeto finalmente termina. Ele sobreviveu! Em retrospecto, até que não foi tão ruim assim. E, quando o trabalho é publicado, a sensação de orgulho é indescritível. Ser tradutor é a melhor profissão do mundo!

1 de julho de 2012

Autotradução: parte tradução, parte autoria

Fazia tempo que eu queria escrever um artigo/reflexão que não fosse sobre legendagem. Este assunto já estava nos rascunhos há muito tempo, mas foi só quando li outras coisinhas por aí que decidi juntar tudo.

Você sabe o que é autotradução?

Eu ouvi falar nisso quando durante o mestrado (2003-2005), pois minha colega Maria Alice Antunes estava pesquisando esse tema para seu doutorado.

Autotradução é a tradução que alguém realiza da sua própria obra original. Quer dizer: é um autor que escreve um texto e decide, ele próprio, traduzir para outra língua.

A Maria Alice passou alguns anos investigando quais seriam as diferenças e os limites, ou as sobreposições, entre os papéis do autor e do tradutor. Quanto um autor traduz a própria obra, ele age mais como autor ou mais como tradutor? Há como perceber isso no texto? E quais seriam, exatamente, essas diferenças?

Além de muito estudo teórico e de levantar muitos outros casos de autotradução literária pelo mundo (entre os mais notórios, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e Milan Kundera traduziram suas próprias obras), Maria Alice abordou, como estudo de caso, as autotraduções que João Ubaldo Ribeiro fez para o inglês de dois romances seus, Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. João Ubaldo morou muitos anos nos EUA e se considera falante bilíngue de inglês e português.

Durante meus dois anos no mestrado, eu adorei acompanhar a pesquisa dela e as trocas de e-mails com João Ubaldo, cujo humor variava bastante e que repetidas vezes disse que sofreu horrores para fazer essas traduções e que jamais faria isso de novo. Maria Alice fez uma análise comparativa dos romances traduzidos e ia fazendo a ele várias perguntas específicas, além de contar com outros depoimentos dados por ele, inclusive um artigo que ele escreveu para a ATA sobre a experiência.

Mas o melhor foi quando a Maria Alice me pediu para fazer a revisão do texto final de sua tese. Passei vários dias debruçada sobre todo esse estudo, que é interessantíssimo e muito revelador. O texto é muito bem elaborado e essa leitura me marcou bastante.

Não vou resumir um trabalho tão amplo e complexo. Basta dizer que nada é bem o que parece e os limites não são nada claros. E, em muitos casos, aquilo que o autor/tradutor declara quanto às suas intenções, sua postura consciente e seus procedimentos não bate com o que é observado no texto, em uma análise aprofundada.

A tese de doutorado da Maria Alice Antunes está disponível aqui.
A tese foi transformada em livro, que está aqui.
Há também um grande número de artigos menores que foram sendo publicados durante e após o doutorado, como este aqui, que faz um relato mais abrangente e histórico sobre autotradução, e este aqui, que traz um pedacinho do estudo de caso.

 Agora outros desdobramentos que me fizeram pensar ainda mais.

Recentemente, nem sei bem como, eu vim parar neste artigo de Olafur Gunnarsson, autor e tradutor islandês. Ele fala um pouco sobre a tradição literária islandesa, os gostos atuais dos leitores (que preferem mais literatura americana traduzida do que a sua própria, como costuma acontecer no Brasil também) e um pouco sobre a mentalidade da sociedade islandesa. Se você ler em inglês, leia! É um artiguinho delicioso.

O que mais me intrigou foi ele dizer que se sente mais temeroso e se autocensura ao escrever em islandês. É uma sociedade pequena, em que todo mundo se conhece, e parece que há gente que tem o hábito de vestir carapuças e achar que personagens e fatos relatados em histórias de ficção dizem respeito a si própria, e vai tirar satisfação com o autor.

Por isso, Gunnarsson se sente mais livre quando traduz do inglês para o islandês. Como o texto não é dele, ele não precisa se censurar ou ficar pensando se corre o risco de ofender alguém. Assim, se liberta e traduz com grande prazer. E eu tenho a impressão de sentir, nas entrelinhas, que ele se utiliza da sua prática e da sua posição de autor também nas traduções, não necessariamente sendo um tradutor submisso e temeroso com relação ao status do autor original.

E aí fica mais interessante ainda: como ele se sente mais livre adotando a identidade de tradutor, ele também escreve seus contos assim. Primeiro em inglês, que não é sua língua materna, e depois autotraduz o seu conto de volta para o islandês. Mesmo que o único texto publicado seja em islandês, ele se sente mais à vontade ao escrevê-lo fingindo que o texto veio de outro lugar.

Eu achei essa história absolutamente fascinante.

Para fechar, só mais um detalhe que encontrei e que corrobora o que Gunnarsson diz. Li o seguinte trecho num artigo do Open Culture, meu novo vício e o arqui-inimigo de quem tem prazo para entregar serviços, que comemorava o aniversário de Jack Kerouac:
He was born March 12, 1922 in Lowell, Massachusetts to French-Canadian immigrants. He grew up speaking the Quebec French dialect Joual, and didn’t learn English until he was six years old. “The reason I handle English words so easily,” Kerouac once said, “is because it is not my own language. I re-fashion it to fit French images.”
Quer dizer, é a mesma ideia: por sentir que o inglês não era totalmente a sua língua, ele não se sentia na obrigação de se prender muito aos seus rigores e limites. Achei fantástica a noção de que ele formava imagens em francês e depois moldava a língua inglesa para tentar descrevê-las.

