29 de abril de 2007

God’s Secretaries: The Making of the King James Bible

de Adam Nicolson, publicado pela Harper Collins.

Esta obra de 270 páginas, com ilustrações, descreve o contexto histórico, político, social e religioso que levou à elaboração da Bíblia do rei Jaime I (King James’ Bible), a tradução mais marcante da Bíblia. Até os dias de hoje esta é a versão mais citada e recitada da Bíblia em língua inglesa, entre as mais diversas denominações protestantes.

Esta Bíblia é algo fascinante: traduzida entre 1604 e 1611 (enquanto Shakespeare encenava algumas de suas peças mais significativas), ainda não foi superada por nenhuma outra das muitas versões mais recentes; é tão poética e sonora que muitos recitam trechos longos de cor (estádios inteiros no mundo todo, inclusive no Brasil, repetem uma longa passagem do Apocalipse sob o comando do vocalista do Iron Maiden, e quantos não decoraram as passagens que Samuel L. Jackson declama antes de assassinar suas vítimas em Pulp Fiction?); em nenhuma outra língua alcançou-se um feito à altura, de modo que os tradutores volta e meia nos vemos em palpos de aranha para traduzir os trechos em poesia recorrendo a diversas traduções em prosa em português.

O livro de Adam Nicolson, claramente uma exultação à Bíblia do rei Jaime, esmiúça as razões, os objetivos, as pressões e os processos que culminaram em seu texto e apresenta exemplos de opções conscientes de tradução segundo os interesses do rei e da grande comissão contratada para atender ao seu desejo. Um prato cheio para as diversas vertentes teóricas de literatura e tradução que investigam as influências ideológicas por trás de decisões tradutórias, representadas por Lawrence Venuti, André Lefevere, Susan Bassnett e José Lambert, entre outros.

Uma ressalva importante: o livro não é sobre tradução, não faz menção a nenhuma linha teórica específica e dedica poucas páginas ao processo de tradução da Bíblia e a comparar trechos com outras versões. O foco é o momento histórico peculiar em que ela foi produzida, que vai sendo preenchido com os personagens envolvidos, suas vidas e interesses. Nesse sentido, confesso que a leitura foi um pouco frustrante: como eu ansiava por conhecer os segredos íntimos do texto traduzido da Bíblia, li boa parte do livro construindo um clímax que se passou em pouquíssimas páginas, retratado como apenas um dos componentes da intrincada narrativa histórica.

Mas a história é absolutamente fascinante. Numa Inglaterra com um estado-igreja já separado do Vaticano mas que manteve a estrutura hierárquica e simbólica da Igreja Católica e que começava a testemunhar a eclosão de guerras religiosas na Europa continental, Jaime, escocês de modos rudes, filho da católica Mary – aprisionada quando ele era criança e morta anos depois – e educado por presbiterianos radicais, é nomeado rei. Seus passatempos eram caçar, escrever tratados (foi o primeiro rei a ter sua obra reunida e publicada em muitos volumes) e sentar-se para discutir acaloradamente passagens bíblicas por horas a fio com representantes de opiniões opostas. Ao chegar à Inglaterra, foi logo assediado simultaneamente pelos puritanos para que extirpasse os resquícios católicos da Igreja Anglicana e instaurasse uma autêntica república calvinista, pelos católicos para que se reconciliasse com o Vaticano, e pelos anglicanos para que não pusesse a perder todo o trabalho de Elizabeth I, que os fixara no poder eclesial inglês. Não se sentia à vontade com nenhuma das três posições, sobretudo com a puritana, que significaria o fim da monarquia, mas percebeu a oportunidade de tentar amalgamar todas essas vertentes sob um estado culto, religioso e tolerante. Tratou então de manter afastados os integrantes extremistas dos três movimentos e reuniu os demais, os moderados que ansiavam por cair nas graças do rei. Essas reuniões deram origem à ordem de providenciar uma nova versão da Bíblia, à altura da próspera sociedade jacobina.

