11 de março de 2007

O tradutor, o autor e o escritor

No boletim de março da SBS foi publicado este artigo excelente, que copio na íntegra abaixo:

Grandes tradutores agora recebem status de autor
Fonte: Litteratura - 5/2/2007
Marcos Strecker

O mercado editorial brasileiro vive hoje o melhor momento de sua história - quando se fala de tradução. Uma grande geração de tradutores valorizados pelas editoras e fiscalizados pela crítica responde por uma profissionalização inédita, um movimento ainda em expansão. Eles ganham o status de autor, sonho dos teóricos desde os anos 60.

O fenômeno é mais visível pelas grandes traduções lançadas nos últimos anos, pelo esforço empreendido em traduções alternativas, pela melhor remuneração dos profissionais (pagamento por empreitada, e não mais por lauda) e pela diversidade de línguas traduzidas do original - várias raramente eram vertidas diretamente para o português.

É o caso do japonês, por exemplo. A tradutora Leiko Gotoda, sobrinha do escritor Junichiro Tanizaki e uma das "estrelas" da atual geração de tradutores, já verteu inéditos de Yukio Mishima, do clássico Eiji Yoshikawa e do tio Tanizaki para a Estação Liberdade. Acaba de finalizar seu maior desafio: traduzir "Jovens de um Novo Tempo, Despertai!", do Prêmio Nobel Kenzaburo Oe, a ser lançado em junho pela Companhia das Letras.

Os exemplos são vários. Pela primeira vez o "Livro das Mil e Uma Noites" (ed. Globo) foi traduzido do árabe, por Mamede Mustafa Jarouche. "Dom Quixote "ganhou nova tradução ("O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha", ed. Record), feita em parceria pelo brasileiro Carlos Nougué e o espanhol José Luis Sánchez. O monumental "Ulisses" (ed. Objetiva), de James Joyce, ganhou nova versão de Bernardina da Silveira Pinheiro, para concorrer com a conhecida tradução de Antônio Houaiss.

Um dos sinais mais evidentes da profissionalização é a diminuição das traduções feitas a partir de versões do inglês e do francês, o que era prática corrente.

"A tradução se tornou um tema relevante, não marginal. A crítica e o "policiamento crítico" da tradução fez com que os tradutores fossem mais reconhecidos pelos editores e cuidassem melhor do seu trabalho", afirma o professor e tradutor Modesto Carone, especialista nas obras de Franz Kafka.

"Hoje a coisa está muito mais profissional: o que eram ilhas [grandes nomes do passado], hoje são arquipélagos. Muita gente está trabalhando e competindo no sentido de ter uma tradução melhor", diz José Mario Pereira, da editora Topbooks.

Para Carone, "sem dúvida há uma quantidade maior de tradutores talentosos. O que existia antes eram grandes e notáveis exceções. Agora a média é bastante elevada". Para Davi Arrigucci Jr., um dos principais críticos literários do país, "houve uma renovação notável da tradução de um modo geral". Segundo ele, "a tradução adquiriu um nível de qualidade artística que disputa o espaço da própria criação. Isso é bastante visível".

Segundo o professor Boris Schnaiderman, "houve uma diversificação maior, estamos traduzindo do húngaro, do japonês, línguas que eram completamente desconhecidas". A proliferação de cursos de literatura e a criação das cátedras de teoria da tradução certamente ajudaram. "Hoje é um absurdo falar em uma tradução sem mencionar o tradutor. Antes isso era comum", afirma o poeta e tradutor Ivo Barroso. "O público universitário não era o de hoje", pondera Pereira.

Para Barroso, "a profissionalização veio após os anos 70, quando já começa a aparecer o tradutor especialista em assuntos, como existe em outros países mais adiantados".

Segundo ele, o problema continua sendo a remuneração. "Poderiam ter coisas muito melhores se houvesse uma participação na vendagem. Na França havia um sujeito que vivia dos direitos de tradução de "O Vento Levou'", diz. "O serviço do tradutor é o mais importante. Todo mundo já conhece o autor, agora precisa prestar atenção em quem é o tradutor", afirma.

Segundo Arrigucci, "a imprensa era muito omissa em relação ao valor da tradução. Isso também acontecia na universidade".