Aliás, Gunnarsson traduziu Kerouac para o islandês e achou fácil e divertido.

Não sei exatamente que conclusões tirar disso, mas sinto uma enorme euforia ao ler esses depoimentos e experiências. Uma língua não é algo externo a nós, mas é algo que nos forma, que nos constrói, que molda a nossa forma de pensar e enxergar.

Eu me interesso também por estudos sobre bilinguismo, que têm insights interessantes sobre esse tipo de coisa. Ah, mas também gosto de neurolinguística... Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito.

Mas a questão é que sou bilíngue, aliás razoavelmente trilíngue, e passo praticamente todas as horas da minha vida com três línguas transitando pela minha cabeça, falando, lendo, escrevendo e transformando uma língua em outra. E, desde que comecei a ler e refletir sobre autotradução e sobre bilinguismo, esses insights (que às vezes nem são muito palpáveis) ficaram comigo e se fazem lembrar em diversos instantes do dia a dia. Tenho a impressão de que eu vivo me autotraduzindo, mesmo sem querer.

19 de novembro de 2011

Tradução audiovisual e "censura"

Antes de mais nada, uma pergunta: onde quer que você more, seja no Brasil ou em algum outro país, qual é a sua impressão sobre o linguajar usado em legendagem e dublagem de filmes comerciais, em cinemas e canais de TV? Ele tende a ser conservador ou explícito em termos de termos ofensivos, expletivos, escatologia, etc.? Você já criticou negativamente uma tradução por ser "careta" demais? E já se indignou com uma tradução que, na sua opinião, tinha excesso de palavrões?

Quem já esteve do lado dos bastidores da legendagem sabe que os clientes, sobretudo dos meios de entretenimento (circuito de cinema, TV e DVD), têm manuais extensos com várias regras a serem seguidas. Não falo só de questões técnicas como a relação entre a duração da fala e o máximo de caracteres permitidos, mas também de vocabulário e estilo. Muitos não permitem o uso de linguagem de baixo calão ou, no mínimo, pedem para amenizá-la; canais de TV muitas vezes têm restrição a merchandising na tradução, mesmo que uma marca seja dita explicitamente no filme; e há diversas preocupações com a correção da linguagem escrita.

Geralmente, o resultado ainda fica dentro do razoável. O objetivo da legendagem é transmitir a mensagem de uma forma bem mais concisa, pois nós demoramos bem mais tempo para ler uma frase escrita do que para entender uma frase oral, então muitas nuances acabam ficando de fora. As dificuldades são muitas, mas na maioria das vezes o estilo condiz com o contexto.

Às vezes, o cliente -- seja a distribuidora do filme ou o canal de TV a cabo, por exemplo -- é excessivamente cauteloso ou impõe regras demais sem considerar cada tipo diferente de material, e a tradução acaba ficando "careta" demais, a ponto de causar um efeito quase ridículo. Nesses casos, muitos espectadores, e tradutores também, percebem e reclamam da "censura" à tradução.

No caso de filmes "independentes" ou para um público restrito, como o de um festival de cinema, a linguagem usada costuma ser mais livre.

Eu fiz um estudo bastante aprofundado sobre as diretrizes de controle da linguagem e escrevi um artigo que será publicado em breve em uma edição especial da revista Meta, que explora a relação entre tradução audiovisual e política. Passei um ano pensando e pesquisando esse assunto e, naturalmente, continuo reparando em discussões sobre o uso de linguagem de baixo calão em legendas. Então agora aproveito para reunir algumas situações interessantes relatadas na imprensa.

No dia 17 de novembro foram publicados dois artigos relacionados, um pela BBC News e outro pela Radio Times. Em resumo, a série dinamarquesa "Forbrydelsen" (traduzida em inglês como "The Killing" e também adaptada como remake americano com o mesmo nome) é exibida pela BBC no Reino Unido, na língua original -- dinamarquês -- com legendas em inglês. Tudo indica que a primeira temporada foi traduzida com tantos palavrões quanto os que eram ditos no original. Agora, para a segunda temporada, a BBC pediu à produtora responsável pela tradução para amenizar os palavrões. A instrução é a de que, quando um expletivo comportar diversas traduções possíveis, é melhor "pecar pelo excesso de cautela" em vez de optar pela forma mais forte. A justificativa para essa atitude seria a reclamação de um espectador que fala dinamarquês e teria dito que diversos expletivos foram traduzidos de maneira mais forte do que são entendidos em dinamarquês.

Eu não tenho como avaliar se quem reclamou tem razão ou não. Tudo indica que a maioria das pessoas viu a série, pelo visto traduzida com bastantes palavrões, e não se incomodou. Mas alguém achou que ficou pesado demais, sem necessidade. E, por conta dessa reclamação, a temporada seguinte vai ter uma tradução um pouco mais "família". Nos artigos citados, entram também os argumentos da concisão e de que a legendagem é uma adaptação. E, como essa discussão saiu na imprensa, quem nem tinha parado para pensar no estilo e linguajar dessa tradução (sempre a imensa maioria do público) agora vai prestar mais atenção.