Circulavam então uma tradução do luterano William Tyndale, produzida durante sua fuga pela Europa e interrompida com sua morte, e outras duas ou três aprovadas pela Igreja Anglicana que eram versões “corrigidas” daquela, além da chamada Bishop’s Bible, feita durante o reinado de Elizabeth e usada como Bíblia oficial, e a Bíblia calvinista de Genebra, anti-monarquista e repleta de fortes notas explicativas, utilizada em privado pelos puritanos. Todas elas serviram como fontes oficiais de referência para os tradutores de Jaime, cinqüenta teólogos de diferentes denominações que viviam de cargos nas esferas religiosa e educacional, e portanto dependiam do status quo. Aliás, “Tradutores”: desde o princípio fez-se referência aos escolhidos com letra maiúscula, e eles incluíram em seu currículo o fato de terem sido Tradutores. Não era preciso dizer mais nada, já que somente os tradutores dessa Bíblia mereciam a maiúscula.

O rei Jaime foi o primeiro grande gerente de projetos. Estabeleceu normas claras de estilo e conduta: as fontes de consulta autorizadas (a Bishop’s Bible seria o modelo a ser seguido, as demais versões consultadas); regras gerais para grafar nomes próprios; princípios em caso de mais de um sentido para um vocábulo (sua origem mais antiga deveria ser priorizada); a proibição de notas explicativas de qualquer natureza interpretativa, sendo permitidos apenas breves esclarecimentos sobre palavras gregas ou hebraicas; a autorização para consultar outros eruditos em caso de dúvidas que as companhias de tradutores não conseguissem resolver; e o procedimento a ser seguido. Este foi magistral: os tradutores foram divididos em seis companhias, cada uma com um diretor e mais seis a nove tradutores. Cada companhia recebeu certo número de livros para traduzir. Cada tradutor, individualmente, traduzia todos eles. A companhia então se reunia e devia chegar a um consenso, a uma versão única. Quando cada companhia finalizasse seus livros, os diretores deviam reunir-se para chegar a um consenso final. Essa Bíblia, agora fruto do consenso progressivo de 50 eruditos, era submetida ao conselho real e, por fim, à aprovação do rei. Nem todos os 50 chegaram ao fim: alguns morreram, outros abandonaram o empreendimento. Alguns dos que ficaram pleitearam uma remuneração melhor, pois o trabalho se estendeu mais do que o previsto. Mas no fim o plano foi cumprido como planejado.

São raros os registros da evolução desse processo. Muitos dos rascunhos e das cartas trocadas se perderam em incêndios ocorridos anos depois em grandes bibliotecas, restando um rascunho e um par de cartas com consultas enviadas a outros acadêmicos. Além disso, as reuniões e discussões eram presenciais e orais. As versões traduzidas de cada trecho eram lidas em voz alta, pois o alvo era o púlpito, não a mesa de cabeceira. Muitas escolhas foram feitas com base no ritmo e na sonoridade.

O resultado de um rei que se queria conciliador mas era autoritário e temia pela perda de poder (destino de seu filho e sucessor Charles, decapitado por Oliver Cromwell e os puritanos), de um período de explosão intelectual e educacional porém intensamente tenso e emotivo (foram várias as epidemias de peste negra, considerada um castigo divino), e de profundas reflexões e transformações da igreja no mundo todo é uma Bíblia de beleza estética singular, grande simplicidade e clareza, consciente das grandes questões de sua época porém empenhada em evocar um universo elevado através de uma linguagem distante da falada corriqueiramente, fruto de grande pesquisa técnica mas ainda assim expressão emotiva da fé de teólogos devotos e dedicados a transmitir a palavra de Deus como secretários perfeitos:

Aqui não há nenhuma autoria envolvida. A autoria é egoísta, uma suposição de que se tem algo de novo a dizer. Não se tem. Cada iota da Bíblia é importante, mas sem ela você não tem valor algum. (...) Um secretário, seja de Deus ou do rei, está numa posição de dependente do poder. Ele não tem autoridade independente de seu mestre, mas executa essa autoridade sem hesitação nem concessões. Ele não é nada sem o mestre, porém é tudo através dele. Lealdade é poder e submissão é controle. Por isso, a tradução bíblica, assim como o serviço real, pode somente ser plenamente fiel. Sem fidelidade, perde todo o sentido.
(p. 184, tradução livre minha)

Para encerrar, uma das curiosidades mais deliciosas que aprendi com este livro: os founding fathers que, após se exilarem na Europa, chegaram à América para criar sua república calvinista perfeita, carregaram consigo, naturalmente, a Bíblia de Genebra. Duas ou três gerações depois, contudo, as cidades se desenvolviam e havia que administrá-las e dirigi-las devidamente. A Bíblia calvinista, cujas notas deslegitimavam todo e qualquer poder humano sobre o conjunto de membros da comunidade – estes sim a verdadeira igreja e poder máximo – não ajudava em nada. Em pouco tempo passou a ser adotada a Bíblia do rei Jaime, tão bela, tão cativante e tão a favor do poder centralizado que conquistou o trono como a grande Bíblia em língua inglesa e lá se mantém até hoje, graças ao grande poder americano.