"O crítico vigilante é o mais importante", diz Barroso. Para ele, "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor. Hoje acontece a conscientização ao máximo, que é a tradução direto do original. Mas falta a adequação do tradutor, que tem que ser um bom escritor em português. Um Leonardo Fróes traduzindo Virginia Woolf é sensacional, você sente a prosa inglesa, é admirável", afirma.

O que remete à questão: traduzir diretamente dos originais é garantia de qualidade? Muitas vezes não, e tanto Barroso quanto Arrigucci elogiam traduções antigas, feitas do francês ou inglês.

São inúmeros os aspectos positivos do artigo: a formação de tradutores, a profissionalização e a especialização da tradução, a crítica atenta, o destaque do tradutor atrelado à sua responsabilidade sobre o texto traduzido, a maior preocupação das editoras na escolha dos profissionais, a necessidade de remuneração compatível com a responsabilidade assumida e com a visibilidade do texto.

Como quase sempre que se menciona tradução na mídia, leva-se em consideração somente a tradução de literatura -- e não de qualquer literatura de consumo, mas da "alta" literatura. É claro que essa é uma área importante por ser uma "vitrine" para os tradutores e que quando se chama a atenção positivamente para um segmento do mercado de tradução a classe profissional como um todo é beneficiada. Vale lembrar, porém, que esse é o menor campo da tradução: o volume de obras de alta literatura traduzidas e a quantidade de tradutores envolvidos é bastante pequeno, sobretudo em comparação com as inúmeras aplicações da tradução em áreas técnicas, cujos tradutores na maioria das vezes são anônimos.

Seria muito bom, muito benéfico para os profissionais envolvidos com tradução e para o público consumidor de modo geral, se surgissem matérias tão bem elaboradas como essa que abordassem a tradução que permeia nosso dia-a-dia sem que percebamos: em instruções para usar um celular, botões e telas de programas computacionais, notícias publicadas em jornais, caixas de cereais.

Outra questão muito interessante levantada pelo artigo é a relação entre os conceitos de tradutor, autor e escritor.

Direitos autorais do tradutor existem, apesar de não significarem exatamente o mesmo que os direitos autor. A discussão sobre o tema é longa e tem aflorado recentemente no Brasil, sempre vinculada à tradução literária. Em círculos acadêmicos e profissionais discute-se uma diferença entre tradução-meio e tradução-fim: a primeira é a que permite ao comprador de um celular entender as instruções e utilizar o aparelho; a segunda seria um livro traduzido que é comercializado. No primeiro caso, argumenta-se que o fabricante do celular precisa da tradução, mas não ganha dinheiro com a venda da tradução. Esse tradutor, portanto, não receberia direitos autorais. Já o editor pode lucrar muito com a venda do livro traduzido, de modo que o tradutor mereceria uma participação nas vendas. A discussão é muito rica e bastante controversa. E se complica ainda mais quando se pensa no caso, não raro, em que a venda de uma tradução publicada dá prejuízo para o editor -- o tradutor também perderia dinheiro? (Particularmente, eu confesso que não consegui formar uma opinião clara sobre essa questão e prefiro me manter bem acomodada em cima do muro.)

Quanto à questão do escritor, todo tradutor profissional é sem dúvida um escritor. Segundo o teórico André Lefevere, é ainda um leitor profissional, de forma semelhante aos acadêmicos das áreas de letras e literatura e aos críticos especializados. Quando um tradutor vende seus serviços de tradução, está vendendo sua capacidade de ler e de escrever profissionalmente -- e mais algumas coisinhas na passagem de um para outro. Mas é claro que não é esse o significado de escritor quando Ivo Barroso afirma que "é essencial que o tradutor também seja um bom poeta ou escritor". Esse é um dos dogmas clássicos da tradução literária: os melhores tradutores seriam, antes, autores reconhecidos. Supostamente a profissão de escritor ou poeta seria um pré-requisito para se traduzir obras literárias. Eu discordo veementemente desse dogma, o que não quer dizer que diversos escritores renomados não sejam magníficos tradutores -- uma coisa não exclui a outra, mas também não a obriga.

Pensando sobre a identidade desse indivíduo, o tradutor, eu imagino algo que poderia ser representado pela teoria dos conjuntos: há um conjunto "autor", um conjunto "escritor", um conjunto "leitor" e outros conjuntos que envolvem áreas de especialidade, como "medicina" ou "direito". O tradutor seria um conjunto que faz interseções com todos esses conjuntos, sem estar contido nem conter inteiramente nenhum deles e tendo ainda uma parcela que lhe é própria.