São os mesmos argumentos usados pelas produtoras brasileiras, que tendem a preferir não correr o risco de ofender ninguém, mesmo que isso implique uma amenização de toda a linguagem, para todos os espectadores. Esses argumentos são o cerne do estudo que eu fiz, e é interessante constatar que não são privilégio do Brasil (coisa que eu já sabia, mas sempre é bom frisar).

Outro fator que pesa muito é o da tradição. Desde sempre, nós assistimos filmes e programas estrangeiros com traduções amenizadas. O que nós consideramos "normal" já passa por um filtro.

Uma prova disso é este outro caso, de uns três anos atrás, mas que eu guardei porque achei fascinante. Em resumo, na décima temporada, a dublagem brasileira de "South Park" decidiu liberar o uso de palavrões. O programa em inglês tem linguajar bem pesado e, após bastante tempo, os produtores no Brasil parecem ter decidido que a versão em português também poderia ser mais explícita. A consequência foi o argumento, quase indignado, de que o registro dos diálogos em português estaria mais baixo do que em inglês. O exemplo citado é o de "fuck you" que, segundo o autor da matéria (não creditado), não deveria ser traduzido por "foda-se" e sim por "dane-se" (com ênclise, veja bem, pois é assim que as pessoas falam no dia a dia, não é?)

Admito que tenho dificuldade em compreender a conclusão da matéria: "Assim, (...) os pedófilos do clube repetem insistentemente frases que, se fossem ditas no inglês do desenho, não teriam uma conotação tão desrespeitosa para o Brasil." No Brasil não se fala inglês então ninguém entenderia, mas me parece que o autor quis dizer que os diálogos em inglês são menos desrespeitosos do que os adaptados ao português.

Quer dizer: muita gente se queixa da "censura" ao linguajar das traduções de filmes, mas, na prática, a presença de palavrões ainda choca, dando a impressão de ser excessiva ou injustificada.

Eu também já vi (e ouvi relatos semelhantes de) gente que se choca com o linguajar de filmes nacionais. Não é difícil encontrar esse tipo de queixa na internet, de que os filmes brasileiros seriam muito mais vulgares, em termos de linguagem, do que os estrangeiros. É claro que isso não é verdade; há filmes com mais e com menos palavrões em qualquer país. Mas, primeiro, estamos habituados a assistir a materiais estrangeiros filtrados pela tradução e, segundo, palavrões na nossa língua materna causam muito mais impacto do que aqueles ditos em uma língua estrangeira que não está tão "entranhada" em nós. É por isso que "fuck you" parece mais suave do que "vá se foder".

Outra experiência sempre interessante é nos vermos através dos olhos do estrangeiro, quando as nossas obras são traduzidas. De repente, é o gringo que nos traduziu que amenizou, pasteurizou, não captou nuances, perdeu detalhes que constituem a verdadeira alma daquela obra. É infalível: um crítico nunca consegue ser isento quando vê um pedacinho da cultura brasileira adaptado de forma que os estrangeiros compreendam, e acha aquilo um verdadeiro ultraje.

Veja esta matéria curiosíssima sobre a exibição de "Tropa de Elite" em Cannes, em 2008. Todas as expressões listadas visam ilustrar o quanto a tradução amenizou e neutralizou o filme, perdendo detalhes cruciais. Mas o artigo afirma que, apesar de tudo isso, o público conseguiu gostar do filme. Agora examine os exemplos e me diga sinceramente: algum deles está mal traduzido ou amenizado? Eu juro que não consegui detectar nenhum problema ali.

Sim, o problema é que o filme foi traduzido com interpretação simultânea, pois o público era falante de diversas línguas. A solução encontrada para fazer uma única exibição do filme e traduzi-lo em três línguas foi interpretá-lo. E a intérprete de inglês era mulher, o que, aparentemente, causou algum estranhamento, visto que quase todos os personagens do filme são homens. (Só sei que eu pagaria muito, mas muito mesmo, para eu não ser aquela intérprete.) Quer dizer, a modalidade de tradução pode ter dificultado o envolvimento com o filme, mas, na minha opinião, não há muito o que criticar na tradução em si.

Enfim, a conclusão é que não há unanimidade em termos de estilo em tradução audiovisual. Do ponto de vista do cliente, imagine ter que lidar com espectadores que ora reclamam da "censura" e do conservadorismo extremo das traduções, ora ficam indignados com o excesso de palavrões. É uma situação delicada.

17 de dezembro de 2010

Motivação versus Procrastinação, e os respectivos resultados

Nos últimos meses, muitas coisas que tenho feito e visto me fizeram refletir sobre produtividade, sobre o que motiva e o que atrapalha a nossa rotina de trabalho, e como tudo isso reflete na nossa imagem e nosso sucesso profissional. Basta ver as últimas entradas aqui no blog. Hoje vou reunir mais algumas reflexões e informações sobre isso.

Recentemente, concluí a tradução de um livrinho sensacional, que teve grande impacto em mim. Rework, escrito pela empresa de desenvolvimento de software 37 Signals. No site do livro é possível ler alguns dos capítulos em PDF.

Adorei fazer essa tradução, com a qual também aprendi muito. O livro vai ser publicado pela Sextante em algum momento em 2011, ainda não sei com que título.