13 comentários:

Fabio M. Said disse...

Carol,

Acompanho com interesse o seu blog. Antes, eu o visitava quase todo dia, para ver se havia atualização. Agora que uso o Google Reader, sou avisado automaticamente quando tem novidade.

Aproveitando esta visita, estou divulgando o meu novo blog sobre tradução: Vivendo e Traduzindo (www.vivendo-e-traduzindo.blogspot.com). Incluí A Arte da Tradução no blogroll do meu blog, para que meu público possa ter acesso também aos seus posts.

Sucesso!
Fabio

M.M. disse...

Olá!
Sou tradutora e queria divulgar o meu fórum sobre tradução:

http://tradilingua.suddenlaunch3.com/index.cgi

tripoco disse...

Bom me perdoem se foge um pouco ao tema tradução mas poderia citar alguns versiculos da biblia calvinista onde ela claramente deslegitimiza o poder humano.

Carol disse...

Sem dúvida, tripoco. É por isso que nenhum soberano simpatizava com ela...

tripoco disse...

mas era a biblia de genebra ou a traduçao da escritura mesmo e se for a escritura mesmo gostaria de saber qual eram os versiculos pra eu estudar pois estudo teologia e isso me interessa bastante agradecido

tripoco disse...

Bom pessaol muito obrigado pela ajuda mas acabei sanando as minhas duvidas no site da biblia genebrina mesmo assim obrigado

Carol disse...

Segundo o livro, a tradução que os monarcas detestavam era a de Genebra, mas eu não saberia mencionar versículos específicos. Um dos exemplos dados no livro é que a palavra "tirano" ou "tirania" é mencionada centenas de vezes na tradução de Genebra, e milagrosamente essa palavrinha desapareceu por completo das traduções "autorizadas".

disse...

Antes de mais parabéns pelo blog!
Continue com o bom trabalho!
Convido-o agora a visitar:

http://aguia-de-ouro.blogspot.com/

Futebol e política num só!
Obrigado!

Marcos Vasconcelos disse...

Carol,

Beleza de blog. Parabéns. Anotei o livro tão bem resenhado por vc. Vai pra minha "wish list".

Só uma reles observação: a "citação bíblica" do Samuel L. Jackson em Pulp Fiction, Ezequiel 25.17, é bem bolada mas também é ficção. Só a última frase foi tirada dessa referência: "e saberão que eu sou o Senhor, quando eu tiver exercido a minha vingança contra eles". O restante do suposto versículo foi inventada pelo Tarantino.

Forte abraço e continue a blogar.

Marcos Vasconcelos
Tradutor EN <> PTBr
Literatura Evangélica

Augusto disse...

Existe alguma Bíblia no Brasil que seja tradução fiel da Bíblia do Rei Jaime?
Um abraço.

Carol disse...

Augusto,
Não que eu saiba... Teríamos que dar uma pesquisada para descobrir.
Realmente seria interessante.

Wellington disse...

Augusto e Carol,

Já existe sim uma tradução do Rei Jaime (cristalizada como Rei Tiago) em português. Basta ir na 25 de Março evangélica (Conde de Sarzedas) para que se obtenha uma ou visitar sites de editoras e livrarias protestantes para se adquirir uma.

Anônimo disse...

De qualquer modo, sejamos tradutores ou fiéis, a melhor versão de Bíblia é a editada pela Ave Maria, com um linguajar popular mas não deformado ou vulgar. Compra-se em qualquer Paulinas ou loja do gênero. Refiro-me aqui à Bíblia Católica a de versao mais ilibada por terem sido os monges católicos os primeiríssimos a traduzi-la. Viva São Jerônimo, padroeiro dos Tradutores !!!