Eu, pelo menos, gosto de me ver assim.

9 comentários:

Bianca Damacena disse...

Olá
Sou estudante de tradução na Universidade de Brasilia e achei o seu blog muito completo com relação aos assuntos mais em voga na área. Então decidi pedir uma ajudinha! Me formo no semestre que vem, mas já estava pensando no meu projeto final que deve ser uma tradução. pensei em traduzir alguma coisa da teria da tradução (em inglês) q ainda n foi traduzida para o portugues... você tem alguma ideia de qual texto eu posso traduzir???
Caso você tenha, meu email é biancadamacena@hotmail.com
vc pode responder a minha pergunta através dele, até mesmo se for p dizer q vc n tem a menor ideia de que texto eu poderia traduzir.
Desde já, mto obrigada pela atenção

JPS disse...

Oi, Carol. Faz mais de um mês que você sumiu. Por que parou? Parou por quê? ;-)

Carol disse...

Jussara, fico comovida de ver que alguém sente saudades do meu blog! :o)

Tenho vários esboços ainda não publicáveis e uma resenha interessante para escrever aqui. O difícil é achar tempo para produzir textos decentes. Mas já já aparece mais alguma coisa por aqui, prometo.

mariana zir disse...

Ah! Gostei do seu blog. Vou continuar lendo.

Sobre o post anterior (que acabei de ler) é bastante provável que o tradutor que traduziu "Get that done" como "Pegue essa boneca" na verdade NÃO TENHA VISTO O FILME (ou a série se era o caso) e a transcrição no script estivesse errada. Muita gente trabalha apenas com o script e muitos deles têm erros garrafais.

adail disse...

Em http://assinado-tradutores.blogspot.com/2007/12/abaixo-assinado.htm ,
há um abaixo assinado sobre plágios em traduções. Transcrevo-o aqui para informação. Aceitam-se adesões de colegas tradutores.
adail sobral

"Prezados editores

Por ocasião deste contato com os srs., gostaríamos de lhes apresentar
nossa posição inicial sobre a questão de plágios e apropriações
indébitas da obra de tradutores consagrados, conforme vem sendo
noticiada nos últimos meses, e consideraríamos da maior importância
para o público em geral que os srs. dedicassem a merecida atenção ao
que se segue como a posição conjunta dos tradutores abaixo assinados:

A propósito das recentes e oportunas matérias de vários jornais e
revistas sobre o uso de traduções por editores sem a anuência dos
tradutores das obras afetadas, e mesmo sem seu conhecimento, nós,
tradutores profissionais, principalmente das áreas de literatura e de
ciências humanas, declaramos repudiar toda e qualquer prática ilegal e
imoral dessa natureza, que constitui, no que concerne a nós, um abuso
da propriedade moral de obras de criação intelectual nova - como o são
legalmente as traduções -, bem como um atentado à preservação de nossa
memória cultural e de nossa dignidade intelectual não só como
profissionais, mas também e sobretudo como cidadãos brasileiros.

Não bastassem a indiferença e o desconhecimento social com respeito à
atividade de tradução, que levam à ausência de qualquer menção a
muitos tradutores quando se fala de suas obras, ficando em segundo
plano com relação aos editores (como se não se soubesse que os
editores publicam, mas não traduzem obras e, portanto, criam o objeto
livro, mas não a obra resultante da tradução), vemos agora a
apropriação pura e simples de textos traduzidos!

E quantos casos dessas apropriações não haverá, atingindo tradutores
menos célebres, e que por isso não chegam ao conhecimento dos órgãos
de imprensa? Por outro lado, não seriam oportunas matérias que
iniciassem a discussão acerca dos direitos autorais patrimoniais e
morais dos tradutores, tão pouco conhecidos e tão pouco respeitados?
Afinal, se uma tradução é, segundo a lei, criação intelectual nova,
exceto em casos de cópia, omitir o tradutor quando da publicação de
textos traduzidos e nas referências a traduções constitui flagrante
violação da lei de direitos autorais e impossibilita a divulgação de
sua obra junto aos leitores e à sociedade em geral.