Pequeno, com capítulos minúsculos, escrito em linguagem simples e direta, permeado de ilustrações, ele se destina a empresários ou gente que deseje começar um negócio, ou talvez nem isso. Mas é muito diferente de qualquer outro livro do tipo auto-ajuda empresarial que há por aí. Ele desmistifica muitas noções sobre negócios que vivemos ouvindo e diz umas boas verdades, mas sempre com muito bom senso e uma franqueza quase excessiva. Praticamente todos os assuntos abordados no livro podem ser aplicados a profissionais autônomos também, sobretudo aos tradutores que têm empresa. Eu me vi refletida em muitos capítulos -- ou vi meu passado, minha formação, empregos anteriores, colegas. Mesmo em situações típicas do dia-a-dia em um escritório, que não têm nada a ver comigo, eu vi ali parentes e amigos. Recomendo muito a leitura e posso garantir que ela vai ter impactos positivos sobre a rotina e o aspecto administrativo do trabalho de qualquer tradutor.

Há reflexões valiosas sobre a preparação e o lançamento de novos empreendimentos, divulgação, conceitos de negócios, uso de tecnologia, cooperação à distância, concorrência, e muito sobre produtividade e motivação. Não quero entregar o ouro aqui, mas muita coisa me marcou. Nem tudo é novidade, mas dito de uma forma tão eloquente, com ótimos exemplos reais, o texto acaba reforçando o que a gente no fundo já sabe, além de nos dar alguns merecidos tapas na cara. Por exemplo:
  • Tudo o que se faz, diz, escreve, cada telefonema, cada nota fiscal, cada email -- tudo -- é marketing.
  • Ser workahólico, virar noites e fins de semana, dormir pouco e comer mal, e ainda se orgulhar disso, no fim das contas é ser incompetente, desorganizado, atrapalhado. Trabalhar muito nada tem a ver com trabalhar bem.
  • Ter ideias brilhantes ou fazer grandes planos não é mérito algum; o que realmente faz a diferença é realizar de fato uma sucessão de pequenas boas ideias, diariamente.
  • As ferramentas atuais de interação revalorizaram a escrita -- emails, mensagens de texto, sites, blogs. A comunicação deve ser eficiente, clara, informativa. Escrever bem é fruto da clareza e da organização dos pensamentos; portanto, ao recrutar parceiros, dê preferência a quem escreve bem. (O que entre tradutores é importante ao quadrado!)
  • Quer ser imune à concorrência? Faça com que seu produto seja você mesmo, algo que só você é capaz de fazer, o seu jeito de ser, algo inimitável. Não apenas o resultado do seu trabalho, mas toda a experiência de se trabalhar com você. (Outra que se aplica mais ainda aos tradutores, em contraposição a empresários de outras áreas.)
  • Para se destacar e ter diferencial, compartilhe e ensine. Quanto mais as pessoas queiram fazer aquilo que você faz, do jeito que você faz, mais você se estabelece como líder.
  • Nosso grande inimigo são as interrupções; só rendemos quando conseguimos trabalhar durante um tempo sem nenhum tipo de interrupção, portanto é preciso programar períodos de trabalho assim.
  • O que impulsiona a produtividade é a motivação, e esta é fruto de diversos fatores, entre eles um ambiente propício, metas atingíveis e pequenos sucessos diários -- mais sobre esta questão em seguida.
E muito, muito mais. De novo, recomendo a leitura.

Também recentemente, participei de uma convenção para pequenos empreendedores organizada pela prefeitura aqui de Toronto. Confesso que de início não dei muito crédito -- uma coisa assim pública, de graça... sei lá, né? Mas foi excepcional. Palestras ótimas, começando com um dos diretores da Google no Canadá, e com muitos painéis sobre mídia digital, ferramentas de marketing e negócios, etc. Em um salão cheio de computadores, voluntários ajudavam quem quisesse aprender e abrir contas em Twitter, LinkedIn e outros sites de networking. Ao fim do dia, saí de lá com energia total para melhorar minha produtividade, selecionar melhores clientes, fazer parcerias mais produtivas.

E nem sei dizer por que, mas tenho a impressão de que só essa motivação, essa vontade de ser eficaz, de reforçar as coisas que eu claramente venho fazendo direito e corrigir o que não está legal, já gera resultados positivos, mesmo que a gente não faça nada muito notável. Acho que só o fato de estabelecermos certas prioridades ou termos certos aspectos mais claros na cabeça já se traduz em produtividade -- e eficácia e produtividade se traduzem em elogios, serviços melhores, mais dinheiro, mais tempo para fazer o que a gente gosta, e tudo isso produz mais motivação, é claro.

Falando em motivação, descobri hoje, através de um link no Twitter, esta palestrinha belamente ilustrada sobre os resultados de uma pesquisa a respeito de motivação -- que tipo de recompensa gera bons resultados, nos faz vencer desafios. Estilo TED Talk, curta e direta. De novo, no fundo não diz nada que a gente já não saiba ou intua, mas ver isto me encheu de entusiasmo:



Não é a mais pura verdade? Já presenciei na pele dilemas, debates e vivências sobre escolhas profissionais pouco apaixonantes com uma enorme compensação monetária versus escolhas que dão mais satisfação pessoal e profissional com pouco retorno financeiro, e cada vez mais sou partidária incondicional da segunda opção. Até porque um trabalho que conte com uma boa dose de motivação, que seja prioridade, que faça sentido, inevitavelmente gera retorno financeiro também -- e, como bem mostra o vídeo, a partir de certo ponto um retorno financeiro maior por si só não aumenta a motivação, muito pelo contrário.

Há também uma diferença crucial nas diferentes posturas que eu observo em aspirantes a tradutores -- por exemplo, em alunos dos meus cursos ou nos inúmeros e-mails que recebo de estudantes de tradução pedindo todo tipo de opinião, conselho ou ajuda.

Há gente que, ao primeiro contato, antes mesmo de tentar traduzir alguma coisa, logo demonstra estar afoita por saber quanto vai ganhar por mês. Tem que ser muito. Tem que ser já. Em geral, essas mesmas pessoas querem saber que áreas são fáceis de entrar, têm serviço molezinha e salário alto garantido. Não é raro ouvirmos alguns mitos bem disseminados por aí, como o de que os tradutores juramentados ganham somas abissais de dinheiro por mês traduzindo umas bobagens tipo carteira de motorista, ou que bom mesmo é legendar pornografia, pois só tem gemido e você ganha uma nota por minuto de filme. Sim, claro. Deve ser por isso que tantos dos meus colegas são magnatas da indústria da pornografia, e meus amigos tradutores juramentados moram em iates, e só eu não me dei conta disso ainda. Enfim, o fato é que quase sempre quem tem esse tipo de preocupação como foco central ao planejar a carreira não é quem vai passar meia hora imerso em dicionários tentando chegar à tradução perfeita para uma expressão, nem quem costuma "perder tempo" se dedicando a cursos longos e aprofundados, nem iniciar na profissão disposto a ralar muito por pouco dinheiro no começo. Não é por acaso que não são essas as pessoas que tendem a alcançar o tipo de sucesso profissional que alvejavam.

Outros, os que me chamam a atenção positivamente, querem se aperfeiçoar. Querem estudar mais, ler mais, fazer mais exercícios, querem que você recomende outros cursos. Existe uma paixão por trás do que fazem, além da busca incansável pelo aprimoramento técnico -- que é algo bem mais maçante e menos emocionante do que a "paixão por línguas". Muitas vezes eu mantenho contato com essas pessoas, e é com prazer que vejo o sucesso que alcançam na profissão. Viram ótimos colegas. E o interessante é que muitas vezes se surpreendem, acham que tiveram sorte ou não pensam que fizeram nada demais. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Mas agora que eu tenho a perspectiva do docente, a diferença é muito clara. As pessoas assim são minoria, sim, e decolam porque têm a motivação impulsionada pelas prioridades certas, as quais as levam a não medir esforços para se aprimorar. Elas embarcam na profissão tendo como objetivo serem excelentes profissionais durante toda a vida, e não traçando como meta uma poupança recheada de dinheiro e uma aposentadoria precoce. A diferença entre esses valores é gritante.

Para finalizar, chego ao nosso pior inimigo: a procrastinação. Quem não sofre disso que atire a primeira pedra. A gente precisa passar o dia inteiro conectado, fácil de ser encontrado por clientes e colegas, antenado, precisamos responder rapidamente a emails, precisamos estar por dentro de notícias e debates, vamos lá ajudar alguém a solucionar uma dúvida no Facebook e nos deparamos com um álbum de fotos da viagem, aí alguém ri da tradução em um vídeo no YouTube... 1h45 depois, você se pergunta por que é mesmo que está assistindo o terceiro episódio antigo dos Trapalhões. E o serviço está atrasado.

Sem falar daquela segunda-feira de manhã, quando você respira fundo e abre os arquivos da próxima revisão de 35 páginas de um texto sobre química, e subitamente aquele é o momento ideal para organizar a sapateira por cores ou limpar todos os vidros da casa, antes que fiquem muito sujos. (Ou atualizar o blog...)

Às vezes a procrastinação é mais descarada, às vezes fica camuflada de pesquisa ou se confunde com a hora do cafezinho. De qualquer forma, se formos sinceros, todos nós sabemos que enrolamos mais do que deveríamos, que muitas vezes perdemos o controle sobre o tempo de descanso. Aí bate a culpa e trabalhamos até as 3h da manhã, pulamos refeições. E, quando vamos ver, caímos no ciclo vicioso do workaholismo ineficiente, que pode acabar comprometendo a qualidade.

Foi justamente quando eu estava pensando sobre esses assuntos que me deparei com este artigo, sobre as razões evolutivas, neurológicas e comportamentais por trás da procrastinação, e por que ela parece nos sabotar de formas tão eficazes. Ele traz algumas dicas para enganarmos nosso próprio cérebro, ou ao menos não nos deixarmos enganar. Outra leitura que vale muito a pena.

Esse texto cita Dan Ariely, um estudioso do comportamento humano associado à economia que já deu palestras ótimas no TED. Acabo de comprar o livro de autoria dele chamado Predictably Irrational. No site dele há links para podcasts que ele fez sobre os vários capítulos. Ainda não sei bem como relacionar tudo isso ao universo da tradução, mas toda essa discussão tem me atraído imensamente e sinto que ainda vai me trazer algo de útil -- nem que sejam boas reflexões e recomendações de leitura.

Agora, ao trabalho!

11 de março de 2007

O tradutor, o autor e o escritor

No boletim de março da SBS foi publicado este artigo excelente, que copio na íntegra abaixo:

Grandes tradutores agora recebem status de autor
Fonte: Litteratura - 5/2/2007
Marcos Strecker

O mercado editorial brasileiro vive hoje o melhor momento de sua história - quando se fala de tradução. Uma grande geração de tradutores valorizados pelas editoras e fiscalizados pela crítica responde por uma profissionalização inédita, um movimento ainda em expansão. Eles ganham o status de autor, sonho dos teóricos desde os anos 60.