Abaixo assinamos, na expectativa de contar com sua adesão e divulgação
da causa em defesa dos tradutores, dos leitores e da sociedade em
geral,

Muito atenciosamente,

Adail Sobral
Adolfo von Randow
Alain François
Alba Mercadante
Alessandra Allegri
Ana Beatriz Manier
Ana Luiza Iaria
Ana Maria Mayer-Singule
Ana Valéria Ivonica
Andrea Mariz
Anna Magdalena Machado Bracher
Annie Cambe
Antonio Pimenta
Bárbara Guimarães
Beatriz Medina
Carlos Teixeira
Carmem Cacciacarro
Cláudia Berliner
Cláudia Mello Belhassof
Claudia Santana Martins
Claudio Marcondes
Cristina Cupertino
Denise Bottmann
Denise Lopes Rodrigues
Elaine Trindade
Elizabeth Barroso Lima
Fabiana Leone Zardo
Fábio M. Said
Fátima Vasco
Fernando Campos Leza
Fernando Legón
Flávio Deny Steffen
Francesca Felici
Giselle Unti
Guilherme R. Basílio
Gabor Arányi
Haroldo Netto
Hélio de Mello Filho
Hilton Felício dos Santos
Irene Hirsch
Ivani Carvalho Shewchenko
Ivone C. Benedetti
João Carlos Pijnappel
Johann Heyss
John Milton
Joice Elias Costa
José Lira
José Edmar de Almeida Tavares
José Henrique Lamensdorf
Jussara Simões
Letizia Zini Antunes
Lia Wyler
Lilian Jiménez-Ramsey
Lina Cerejo
Liv Azevedo Sarmento
Lúcia Mary Singer
Luís Fragoso
Luís Henrique Kubota
Marcelo Dias Almada
Márcia Cavalcanti Ribas Vieira
Márcia Frazão
Márcia Fusaro
Marcus Vinicius Müller
Maria das Graças L.M. do Amaral
Maria de la Cruz Gomez Pilcher
Maria José Perillo Isaac
Maria Stela Gonçalves
Marina Hennies
Martha Rosemberg
Mirella C. de Queiróz Souza
Mirta Diez
Mônica Nehr
Mônica Saddy Martins
Nicole Grosso
Patricia Veloso
Paulo Mariano Lopes
Rafael Tavares Silva
Raimundo Moura
Regina Camargo
Rejane Janowitzer
Renata C. Bottino
Renato Aguiar
Renée Eve Levié
Roberto Grey
Rodrigo Martín de Avellar
Robert Ewing Finnegan
Roger Chadel
Rogério Bettoni
Rosângela Barbieri
Rui Correia
Sabrina Lopes Martinez
Sérgio J. Flaksman
Silvio Levy
Sonia Augusto
Soraya Borges de Freitas
Stella Machado
Suzana Nory
Tarcisio Góes
Telma Franco
Ulrich Dressel
Vera Pereira"

Anônimo disse...

Adorei seu blog, especialmente este post sobre o 'autor' no tradutor!

Abraço,

Ana Rosa Barbosa
(arcbeutopia.blogspot.com)

Anônimo disse...

Tv 5 monde, 12 março 2012: o entrevistador pergunta a um italiano de onde ele é. Resposta : de Marche. Legenda: marcas. Um pouco de conhecimento não faz mal a ninguém!!!!

Renee Finkelstein disse...

Um tradutor também é autor da obra que ele/a traduz, porque é algo produzido por ele/a e se considera obra própria.

J.C.Hesse disse...

Olá, vou inferir um pouco sobre este assunto, apenas para registrar minha opinião, já que também tenho minha forma de pensar.
Autor(a) e escritor(a), quase se confundem durante a discussão, problema de uma fronteira quase invisível. Explico, vejo autor(a) como personagem reconhecido(tendo o registro de sua obra) e escritor(a) como responsável por traduzir em palavras o mundo mental ou real, com personagens, cenários e acontecimentos que tenham um sentido ou significado. Assim, o(a) escritor(a) escreve, mas quando registra se torna autor da obra(por este motivo tratamos como direitos autorais).
Ah! sim, tradutor(a)? É alguém que tem todo o conhecimento técnico para levar um texto, seja qual for, de uma língua à outra.
É como vejo.