O fenômeno é mais visível pelas grandes traduções lançadas nos últimos anos, pelo esforço empreendido em traduções alternativas, pela melhor remuneração dos profissionais (pagamento por empreitada, e não mais por lauda) e pela diversidade de línguas traduzidas do original - várias raramente eram vertidas diretamente para o português.

É o caso do japonês, por exemplo. A tradutora Leiko Gotoda, sobrinha do escritor Junichiro Tanizaki e uma das "estrelas" da atual geração de tradutores, já verteu inéditos de Yukio Mishima, do clássico Eiji Yoshikawa e do tio Tanizaki para a Estação Liberdade. Acaba de finalizar seu maior desafio: traduzir "Jovens de um Novo Tempo, Despertai!", do Prêmio Nobel Kenzaburo Oe, a ser lançado em junho pela Companhia das Letras.

Os exemplos são vários. Pela primeira vez o "Livro das Mil e Uma Noites" (ed. Globo) foi traduzido do árabe, por Mamede Mustafa Jarouche. "Dom Quixote "ganhou nova tradução ("O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha", ed. Record), feita em parceria pelo brasileiro Carlos Nougué e o espanhol José Luis Sánchez. O monumental "Ulisses" (ed. Objetiva), de James Joyce, ganhou nova versão de Bernardina da Silveira Pinheiro, para concorrer com a conhecida tradução de Antônio Houaiss.

Um dos sinais mais evidentes da profissionalização é a diminuição das traduções feitas a partir de versões do inglês e do francês, o que era prática corrente.

"A tradução se tornou um tema relevante, não marginal. A crítica e o "policiamento crítico" da tradução fez com que os tradutores fossem mais reconhecidos pelos editores e cuidassem melhor do seu trabalho", afirma o professor e tradutor Modesto Carone, especialista nas obras de Franz Kafka.

"Hoje a coisa está muito mais profissional: o que eram ilhas [grandes nomes do passado], hoje são arquipélagos. Muita gente está trabalhando e competindo no sentido de ter uma tradução melhor", diz José Mario Pereira, da editora Topbooks.

Para Carone, "sem dúvida há uma quantidade maior de tradutores talentosos. O que existia antes eram grandes e notáveis exceções. Agora a média é bastante elevada". Para Davi Arrigucci Jr., um dos principais críticos literários do país, "houve uma renovação notável da tradução de um modo geral". Segundo ele, "a tradução adquiriu um nível de qualidade artística que disputa o espaço da própria criação. Isso é bastante visível".

Segundo o professor Boris Schnaiderman, "houve uma diversificação maior, estamos traduzindo do húngaro, do japonês, línguas que eram completamente desconhecidas". A proliferação de cursos de literatura e a criação das cátedras de teoria da tradução certamente ajudaram. "Hoje é um absurdo falar em uma tradução sem mencionar o tradutor. Antes isso era comum", afirma o poeta e tradutor Ivo Barroso. "O público universitário não era o de hoje", pondera Pereira.

Para Barroso, "a profissionalização veio após os anos 70, quando já começa a aparecer o tradutor especialista em assuntos, como existe em outros países mais adiantados".

Segundo ele, o problema continua sendo a remuneração. "Poderiam ter coisas muito melhores se houvesse uma participação na vendagem. Na França havia um sujeito que vivia dos direitos de tradução de "O Vento Levou'", diz. "O serviço do tradutor é o mais importante. Todo mundo já conhece o autor, agora precisa prestar atenção em quem é o tradutor", afirma.

Segundo Arrigucci, "a imprensa era muito omissa em relação ao valor da tradução. Isso também acontecia na universidade".

"O crítico vigilante é o mais importante", diz Barroso. Para ele, "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor. Hoje acontece a conscientização ao máximo, que é a tradução direto do original. Mas falta a adequação do tradutor, que tem que ser um bom escritor em português. Um Leonardo Fróes traduzindo Virginia Woolf é sensacional, você sente a prosa inglesa, é admirável", afirma.

O que remete à questão: traduzir diretamente dos originais é garantia de qualidade? Muitas vezes não, e tanto Barroso quanto Arrigucci elogiam traduções antigas, feitas do francês ou inglês.

São inúmeros os aspectos positivos do artigo: a formação de tradutores, a profissionalização e a especialização da tradução, a crítica atenta, o destaque do tradutor atrelado à sua responsabilidade sobre o texto traduzido, a maior preocupação das editoras na escolha dos profissionais, a necessidade de remuneração compatível com a responsabilidade assumida e com a visibilidade do texto.

Como quase sempre que se menciona tradução na mídia, leva-se em consideração somente a tradução de literatura -- e não de qualquer literatura de consumo, mas da "alta" literatura. É claro que essa é uma área importante por ser uma "vitrine" para os tradutores e que quando se chama a atenção positivamente para um segmento do mercado de tradução a classe profissional como um todo é beneficiada. Vale lembrar, porém, que esse é o menor campo da tradução: o volume de obras de alta literatura traduzidas e a quantidade de tradutores envolvidos é bastante pequeno, sobretudo em comparação com as inúmeras aplicações da tradução em áreas técnicas, cujos tradutores na maioria das vezes são anônimos.

Seria muito bom, muito benéfico para os profissionais envolvidos com tradução e para o público consumidor de modo geral, se surgissem matérias tão bem elaboradas como essa que abordassem a tradução que permeia nosso dia-a-dia sem que percebamos: em instruções para usar um celular, botões e telas de programas computacionais, notícias publicadas em jornais, caixas de cereais.

Outra questão muito interessante levantada pelo artigo é a relação entre os conceitos de tradutor, autor e escritor.

Direitos autorais do tradutor existem, apesar de não significarem exatamente o mesmo que os direitos autor. A discussão sobre o tema é longa e tem aflorado recentemente no Brasil, sempre vinculada à tradução literária. Em círculos acadêmicos e profissionais discute-se uma diferença entre tradução-meio e tradução-fim: a primeira é a que permite ao comprador de um celular entender as instruções e utilizar o aparelho; a segunda seria um livro traduzido que é comercializado. No primeiro caso, argumenta-se que o fabricante do celular precisa da tradução, mas não ganha dinheiro com a venda da tradução. Esse tradutor, portanto, não receberia direitos autorais. Já o editor pode lucrar muito com a venda do livro traduzido, de modo que o tradutor mereceria uma participação nas vendas. A discussão é muito rica e bastante controversa. E se complica ainda mais quando se pensa no caso, não raro, em que a venda de uma tradução publicada dá prejuízo para o editor -- o tradutor também perderia dinheiro? (Particularmente, eu confesso que não consegui formar uma opinião clara sobre essa questão e prefiro me manter bem acomodada em cima do muro.)

Quanto à questão do escritor, todo tradutor profissional é sem dúvida um escritor. Segundo o teórico André Lefevere, é ainda um leitor profissional, de forma semelhante aos acadêmicos das áreas de letras e literatura e aos críticos especializados. Quando um tradutor vende seus serviços de tradução, está vendendo sua capacidade de ler e de escrever profissionalmente -- e mais algumas coisinhas na passagem de um para outro. Mas é claro que não é esse o significado de escritor quando Ivo Barroso afirma que "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor". Esse é um dos dogmas clássicos da tradução literária: os melhores tradutores seriam, antes, autores reconhecidos. Supostamente a profissão de escritor ou poeta seria um pré-requisito para se traduzir obras literárias. Eu discordo veementemente desse dogma, o que não quer dizer que diversos escritores renomados não sejam magníficos tradutores -- uma coisa não exclui a outra, mas também não a obriga.

Pensando sobre a identidade desse indivíduo, o tradutor, eu imagino algo que poderia ser representado pela teoria dos conjuntos: há um conjunto "autor", um conjunto "escritor", um conjunto "leitor" e outros conjuntos que envolvem áreas de especialidade, como "medicina" ou "direito". O tradutor seria um conjunto que faz interseções com todos esses conjuntos, sem estar contido nem conter inteiramente nenhum deles e tendo ainda uma parcela que lhe é própria.

Eu, pelo menos, gosto de me ver assim.

27 de março de 2006

Três histórias verdadeiras

Contadas por e-mail pelo Danilo Nogueira, que gentilmente me permitiu reproduzir esta mensagem aqui. Elas falam por si próprias.

Aconteceu em 1970, quando comecei. Estava na Editora Atlas, na sala do diretor editorial, entrou um senhor com um pacote de folhas de papel almaço e entregou ao Avelino, assistente do diretor. Era uma tradução, um livro inteiro, manuscrito. Perguntei, curioso, "manuscrito"? O tradutor, não me lembro mais seu nome, me olhou com superioridade e não pouco escárnio e respondeu: "Sou tradutor, não datilógrafo. Na minha escola, ensinava-se caligrafia, e com pautas de quatro linhas, não essa bobagem de três linhas de hoje. Sei escrever a mão, não preciso dessas coisas." Lembrou-me, em seguida, que o Barão do Rio Branco se recusava a ler documentos datilografados e obrigava um amanuense a "passar a limpo" tudo o que lhe era encaminhado "à máquina".

Muito mais tarde, lá para 1995, estava numa "mesa-redonda" na então Faculdade Ibero-americana e o tradutor ao meu lado disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de computador: tenho uma IBM de esfera e sou excelente datilógrafo. Sobretudo, tenho o hábito de pensar antes de escrever e, quando escrevo, escrevo direito". Sua observação recebeu, em modo de comentário, as palmas de boa parte do auditório.

No fim do século passado um colega disse, não sem uma ponta de arrogância e escárnio: "Não preciso de memória de tradução. Eu tenho uma memória muito boa." A maioria achou muito divertido. Eu também, claro, mas por motivos diferentes.

29 de janeiro de 2006

O tradutor e o ator

Numa mesa-redonda sobre a intervenção na tradução, realizada na PUC-Rio no fim de 2005, alguém do público levantou uma comparação entre o tradutor e o ator (infelizmente não tenho como dar o crédito, pois não sei quem fez essa colocação). Debateu-se brevemente essa metáfora e agora gostaria de elaborar um pouco sobre ela.

Há uma ou duas décadas vem se discutindo mais intensamente a participação do tradutor na criação do texto traduzido e pensando sob diversas visões quem é esse sujeito. Por um lado, ele é único: tem uma história pessoal, formação, raciocício e estilo que não podem ser iguais aos de mais ninguém. Por outro, não pode ser tão único assim, pois está inserido na sociedade e a leitura que faz dos textos, a visão que tem do seu trabalho, aquilo que considera uma boa tradução, o cliente e o público a que quer agradar partilham de um mesmo contexto coletivo. Portanto, ele não é nem um receptáculo oco que simplesmente processa um texto, transformando-o de uma língua para outra sem nenhum tipo de intervenção pessoal, nem é um autor no sentido tradicional, criador absoluto do texto traduzido.

Corta para pensarmos um pouco sobre os atores. Um ator precisa saber incorporar o personagem que representa, mas é claro que não tem como se desvestir de si próprio. Ainda assim, quem o assiste precisa, em parte, esquecer o ator e ver o personagem. Em parte. Há atores extremamente versáteis e que são admirados pela diversidade de seus papéis. Já outros ficam mais marcados e fazem papéis muito semelhantes, mas podem conquistar admiração justamente por quem aprecia o gênero em que se especializam ou sua forma marcante de atuar. Dentre esses dois tipos de atores (caracterizados de forma bem simplificada), haveria algum necessariamente melhor? O Russell Crowe, que foi gladiador superbombado, capitão de navio do século XIX, informante à beira de um ataque de nervos e matemático brilhante e esquizofrênico, é por isso melhor que o Jack Nicholson, que independentemente do personagem é sobretudo Jack Nicholson, despenteado, explosivo e sempre no limite da insanidade? Pensando de outra forma: o Hamlet na pele do Kenneth Branagh é melhor do que interpretado pelo Mel Gibson? Por quê? Porque é o Kenneth Branagh? Mas então onde entra o Hamlet? Se Mel Gibson não convence como Hamlet, por que é isso? O que nós preferimos é o estilo de cada um dos atores ou será que de alguma forma um deles reflete mais do que outro o personagem que esperamos encontrar?

Voltemos aos tradutores. A esmagadora maioria é anônima e mantém o mundo girando traduzindo com eficiência todo tipo de documento fundamental para o funcionamento das nossas sociedades. Mas cada um deixa sua impressão digital e, em campos mais restritos, em geral artísticos, alguns tradutores podem ganhar destaque e nesses casos é comum se tentar justificar por que eles são particularmente talentosos. Hoje em dia é de praxe criticar, às vezes até com revolta exagerada, as traduções seminais do Monteiro Lobato, que transformava o original num texto de sua autoria cortando partes, recriando personagens, reescrevendo passagens que não combinavam com suas preferências pessoais. Ele corresponderia ao ator que não deixa o personagem falar. No outro extremo, vários tradutores de renome dizem em prefácios ou entrevistas que se abstêm de interferir, que transmitem com total transparência as palavras do autor sem nenhuma distorção -- e viram motivo de chacota principalmente nos círculos acadêmicos, pois seria como um ator dizer que deixou de ser si próprio enquanto estava representando um personagem. Ainda assim, em ambos os pólos há tradutores extremamente bem-sucedidos e admirados. Quem foi que disse, falando sério, que é o "cavalo" do autor? O nome me escapa, mas foi alguém que é tido como um modelo de tradutor. Por outro lado, também é comum ouvirmos a falácia de que os melhores tradutores literários são os escritores, que não raro deixam seu lado autoral dominar a tarefa de tradução e, se forem escritores consagrados, provavelmente serão elogiados por isso.

De modo geral, contudo, pareceria que a solução que agrada à maioria é um meio-termo bastante flexível mas que não penda demais para um dos extremos. Qual é esse ponto de equilíbrio resta a cada um encontrar, em função dos nossos sucessos e insucessos no mercado. E quem sabe uma oficina de teatro não nos traria insights interessantes?

Enquanto isso, acabo de encomendar Who Translates, de Douglas Robinson, que parece apresentar uma série de visões não muito convencionais sobre esse sujeito enigmático que é o tradutor. Provavelmente ele vai embaralhar minha cabeça mais do que esclarecer dúvidas -- mas, pensando bem, acho que é por isso mesmo que quero lê-lo. Quando o fizer, posto aqui minhas observações.

26 de janeiro de 2006

Os tradutores na ficção

Ficção? ;o)

Numa palestra que a Rosemary Arrojo deu na PUC-Rio, ela falou da imagem que outras pessoas têm dos tradutores, os estereótipos que obras literárias ajudam a cristalizar e as metáforas empregadas com relação aos tradutores. E mencionou algumas dessas obras, que anotei (constatando que já tinha lido a maioria) e logo em seguida fui tratar de providenciar.

São elas:
  • "O tradutor cleptomaníaco", conto de Deszö Kosztolányi em que um tradutor surrupia muitos objetos de valor que havia no texto original e são constam no traduzido.
  • Se um viajante numa noite de inverno, romance de Ítalo Calvino em que se forma um triângulo amoroso entre o autor, a leitora e o tradutor.
  • "Carta a una señorita en París", conto de Julio Cortázar em que um tradutor não consegue deixar de vomitar coelhinhos, os quais destróem a casa.
  • "Pierre Menard, autor del Quijote", conto de Jorge Luís Borges sobre um escritor que tenta traduzir o Dom Quixote para o espanhol, com as mesmas palavras do original.
Há ainda História do cerco de Lisboa, romance de José Saramago não sobre um tradutor mas um revisor que, ao cortar um "não" de uma frase, é obrigado a reescrever a história de Portugal.

Eu adoraria conhecer outras obras com os tradutores como personagens. Alguém se lembra de mais alguma?

* * *

Mais uma (obrigada, Carla!):
  • "Notas ao pé da página", conto de Moacyr Scliar que consiste apenas de notas do tradutor.